"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

A casa das belas adormecidas



Esta breve resenha é sobre a obra que inspirou Memórias de minhas putas tristes de Gabriel García Márquez. O livro é A casa das belas adormecidas, de uma bela edição da Estação Liberdade (a arte da capa é belíssima), na tradução de Meiko Shimon. Eguchi, personagem central da trama, é um velho. Como ser substancial, o personagem principal da história encarna uma ideia acerca da terceira idade e, como uma figura complexa, indefinida, ele transita entre a realidade e irrealidade de uma casa onde as jovens mulheres dormem um sono profundo, incógnito, para que os homens que sente que perdem sua masculinidade desfrutem de um corpo jovem, ilibado, róseo-claro-escuro, virgem. A sensação que se tem ao ler o livro de Yasunari Kawabata é de uma estranha afeição pela imagem dos velhos – que se aventuram nas formas e curvas das jovens adormecidas, desconhecidas, misteriosas. Em relação às jovens, elas são completas obras de arte vivas, a metáfora para todas as eternidades desconhecidas, o desejo que dorme enquanto o corpo significa, inspira e transpira com realidade e atração. Kawabata descreve cada mínimo átomo, é meticuloso, tumescente, libidinoso. A cultura japonesa explora o que há de mais metonímico na existência e, a partir de um olhar poético, sob perspectiva, essa obra nos faz perceber o que há por trás do sono intermitente do corpo e, como um ser físico, palpável, suscetível aos sentidos, guarda em si, em suas qualidades inefáveis, uma sabedoria transcendental, artística, rejuvenescedora. Dormir é fazer o corpo sonhar acordado nas mãos dos velhos, no calor dos corpos em silêncio de palavra.
O corpo angelical das meninas, na maior parte da narrativa de Kawabata, é o envoltório memória, é o deus que nos convida a voltar à sua mente e contemplá-la em nós mesmos. Cada menina representa o que há de sensual e inconsciente na beleza juvenil, nos corpos ainda "intocados" pelo tempo, na força e no vigor daqueles que, literalmente, dormem se terem consciência de si, do que são, do potencial que carregam. Eguchi, cético a princípio, ignora o “poder” existente naquela casa sem fachada, com letreiros estranhos, recomendada pelo amigo. O velho incrédulo afirma que não há nada demais em se deitar com uma jovem adormecida, senão pelo fato de ela nunca acordar. Contudo, ao longo da história, o velho começa a perceber o silêncio do corpo, os cheiros, os movimentos inconscientes, como a estrutura de carne e osso, seda e fios, tece, sob a perspectiva da luz, da maquiagem, do som das ondas do mar, cria um clima ideal para se chegar além dos sentidos – e transcender no que a matéria tem de mais imanente: a presença. Eguchi aprende a contemplar o rosto – da bela adormecida e reconhece nele, no cheiro de leite do corpo da menina, todo seu passado e essência adquiridos pela contagem dos anos. Recorda-se, aliás, por meio do deslumbre, das três filhas, da mais nova e que lhe dera mais dor de cabeça, de como a vida havia passado sem que seu olhos tivessem acompanhado à luz da consciência do presente, do instante que não vemos senão como lembrança ou tempo que decorre, decorrido.
Ao se deitar com o corpo de uma bela adormecida, os velhos – a partir da inconsciência das meninas, redescobrem o que se passou como uma bela novidade do amanhã. Em verdade, eles se reinventam e sentem o que na vida não se pode sentir enquanto instante presente. A menina que dorme não sabe com quem dorme nem sabe, obviamente, o que acontece durante a noite. Ela é uma espécie de deus incógnito, não um ser violado, indefeso ou amedrontado. A perspectiva sob a qual Kawabata constrói o enredo é a da eterna busca pela juventude perdida (tal como Fausto recorre a Mefistófeles para se relacionar com Margarida); a inocência de um corpo resvalado sobre o infinito que há dentro de cada um (dentro das meninas e dentro dos velhos), buscando a si mesmo por meio de memórias e reminiscências.  E tudo isso através do toque, de uma transa sem penetração, porque a casa também tem suas proibições, a integridade das meninas precisa ser preservada como um ídolo do desejo, a fonte de todas as vontades. Para a exposição articulada do autor, embora não haja qualquer indício de abuso, violência explícita e radical, é preciso frisar que o texto de Kawabata, através da ficção, explora o mistério que envolve corpo, espírito e tempo, como eles confluem para construir um ser transcendente e monumental, único, plural, físico-intangível. Os leitores desavisados que se aventuram na obra podem, sem dúvida, atribuir sentidos indesejáveis à leitura, mas é necessário perceber que a cultura oriental, bastante distinta dos paradigmas ocidentais, cultiva planos emergentes da realidade, nuances que não podem ser julgadas sob uma ótica carregada de valores de outros povos e costumes. Os leitores irão, dessa forma, atravessar por um quadro poético, idílico e fantástico do outro lado do mundo, por tramas inacabadas, inefáveis e radiantes, e não por uma sucessão de cenas grotescas, corrosivas ou ácidas. É tudo suave onde é grave em A casa das belas adormecidas.
Por vezes, Eguchi se questiona sobre quem essas meninas são, o que tomam para dormir, por que não acordam e, de novo, a beleza e o silêncio voltam à sua consciência como um poema que repousa numa folha, – e, finalmente, o velho se entrega à poesia imantada pelo corpo das meninas e se reinventa a cada noite passada ali, naquela casa misteriosa sem nome nem história. As meninas, por incrível que pareça, algo que assusta o protagonista, adquirem experiência ao longo das noitadas com os velhos. A experiência resiste às intempéries do sono, porque ela está impregnada justamente no corpo de cada ser vivente: nas marcas, nos traços, nas formas das curvas. Não há limites entre o ser e o nada, Eguchi, ao sentir que não podia despertá-la daquele sono ardente, percebera que o encanto residia justamente em ela não despertar, em permanecer ali, arfante, virando-se de vez em quando, de súbito, uma mão, os dedos dos pés, a boca abrindo, alguns dentes profundos. O livro do prêmio Nobel é um retrato único do complexo corpo-memória-erotismo. O dinamismo da obra ainda aborda temas pungentes como o sono induzido, além das meninas, os clientes também tinham à disposição dois comprimidos para dormir que podiam embriagá-los, se tomados um a um, vagarosamente, distorcendo ilusões, realidades, a morte.
Recomendo a leitura e me pergunto: quanto beleza há em um corpo que dorme?

F.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Os marginais são atuais II


um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo o que me sobra
sofrer vai ser a minha última obra

Paulo Leminski

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O sonho é o aquário da noite. - Os trabalhadores do mar, v.h.