"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A Morte Vermelha




Era uma vez no oeste... sobre o sofá caríssimo (retrátil e reclinável), repousava um monte de carne. No centro de vidro com bases de madeira compensada, flores de plástico e apoiadores de copo, os controles cheios de botões manipuladores. O painel da TV com leds amarelos em cima e embaixo, no fundo de laca preta, reluzia. O ventilador chiava para lá e para cá. O calor do dia resume sua agonia. Prestes a amanhecer, numa sala mal arrumada, assim começa e termina a breve vida de Roberto Túlio. Da morte trágica, apenas resquícios, réstias. A notícia do jornal local dizia: “morre pasteleiro que animava as noites da praça de alimentação”. As redes sociais discutiam sobre temas transversais, como “isolamento e solidão assassinaram um irmão”, outros comentavam “jogar a vida é melhor do que morrer jogando”, a confusão se alastrou pelo país, e até os pais foram alertados a aconselharem seus filhos, pelo menos uma vez na vida, a terem bom senso e moderação com os jogos. À parte disso, reconstruamos as últimas horas da sua vida, seus rastros de animal lendário, suas marcas de homo sapiens. Antes disso, preciso me apresentar: me chamo Sus (por favor, ignorem a coincidência com o nome daquele programa do governo) e conheci Roberto em uma partida online. Nos tornamos íntimos quando elogiei sua mira e seu apelido “espirituoso” que, na época, era MatoGeralOficial. O meu era GranadasGandhi, com a inconfundível assinatura “o silêncio do túmulo é mais pacífico”. Naquele verão desocupado, cheguei até a criar um grupo que se chamava Pazquetepariu, só para os violentos mais humanos, menos animais, mais frios e calculistas, “os perversos”. Hoje não curto mais essa coisa de paz no mundo virtual, era muito superficial, enfim, vamos ao mito.
Ironicamente, seu grupo de amigos da internet se chamava: A dinastia dos solitários! E eu me pergunto: quem os sucederá na frieza e no abandono? O jogo do ano que não foi seria lançado em pouco tempo, A Morte Vermelha, e Botu começou a formigar da cabeça aos pés esperando o dia infinito que não chegava nunca! Na postagem do grupo, ele disse “dentro de algumas horas, estarei oficialmente morto, meus amigos!”. O comentário mais sensato foi: deixe eu te enterrar até à boca! Os outros, sinceramente, não podem ser transcritos aqui. Assim que saiu o pagamento, não tirou nem o dinheiro da feira, ele comprou o jogo logo – na prévia do lançamento. “Amanhã, amanhã” – sonhava, delirando com o dia que, finalmente, estaria livre para jogar e se divertir. Dedos firmes, olhar fixo, silêncio mortal. À meia noite, o jogo seria liberado para baixar. Nada de flechas à vista ou magos, apenas caubóis mal amados e com terras até o peito, com o enredo mais alongado do que Ratos e homens, mas levemente parecido, pelo menos no epílogo e no contexto geral da época em que se passam as histórias. Baixando, cinquenta por cento, setenta, oitenta... ele começa a suar e orava para a internet não cair, desligando todos os aparelhos que estavam conectados à rede para acelerar o parto. Seus olhos travavam uma guerra íntima com a taxa de download: fechando-se, virando-se, fixando-se até embaçar a vista, imaginando. Que olhar afiado de texugo! Como sabotar a vida com um olhar insistente e paranoico, como o de seguranças para o perigo iminente ou inexistente, prestes a atingir aqueles que são protegidos? “Deixe para jogar depois, nós te conhecemos, miséria” – alertavam seus amigos, mas, daqui que chegue as férias, calculava apenas três semanas, mas não, ele não se aguentou. A sua ansiedade infantil só tem pareia com a fé no que diz respeito ao controle inviolável do seu corpo e da sua vida. Devoto da primeira, ela seria capaz de rasgar sua alma em picadinhos e até mesmo aquela cueca, único pedaço de pano que recobria seu corpo, mal lavada. Assim que o jogo caiu no menu, ele clicou tão rápido quanto Clint Eastwood em Por um punhado de dólares para iniciar. Os olhos tensos vibravam como casas construídas ao lado de linhas de trem de ferro. Jogou dominó com os parceiros de AI e o jogo da faca, além de perder dinheiro com banhos sensuais. O ápice da empolgação foi quando partiu a cara numa árvore ao galopar com o cavalo! Ele disse, como se pode ler nos registros, “uau, que realismo, parece a minha vida!”, e ria aos microfones.
Em sua completa imobilidade, à exceção dos dedos das mãos e do olhar irrequieto, ele viajava inebriado. Após vários dias esperando, finalmente aquele universo estava em suas mãos, sob seu domínio, vivo, aberto e livre para seus delírios e sua insanidade. A liberdade que Botu tinha para fazer e desfazer no jogo, apesar de ser pequena, era ilusoriamente grande. Ele tinha a sensação que podia fazer ali mais do que poderia na vida, e em qualquer momento. Talvez seja assim que nos condena a arte, nos denuncia, em nossa pequenetude restrita, irrestrita e contraditória. No cavalinho, para cima e para baixo, o que pode acontecer na próxima estrada, cogitava, diante de várias tramas paralelas e inusitadas, imprevisíveis, “tudo pode acontecer no jogo”. Tantas vezes fugiu das autoridades depois de roubar bancos, mercearias, pessoas, e deu mais “bom dia” para os personagens eletrônicos do que deu para as pessoas do mundo durante toda sua vida. Claro, no jogo, era questão de honra dar bom dia. Na vida, é só etiqueta vazia, proselitismo. Lá, era verdadeiro, o personagem do joguinho se tornava melhor, mais humano; aqui é ridículo, quem iria aguentar alguém que sai dando “bom dia” a torto e a direito a todo mundo? É ilógico. No jogo, não; lá é fundamental. Botu, controlando o personagem que, de certo modo, o controlava, tirou pele, vendou, pele, esfolou o diabo a quatro. Ele sonhou vários dias com os assassinatos e as tramas daquela traição imunda e aquela doença incurável... Bob aguardou todo mundo sair de casa e ficar sozinho. Em poucas madrugadas, viveu mais de dois anos! Que tentador para uma vida curta e pouco heroica... Durante a semana, o barriguinha de cana fica sozinho durante quatro dias. Desses dias, ele precisa trabalhar, pelo menos, um expediente e meio. Mas houve algo de errado na sua rotina impecável:
- Fazer o que é preciso antes que não seja mais preciso;
- Realizar as tarefas que pagam meu pão com prioridade máxima;
- Não me sentir inútil porque não tenho sido tão útil;
- Organizar a bagunça do quarto, porque a do mundo é impossível;
- Jogar o mínimo possível, mesmo que seja impossível;
- Não transformar aquilo que é possível em algo que é impossível;
- Agir de acordo com a consciência pede, nunca como me sinto...
E a lista pregada na capa do diário, extensa, caótica, com mais de cinquenta itens, continha paradoxos baumanianos, líquidos, tenazes e sem direção.   
O barriga de aluguel quebrara o protocolo das nações unidas dos moradores daquele apartamento perto da rodoviária. A louça por lavar, a casa por limpar, o serviço por fazer, tudo, praticamente tudo – foi deixado de lado. Ele começou a jogar videogame às seis da manhã e só parou dois dias depois, inválido e cego. Bob Túlio não bebeu água nem nada. Comeu pouco, aliás, beliscou amendoins crocantes e verdes, e só. Nos dias anteriores, havia jantando pizza de manhã até a noite. Recheado, privava-se da fome e se esquivava da sede. No meio do tumulto virtual, no ápice da batalha, Botu recebeu uma incômoda ligação na hora da partida online e, nesse instante, mastigava amendoins habilmente e manejava o controle. “Quem me liga, ah”, lembrou-se que havia marcado uma consulta para o dentista e correu para atender com a boca mastigando aquela coisa verde e o celular tocando em sua mão. Depois de apressar a mastigação, percebeu que a ligação era do banco. “Oferecemos um empréstimo barato para o senhor, de menos de 1%, de até sessenta mil reais”... e ele apenas desligou e correu para se tornar o bandido mais loucão na tela da TV. Horas e horas a fio, esqueceu-se de trabalhar, perdeu o horário da consulta e, sempre em frente na jogatina, pretendia chegar ao fim antes que amanhecesse, no segundo dia. Olhava para o relógio de quando em quando, e dizia em alto e bom tom:
- Droga! Droga, droga! Eu preciso terminar o jogo! Ah vida nojenta!  
Botu ouviu pássaros cantando, mas não eram reais, nem o chiado da água na correnteza, os tiros de bala, tudo era transmitido por aquela caixa preta, e pelo home theater. A sensação é de que estava imerso no jogo a tal ponto de esquecer a própria vida. E que vida havia fora daquele ecrã? Seus olhos ardiam com a variação do dia, bem menor dos os dias no mundo real, e constantemente seus amigos o abandonavam (do mundo real, mas no virtual), porque iam seguir suas vidas, tinha obrigações também, além de alguns serem ainda escolares, estudantes do ensino médio, a maioria com quinze ou dezesseis anos de idade. O velho Botu, assim chamavam-lhe na rede, tinha trinta anos, praticamente o dobro da idade da molecada. Ele não estava nem aí, desde que jogasse até doer nos ossos, esticando o pescoço, indo para a rede e, da rede, para o sofá, até zera o jogo. Na campanha off-line, quer dizer, jogando sozinho a história do jogo, modalidade que é disponível para todos os jogadores e que é o modo clássico de jogar uma história, ele matou, fez quests, desafios, desfez e refez missões, estava ávido, a língua para fora, mordendo os lábios e pressionado os botões de trás com força para a arma agir até destruir todos os vilões. Que história mais louca, cada um morreu por fazer o que acreditava e o personagem principal, na verdade, era secundário. Botu perdeu a noção do tempo total, não pesquisou na internet sobre o jogo, porque tinha um código de fidelidade com a própria inteligência que dizia que “tudo aquilo que tem no jogo precisa ser descoberto por mim, se não, não tem graça”. Ele passava horas e horas tentando resolver algo que poderia ser resolvido com uma leve pesquisada no google ou no youtube. Contudo, ele tinha ojeriza de gameplays e detonados, ora, “para que jogar um jogo se você pode assisti-lo”, então, concluía “é melhor escolher: ou joga ou assiste”. Sem dúvida havia besteira na história que poderia ser solvida com uma pequena pesquisa, mas Botu era fiel a seus princípios.
Antes de morrer, ele disse para um dos parceiros da rede: “eu sou o desconhecido”. Na tela da Tv, o jogo finalizava com um longo epílogo e uma história enfadonha que resultou em absolutamente nada. Será que Botu se arrependeu de tê-lo jogado após quase setenta horas de aventura? Bob Túlio sabia que um jogo, por mais incrível que seja, como God of War, depois de zerado, ele perde o brilho, o encanto, a magia. Não há o elemento imprevisível que se prepara na cabeça toda vez que relemos um livro e o revemos de novo. Um jogo está programado para ser a mesma coisa toda vez que for jogado, embora pareça infinito, as histórias virtuais são limitadas e fixas. Por mais que Botu optasse por rpgs e aventuras de escolhas e tomadas de decisões, ele não sentia o mesmo prazer que tinha com os livros. Então, por que ele jogava? Porque o mundo constrói algumas narrativas fora das páginas que bem poderia estar impressas em bons livros. Mas Botu sabia que o milagre da programação e das imagens dos artistas gráficos dos jogos só poderiam se transpostas por uma escrita tão magnífica quanto a proposta e, nisso, os jogos deixam a deseja quando sofrem, literalmente, sofrem adaptações para os livros. Ele suspirou forte, coçou as costas, no momento da morte, ele havia matado o vilão com um tiro no olho, certeiro, letal, Botu levanta os braços, boceja e levemente se deita no sofá, deixando o controle cair de suas mãos. Ele está em paz.
Bob Túlio se esqueceu de desligar a TV quando terminou o silêncio da tela. Não havia mais nada dentro nem fora. Os créditos foram esgotados quando seus amigos chegaram e o viram deitado no sofá sem vida. “Estou praticamente sem vida, meus camaradas, depois de terminar a longa a aventura. Quero descansar completamente até poder, quem sabe, um dia, no além e no infinito, ressuscitar de verdade e poder jogar novamente algum exclusivo, alguma pérola, uma vida inventada para me distrair, me entreter completamente”. O bilhete havia sido enviado para um grupo de amigos virtuais, com a assinatura: vinícius, vicius. Alguém conseguiu recuperar seus vídeos e suas mensagens para outros jogadores. Nelas, Botu se mostra insatisfeito com a trama da Morte Vermelha, diz que “os personagens sempre estão em busca de algo que não conseguem encontrar e são burros pra caramba”, além de mostrar como “é inútil qualquer avanço na história, porque, na verdade, o jogo é sobre o jogo – o que é estranho, do ponto de vista narrativo, mas sob a perspectiva da jogabilidade, isso é extraordinário”. Em uma das mensagens mais reveladoras, ele fala que está terrivelmente machucado, assim como o personagem da história, e tem poucas horas de vida, não suportará, portanto, “o peso da vida que me esmaga justamente quando não posso vivê-la”. Ele me disse, duas horas antes do ocorrido, que “tenho a sensação de viver a história desses personagens que conduzi ao longo do tempo. Eles pertencem a mim de algum modo estranho, patético, porém sincero. Senti afeição, de verdade, sem brincadeira, e me identifiquei a tal ponto de continuar a jornada, mesmo que ela acabe, e será em breve”. Estava claro que Roberto Túlio não estava nenhum pouco feliz com o término do jogo, com a proximidade do fim. Apesar disso, avançava freneticamente e queria chegar até lá, de algum jeito contra seu próprio desejo. A história foi se encurtando e se tornando tão estéril e sem sentido quanto sua vida. Afinal, que propósito havia naquilo? No início, o mundo aberto dava espaço infinitesimal à sua imaginação e ele contava uma narrativa paralela à programada, estabelecida e rígida. Às vezes, era só um andarilho matando veados e caçando javalis. Outras, um jogado habilidoso e apostador nato. O pescador insaciável e gentil, “honrado”. Na barraca improvisada que carregava no lombo do cavalo, sua garota, ele via o arrebol e as madrugadas frias, os sussurros, os cicios, o bulício da vida ao redor de si. No extremo limite da insanidade, ele chegou a postar quinze minutos antes no grupo a seguinte mensagem “se isto acabar, o que farei da vida?”, e reforçou – entre a ficção e o desespero “os personagens não chegaram aonde queriam nem sobreviveram à miséria de existir, porque eu relutarei em continuar fora daqui”.
Aquele mundo antes vivo, agora, ao fim, parecia ser vazio e insípido, encenado, trágico, artificial e bruto. Botu se sentiu enganado pela Morte Vermelha. Quer dizer, ele comentou, pela última vez, “é só isso”. Com os olhos escuros e a boca desértica, a inanição de Roberto afligiu seu corpo mal alimentado e enfraquecido pelas horas de abdução e ausência. O batimento cardíaco estava irregular. Durante o jogo, seu personagem se alimentava constantemente, bebia, dormia, repousava. Por outro lado, aquele que o controlava, se tornava cada vez mais inerte. Aos poucos, faltava oxigenação no corpo, as funções começaram a cessar, e a morte súbita o atacou minutos depois de finalizar o jogo. Descobriu-se que ele jogou, na verdade, durante uma semana inteira sem cessar. Foi justamente a semana que havia um feriado prolongado e seus parceiros de apartamento não voltaram para vê-lo, ficando em suas casas para aproveitarem mais uns dias com as famílias. A morte de Botu foi comovedora. Dizem que o jogo espalhou pelo mundo uma espécie de doença, maldição, algo como “paralisia virtual”, semelhante à paralisia que as redes sociais fazem com as pessoas, só que mais fatal, fulminante. Vários casos de mortes envolvendo jogadores de Morte Vermelha foram relatados e em situações bastante semelhantes: obsessão, vício, descontrole, inanição. A sensação de arrependimento dos que jogaram parece ser um sentimento também comum. Muitos jogadores rezavam em diferentes credos antes de iniciar as suas jornadas e esperavam, diferente de Botu, encontrar um sentido para o jogo e, por outro lado, uma razão para continuar vivendo ao jogar. Muitos players se cercavam de bolachas, garrafas de água e suprimentos para sobreviver à jornada de Morte Vermelha sem padecer dos males que acometem um corpo desnutrido e abandonado. Com o corpo resguardado, alguns diziam “perco o juízo, mas não a vida”. A morte de Botu, em verdade, não tinha nada a ver com o jogo. Tudo em torno dessa ideia era só lenda, crendice. A Morte Vermelha não passava de um pretexto para tapar o buraco que abriram no peito de Roberto quando nasceu. Sua morte foi sentida para além dos contos de velho oeste. Os clientes íntimos diziam “sentiremos falta do pastel”; os amigos virtuais, comovidos, “e agora, quem irá nos ofender?”; eu, Sus, de minha parte, só posso dizer que o assassinato do cachorro no Carrefour tirou o brilho da morte de Botu (não tenho nada contra animais que morrem ou são mortos, é óbvio); contudo, devo deixar claro que perdi, além de um grande parceiro de emboscadas virtuais, “uma grande história”, uma morte heroica, vermelha.
As testemunhas estão por aí, investigando e denunciando. Quem será o próximo: cão ou ser humano?

F.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Lolita



Lolita. Livro enigmático ou simples demais para ser complexo. Ou tão complexo que nos faz crer como as coisas mais estranhas e horríveis podem ser belas e tangíveis à feição do meramente simples. Lírico, perturbador, atraente e repulsivo. Quem é esse senhor de nome repetido que soa no livro? A história retrata o prazer estético da Literatura sobre um tema tão delicado e controverso: um homem mais velho que se relaciona com uma criança bem nova, de uns 11 a 12 anos mais ou menos, pois nem o narrador sabe precisar que idade tinha Dolores. Lolita também poderia contar a história de um escritor apaixonado pelos seus personagens e excessivamente obcecado pela potencial esmagador da literatura para criar universos.
Escrito por Vladimir Nabokov, autor russo, erradicado nos EUA, pode-se sentir, assim como sentimos a língua de Clarice Lispector, que é a estrangeira mais brasileira da literatura, uma nova língua inglesa, provocativa, ecoante, permeada de assonâncias e aliterações de um poeta narrador. A percepção estilística que o autor de Lolita concebe captar em outro idioma, algo que só pode ser sentido quando não se pertence àquela língua, é um dos charmes do livro, além de ser o melhor ângulo de Lolita: Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Apesar de o autor ter tido certo remorso pela obra não ter sido aceita nos EUA conservador da época, e de dizer, no mesmo ensaio à obra, que o russo possuía nuances que o inglês não tinha, é preciso reconhecer que Nabokov se saiu muito bem em sua empreitada e foi muito além em uma língua estrangeira: You can Always count on a murderer for a fancy prose style.
O fato de ser uma língua diferente fez com que experimentasse outras formas de dizer que não eram habituais em sua formação linguística. Ler Clarice Lispector é, sem dúvida, ler um idioma bastante único dentro da língua portuguesa. A ordem das frases, a construção sintática dos tempos verbais e os arranjos complexos, tortuosos dos períodos, no vai-e-vem semântico sem fim, é uma das marcas da escritora. Quando nos aventuramos em Lolita, sentimos esse mesmo puxa-estica, essa riqueza abundante de construções frasais únicas, “my sin, my soul”. Todo o tempo e espaço da obra podem se tornar uma síntese do desejo obsessivo do narrador, pois tudo gira em torno de Lo: o princípio e o fim de tudo. Ela é uma presença onipresente, embora não saibamos exatamente de sua existência.
Para além desse monumento literário e estilístico, praticamente um elogio apoteótico à língua inglesa, temos uma história que se entranha no avesso de Lolita. O narrador apresenta ao Júri – possível leitor imaginário – as causas de seu infortúnio e como toda sua alma e vida fora sugado pelo seu amor inviolável e irrefreável por Lo. Não pensem, caros leitores, que irão encontrar pornografia barata no livro, aqueles detalhes sórdidos cuja essência se resume aos gemidos e pirotecnias do copo, cenas de sexo esdrúxulas, o apelo na obra é diferente. O livro é puramente erótico, as pernas, a calcinha, as sardas, o corpo milimetricamente apresentado da ninfeta e os enlaces de Humbert Humbert são sugestivos à medida que o desejo poético do narrador se consome, se consuma, e lemos com a excitação de um amante à primeira vista.
O exercício que Nabokov empreende em Lolita é um exercício claro de como se pode elevar à máxima potência a capacidade literária de um escritor ao explorar a forma, a estética, o estilo para construir um belo retrato de Dorian. Contudo, mais do que isso, esse livro é um exemplo claro de que não pode haver uma literatura pela literatura, simplesmente. Por mais que Nabokov tenha dito que o livro é uma espécie de culto à forma literária, seria impossível existir se ele não tratasse de algum tema, e tão delicado, do real, no emaranhado espinhoso da ficção: Look at this tangle of thorns. O relato de H. H. é, enfim, maravilhoso enquanto forma e, enquanto conteúdo, ainda mais estupendo. Como a literatura pode ir além das barreiras que se estabeleceram ao longo do tempo para o ser humano e, rompendo os limites ou os eliminando, nos vira do avesso sem que tenhamos total noção do que está acontecendo como sua Lolita, light of my life? Leitura urgente.

F.

A Morte Vermelha

Era uma vez no oeste... sobre o sofá caríssimo (retrátil e reclinável), repousava um monte de carne. No centro de vidro com bases de...