"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Que onda é essa


A manhã surgiu sobre o horizonte. Os prédios brilhavam à luz do sol. A acidez da minha boca torrava meu juízo. Meus olhos ainda estavam pregados, quando...
- E AÍ, CARA? – ouvi a voz do smartphone – era Mendes.
- Oi bicho, estava bêbado de sono, o que manda? É cedo hein...
- É sim, cedo, tá, estou chegando aí em quinze minutos, não saia.
- Mas... – ele desligou.
Estava horrível, mas não tive outra alternativa, tive de recebê-lo. Lá estava o home, mal abri a porta e já estava me enchendo de coisas:
- Foi mal, foi mal, ontem você não me atendeu e fiquei preocupado. Recebi uma mensagem do smartphone que pedia para eu conversar contigo. Estou só cumprindo minhas funções de amigo! Você sabe, nos conhecemos, até aonde sei, há bastante tempo. Então, cê tá bem? Fiquei sabendo que você estava internado no hospital central. Anda comendo bem? Corre risco de vida? Que porra foi?
- Cê tá doido? Morrendo? Eu tô vivo, bicho. De manhã, você me convenceu, sim, tá certo, tá explicado, mas, da próxima vez, deixe pra me ligar depois das dez, por favor, e, somos amigos, só para pontuar, há três meses. Olha, o negócio é o seguinte: tô com uma dor de cabeça de rachar o peito, já desceu para as pernas, cara! Há mais de uma semana já, essa dor não para. Imagine só a presepada: preciso ir trabalhar daqui a cinco dias, o meu atestado foi de quinze, e aí – pense boy – vou lá para fazer merda, sem condições, porque sou obrigado a voltar de todo jeito, é f... – me segurei e Mendes não hesitou:
- É foda, sim, é, eu sei. Mas é a vida, né não? Poxa! Vamos sair, um pouco já é o suficiente para você. Tenho uma parada pra nós.
- O que é?
- Tá afim? – mas, voltei a perguntar:
- O que é?
- Me diz se você tá afim. – como é:
- Porra, não sei nem o que é! – e Mendes finalmente abriu:
- Olha, bicho, eu arranjei uma galera aí que curte demais usar papel. É proibido, eu sei, mas você sabe, né, uma vezinha não faz mal, a lombra é boa. – eu não sabia que ainda existia papel circulando por aí:
- Mas como é isso? O papel não foi extinto? E que lombra é essa? – balancei a cabeça em sinal de discordância.
- Oficialmente, sim. Mas o que quer dizer “oficialmente”? Nada, bicho, nada, balela. A gente dá um jeito, é assim. Proíbem, mas somos nós que permitimos. Sempre foi assim, né não? Relaxa, ouve só. Essa minha galerinha faz um papel do bom, artesanal. E sobre a lombra, cara, você não sabe o que tá perdendo! Você escreve umas palavrinhas e, de repente, como quem não quer nada, você viaja! Você sabe escrever, né? Se não é alfa...
- Sei sim, claro que eu sei, continue, aliás, só para deixar claro, faço parte da última geração que foi alfabetizada. – fiquei curioso por ouvi-lo:
- Home, o papel é uma droga! E poderosa, diria. Escuta aí, cara, vai ser rápido, sei que você tá mal e tal, mas você precisa saber, quem sabe talvez seja uma cura aí pra essas dores loucas.
- E de que horas é isso? E onde?
- De noite, de oito horas nos encontramos lá no hospital, do lado, na parte escura, sem falta. Vai ser no Beco da troca.
Combinado, apertamos as mãos, até mais, nos despedimos.
Já eram nove horas da manhã. Minha cabeça estava um pouco dolorida ainda, eu não queria sair de casa logo, mas o Mendes merece atenção, apesar de me parecer perigoso. E esse tal de papel? Meu avô dizia que era perigoso mexer com essas coisas proibidas, e me dizia coisas do tipo “aquilo que está oculto não pode ser revelado” ou “cuidado com os descaminhos”, pois “eles também são um caminho”. Mas, embora tenha me dado tantas advertências, minha curiosidade iria além da minha prudência. E fico imaginando como isso pode afetar minha mente, e quem sabe até curar mesmo minhas dores recorrentes na cabeça.
Recebi uma ligação de Jean Alfredo, meu chefe. Ele me perguntou como estava, se já poderia ir verificar os relógios da cidade, quanto tempo eu levaria para me recuperar, o quanto antes, melhor, segundo ele. Eu lhe disse que dentro de poucos dias, até cinco, eu voltaria e poderia ajustar o tempo das pessoas e pedi-lhe, por que não, esse tempo para me ajustar até o dia que eu pudesse funcionar normalmente.
- Um segundinho ou outro, Jean, não mata ninguém.
Ela apenas me desejou melhoras friamente depois do que eu disse e se despediu. Parece que, uma hora ou outra, iria enlouquecer caso me despedisse e pedisse-lhe meus direitos. A cidade só funciona plenamente se os relógios estiverem perfeitamente ajustados e, sim, um segundo faria toda diferença. Muitas pessoas são guiadas por essas torres, e temos seis delas espalhadas pelos quatro cantos de Espumas Flutuantes.
Depois da grande explosão demográfica de pessoas desmemoriadas, boa parte de uma parcela significativa do mundo começou a se esquecer de coisas simples e básicas, como o tempo, os amigos, a família e até mesmo, nos casos mais graves, de si mesmo. Isso parecia passageiro, mas se mostrou, ao longo das gerações, tão frequente e perigoso, que praticamente vimos nascer nações desprovidas de passado e de memória. Uns chegaram a dizer que a causa para essa moléstia foi uma interferência de raios solares intensos nos últimos anos, outros até cogitaram, na verdade, a criação de um vírus revolucionário de laboratório, que deu errado, para eliminar os organismos nocivos do corpo humano. As teorias da conspiração falaram de alimentos e remédios modificados, tudo em favor do lucro e da ganância, para aperfeiçoar o ser humano e para prolongar sua expectativa de vida. Como a AIDS, ninguém sabe a verdade sobre a origem, só especulações, e o que se tem são amostras de uma sociedade doentia e sem cura.
O Governo, as instituições, e os empresários, no geral, viram-se abismados com tamanha tragédia global e, para que as coisas pudessem entrar no eixo do consumo novamente, foram criados programas para recuperar “o tempo perdido” do povo, “suas lembranças e seus desejos”.
Os relógios assumiram, portanto, uma função essencial. Marcar o tempo sempre foi – desde tempos imemoriais – primordial para a vida e para a sociabilidade. Incapazes de se guiarem por um relógio de pulso, porque perderem a habilidade de fazer associações, as torres marcavam as horas e as opções que os cidadãos teriam para realizar tarefas ou simplesmente consumir algo, se distrair.
Aqueles que não foram afetados profundamente pela peste, como eu, ou de forma alguma, como – Jean Alfredo, assumiram posições vitais na hierarquia do poder para o saudável e pleno funcionamento da cidade.
Como nasci antes do surto, fui capaz de aprender uma profissão e poder me sustentar sem ser levado – como uma marionete – por aqueles que possuem o controle e direcionam as pessoas enfermas para os trabalhos mais decadentes.
Ultimamente, esta dor de cabeça me fez perder parte da memória da infância – e já não posso mais me lembrar de nada que fui nem dos meus pais, só tenho flashes durante longos sonhos do meu avô. Boa parte de minha adolescência está se perdendo e não sei aonde isso vai parar... Será que a doença está avançando? Serei um oco?
Os resultados dos exames chegam na próxima quinta-feira. Como deve ser um corpo vivo – e sem vida – apenas seguindo a corrente, para nada? Eu conversei com um oco e me parecia uma pessoa normal, desapegada, livre – completamente feliz e satisfeita por sem quem diz ser e por fazer o que faz.
Se esquecer faz tanto bem assim, que eu me esqueça de tudo. Que horas são?
Podia-se ver Vênus no céu. Radiante, ao lado de um quarto minguante. Mendes me esperava ao lado do hospital, coberto por uma penumbra prateada.
Vestia uma jaqueta azul e tinha os cabelos desgrenhados, parece que os cortara pela manhã, o que lembrava um moicano suave, com um mecha caindo no meio da testa. Ele acenou quando me viu e, discretamente, respondi. Viaturas da polícia atravessaram a rua e, naquele segundo, pensei em voltar. Mas não estavam nos procurando, era só uma ronda.
Os relógios estavam atrasados por alguns minutos, talvez tenha acontecido algum acidente por isso. Pessoas ficavam desaparecidas por causa do fenômeno do desnorteamento e a polícia os auxiliava a, por exemplo, voltarem para casa ou ficarem uma noite na sessão de apagados da delegacia até voltarem a si.
Pode parecer absurdo, mas eu era o único responsável pelas torres. A Central do Saber necessitava da intervenção humana para funcionar em muitos setores, por isso minha ausência no trabalho ocasionava um brando caos.
- Ei bicho, chega mais. – tocou no meu ombro e me guiou até um carro com duas pessoas.
- Para onde vamos, Mendes?
- Para o paraíso, meu velho, ver a porra toda. Aqui, no volante, estava ao lado do motorista, apresento-vos Mário Villon. Esse cara sabe de tudo sobre papel e vai te dar umas dicas aí. Cola nele.
- Prazer, meu caro, seja bem-vindo, qual é a vossa graça? – olhou para o banco de trás e deu um sorriso amigável, embora malicioso, vestia vermelho dos pés à cabeça, recoberto por um jeans pesado e desgastado, e respondi:
- Pode me chamar de Rose.
O sujeito que estava do meu lado não falava nada e não fizeram questão de me apresentá-lo. Foi o caminho inteiro em silêncio, parecia dopado, nostálgico. Eu e Villon conversamos sobre esse tal Beco da troca e ele me confidenciou que lá havia pessoas de todas as classes, desde ocos até doutores, pessoas de bem e pessoas de mal. Mendes me pediu pra ficar tranquilo, que eu iria entender como tudo funciona quando chegasse lá. Essa coisa de classe só serve para fins socializantes de organização civilizatória. Não entendi muito bem, pedi que me esclarecesse, e ele simplificou usando apenas uma palavra: memória.
Entendi; devo ter aparentado muito nervosismo, mas NÃO, NÃO, eu disse que estava tudo bem, sem esquenta. Intimamente eu me questionava por que eu não estava em casa, repousando, minha dor de cabeça esfriara, mas meu coração pulsava estranhamente. O papel foi extinto porque, segundo relatam os mais velhos, causava sérios distúrbios mentais nas pessoas e as transformavam em criaturas bestiais, sem controle, potencialmente perigosas. Será que é plausível acreditar nisso? Eu tive contato com papel há muito tempo... mas nunca usei um, quero dizer, nunca escrevi uma palavra sobre um. Mas parece que o único motivo para a mudança, na verdade, foi só o crescimento do mundo virtual, o acesso à tecnologia se tornou praticamente universal, a economia que isso geraria não podia ser comparada a produção desenfreada de papel. O Villon saberia a razão?
- No que está pensando, Rose? – Mendes ouviu meu silêncio.
- Em nada.
- Chegamos. – Villon desliga o carro.
O lugar não era exatamente um beco. Era afastado da cidade, lembrava o campo, com poucas casas ao redor, barracos praticamente, tinha um descampado no centro que servia de palco para as trocas. Alguns luzes penduradas nas árvores, através de longos fios, rodeavam o terreno como um círculo. Como o lugar era alto em relação à centro da cidade, podia-se ver as luzes ao longe e ouvir o som de carros, às vezes buzinas e daquela agitação estranha urbana que transforma o ruído das rodas e dos motores em uma estranha música melancólica, trágica e serena.
Uma brisa assobiou sobre tudo, confundindo todas as vozes e ruídos, e olhei para um céu por um instante. Cintilava.
De volta a mim, percebi que o cara silencioso simplesmente se sentou próximo ao um barracão e começou a desenrolar um papel. Alguns bebiam, outros conversavam alto, sempre em pequenos grupos, em cadeiras, bancos ou no chão. Fiquei a observá-lo – sem deixá-lo me notar. Villon e Mendes sumiram. Não os vi por um bom tempo. Depois de acariciar aquele pedaço de papel amarelo durante um longo tempo, o sujeito pegou um lápis do bolso, olhou par a multidão, virei o rosto, e em seguida, depois de baixar a cabeça, vi que ele escreveu algo. Foi rápido.
- Rose, venha aqui! – Mendes apareceu do nada e me chamou para acompanhá-lo até uma garota chamada Luize.
- Este é Rose, conversem aí. – tão breve quanto cortante, e nos deixou a sós. Perdi de vista meu suspeito e me dirigi a ela:
- Bem, eu fico feliz em conhecê-la, você é daqui? – ela era linda, tinha os olhos pretos, o cabelo curto e levemente dourado, seu corpo era surtido com violência e leveza, poderia me dar uma surra se quisesse. Não, não parecia uma oca. Luize me respondeu, com a confiança sem fundo de mulheres sem rédeas e das jovens sem temor:
- Que nome estranho, Rose! Seja você! Que coisa ensaiada! “Feliz em conhecê-la” – que é isso? Feliz, com certeza, você não é. Precisa conhecer mais para provar da felicidade. Se eu sou daqui, claro que sou. Eu sou de todos os lugares, por que não pertenceria a este lugar? Me diz uma coisa, você sabe quem você é? Já descobriu que ninguém sabe o que foi, e por isso mesmo, ninguém sabe o que é. – ela me parecia arrogante demais, e tentei baixar os ombros, para poder falar naturalmente:
- Você é gos... me segurei, pois vi que já se armava para me atacar e refiz a frase. Cê é puta espontânea! Olha, eu vim aqui só para relaxar, não quero saber de nada do meu passado nem tampouco se sou feliz ou não, e pouco me importa se você sabe o que é e não precisa de ninguém para te dizer pra onde ir. Eu só queria ser amigável, nada mais, tá afim de se abrir ou vai ficar aí me censurando?
- Filhão, você hein. Calma, não precisa perder o umbigo e se rebaixar tanto assim. Não queria, ofendê-lo, notei a ironia em seu tom de voz, confie na mamãe. Vamos, venha comigo, vamos até aquele precipício ali. Lá tem umas banquinhos e uma vista infeliz sobre a cidade.
Ela pegou na minha mão e me arrastou até lá, passando pelo meio do povo. Villon conversava com duas garotas e um sujeito forte, ao me ver se levado pela corrente, acenou discreta com a cabeça e um sorriso de canto. Talvez ele já conhecesse aquela figura. Não sei por que, mas meu coração acelerou e minha boca tentava empurrá-lo para baixo, a mão dela suou e tive a estranha sensação de que estávamos conectados, algo em minha mão fria ganhava vida e se espalhava pelo corpo. Apertei mais ainda sua mão e ela correspondeu com um aperto desconfortável, que me fez esfriar tudo novamente.
- Aqui, senta aí. Rose, né? Pegue este pedaço de papel. Vai, sem fraco. O lápis está aí. – eu resisti, e foi então que ela amansou a voz, “por favor, vai, não seja durão”, dando aquela ar feminino misterioso e irresponsável capaz de derrubar uma nação, e não pude mais ceder. Claro, eu sabia, ela só queria me possuir de alguma forma.
Peguei o papel e o lápis. Ela me pediu para pensar nela, olhar para a paisagem e, só depois disso, escrever algo. Luize me pediu para ser paciente, e não apressar nada, eu só deveria gozar o máximo aquele momento para, em seguida, escrever. Mas eu nem a conhecia tanto, nem estava ligando para a paisagem naquele momento, como colocaria algo no papel?
Passaram-se minutos, ela já se demonstrava impaciente e frustrada, e eu simplesmente não consegui escrever nada. O lápis dormia em minha mão e o pequeno papel na outra mão balouçava com uma bandeira branca sobre a incoerência do mundo. Luize apenas me olhava, parada, perdendo a expressão de entusiasmo.
Depois de ficarmos sem graça nenhuma e o constrangimento toma conta do ar, da paisagem e das estrelas, ela me pergunta:
- Me diz, você é oco? Se for, por favor, não me faça perder meu tempo, eu não tenho nada contra quem é, só não curto – esse tipo de gente não liga para nada, só está aí para servir mesmo, sem quê nem por quê.
- Oco? – não me contive – você é oca! Me chama para cá para fazer absolutamente porra nenhuma! “Pegue este papel e o lápis”, que conversa inútil! “Escreva pensando em mim e olhando...” bobagem! Pura bobagem!
- Deixe de ser idiota! Eu lhe fiz uma pergunta e você me vem com uma ignorância dessas! Péssimo chilique, aliás, você daria um bom filho mal criado. Você nunca saberá de nada se continuar agindo como uma criança desmemoriada.
- Por favor, deixe-me ir. – não quis alimentar aquilo.
A noite parecia ter sido um fracasso. Minha cabeça voltou a doer com mais intensidade e chamei o Mendes para ir embora. Cambaleei um pouco, as pessoas estavam sorrindo, alegres, alguns se preocuparam comigo, o Villon me deu seu ombro como apoio e me levou até o carro e me disse:
- O que houve, Rose? Cê não me parece bem, não curtiu a Luize? O que foi que aconteceu lá, vocês pareciam muito próximos. Rose!
- Eu... – desmaiei.
Receei ter visto a luz do sol surgir sobre mim umas seis vezes pela luz que vinha da janela.
Aquela noite foi mais longa do que eu tinha imaginado. Mexi nos remédios e tomei duas pílulas: uma para a dor de cabeça e a outra para ressaca. Meus olhos estavam fundos e minha roupa toda amassada sobre mim. Mal tirara os tênis, um pé ainda estava calçado.
Tentei me recordar do que acontecera, mas apenas pude me lembrar da imagem dela. Luize. Que mulherzinha! O que ele deve ter feito comigo? Meu smartphone estava descarregado, talvez ele pudesse me dar alguma informação. Enquanto isso, preparei dois ovos e uma torrada para o café. Precisava comer para recuperar meu raciocínio.
Mudei para o noticiário e vi coisas horríveis. Dentre elas, pelo anúncio dos acontecimentos, descobri que dormi o suficiente para encerrar meu atestado. O smartphone tocou três vezes quando começou a recuperar a bateria. Era meu chefe. Desta vez, eu não poderia evitá-lo. Acertamos às nove horas da manhã para o meu retorno.
- Sim, sim, eu recompensarei as horas atrasadas e os segundos perdidos, não se preocupe, Jean.
Droga! Ainda me sentia mal, apesar de ter melhorado consideravelmente, mas eu tinha de voltar ao trabalho. Faltava uma hora apenas. Dia de bronca, dia de bronca. Me estufei de água, me hidratei ao máximo e comi metade de um bolo de laranja, já estava pronto.
Duas torres estavam desajustadas, o prejuízo não era tão grande. Causas? Naturais ou, pelo que vi, vandalismo? Não, eu só deveria fazer meu trabalho. Que os agentes investiguem as causas.
As mensagens estavam trocadas, e o dispositivo de áudio que se conectava aos smartphones da população para emitir os comandos (para os que não sabiam ler) não estava sincronizado, causando esse atraso de alguns segundos que, durante o dia, no total, poderiam até somar horas.
Recebi uma mensagem que dizia “foi bom conhecê-lo”. Claro, só podia ser dela.
Os smartphones eram ligados à rede de telefonia do Estado – e regulado pelos órgãos oficiais de fiscalização. O tempo de registro escrito de qualquer mensagem em aparelhos eletrônicos, portáteis ou maiores, era de 24h. Há muito tempo, diziam, os grupos que controlavam a internet simplesmente roubavam os dados das pessoas para manipulá-las utilizando suas próprias convicções e desejos contra elas. Depois disso, a população aceitou votar um referendo internacional que reduzia o tempo de informação virtual escrita a pouco mais de 24h para que não houvesse o roubo de almas virtuais. Mas nem isso foi o suficiente, e o Estado tomou para si esse controle, com a apoio de todos.
Depois do surto, a comunicação ficou restrita a poucas mensagens, não ultrapassando mais de duas linhas. Era importante nunca deixar claro o que se dizia – quando se escrevia um texto – para não saberem, neste caso, o Estado, no que estamos pensando. A comunicação escrita ficou restrita a uma parte minúscula da população e, por causa da incapacidade das pessoas, a fala se tornou predominante. Escrever era privilégio para poucos e estava fadado a desaparecer.
Depois de ajustar o tempo, reservei o meu tempo para ficar sentado no banco da praça e observar as pessoas passarem. Pouca gente, aliás, em plena segunda-feira. Acabei me esquecendo da mensagem de Luize e resolvi não dar retorno. “Depois vejo isso” – pensei.
E, de repente, quando olho para o lado, as pernas cruzadas, os braços espalhados sobre o banco, vejo-o de longe. Baixo, um pouco acima do peso para sua altura, o cabelo ralo com um topete tímido, e as pernas entortadas, como um general aposentado, marchando em minha direção.
Era Jean Alfredo, em sua farda amarela, com a logo do Estado no lado esquerdo do peito, com a inscrição “ServiTempo”.
- Bom dia, senhor maravilha.
- Bom dia, Jean. – maravilha?
- Como é bom vê-lo vivo.
Depois de uma pausa sinistra:
- Wang, seu irresponsável! – esbravejou na minha cara.
- Que tipo de funcionário você é? – apontando o dedo para mim, e pulando feito um peru assustado, ele salpicou todo seu amor por mim:
- Meu a-mi-go, você recebe para isso e não tem o mínimo zelo, uma responsabilidadezinha sequer para cumprir sua função! Cê já ouviu falar dos milhões de esfomeados por aí? Além dos estúpidos e ocos, sem emprego! Se pudesse tirar você de lá, eu juro, eu juro que faria isso com o maior prazer! Mas, que pena, não temos pessoas capacitadas para assumir sua função nem capazes de aprender... a indolência se infiltrou de vez no cérebro do mundo! Mas vou descontar do seu salário, fique sabendo, não vou sair no zero a zero, farei de tudo para rasgar na sua fuça esse seu atestado de vagabundo! Olha só essa sua cara amassada, parece que foi atropelado pelos faróis de um caminhão! Isso não me parece cara de doente, tá mais para quem passou a noite farejando indecências, fazendo coisa errada.
Antes de finalizar, me perguntou se eu sabia a causa do mal funcionamento, eu apenas respondi que foi por causa da grande insolação dos últimos meses. A radiação solar passara dos limites, concluí.
“Certo, certo, volte ao trabalho”, se ele pudesse, confiscaria minha alma.
Depois de me cuspir por inteiro, ele saiu irritado, como se fosse afundar o chão com as pisadas, ficando cada vez menor à medida que bufava, até sumir de vez, a poucos metros, do meu raio de visão, só pude ouvi-lo dizer ao longe: “tratarei de arrumar outro”.
Jean era um sujeitinho delicado, tinha seus defeitos.
Coloquei as mãos no rosto para comprimir minha cabeça e, quando as deslizei pesadamente, Rei Braga apareceu.
- Ei, seu puto, sentou-se ao meu lado, como anda essa força?
- Eu? Eu ando com as pernas.
- Rose não perde uma. – como ele sabia meu nome secreto:
- Como? Do que você me chamou?
- Eu vi você com a Luize. – manteve-se sério.
Tinha muita gente naquela noite, não era capaz de mesurar, mas como não notei, não fui capaz de sentir a presença de Rei Braga? O Rei é piolho de festa, não perde uma, estava envolvido em tudo, negócios obscuros, e assuntos proibidos. Praticamente, não tinha um trabalho, sua família era rica, vivia num condomínio abastado da cidade, num bairro nobre, todos eles herdeiros de fortunas da era passada. O nome “Rei” foi dado a ele como símbolo de sua posição social e importância como membro honorário do comitê das relações saudáveis da cidade. O nome real de Rei Braga era Jacinto Braga.
- Jacinto muito. – não pude perder a piada, e ele também não perdeu tempo:
- Sinto, sim, muito, oh, papel né. Rose, pensa que não sei, boy. Você saiu de lá carregado!
- Não me lembro de nada do que fiz ontem, Rei. Apenas alguns flashes, mas nada coerente.
Pombos se aninharam próximos a nós e Braga me disse que iria contar tudo o que viu:
- Bem, meu caro Rose, se é que posso te chamar assim, bonitão, você estava delirando depois de escrever algo. Parece que o papel não te fez bem. Você gritava e pulava diante de Luize, que apenas sorria e te observava fazendo papel de bobo. Que cena!
- Não acredito... – devo ter ficado muito doido mesmo. E Rei – continuou:
- Aqueles papéis são sintetizadores da alma, meu caro! Eles têm algo de especial, sabia? Você parecia radiante e todas as suas palavras soavam como uma canção mística, sinistra. Pararam para observar você enquanto dançava e recitava aqueles “cânticos” em louvor não sei de quê. A Luize manja muito do papel e sabe como tirar um cara de si. Não se deixe levar, meu amigo Rose.
- Sintetizadores? Canções? Fala uma coisa lógica, bicho. Não, não, deixa pra lá, que saco, esse papo tá ficando cada vez mais estranho, acho que vou voltar para meu trabalho de esquentador de banco de praça sujo. E, quanto à minha vida, sei me cuidar, peço que você não se envolva com aquilo que só diz respeito a mim, por favor.
- Faz assim, mas – completou Rei Braga – se você quiser saber de toda a verdade por trás desta merda que vivemos, envia-me uma mensagem com a palavra memória e te direi o que fazer.
E ele se foi, vestido naquele terno brilhante, possivelmente tecido de fios de neon, alaranjado e marrom. Um carro freou diante do cachorrinho. Foi brusco, o motorista parecia estressado. A dona do pet foi para cima dele e a polícia chegou para apaziguar aquela situação estranha. Do banco, podia-se ver o mundo, menos o meu. Este, parecia obscuro e indefinido, cheio de lembranças apagadas e destinos sem fio. Afinal, aquela palavra, memória, creio que o Mendes já disse ela para mim em alguma ocasião. Me-mó-ri-a. Talvez naquela noite... não lembro.
Tentei não me esquecer de Rei e de sua senha misteriosa para “a verdade”. Agora, depois de tanto esperar, estava na hora de resolver outro assunto pendente. Enviei uma mensagem para Luize depois do serviço: APTO 242, rua Coronel Sturluson. 20 horas. Mais do que vê-la, sem dúvida, eu queria ter ciência do que fiz naquela noite, ter outra versão e, além disso, saber o que diabos eu escrevi naquele mísero papel que não lembro de jeito nenhum!
Ela viria me ver? O sol já esmorece ao fundo dos arranha-céus, a criança saltita bobamente e caminha ao lado da mãe.
Me esqueci do que ia dizer.

F.G.M.

domingo, 14 de outubro de 2018

Lado humano



A boa e velha música de supermercado tocava entre os corredores cheios de enlatados e cancerígenos. Crianças sorrindo e pais se esquivando da seção de brinquedos e guloseimas. Naquela doce manhã de outubro, após o carrinho centésimo terceiro atravessar o caixa preferencial número vinte e quatro, ouve-se, segundos a pouco, um estampido lá fora.
Pessoas ao chão. A música para. Gritos. Em seguida, curiosos se reúnem no estacionamento. O senhorzinho que anunciava promoção de linguiça gritou no microfone:
- Um corpo, um corpo!
O sangue cobria uma das faixas de estacionamento para pessoas com deficiência que estava vaga. Um no peito e outro na cabeça.
Viaturas chegam ao local.
O instante é incerto, João tem pesadelos, viu coisas absurdas caindo do céu, como mísseis, baleias e facas. Caminhava por uma rua que se estendia até um abismo, não muito longo, do tamanho do céu. Encurralado por alguma corrente invisível, tentava se soltar daquilo, mas era vão, estava preso até à alma, e seu corpo apenas obedecia mecanicamente àquele espírito maluco que gritava coisas malignas, repugnantes e religiosas ao mesmo tempo. Descobriu que o ano vindouro será o fim da sua vida, alguém baterá sua porta e fará sua família refém, cobrará dele os rins, o emprego, simplesmente o roubarão... acorda desesperado, a cena era horrível, até tortura, esfrega os olhos, vai beber água.
O filho se aproxima e o abraça.  
João morreu horas depois de ser visto pelo filho na frente da geladeira às quatro horas da manhã, no supermercado, braços abertos, tomates no chão.
“Afastem-se”, e a multidão sai com a mão na boca e os olhos vendados.
Alguns ainda rodeavam o local à certa distância, como se guardassem algum segredo.
A polícia interditou o estacionamento, e poucos perceberam, mas, de acordo com testemunhas, havia crianças na cena do crime, duas ou três, pedindo dinheiro ou comida para aqueles carrinhos que passavam lotados por eles. Essas crianças correram segundos antes do assassinato, como se soubessem que algo ruim estava por vir. A senhora Kuper disse que – aquelas criaturas tinham um “olhar de perigo”, e se sentia perseguida por elas, porque, certa vez, ao comprar manteiga, e pães franceses quentinhos, recusou seus pedidos de esmola e passou pelos pequeninos, indiferente, e ouviu: “vagabunda gorda” de um deles.
Os policiais anotaram tudo, e perceberam que na cena do crime havia sinais de roubo, talvez fosse latrocínio, mas quem suspeitaria das crianças, além daquela pobre mulher insensível? Alguém disse que um carro azul com faixas verdes, coincidentemente, saíra dali logo após o ocorrido – e “sem levar nada”.
João saiu de casa às oito da manhã, via-se pelas câmeras do bairro, entrou no carro e partiu para o supermercado. Quando ultrapassou o sinal vermelho, quase atropela uma criança, mas foi só um susto, não pagaria o preço por sua irresponsabilidade, pelo menos não naquela hora. Constam nos relatos que ele estava apressado e parecia estar nervoso, suava estranhamente, parecia mais vermelho do que o habitual, e comprou coisas estranhas, como: desinfetante, lençóis, guardanapos e um conjunto de facas. Talvez fossem só mimos da necessidade, contudo, a polícia ouviu uma testemunha, seu vizinho, Pedro, que disse:
- Ele não fechou as portas da casa e vimos que o carro acelerou atirando fumaça na rua. Depois, fui à casa de João e notei que ninguém estava lá. Sua mulher, seus filhos e até seu cachorro.
- Entendo – disse o investigador.
- E viu algo mais?
- Não. Só uma última coisa: eles nunca saíam de casa, exceto em raros domingos ou feriados, além, é claro, de saidinhas “invisíveis” para o supermercado, e para outros lugares para suprir necessidades diárias.
A casa foi interditada, e começaram as buscas pela cidade da família perdida de um homem morto. Muito estranho, o que teria acontecido ali? Encontraram sinais de arrombamento e desordem. Roupas no chão, marcas de sangue nas paredes, pingos espalhados pelo banheiro. Aquilo foi assustador: alguém deve ter invadido, agredido a família, e depois ido embora... deixando os rastros pela casa, além de pistas de algo ainda pior: símbolos religiosos se espalhavam pela casa e bandeiras do país estavam enroladas nas imagens sem cabeças, produto talvez de algum radical religioso, e uma cruz estilhaçada no vaso sanitário.
Por que João saíra de casa tão cedo e quando, exatamente, aconteceu ambos os crimes? A relativa simultaneidade dos acontecimentos levantava inúmeras suspeitas.
Os Carrinas viviam num bairro relativamente nobre, com bons vizinhos e ótimas sombras, bom patrulhamento, vigilância, além de terem próximo um gigantesco supermercado que supria as necessidades da região. Não havia nada melhor do que viver ali.
João era um cidadão de bem, trabalhava numa empresa de seguros e sua mulher era dona de casa à procura de um emprego. Seus filhos estudavam em boas escolas e ninguém tinha queixa contra essa família feliz. Agora, ele estava morto, e sua família, desaparecida. A polícia entrevistou os demais vizinhos, e todos davam a mesma resposta: pacatos, discretos, raramente se aproximavam de alguém. Havia algo estranho nos relatos, pois o bairro – residencial e relativamente agitado – sempre tinha festas para socialização das pessoas, durante as épocas de São João, Natal ou Carnaval, e os Carrinas nunca participavam de nenhum festejo, sempre se mostravam arredios, silenciosos, inexistentes.
O jornal local noticiou a morte e, dentro de poucos dias, o caso estourava nas redes sociais e na TV. O meme mais famoso viralizou e dizia:
“Família de bem
– no caixão –
é culpa
de quem?”
Agora todos buscavam a família e tentavam descobrir o que aconteceu com o João, um homem trabalhador e honesto que perdera a vida na saída de um supermercado.
Na autópsia, os médicos legistas perceberam que João tinha tomado inúmeros remédios ansiolíticos, e seu corpo tinha leves marcas de agressão de unhas.
Encontraram, além dessas marcas, uma tatuagem estranha nas costas, feita recentemente, a julgar pelo frescor da tinta e nitidez dos traços. O desenho de um pássaro gigante, com as asas abertas e pontiagudas, e a cabeça de lado, como aquelas águias estranhas do céu, à feição das artes egípcias.
Depois de meses de procura, a família foi encontrada no quintal da própria casa. Estavam enterrados. Cachorros identificaram os locais através dos cheiros das roupas, e alguns ainda resguardavam as feições intactas no início do processo de decomposição.
Os indícios indicavam que João tinha sido o responsável pelo crime contra a família, mas quem o teria matado? E por que faria isso com as pessoas que tanto amava? E quem o matou, e por quê?
Ao analisarem a sua última postagem nas redes sociais, todos se comoveram diante de tão belas palavras:
“Deus, pátria e família”.
Alguém tinha um lado humano.

F.G.M.

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