"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

A RODOVIÁRIA DO FIM DO MUNDO

I


Os bárbaros, que paranoia de Ramon Massa Crua, a fuça do Arquimedes de José de Ribera, o “risadinha”. No fim da Nova República, abro o fim do mundo, talvez não seja uma boa ideia. Suei na carreira de ontem, 3km ao todo. O banco da ilha está sujo de cocô de pombo, mas é tão bonito ver essas árvores balouçantes e, entre as brechas, o sol farfalhante sobre mim, entre os galhos, porra de mosquito, e os meninos brincado de bola no vão principal. Famílias se preparam para o churrasco no fim da tarde. Lá se vai o pingo d’água da garrafa. Ah, ia me esquecendo do essencial: o celular! O que perdi aqui.
- Mais de trezentas mensagens não-lidas.
Seguro o fôlego. Quantas? Sofro de ansiedade. Ela é capaz de mudar radicalmente o humor e transformar tudo o que vejo em neblina, perturbação e alergia.
E depois, a casa por varrer e a tv ligada na sala dando a impressão de companhia abstrata que nos persegue nos dias atuais, a ânsia de perder algo que está para acontecer e, no entanto, não podemos evitar: uma guerra, um dilúvio, uma lei.
Se o celular, por acaso, descarregar, posso perder o Apocalipse... e todos os dias digo para mim “ele não quer sentir isso de novo, não quero sentir isso de novo, não quero!”.
Mas os sonhos, premonitórios, são cruéis à noite e não esboçam sequer um fio de realidade que nos conduza à existência de um consolo lógico e prático. Quando se abre os olhos, a vista embaça e a garganta parece estar cheia de areia do pó da rua sem calçamento. O noticiário repete a mesma coisa há anos e o que se vê é que retrocedemos em espiral.
- Quando você vem? – pergunto a ela, meses de ausência, quase invisível para mim.
Nenhum progresso acompanha o retrocesso a trotes de Ferrari pela noite e das bicicletas arquejantes.
A impaciência pulverizou a vida e, mesmo J., capaz de ultrapassar barreiras infindáveis de tempo, obstáculos e fracassos, não suportava mais se dedicar a uma tarefa que desse resultado em poucos dias. A pressa se tornou a forca da perfeição, ou melhor, o desejo – irresistível de conquistar algo imediatamente quebrou as pernas do futuro. O imediatismo para contemplar um Van Gogh transcende a linha imaginária do tempo, embora não se perceba que levaria anos para que nos dedicássemos à visão aparentemente rápida e instantânea de uma obra de arte.
Nossos olhos viralizaram. Não vemos nada a ponta de querermos “desver”.
- Desver, boy, só pode ser um sintoma de que a gente quer furar os olhos diante de tudo que passa rápido demais, bicho, disse-me K., olhando vagamente para o alto.
- Quem irá ver o que não vemos, K., perguntou-lhe.
E ele caminha com as pernas de Garrincha, cabisbaixo, sem me responder. “A América” – respondi ao silêncio:
- É desvio.
Foram anos de ausência e distâncias, quadros insignificantes de vidas que se perderam nas lembranças de uma postagem, um suspiro gravado nos áudios, sob uma torrente esmagadora de notícias, cada um seguiu seu curso para além do presente, ora se alternando entre sombras do que foram, ora se identificando com o que haveriam de ser. Cada um tomou para o si aquilo que julgava importante e, dessa forma, nos desviamos um dos outros, nos tornando aquilo que a inocência interpreta como instinto, mas, no fundo, é a representação do mais puro egoísmo.
Os smartphones escravizaram metade dos transeuntes e, depois que me foi despertada na lembrança a cabeça baixa das pessoas nas ruas, o olhar sinuoso de K., além das decepções de Rui e do segredo obscuro de Adolfo, vi-me na encruzilhada como Z., olhei para o lado da cama vazio e Joanne ainda não estava lá, a me abraçar e dizer que me ama, apesar de tudo e de todos, e que não havia mulher no mundo mais perfeita do que ela e, se houvesse, me decepcionaria.
Respirei fundo.
Estávamos no meio de algo, paralisados pelas informações e, de repente, senti-me vivendo aquilo de que tanto temeria.
Eis aí o que se segue: argumentum ad lapidem. Se falácia, de que pedra?
Ad hominem.
Faz tempo que abandonei o hábito, enfim, como é que eu sei. A última vez que a vi foi no dois encontros com os amigos. Desde então, a distância nos uniu.
Quando foi: era uma vez na ilha.
- Costumo não usar na mesa.
Mãos peludas, olhos fundos e marítimos os de K.
- Hoje o salmão está bom. Fresquinho. Pega mais uns. Tem sashimi também.
Os olhos globulosos de Joanne lembravam os de Shiva, deus da destruição indiana. A senhora K. tinha olhos camaleônicos e o rosto de Joana Darc de Dante Gabriel Rossetti.
Eu me pincelaria com leves toques suprematistas e cubistas, por causa do Picasso ou de Egon, por causa das... Desenhos vagos.
- Estejam apresentados, Analu e Anderson, este é Ezra, e essa, ao lado dele, é Joanne. Fez as de anfitrião, o senhor K., cortesmente.
Ali, dançando nas mesas, galopávamos no cavalete desvairado do tempo: do sushi para a carne de sol com pirão de queijo, a culinária híbrida da noite, o defumado, nos cobria de volúpias, de desejos carnais indizíveis.
Amanhã a gente vai, à noite, no mesmo horário, mas lá em casa, pontou K., por detrás do hospital do rim, nas brenhas do sertão, Ezra sabe onde é. Combinou-se, depois de sairmos da praça de alimentação, ébrios e extenuados. Os ânimos se exaltaram durante a prosa, vivemos num secreto estado de sítio, ei, psiu, fale baixo. Os amigos de K. eram de Goiás, pessoas de bem, e agora estão morando no Nordeste. Ficariam conosco até sábado.
Ao lado de um terreno com um casarão abandonado, onde há um cercado, numa rua sem calçamento, irregular, de onde brotam pedaços de serrote, córregos de lama, a casa se iluminava ao fundo. Buzinamos.  
- Queijos de todos os tipos trouxemos. Prato, gorgonzola, parmesão, provolone, reino e, como não podia faltar, vinhos.
- Quer ajuda?
- Não, querida K., nós levamos, pega ali as cadeiras no porta-malas, Joanne. Ah, pronto, já que está aqui, pegue as garrafas. K. nos avistou da porta e veio caminhando magramente até o portão, e bradou:
- Ótimo, quanto mais, melhor, macho! Vinho... Esse Ezra é o cara! Tirando o narizinho, a calvície oculta sob o penteado estiloso, e as cicatrizes nos lábios, é o Reis dos Reis!
- E aí, sem-futuro, vamos começar os trabalhos. Cadê o guacamole?
- Aí vai, ops.
- Trouxeram os nachos? – perguntou a senhora K.
- Sim, vamos comer! Agora, parece que são feitos de massa de pastel frita no óleo, lembrando vagamente o sabor de um nacho.
- Foi, eu provei um desses aí lá na padaria e não gostei, comentou K.
Analu, a goiana de óculos grandes e sorriso agradável, riscou, antes que combinássemos, do roteiro da noite:
- Hoje é dia de comemorar, portanto não vamos falar em política! Ontem nos estressamos e isso não nos leva a nada. Combinados?
- Ótimo, sem indigestão. – concordamos.
- Vocês viram aquele filme sobre uma ponte no qual as pessoas se jogam? Acho que é a Golden Gate.
- Não.
- Não. – Joanne respondeu mecanicamente.
- Lembro-me de um documentário sobre essa ponte. Mostrava a história dos suicidas, como eles tinham uma família complicada, uma intimidade em frangalhos. Apesar do policiamento, eles conseguiam pular depois de contar uma mentira qualquer aos policiais. Algumas câmeras gravavam o voo.
- Terrível.
- Tinha um amigo de um amigo, também professor de história, que teve depressão depois de não ser aprovado no concurso. Na verdade foi, mas pareceu que erraram sua pontuação para mais. Prestes a ser chamado, corrigiram o erro, tirando-o das vagas. Aí ele pirou. O psicólogo receitou-lhe, além de palavras xamãnicas, audição materna, perfis de gatinhos do insta, para que pudesse se distrair, e foi o que fez: excluiu todas as pessoas e adicionou o máximo de perfis de gatos possíveis. “Tá aqui, veja aí”, então ele me mostrou inúmeros gatinhos, todos fofinhos com olhinhos bem pretinhos, tão felpudos e delicados, miando, ronronando ou dormindo. Tudo isso, vejam só, fazia parte do tratamento. Ele ainda disse que tinha melhorado bastante, ajeitando os óculos fundos, coçando a barbicha rala, mostrando-se claramente descrente do que havia me mostrado. A que ponto chegamos?
- Com certeza, isso é demais.
- Sabe aquele dono de restaurante lá da ilha? Então, a mulher dele. Os pais dela cometeram suicídio. Primeiro a mãe, uma velhinha inválida por causa de um acidente de carro. Logo após, o pai, um senhorzinho com Parkinson. Não suportou a ausência da esposa e se matou enforcado no quarto de casal daquela casa vazia há meses.
- Há pessoas assim em todo mundo. “Carcaças ambulantes”, dizia o filósofo. Em nossa região, infelizmente, o índice é altíssimo. Matam-se jovens com mais frequência, o que é pior ainda, geralmente nas cidades menores, enforcados ou afogados.
- Que delícia, nunca havia provado. Aprenderam como, casal K.?
- Na internet. A receita é simples. Esmaga uns abacates, pouco de acidez, alguns tomates picados e pimenta.
- Não tá achando fraco de pimenta, perguntou Anderson.
- Também achei, pontou K.
- E você, Lady?
- Por mim, pode pôr mais.
Meia hora depois, o álcool tratara de amansar, lubrificar as portas enferrujadas entre nós e os assuntos proibidos. A abrimos.
- O clima está tenso sô. Imagina aí o que vai acontecer daqui a pouco. Um regime totalitário, as perseguições, violência gratuita e idolatria, né, ô bem – Anderson saiu um instantinho do celular para se dirigir a nós e seu bem lhe acenou:
- Concordo, mas não se pode fazer nada. O caminho é sem volta. Imaginem só: todos aqueles que acreditaram naquele projeto vazio, depois dos resultados, arrependidos por perderem os últimos direitos que restavam.
- A qualquer preço. – reiterou a senhora K., cruzando as pernas, com o olhar vagar, sem saber o que sentir nem como sentir.
- Isso mesmo, a qualquer preço. O pacto foi selado, o tal do pacto, né, é assim? – Joanne, entreolhou a mim e ao K., como se soubesse exatamente do que estávamos tratando e, quando percebeu que a vimos deslocada, disse:
- Me perdoem se eu não sei muito sobre história não, só sei que as coisas estão erradas. E, então, Analu palestrou:
- Gente, preciso nem dizer que a intolerância voltou às ruas, estamos sendo perseguidos, gays, negros, artistas, pobres, tudo que é minoria. Símbolos nazistas sendo pichados nas igrejas, nas universidades, mais de cinquenta ataques registrados. Cinquenta, viu, gente, cinquenta ataques! Analu, com uma taça de vinho na mão, ajeitava as alças da blusinha que caia constantemente com a outra, que palestrava.
Na garagem, o papo, na penumbra, se alongava naquele tópico que decidimos não nos meter, mas foi irresistível, afinal, não falávamos necessariamente de política, mas sobre o futuro da humanidade, ou melhor, do país, das questões mais básicas de ética, respeito e direitos humanos, creio eu. Pareceu exagerado o tom em que nós colocamos, mas não se conseguia pensar em outra coisa e nem de outra maneira, senão daquele jeito.
- Parece coisa de Titanic nazista, epicamente ambíguo.
- E o pior é ver que os colegas defendem os discursos mais virulentos, incisivos, odiosos. Não sabem nem o lugar que ocupam no mundo. Estamos alienados, perdemos a razão.
- Verdade. Ontem riscaram o carro de uma professora e a ameaçaram de morte. A raiva é tanta que nos fizeram ficar furiosos uns com os outros.
- O pior é quando um amigo seu assume que apoia o candidato de “cinquenta anos atrás”.
- Decepção, né?
- Evidente ô.
- Declarar voto aqui parece que significa declarar-se integralmente, quero dizer, se você diz que vota em alguém, parece que aquela pessoa já não presta mais para amigo.
K. pede a palavra para dizer:
- É uma patriotada, Joanne, isso sim.
- Burrice, digo.
- Eu entendo disso tudo aí, Joanne dispara. Tudo ladrão! Pega geral, diz mesmo, vamos é nos ferrar! Se ele ganhar, vocês vão ver, vão sim! Ah, cambada!
- É o mesmo discurso de Collor, aquele negócio de bandeira, só para atiçar os ânimos, sem falar nas fake news, que existia desde há muito tempo, de acordo com os jornais, e todos estão vendo agora como elas estão sendo disseminadas como uma praga nas redes sociais, sobretudo no zap. Ninguém sabe mais de nada, é disse-que-me-disse.
- Vixe, é mesmo, Ezra! – K. parece ter tido um surto:
- Pacotes, pacotes, e mais pacotes foram vendidos por umas empresas aí para apoiar o Coiso, negócio baixo mesmo, tipo assim, democracia é os cambau!
- Verdade, Analu repete, demais, verdade pura. Das boas, esse vinho!
- Que abacatismo!
- Viva!
Analu sorri, estávamos alterados.
- A questão não é bem só o voto, é a consciência, o lugar onde estamos, ter noção do que é apoiá-lo, segui-lo, esse algo que ele representa é maior do que só o voto.
Joanne cansou de menear a cabeça – positivamente e negativamente e pôs-se a cochilar na cadeira, concordando agora apenas com um braço, levantando-o de vez em quando, como um braço mecânico.
- Vai para aonde, Anderson? – Analu o viu no celular e o repreendeu.
Anderson falou pouco durante à noite, disse que estava empreendendo, gostava de bons filmes, como Matrix, e queria mudar de vida, porque ser servidor público não lhe dava tantas garantias para o futuro.
A senhora K. vai se deitar à francesa, nem tinha percebido, e ficamos sós – K., Analu e Joanne.
- Da última vez que nos reunimos, foi feio, não foi K.?
- Claro, a louca perdeu o bom senso. Simplesmente, atacou o Ezra sem pena, Analu.
Joanne dormia a meu lado, desmaiada.
- Mas eu sei o porquê. Sempre foi mimada, estudou em escola particular a vida inteira, filha única, nunca teve de dividir nada, sentia-se mais do que os outros, só porque teve a oportunidade de estudar numa escola melhor. Os amigos eram aqueles bobinhos arrogantes que não pode ferir ninguém, a não ser eles mesmos em sua doces incoerências.
- Fui diplomático, K., a respeitei.
- Você? Se fosse eu, devolveria com juros. Eu te conheço, sei o quanto lutou para ser alguma porra na vida, e agora vem aí qualquer criaturinha para te menosprezar, não, não, eu não aceitaria.
- Suspeito, Analu e Ezra, que nosso amigo em comum é autista. Ela o trata como um “papai” e ele a trata como uma “filhinha”. A relação é escrota. Ele faz tudo que ela quer; ela faz tudo que ele quer, obviamente, com condições, as quais não podem ser negociadas, é 8 ou 80.
- Casal lindinho – ironizou Analu.
- K., fale sobre os “motores”.
- AH, ele simplesmente faz metáforas, comparações e analogias a respeito de tudo, utilizando como parâmetro carros, motos, e veículos em geral. Não se controla, não possui filtro, ele diz na cara da pessoa com que tipo de modelo de carro ou moto se parece e, sem pudor, compara! “Sua cara é a de um Cadillac Cts, trombuda, robusta, apesar de ter bom arranque, assusta pelas aberturas da narina. E Jéssica, a nanica, lembra um qq, rósea e compacta, engana por fora, mas por dentro, tem bons amortecedores e um arranque traseiro louvável. Angus tem a cara de um fiat quadradão, mas aguenta pancada nos amortecedores e os bancos de veludo, que são suas costeletas, acumulam muito suor, sem falar, é claro, no range-range que é a carcaça do carro se comparada com o modelo novo, que tem a bunda chata, entendeu, Angus, quando se levanta do almoço, começa a estalar como essa máquina endurecida da fiat nas estradas mais derrubadas. Ramana? Já viram o gol bola?”. A gente morre de rir, confesso, para além do grotesco, ele é especialista nessas bizarrices. Às vezes, as descrições batem como a fotografia de um transformer, que caricatura, um lata-metálica-borrachuda se transformando em ser humano! E daí ele vai só piorando, as analogias vão desde arranques, torque, capacidade de armazenamento de combustível, qualidade da suspensão, os aspectos mais obscuros da injeção eletrônica e dos chips limitadores de velocidade, bem como o estalo que faz a alavanca do freio de mão ao ser puxada no momento de travar “a máquina”, chegando até à personalidade e caráter das pessoas relacionadas às características físicas, funcionais e motoras dos veículos.
- É um mecatronicopata!
- Puta-palavra! – bati na mesa até ficar com a palma da mão avermelhada, morrendo de rir.
- Essa Analu leu Weber e degolou Rosa. Quero dizer, dissecou! – e ela nos pergunta, voltando a si:
- Como essa figura se chama? – depois de também me recompor, eu mesmo respondo:
- Kawasaki.
- Como a marca?
- Sim. Billie Kawasaki.
- Não! – estouramos de rir, era muita coincidência para uma criatura só. E K., venenosa como as inimigas, diz:
- Ninja 400...
Quase acordamos os vizinhos. Ouvimos batidas ao lado, mas não conseguíamos parar de gargalhar como uma plateia de um circo ensandecida.
Joanne viajou no dia seguinte, quer dizer, no mesmo dia, porque era hoje. Ela queria ser o ponto-fixo, o finis universo, a última lei.
Em que fundo do poço me lancei depois que ela se foi! Conto nos dedos os dias que saí de casa e tive vontade de fazer algo. Estão começando a achar que ela não existe. Como? Preciso arranjar testemunhas para um fato? Tão verificável e óbvio. Isso é com a justiça. A cegueira. Joanne está comigo há mais de seis anos. Desta vez, a distância se tornou mais longa, e até agora não veio me visitar. Teria fugido? Mas nos comunicamos diariamente. Não, não é possível. Ela existe.
Mas amigos, amigos, amigos talvez me vejam aqui, nas profundezas, e talvez, amigos, amigos, me resgatem, urgentemente.

II


Ramon não quis vir, disse que iria aprender a fazer sushi, porque adorava comer coisa crua, além de... Maus pressentimentos. Via-se o ar trêmulo pela janela estilhaçar o auditório de luz. Folder na mão. Jovens demais nas cadeiras, sorrisos gratuitos, cheios de energia. Por que estariam ali? Por que estão “doentes da cabeça” se são tão novos?
Não me orgulharei se enlouquecer, mas terei a certeza de que levei muito tempo. Esses daí, infelizmente, parece que já nasceram para dar a louca. Que geração. “Como dormir sem vontade”, palestra? “No que acreditar se você não deixa de acreditar no que acredita”, o quê? “A família é um lar ou um lugar desconhecido” – estou tão velho.
- Ei, amigo, você vai ver “ser banal para conviver”?
- Oi? – tentei ignorá-lo, estava tão concentrado em estar preso em mim, que não queria que ninguém me perturbasse. Mas parece que ele não entendeu a mensagem:
- Para a palestra. 
- Ah, sim. Não, cara, isso aí já faço a vida inteira. E foquei em ser indiferente, e tive resultados positivos, funcionou, como diz o poeta: “multidão, solidão”.
Ouvi conversas aleatórias sem pausa nem distinção: no fundo sou vazio quem iria querer alguém tão perdido quanto eu que tenho certeza do que quero, mas se você reparar bem em como as pessoas agem diante das outras só porque possuem algo considerado como valor, cult, clássico, além do que ninguém pode se responsabilizar pelo o que ninguém ouve, contudo, os que dizem também deve ter em mente que aquilo que é dito pode ser desdito e reescrito, é, verdade, o problema é encarar as coisas sob um viés único, aliás, disseram que vai ter lanche depois da palestra sobre “jejuar é vida”, coisa irônica, não, é, no mínimo contraditória. O silêncio tomou conta da fileira, aí ouvi um último cochicho: “aquele cara estranho ali parece um gafanhoto faminto, mas bem acabadinho, nada daquele verde vibrante que se costuma ver no inseto”. Poupe-me. Primeiro, ar fresco.
Estava abafado antes de ele subir ao palco. Tivemos o mês mais quente do ano, com temperaturas que davam a sensação de quarenta graus. “Não fique direto em casa, vá pegar sol”, Joanne disse que eu deveria cuidar da saúde mental, porque estava padecendo por causa da ansiedade, “você não sabe esperar”, e como a “paciência pode ser crucial para se manter bem, sadio”. Sobre o medo de ser esquecido em vida, ela só me disse que ninguém é digno de ser lembrado.
“Dispareça”.
Cabisbaixos na palestra sobre “Autocontrole quântico para relações interpessoais”, o smartphone não parava de vibrar. Acorda. Dedo, dedo, dedo, dedo. Vejamos, deslizando, dedo. Galeria de fotos. Jim, meu irmão caçula, estava estudando Letras na capital. Estava alegre. Sorria com Nainã. Era um casal dos bons. Triste fim.
Aproximou-se do púlpito, no fundo verde, coçou o nariz e, ao perceber a posição do público, pareceu acrescentar um tópico não previsto ao seu discurso de abertura do tema:
- Queridos, hoje... é dia para levantar a cabeça e ver o que há acima das mãos!
Cada palavra dele soava como uma indireta. Mas pouca gente ligava e, aquela criatura calva, suando, mesmo com o ar-condicionado, lutava contra as telinhas brilhantes, informando freneticamente, sem parar.
K. ligou par mim e disse que Estefânio brigou com Marcel. De novo? Iniciamos uma longa conversa. Dou por vista como foi. “Seu frufru, não sabe nada de política, quem sabe quem são as pessoas que você conhece por trás, imagine em quem cada uma votou!” – não acredito, jura que ele respondeu assim: “os lados de quem não sabe onde estão os perfis de onde brotam, surgem emoções, tampouco importa este arrodeio, vá se danar, seu alienado!”.
Esse palestrante está falando sobre controle mental via ondas de rádio? Interessante. Coisas antigas, novas visões.
Os dois não se entenderam bem naquela última festa, claro, um disse para o outro um absoluto. Clarinha demora demais para escrever aquela anta-mula. “Amigo...” – oi:
“Estapafúrdio insulto malevolente” – como é, menina? Digitando:
- Cachorrada home. Duas crianças, não sabem se respeitar.
Cansei. Novidades: ele destrói países! Oh, e o que mais: não se iluda se estiver iludido, hunrum. Você viu K., a que nível chegamos, olha o vídeo depois “Dançarina mostra demais!”. E vejo isto num comentário desse vídeo no qual a dançarina limpa o suor da testa com o vestido: passei três minutos para ver três segundos e, de fato, ela não mostra praticamente nada.
Hoje saiu na rádio: “o fim está se achegando, irmão, e ninguém consegue se salvar, a não ser através de Jesus Cristo, nosso senhor! E a humanidade necessita d’Ele para descansar nos braços de Deus. Você sabia, irmão, que depois de morrer, ninguém consegue a salvação? Os nossos pecados são cometidos aqui na Terra e é por isso que temos de acertar as nossas vidas com Deus enquanto vivos. A salvação é o único meio para se atingir a transformação da vida passageira em algo eterno, é ser uma nova criatura em Cristo Jesus, nosso senhor.”
Fico pensando em como acreditamos ainda no medo, mais do que no amor.
Rui me disse que iniciara um novo romance. Reviu Matrix de novo e tinha uma “nova visão” sobre o mundo.
- Outro? Mas se não terminou nenhum... vá lá, Ezra, dê suporte, quem tem amigo...
A história era sobre uma menina que tinha origem indígena, capoeirista, negra e homossexual, sim, parece que tinha superpoder, algo de transferir consciências para fazer análises retrógradas sobre as pessoas. Perguntei-lhe se dava certo, e ele quase me surra ao declarar, confiantemente, “mas é claro, você não sabe o que estou sentindo”.
Baltasar mandou mil mensagens para eu desistir, K., contudo, não adianta, querido, vou fundo. O fato é que estou convicto do que vai acontecer, lembra-se dos atentados na virada do século? Pois é, não tem nada a ver com isto, então. Depois que aquele áudio vazou, o do político Cajá, envolvido em supostos esquemas com o judiciário, e ninguém fez nada, tampouco alarido, pois não. Né isso, lavamos as mãos.
- Esse é o sinal do que vem por aí, estava tudo arquitetado, cara.
Se querem fazer por fazer que façam por fazer, sem medir as consequências, coisa alguma ponderada só pode tornar as escolhas num desastre incalculável. Se o importante é mudar, de que importa que seja de forma insensata ou meteórica?
- “Veja aí, olhe isto aqui, faça consciente, pense”, porém nenhum dos imperativos foi o suficiente para me fazer mudar de opinião, porque ideias contrárias e consistentes não tinha eu.
O microfone chiou alto. A microfonia quase rasga os tímpanos da plateia adulterada.
“Jovens, vocês que estão superconcentrados no que digo, precisam aprender que a vida se faz como se vive diariamente, é quando se descobre, não à toa ou aleatoriamente, mas nas escolhas, que viver é viver desafios, se cobrar, não como o agiota ou como os pais, embora seja parecido, sobretudo nos casos mais banais, se cobrar no sentido de se transformar ao perceber que a pele antiga já não serve mais, porque precisamos de mudanças para agir na vida, porque ninguém é igual a si mesmo por todo o sempre, é óbvio, basta sentir como o tempo vai moldando a gente, virando as persianas para alternar a luz, é assim que, depois de muito meditarmos, sabe-se com o que se está lidando, uma vez que a física quântica ajuda – se souberes que uma partícula pode se comportar como uma onda e, às vezes, como partícula. É a dualidade: onde estiver o ser, não estará o existente. Onde for existente, não haverá o ser. Ser em si é existir para o outro. Existir em si é ser para o outro. Eu e tu somos a revolução que não para de agir. Quando fores convocado para canalizar o poder do amanhã, abrace-o! Seja o herói da tua vida. Obrigado”.
Depois de meia hora do término da palestra, ainda tinha gente sentada no auditório, deslizando, dedo, deslizando. Não perceberam e, por isso, foram convidados a sair.
Lá fora, o calçadão, ao lado da prefeitura descascada, estava lotado de bugigangas dos camelôs que vendiam relógios, celulares, trecos e outras piratarias sorridentes.
O clima abafado me obrigou a ir até um banco de madeira ao lado do cabelereiro Sérgio, sob uma tenda de açaí, o sinal abria e fechava indefinidamente.
Isso é Cicin?
- Ei, seu corno! Não, não foi com você, K.– ele não me ouviu.
Era Jorge.
Os tecidos torravam na pele, quase chamuscada, o olho piscava contra a luz, aquele suor se derretia com a gordura. Sob um nariz, uma faísca de detrito da pista balançava nojentamente, evita-o de frente. “É, tô dizendo” – e balançava a cabeça.
- Tentei convencê-los, K., mas são cabeça-dura.
A verdade é que não adianta. Nunca adiantou. Para que adiantaria? Simples, meu filho, desista, senta e pede desculpa. Na cuspida ninguém resolve, né, vê lá no congresso. O bicho é insosso. Abriram um muro no meio do palácio, amigo, imagine o de Berlim.
Foi tenso que só. Meteram foi o pau na galera. Os de lá e os de cá. Desculpa?
Acabei de receber: Ventiladores em todas as ruas! – enviei o meme para seiscentos e cinquenta amigos.
Nos vemos lá.

III


“Queria defecar na alma” – disse-me K., e o olhei com espanto:
- Mas como diabos você faria isso?
Faltava 15min para uma. “Ele é direitista!” – acusaram-no. “Assuma, assuma!” –Jones repetia. Mas quem, o que está acontecendo? A sala estava cheia. Virei-me e lá estava ele, o acusado, Pedrão. O nariz, pelo tamanho, e a cabeça grande, deixava os olhos menores e os dentes mais retos. Ele é o tipo de homem que caminha ao lado de Deus, mas, diferente do demais, sente-se mais próximo d’Ele como se fosse o escolhido dentre os desterrados. “Ele vai voltar”, dizia-nos, e eu o questionava: “Mas Ele não está entre nós?”. O bicho só ria, abençoado pela verdade que não compartilhava conosco.
Creio que tinha mais fé em si mesmo do que em qualquer coisa deste ou de outro mundo. E se especializava em si.
Com pesados tomos cristãos na mesa, dava a entender que estava lendo a biblioteca de Alexandria inteira numa só noite. K. me disse que seria impossível e, se ele tivesse lido realmente aquilo tudo, todas as universidades do mundo já o teriam convidado para dar aulas.
Saíram e me sentei. Liguei a TV e esperei em silêncio pelo próximo horário com o dedo deslizando dedo. Saudei um casal gay pelas redes sociais e Pedrão comentou inbox que aquilo o incomodara, pois “eles não devem se expor assim, pois bem, que fiquem, mas na deles”. Fiquei-o observando quieto, sentado à mesa, e parecia estar compenetrado em algo mais importante para seus julgamentos, contudo, ele continuava, “Ezra, não dê ibope, isso é, sem sombras de dúvidas, pecado”. Pecado?
Ou seja, Pedrão me pegou no pecado. Pelo que me disse, cometi um ato contra Deus. Aí o chamei no mundo real, uma vez que parecia não querer expor sua opinião, como todas as pessoas, na vida. “Será que as pessoas ainda vivem assombradas pela ideia do pecado, você não acha isso tão absurdo e retrógrado, não?”, ele silenciou por uns segundos, e voltou a se tornar um busto de mármore. Pensa que vai para o céu só porque fez um exame de sangue para saber se era judeu, do povo escolhido. Insisti:
- Pêdo, me diz aí, pecado existe ou é só lero? Você ainda acredita nisso mesmo?
- Veja, me compreenda, primeiro: sou resolvido com minha fé. Segundo, Deus possui a vontade suprema sobre tudo. Terceiro: pecado vem do francês péché, entendeu?
O quê? Parei para pensar seriamente no que havia me dito, mas nem vi nem compreendi, o que tem a ver o cu com as calças.
Josué tinha um nome bíblico, e daí? Ferrou também. Te disse. Baleia não pede ajuda, brother. Só nada, boia, come e aí nada de novo.
- Eu não te entendo.
- Pois não. – falava com a convicção repassada por séculos pelos sábios que molestavam os discípulos.
- Por que você não vive a vida? Não bebe, não fuma, não f... falha.
- Eu serei eterno.
- Nenhum palavrão?
- Jamais. Sou homem polido a brilhos puros e púrpuras, mas de homem, não de péché. De tudo que sei, sei um pouco mais do que sei. Sou nobre, sabia, e defendo a monarquia.
- Praga...
No quesito religioso, Pedrão se beatificava. Em relação à política, presumo que se alinhava com o Coiso. Mas por quê? Tentava entender P. quando o defendia. Certo, uma emissora evangélica o apoia, porém isso não quer dizer nada, senão política, maracutaia. Onde Deus está nisso? Mas ele relativizou ódio! Enfurecido numa discussão a respeito dos discursos violentos daquele que não se pode dizer o nome, defendeu o diabo com unhas e dentes, arregaçou as mangas para dizer que – somos exagerados, desesperados – não tem jeito, vai ser assim e pronto, com chifres, rabo, escárnio e tudo. “Ela não merece ser estripada” – isso foi descontextualizado, ele afirma, “vamos metralhar os direitos humanos”, também.
- Calma, Pedrão, você vai bater em mim? Ele havia se exaltado e, depois de cair na real, começara a se acalmar hipocritamente.
Foi cúmplice, e sorria na minha cara quando lhe falei sobre os pacotes de radioatividade vendidos pelas empresas para criar super-vilões tóxicos que disseminaria suas ideias toscas, estúpidas, indecentes, derruídas, alteradas, sobre a realidade e a vida, sobre nós, o presente, a sociedade, e eles, o futuro, o quê... Como ele pode agir sem reagir a isso? Insulta-me! Insulta-me! Pau que bate em Francisco não bate em Chico!
Por que ele não percebe, infeliz das costas oca, que estamos caminhando para a guilhotina, amarrados, silenciados, cedidos às paixões mais perigosas, criminosas, temerosos do que vai acontecer e convictos do que já aconteceu?
Ele me insulta diariamente. Para não ofendê-lo, fiquei em silêncio, não disse o que devia, apenas observava enquanto ele tentava convencer os presentes de que o Coiso era uma figura, que “são brincadeiras, tudo bobagem, isso não deve ser levado a sério”.
Quando o conheci pela primeira vez, sem ter a mínima consciência do que conhecia, o conheci verdadeiramente. Ele me reprimiu, simplesmente, me esnobou diante de desenhos que mostrava aos colegas. “Mas que coisa feia, isso aí até criança faz melhor” – ele tinha habilidade de ofender duplamente as pessoas, uma classe ou outra, categorias distintas. Quando disse que esses “isso aí” eram meus, tentou amenizar, “mas não é tão ruim não, isso aí até é diferente, abstrato”.
Com o tempo, nos amigamos, mas a primeira impressão se manteve, infelizmente, apesar de tê-la desconstruída várias vezes, ele se mostrava, ao fim da jornada, o mesmo que tinha visto no primeiro encontro, inalterável, zombeteiro, o mesmo sujeito repugnante, mesquinho, esnobe, que se sentia superior a tudo, habilidoso príncipe, humildemente composto conforme o figurino, o palco, o público. Torvo enganador, singelo comediante, cruel ilusionista.
Por quanto tempo me enganou? Por quanto tempo nos enganam aqueles que julgamos conhecer, os que não vamos a fundo, e ignoramos antes que... Aquela dócil pessoa encenava a tragédia cujo herói era o país. Mudamos o curso.
O herói trágico estrelou o enredo decadente da política brasileira. Insensivelmente, ignorou os direitos humanos, compactuou, conspirou, espalhou aos quatro ventos e disse que é coisa de “vagabundo comunista sem respeito cabra bom de uma surra ateu” financiar artistas, as minorias majoritárias, aqueles que ele julga como “inferiores, indignos, pobres de espírito”, talvez oportunistas, palhaços, gente aproveitadora, inculta, vitimizados, sem compostura, sem atitude, gente, gentalha que mama lambendo os beiços nas tesudas tetas do governo e que se lambuza sobre a corrupção como uma vaca sobre a mesa no prato dos gulosos que desperdiçam a fome.
Ele quebrou as regras do bom senso e desferiu uma gargalhada imensa sobre mim, vendeu-se a troco de nada, beijou a face de Jesus depois de delatá-lo, tomou de Pedro a espada e a desferiu contra mim. Viu, viu sim, viu o sangue e o bebeu, sangue quente, sangue-irmão e, como um vampiro, se deleitou com o frescor de minha alma. Por quanto tempo uma bomba pode ficar no peito de um homem e, depois de começar a ser corroída, explodir, atingir os arredores, envenenar os animais? O que significa modelar a mão de uma criança para que se pareça com uma arminha que matará, talvez, outra criança?
E eu sou o pecador? Não pode haver coerência no mundo enquanto houver tanta informação desconexa e fragmentada. Quem sou só fragmenta quem não sou.
Rótulos nunca foram tão atuais quanto agora, e ridículos. “Sou isto, logo sou outra coisa, portanto, também poderia ser aquilo” – que fixidez há nisso? E Pedô adorava se rotular como um homem da idade média.
Ele foi conivente com tudo o que estava acontecendo e, como um frouxo de calças arrochadas, se isentou da culpa democraticamente, como convêm a todos os pusilânimes, “eu sou...”.
“Conservador”, não, Pedrão era impossível. Dei-lhe adeus e chuviscou um pingo. No meio das tempestades, um nome quebra a internet: Piradolero. De longe, de nuvens virtuais, óbvio. Resolvi me queimar, mas não foi com fogo. O fogo é coisa do passado, de primitivo, a moda agora é: é namorar... não, isto era uma música. É usar forno por indução também. Mas o que eu queria dizer é se queimar no sentido de passar mal, como diz aquela cantoro, me livrando dum entulho de palavras que cria vermes dentro de mim.
E agora vem a inusitada e alarmante chamada principal: inspirado numa história vital. Mas não.
E o fim da história nem pode começar, porque as coisas nem existem ainda nem deve existir daqui a pouco.
A vida só pode ser um paradoxo jurídico. Quem sem vê diante do absoluto e, ainda assim, o nega? Como uma visão maniqueísta pode ser a síntese do pensamento dominante?

IV


A pelada foi marcada para quarta-feira às 18:00. Depois do expediente. K. veio me buscar, acabara de um comprar um carro e começava a espanar “a poeira da miséria”.
Lembra-se dele? Ritov tinha sabedoria de... um peixe na isca, se debatendo para todos os lados, sem perceber que, na verdade, está preso. Perder tempo com ele? Desperdício demais, melhor ignorar. “Ei, eu tô mal, não vou nem na quarta nem na quinta que vem”.
- Ritov, o sujeito que toca cavaquinho, de origem indígena.
- Sei.
Joanne me disse para ter foco, para focar numa coisa só, focar e seguir e jamais sair do foco. “Você começa algo e depois não terminar. Aí já está fazendo outra coisa. De repente, desiste, parte para outra, se esquece do percurso que havia traçado, não lembra que foi um sacrifício chegar até onde chegou. Outra história? Não, para com isso. Eu não entendo muito disso, mas você precisa definir o que quer”, e para me comparar “Rui não conseguiu nada até hoje, quer ser como ele?”.
- Sinto que você está muito mal, Ezra, que já quer conseguir o que almeja logo, e não é assim, de uma hora para outra.
Raianara me viu escrever ontem na mesa da lanchonete e me saudou desconfiadamente. Ela sabia que os meus dedos teclavam sobre algo que nunca irá saber e que a vida é assim mesmo – nunca se sabe o que deveríamos saber a tempo de nos prepararmos para aquilo que já deveríamos saber, dei-lhe apenas “oi”.
- E esse governo. Planejamento? Duvido, ainda mais para coisas do improvável, K.
- Ele traçou tudo desde o início do golpe. Quero dizer, eles traçaram.
Ontem inventei de assinar mil páginas virtuais para baixar coisas, sobretudo filmes antigos. Devem ter decodificado meu fígado com tantos spams. Agora a moda é só cerveja puro malte e noivinha. Mas parei de beber semana passada, o lúpulo é azedo demais, ou melhor, tem sabor de erva, de chá verde forte. Hoje, não sei.
- Ponto: piada bosta, para.
Mas quem te perguntou se era? Já disse, não bebo mais. Só vinhos e frios. K. me pediu para escrever sobre o filé à parmegiana sobre a mesa de Pedrão, intolerante à lactose, contudo, aquele prato vermelho e brilhante – não é digno de uma descrição, senão a do próprio paladar. Agora, aqueles olhos de cães esfomeados do Pedrão sobre meu prato – enquanto trucidava os pães vazios de alface e algum recheio de mortadela por dentro que estavam no prato dele, além de tapiocas severamente passadas na manteiga, bebendo um suco ralo de laranja, sem dúvida, poderiam descrever melhor do que eu aquele filé.
“Você tem algum problema” – cacete, olha a mensagem que aquela pessoa me enviou, cara! Que lindinho os olhinhos de mamãe para mim e os dele para ela, meme. Haja saco para tanto lixo!
Pedrão me ligou três vezes por quê? Parece que sabe que estamos falando pelas suas costas. É, é estranho.
Engordei três quilos depois daquela cerveja. “Como emagrece... rápido”.
Querem me destruir, só pode. Faz meia hora que posto coisas minhas e ninguém curte ou compartilha. Isto aqui é um deserto. Ninguém me lê nem me vê. “Fofucho, vê se abala”. “Sol” era que me faltava, que trocadilho estúpido – estúpido – estúpido, você. Eu? Ai deuso! Escrevi isto mesmo? Sério? Não veja, você está dirigindo.
Tá parecendo aquele dia. Pior lembrança: dois dias sem zap. Pior momento: dois dias sem netfrix.
E a carta em latim, do Vampiro. Um áudio em tupi de Cajá. O golpe de jiu do pacto. Que delícia, amigo! De brinde: os fei’que dói.
O supremo? Vendido, desista, garoto, fora de estoque. Toda novidade que vejo é um buraco maior do que outro, danado.
- E haja bandeiras para assassinos! Além de justiça, bem, talvez.
A pelada iniciou às 19 e terminamos às 20 e quinze.
- Tô morto, perdi a cabeça. (Confesso que fedia como um porco e K. deveria me dar uma carona até o estacionamento).
- O que houve?
- Morto, K. (Ele deve ter pensado que sim, ora, fétido daquele jeito).
- Você viu as notícias sobre o fim de tudo que é público.
- Vi, e daí? (Já demonstrava impaciência, sinal de que o cheiro de cueca suado já se mistura ao odor pútrido do suvaco terroso).
- Que venda esta droga!
- Canadá. (Moscas tontas).
- É mesmo?
- Sim, sabia não? – K. me perguntou com ar zombeteiro e não pude de lhe agraciar de forma diferente:
- Você já tá é fumado, bagaça.
- Valeu, carniça!
Aprontei o cuscuz e caminhei nu pela casa. Pendurei a roupa suada no varal, depois fechei as janelas para não apagar o fogo do fogão e corri para debaixo do chuveiro. Só pude tomar banho com febre. A fome me corroía, comi antes, e disse a Joanne que ligaria só às dez e meia. Queria me esticar, olhar para o nada e sentir a dor do tempo nos músculos
Detalhe singelo: a flor de cactos que está no pergolado brotou. O bulbo se abriu hoje à tarde, quando o calor quase me derreteu. Irradiava. Quando passei, quase morri de alegria.
Lembra uma boca cheia de dentes. Está lívida, silente, aberta para a vida. Amanhã seria assim. Sempre aberta, bela e esfuziante. 

V


Precisava comprar um livro de autoajuda para mim, para me livrar da paranoia da vida brasileira diária.             Bolo de pote também é bom, mas estou enjoado de doce.
Caminhava pelo centro da cidade, fazia tempo que estava parado, deveria me exercitar um tanto, para pelo menos desanuviar minha cabeça, quando alguém me interrompeu e me ofereceu pacotes de viagem, assinaturas e afins.
- Não quero usar! Não quero hotel promocional, já disse. Poxa! Que merda, cara. Comprei uma cama há pouco. Cansei de livros, mas me endivido com eles, então, estou liso e, por isso, não quero, caramba, publicidade estúpida!
- Mas, senhor... a promoção...
- Não quero usar isto nem aquilo. “Lava-jato em promoção, café em promoção, sorriso em promoção, parece que tudo está em promoção hoje” – olha, até que... não, não, não quero!
Na lista de mais vendidos da banca, nenhum me agradou. Ficção é coisa do passado. Procuro algo mais essencial para mim. Quero ser livre! – não quero virar cobrador de ônibus não nem ficar na rua gritando por direitos. Isso é absolutamente absurdo e não combina comigo.
Ser feliz anteontem. Não.
Amar antes que seja tarde, demais. Não.
Viver – antes de viver – sempre – viver. Não.
Nenhuma cabeça é menor que a sua nem a sua maior que as outras. Não.
Vai se foder sutilmente na sutilezas das fodidas de quem fode geral os outros nem aí para porra nenhuma que vão dizer. Sim! Que ofensivo. Por favor, continue.
Levei o maior fora da vida, mas, calma, ainda havia muito apelo na estrada. É difícil não ser ambíguo quando se fala em amor, embora estejamos sempre certos do que dizemos. Atendi:
- Oi, Joanne.
- Fracassado puto! Não faz o serviço na cama e vai perder o emprego!
- Mas...
- Mas uma porra! Seu moleque infantil ameninado do inferno!
- Que tanto amor é esse, Joanne?
- Amor é o caralho!
- Vida, tá na Bíblia... veja... amar sempre que nunca amanhã será como se sabe o que é que resiste...
- Inferno, ouviu! Vai-te!
- Lembra-se daquela viagem, amor?
- Ai, querido!
Tivemos uma epifania.
Todas as viagens deixam o enfado da lembrança. Simplesmente não se pode julgar alguém que ainda não sentiu a dor que dorme ao acaso dentro de cada um, prestes a nos eclodir.
Relações perigosas entre nós e o exército, o batalhão daqueles que querem nos destruir.
Das últimas economias, retirei a cartada final. Marcamos viagem para reconciliar. Iríamos para a cidade dos sonhos. O avião, depois de fazer conexão em Brasília e São Paulo, quase cai entre Florianópolis e Santa Catarina. Sobrevoamos o mar três vezes, a tragédia daquele time de futebol... a cabine do piloto precisa de um médico...
Sobrevivemos à catástrofe, embora, naqueles instantes excruciantes, já me habituara com a ideia de morte, o número do registro de voo, a comoção na história.
Embora saíssemos ilesos, a guerra nos machucou. Ou melhor, uma rota obscura do passeio ocultava nosso martírio. Malditos. A câmara de tortura ainda existia na cidade-bibelô-colonial do Brasil. Debaixo das araucárias, no submundo do minimundo, entre as curas sinuosas da rua torta, jazia um grupo maligno, inspirado pelo ódio ganancioso de mentes econômicas, chamado Swingdhann: para troca de casais e compra de partes de quartos em resorts, pacotes de viagens, para que os pombinhos, só aceitavam casais, pudessem usufruir uns dos outros nos melhores lugares. Malditos. O constrangimento se resume precariamente ao tratamento de choque que é dado, – à lavagem cerebral que derrubam sobre nossa alma, ressecam nossos lábios, espatifam nossa aura. Com lorotas infindas, piadas infames, indiretas nocivas, ácido e sangramento, vídeos de famílias felizes e branquinhas aproveitando o plano, em várias posições, trocando-se, cenas de Hollywood, pessoas satisfeitas, casamentos reavivados, novos contatos, pescoços degolados, miolos pelos ralos, o grupo é bem-sucedido, “o maior do mercado”. Ofereceram táxi, mordomias, iríamos conhecer os aposentos da poderosa empresa!  Queríamos curtir o frio do sul do país, no entanto, fomos cruelmente capturados. “Venha, é rápido, existem brindes, não dura mais do que trinta minutos da vida de vocês”, mas, espera, estamos de passagem, dias contados. “Venham aqui na sala, vocês vão ver” e, lá, agarrados pelo desejo de nos livrar das constantes insistências, fomos, dei os dados, analisaram a renda, sorrisos para lá e para cá, famílias felizes com crianças que não desconfiavam que iriam para uma salinha ver desenhos, enquanto seus pais passariam por uma das experiências mais degradantes da humanidade. Disseram que iriam nos dar um presente ao fim da entrevista, e pediram para esperar numa fila até sermos chamados.  O homenzinho que nos abordou se despediu e disse novamente, sem problemas, “não demorará mais do que míseros trinta minutos da vida de vocês”. Malditos. Casal, venham. Sai de uma sala uma mulher espetacular, marcada em cada parte do corpo, cada linha, de baixo para cima, bem delineada para seduzir e capturar, talvez adivinhassem que eu gostasse mais de mulheres espetaculares do que ideias metafísicas, e fomos convidados a entrar, abundantemente, vendo-a rebolar naquele salto quinze, tão empinada quanto a traseira duma CB500, oh, peguei a mania de Billie. Ela nos levou para uma sala cheia de gente, suntuosa, com gigantes vidraças, taças, com mulheres e homens bonitos, bem vestidos, elegantemente dispostos para nos vender um plano irresistível de compra compartilhada de imóveis, mais sexo/família.
A sala executiva, ou de execução, estava lotada. O burburinho tic-tic, blábláblá, soava paisagisticamente. “Oh!” – às vezes se ouvia com mais nitidez das mesas onde pais de família possuíam mais filhas que homens ou só filhas.
Sentamos na mesinha ao lado de uma coluna, próximo à porta de saída, com alguns papéis, lápis, café e petiscos.
- Olá, disse-nos a modelo de revistas de praia, sejam bem-vindos! – era só o início de uma longa rede vantagens que se enrolariam sobre nós como uma cobra, esmagando-nos osso a osso.
- Olá.
- Oi. – disse Joanne, apreensiva, desconfiada.
- Bem, hoje, a voz agradável soava como música nos ouvidos, irei apresentar o incrível plano da Swingdhann.
- Certo.
- Hum.
- Assine o nosso irrecusável pacote de Hotéis.  Vocês têm noção do que é felicidade plena, realização pessoal e conforto sem fim? Com certeza, nunca provaram um terço do que o céu pode oferecer através de nossas locações idílicas. Certamente, sentadinhos aí, devem estar agora pensando que tudo que falei é pura fantasia, mas, vejam só, o depoimento, as imagens, o padrão do nosso grupo, venham, podem vir, sigam-me.
Depois de irmos a outra sala, como uma espécie de cinema particular, estilo casarões de rico, ficamos boquiaberto com a propaganda que fora apresenta: fios dentais, braços musculosos, pessoas rindo ao tomar limonada e flertando tranquilamente, transando em quartos duplos, triplos. A vendedora saíra da sala, parecia ter visto aquilo à exaustão, e nos deixara sozinhos. Depois de vermos uma versão atualizada dos 120 em Sodoma, voltamos para o lugar onde estávamos e ela, risonha como uma cabrita da montanha, continuou a nos contar sobre as inúmeras parcerias que poderíamos ter se assinássemos o plano “irrecusável”:
- O que viram é incrível, não é mesmo? Sexo à vontade em closes exclusivos, open bar, vista para o mar, só família de bem, limpinhas e honestas aqui, na Swingdhann. Então, senhorita Joanne, nunca se imaginou compartilhando com seu marido as belezas naturais jamais vistas por aqueles que se julgam felizes? Senhor Ezra, casal, vocês podem comprar um terço do apartamento que pode ser vendido para mais trezes pessoas e, em sorteios, a cada ano, vocês poderia optar por alugá-lo ou ocupá-lo, recebendo, assim, todo o investimento e, ainda mais, lucrando. Vale salientar que a transa consensual deve ser feita de acordo com os perfis pré-selecionados por nós da Swingdhann. Ela é garantida, não tenham medo quanto a isso, irão conseguir parceiros para efetivar a cópula paradisíaca, contudo, devem obedecer a certos critérios.
- Como funciona essa cópula coletiva, quais são os requisitos? – questionei cuidadosamente, “transa à vontade”, o que diabos era aquilo, sem demonstrar interesse, embora estivesse pasmo com a ideia fantasiosa e ridícula de que nos era apresentado.
A meu lado, Joanne parecia enjoada, balançando a cabeça discretamente, sem acreditar no que tinha acabado de ouvir. A recifense, ex-modelo e atriz, disse:
- É assim, senhor Ezra, inicialmente por idade, sexo, cor, profissão, nível de escolaridade. Depois, a análise rigorosa e precisa da Swingdhann procura encaixá-los também considerando o “nível corporal”, o grau de beleza, óbvio, as semelhanças, claro que vocês sabem que não existe um padrão para o que é belo, porém fazemos um rígido controle de qualidade para que os clientes saiam satisfeitos. Todos os casais que compraram o pacote e dormiram com outros parceiros, sem exceção, tiveram a relação pacificada, o desejo aumentou, o amor mais uma vez venceu, não é lindo? Transar com outras pessoas, segundo os maiores especialistas em relacionamentos duradouros, é a melhor terapia para casais que perderam a atração, e não sentem mais aquele fogo de antes, não é, senhor Ezra? Mas temos gelos, gelos à vontade, porque, em caso de calos, um exerciciozinho exagerado, né.  E, se for em nossos hotéis, resorts, pacotes de viagem, senhorita Joanne, vocês terão a garantia de ter prazer infinito oferecida pela Swingdhann, carinhos esquecidos que serão novamente despertados por terceiros, quartos, quintos, camisinhas à vontade, métodos contraceptivos, massagens tailandesas, strippers e parquinhos temáticos caso tenha filhos e precisem distrai-los. A Swingdhann tem um equipe pedagogicamente preparada para cuidar de vossas crias. Não têm filhos? Que boa notícia, assim, poderão aproveitar mais ainda as saunas, as piscinas para nudistas, o acervo interminável de pornografia de que dispomos. Com filhos, não seria diferente, teriam todos essas vantagens; a diferença seria só na hora de “revezar”, se é que vocês me entendem, né. Excitante, não? Lógico, sem dúvida, não se preocupem, existem médicos da Swingdhann à disposição para assegurar-lhes, e os exames são verificados pelos donos do quarto, pelos assinantes de pacotes de viagem, por ambas as partes, pois temos hotéis no mundo inteiro, parceiros, sócios, investidores e, antes que qualquer relação sexual seja consumada, desfrutarão da magia natural das belezas. Nada de vírus, ok, nada de DST, é limpo, seguro e gostoso.
Joanne sorri e duvida:
- Isso é sério?
- 100%, por exemplo, eu e meu marido utilizamos e é maravilhoso. Beijarão golfinhos em Cancun, ouvirão o chiado do sol sobre o mar, irão para a Disney, pensem nisso. Já vi casais que, depois da experiência, mesmo famílias, se tornaram adeptos do poliamor, o amor compartilhado, mútuo, amoroso e físico, entre várias pessoas, não necessariamente do mesmo sexo, não é lindo? Tive experiências gratificantes, como falei, com várias mulheres boas para casar como eu que arrumam casa mas são independentes, que transam com vários homens mas são fiéis, coisas assim. O meu marido, ai, estamos completando três anos de namoro, ele assumiu meu filho do outro casamento, é tão fofinho, eles são, ele se divertiu bastante com elas, altas, magras, pernudas, malhadas, resolveu não curtir homens, apesar de não faltarem propostas, ele é bonito, modéstia à parte, deixe-me mostrar uma foto com ele, olha, cadê, tá aqui, que acha, Joanne? Bem, ele não transou com homens porque foi a primeira vez, mas que, na próxima, provaria, sem dúvida, o Swingdhann o deixava confortável, abria os orifícios de sua mente. Claro, sempre nos respeitamos desde o início, e nunca o obrigaria a ficar com outro cara em nossos passeios se não quisesse, mas, juro, a vivência é incrível, impagável. Perdão a palavra, tá, mas trepar com várias pessoas à luz da lua, na piscina translúcida, é poético, e diria mais, divino, libertário. Não fiquem corados, isso é só um terço do que viverão se assinarem conosco. Aliás, é barato, perto do que vão conhecer e saborear, em todos os sentidos. Nós, da Swingdhann, contamos convosco!
- Que inventou isso? – Joanne não engolia aquilo.
“Mamãe, o que é swing?”.
- Um grupo de empresários multimilionários fundou a Swingdhann. Um grande grupo de empresários e assinantes fazem parte deste belo projeto humanitária e mercadológico. O grupo Swingdhann. – a resposta sempre era essa se perguntássemos quem era a mente pervertida, o autor magnífico por trás daquilo tudo. Então cortei a conversa:
- Tá, então vamos falar de valores, olhei para Joanne, apressei o passo para me livrar logo daquele paraíso orgíaco.
- Agora vamos falar de valores, casal.
Ela nos sufocou com palavras repetidas sobre as vantagens invisíveis, números e mais números, pacotes, preços, volteios que totalizam quase 90 mil reais ao longo de alguns anos, enfim, um contrato surreal.
- Mas, antes de fecharmos, não me respondam, oh, esperem.
Alguém ao fundo se levantou, um sujeito de terno, estava com uma família, e pediu que todos batessem palmas, porque eles acabaram de assinar o plano. A cena era grotesca, em risinhos, clap-clap-clap, os vendedores sabiam que tinham enganado mais um, ou melhor, beneficiado, tão falsos quanto unhas postiças de bonecas energúmenas, aquele sujeito apertava a mão do mais novo cliente da Swingdhann.
O mal estar subia à garganta, Joanne já mordiscava as unhas, desesperadamente desconfortável à britânica, cutucava-me para irmos. Àquela altura, olhava para as mesas e já imaginava as pessoas transando loucamente, suando, pelancas e estrias enraizando os gritos, nos hotéis e resorts da Swingdhann, espirrando garoas de líquidos de Bauman. A tentação se apoderou de mim e cheguei até a me sentir tentado pela vendedora que me pressionava, além das propostas, com o decote (obviamente que, de acordo com os padrões pré-estabelecidos pela empresa, não permitiram que copulássemos, mas...), aí olhei para os lados e vi os futuros parceiros, clientes, divaguei: “Que mulher mais...” – e “aquele barrigudo ali sobre...”. Então focava para não me terrificar: padrões, padrões, pré-estabelecidos. E Joanne, como fui egoísta, não pensei nela, mas ela também teria, sim, ela... Aí ouvi a voz amaciada daquela atriz empacotada como sanduíches bem embalados:
- Então, queridos, vou chamar o representante-chefe. Café aqui, o senhor Ezra pediu.
Segundos depois, o sujeito bem-garantido, seguro de si, veio e nos saudou cordialmente:
- Olá! Adoraram, não é mesmo, posso ver nos vossos rostinhos ruborizados que, em breve, farão parte da família Swingdhann. – ah canalha, tencionei dizer, mas estava paralisado e somente disse:
- Olá. Sim, adorei, adoramos, né, amor?
- É, hunrum. – Joanne resmungou e, por algum motivo do qual não podemos mesurar, perdemos a noção de tudo, não sabíamos mais o que era perversão e plano, o que era família ou pacote, eles desalinharam nossa sintonia, nossa frequência normal. Chegamos até mesmo a pensar em aceitarmos o plano de todo jeito, sem questioná-lo, como se dependêssemos dele para viver, existir, ser alguma porcaria na vida!
Os seus dentes brilhantes abriram aquela bocarra gulosa:
- Belo casal. Então, vocês são de onde? Oh, que belo lugar! Sabiam que já fui lá? – oh céus, aquele sujeito mentiroso nunca tinha ido à nossa cidade, sequer sabia da existência dela, mas faria de tudo para vender seu inescrupuloso produto.
A conversa alongou mais, perguntou para aonde queríamos ir, a Swingdhann nos proporcionaria qualquer coisa, tentou nos convencer à força, ria como se fosse o poderoso chefão da nossa ingenuidade, dúvida e receio, tinha uma barba bem feita e uma barriga abaulada, apertada pelo cinto, queria passar a impressão dum experiente homem de negócios calvo, sovina e bizarro.
- Não queremos. Duas horas depois de tortura, não queremos. Pressionaram-me e pressionaram Joanne:
- Também não quero.
Depois de ouvir mil recusas, o sujeito se metamorfoseou na bestafera, ficara irritado, contrariado, mostrou planos e planos, valores em conta, de acordo com ele, inclusive um “especial” que estava por trás do papel que custava um terço da bagatela inicial para que usufruíssemos só o bacanal de apenas um mês nalgum país da Europa com mais alguns casais. Fotos, fotos e mais fotos, modelos, masculinos e femininos, que tinham assinado o plano. Coagidos diante do orador ensandecido, belamente concluiu:
- Não é um sonho a Swingdhann?
Após mais meia hora de violência moral, simbólica, delicadamente polida, impositiva, infame, o gran finale foi uma risada escandalosa que desaguou sobre nós, batendo com as mãos nas coxas. Todos pararam para ver aquele estupro.
- Senti nojo. Fomos ultrajados, lembra, Joanne?
- Ah, como queria esquecer!
Ao fim, apertou nossas mãos e, satisfeito, o maníaco disse “deem o presente”, e nos deixou ir com o desgraçado brinde: uma cesta de chocolates mais amargos da nossa vida.
O amor é lindo, afinal, suas amebas. Tivemos pesadelos meses e meses depois. A memória pifou. O passeio gratuito de Ferrari, sorteado da roleta da fortuna nas mãos de Joanne, o dia eterno, resquícios tonteavam as lembranças.
“Sexo à vontade”, cabarés de família. “Assinem, assinem, assinem”, “imbecis, não sabem o que estão perdendo”, “olha só como ele é engraçado”, “não querem mesmo, vai desistir”, “pensem nos benefícios”, as inúmeras sentenças nos chicoteavam.
Nunca me recuperei daquilo. Preciso de autoajudas para viver, tô ácido demais. Qualé! Aliviar, essas coisas, sabe, parar de pensar nos clássicos – beijo, arrocho e bumbum. A vida não tá fácil não. Ontem mataram um na manifestação e ativismo só se for para a Disney.
Peluso rebolou com força ontem naquele ato, talvez esteja mais feliz que eu. As pessoas foram à rua contra ele, mas não adiantava mais. Conseguiram erguê-lo antes mesmo de derrubá-lo. Deram tanta atenção e ibope ao discurso radical que ele apenas ecoou país afora. A vida continuará.
Ele não.

VI


K. parecia tão cansado quanto uma árvore seca e adunca arqueja sob o sol. Sobre o discurso de ontem – ninguém falou nada. “Estamos mal”. Quem falou! Ninguém. Quando a veria?
E ela, Joanne, me encheu de mensagens. “Não suporto mais estudar naquela Pós. O pessoal está louco, concorda com tudo que o Coiso diz. Todo mundo defendendo aquele cara do estupro e da fuzilada. Como vou aguentar daqui a pouco circular com esse povo, conviver?” – olha, tem muita gente que o defende, não há o que fazer enquanto houver democracia, digamos, depois, que arquemos com as escolhas, mas saiba que não fomos coniventes, diga o que pensa enquanto pode e ponto. “Complicado” – o melhor é sair do país, só para garantir. “Eu queria ser deste ambiente!” – mas em todos os lugares é assim, emoji cabeça explodindo, estão pagando para ver.
O mundo inteiro, sabe o mundo inteiro, avisou:
- Risco, perigo, autoritarismo, dever, rejeitar...
Rádio: Pai Jusé diz:
- Você que está dirigindo aí, criatura, preste bem atenção, pois poderá morrer agora mesmo! Fizeram magia negra pra você que está aí dirigindo agora, prestes a virar a próxima esquina! Esse carro vai esmagar você, vai te triturar, por que não pensa logo em mudar de vida com Pai Jusé? Esse carro vai te matar, pense, você precisa mudar de vida e de carro também, se possível. Venha comigo que irei abençoar a você e ao carro, e se for comprar um novo, também o abençoarei. Consulte Pai Jusé já.
Impossível ter sossego com tanta praga no mundo.
O plano aqui é o seguinte, Ezra, disse-me o vizinho, é encher o bairro de câmeras para que a gente saiba de tudo o que está acontecendo em tempo real e em cada pedacinho deste chão que habitamos num dos únicos planetas habitáveis com vida no Universo.
- Até aonde sabemos, né?
- Claro, até aonde sabemos. Por isso, as câmeras.
- Segurança, disse.
- Segurança, confirmou.
Haja tempo livre para se dedicar tanto assim ao medo; prefiro morrer cedo.
As pedras, se falassem, mas só amassaram a suspensão do carro (comprei há cinco anos e não fiz revisão nenhum do juízo de cuidá-lo), e alguns mosquitos voejavam pela cerca de madeira do vizinho de K., quando fui deixá-lo em casa depois de prepararmos um curso sobre escrita criativa.
Que Literatura que nada, nas horas, se consta o dobro na carga-horária de serviço e queríamos nos livrar do sacrifício de devolver nosso dinheiro. Isso no sol da tarde – depois de me deitar na rede, pensei que chegaria atrasado, raspando o prato do almoço que fiz com batatas cruas e carne de porco de panela de pressão, na frente da TV, os documentários – sobre o Universo girando em mim às tontas, cada estrela desconhecida atrás de seus súditos-planetas, na faixa de vida possível, e eu, a louça por lavar amontoada aos berros, de carne do último fim de semana que tivemos com a família da mulher em comemoração dos anos do velho-sogro.
Caminhamos amigos naquela tarde dominga, ao lado da parede do Itans, a ver o céu de cinco horas da tarde se enrolar com as luzes do sol menino da cidade, chamuscando as nuvens das nossas idades idas, e diferentes em mais de vinte e dois anos, de quando Maléu – gozava de juventude nas tetas da existência em flor de anos – e incensos. “O tempo é cruel, Ezra, passa mesmo no corpo da gente como verruga, espinha, estria e pelancas” – e caminhei ao lado do velho, na longa pista, no acostamento, correndo risco morrer de atropelo, vendo os barrigudos correndo contra o tempo e as madames correndo contra os cabelos, e os cachorros latindo para a cachorrada do mundo.
- Olha o céu caindo sobre os ombros! Se esta cidade tivesse prefeito para calçar a vergonha do povo...
- E ele foi prezo, Zira?
- Faz tempo, Maléu. Prometeu desavergonhar a política com batatas bem assadas e quentes na água quente. Ora! Que mentira, fora a fofoca do casal de pombinhos, não fez nada que preste.
- Mas no dia que ele se deu para votar, o povo caiu no rabo dele, não é?
- Ora se não! O diabo-do-danado se deu por santo em virgens de Maria – Sant’Anna! Parecia anjo sem sexo pré-estabelecido pela binarice dos seres – homem’umanos.
- Lá no meu brejo isso não aconteceria, pode alembrar. Vamos para o outro lado porque a gente vê o carro da frente numa desgraça.
Um caminhão acendia as luzes altas do faróis e ficamos cegos por alguns segundos. Algum acidente poderia ter ocorrido numa realidade mentirosa de invenção paralela se ele não tivesse dito. Depois da jorrada de vento e detrito, cuspimos o pó de pneus borrachudos de titicas de bichos.
- Tô dizendo, menino! Coisa de se dizer a gente não pode temer. A coisa acontece como a alma da gente prevê. Se um dia o povo souber que quem manda é quem comanda a bodega, quem vai nos deter?
- Ora!!! E como está sua saúde, Maléu?
- Saúde? Num entendi bem o que disse, mas creio que tô vivo.
- Eita que pergunta difícil a gente diz por arrodeios, mas vou tentar ser sincero. O negócio do sono conjunto, os panos cobrindo, como vai a labuta?
- Você tá falando é de putaria, né? Home, nem sei mais o que é se meter com o bem público! Quero dizer, não me confunda, sua sogra não é sem-vergonha. Ela é privada para mim, e não de banheiro, deixe de rir, eu sei que me enrolo quando me escangalho para ser. É o seguinte: a mulher só quer saber de criança e de fofocar sobre a cama dos outros. É acidente aqui do menino que arranhou o dedo mindinho, fulana em São Vantão que cuspiu no prato de senhora Nonada, coisa de Zap, vídeo de bebê empapado, gatinhos criminosos de fofura, a predadora de dentes, a tal farinha de puba maranhense, oh diabo! A velha fica para cima e para baixo sem saber que desgraça anunciar – e no meio de tudo, o pobrezinho do eu aqui – se doendo no anonimato.
- Que velha louca! – com respeito, sou digna demais dos votos do vosso arrocho caríssimo.
Gordinha, embora pernuda e ancuda, passa do outro lado da pista com uma calça legging, rasga um raio de sol no meio do andado, demarca o meridiano. A conversa para ali na troca de olhares, enquanto uma carroça de burro carrega palha nas costas, e um animal lança ao ar um relincho de passarinho erótico no cio.
- E a idade, Zira? Tu é jovem que nem pomba viçosa. Minha filha está em boas mãos contigo, sabia? Gostamos demais de você, fica sempre conosco, viu.
- Claro, Cabeça Cinza. Amar e dormir na mesma cama é melhor do que deitar com mil mulheres sem graça. Oh desgraça! Quero nem imaginar como um negócio pode ser bom sendo tão ruim como é, cara. Eu digo a você que toda noite vou dormir atiçado como esse sol infeliz rasga a crueza da nossa pele e tosta nosso juízo quando a gente quer pensar na vida nos dias mais pestilentos. Nem tem pena, me entende? Ele só penetra! Eita bicho sol eu sou, Maléu!
Bem perto do anel viário, o bar paria umas criancinhas, filhas dos vizinhos do estabelecimento, e começava a espalhar as mesas amarelinhas pelo pátio de barro, abaixo da pista, cheio de matinho seco, e lixos não-coletados. O cheio de pinga subiu aos céus – e a Samanaú batizou nosso preguiça ali mesmo. Não bebemos não, isso é conversa, a gente só apressou o passo quando vimos uns estranhos perto do posto de saúde ao lado da cancela para o Itans, eita açude longe demais.
“Ninguém consegue fugir do erro que veio”, oh Barros!
Eu não. Jamais. Só se for você. Por que pediria? Adolfo, o Capitão Feio, nunca me disse o que pensava nele. Foi lá e pá! O resultado já sabe. Se tivesse sorrido, talvez saísse de lá sem problemas. Mas foi chorar, pedir perdão. Correu perigo. Avisei. Não fala. Não se posiciona. É triste, mas é assim.

VII


Adolfo se encontrou com Marcel na sexta-feira passada no bar da tapa e eles vieram até mim para ajudá-los num projeto secreto. Visitaríamos o mundo íntimo de Adolfo, que estava de mudança. Aceitei o convite, contrariado, não esperava que contasse comigo para esforços braçais. Ele morava perto do castelo, fomos no início da tarde.
Não imaginava que ele fosse um acumulador, compulsivo, onanista.
A casa estava abarrotada de lixo. O desarranjo percorria os cômodos como um câncer. Na última linha de defesa, atrás da porta de entrada, estávamos. Que visão pandemônica. Caixas e mais caixas que datavam décadas de materiais orgânicos, revistas, livros, embalagens, encartes, além de um cheiro podre de fossa aberta, urina e ratos mortos. O monturo amargava a vista.
- Não reparem na bagunça, só me ajudem.
Ficamos silentes. Tapando o nariz e, cada vez mais, arregalando os olhos, abafando um oh, que porcaria é essa, Adolfo.
Sem exceção, tudo ali era sujo: cantos da casa, sofás, centro, roupas, louças, talheres, fogão, geladeira, sujidão e solidão. Emporcalhados, enferrujados, quebrados, sacos e mais sacos com formas estranhas, retangulares, deformando-as e perfurando-os pelas paredes. Alguns portarretratos manchados, de pessoas que nunca tinha visto, enfeitavam os aparadores, a escrivaninha, e o hacker da sala.
Pornografia barata, das que não se vende mais, suspensórios eróticos, máscaras de couro, chicotes– para sadomasoquismo, vibradores, aquilo era a mais pura devassidão de um sujeito estilhaçado. Entre esses “brinquedos”, vi um cartão da Swingdhann, e quase vomitei ao associar aquela lembrança a esta situação. Que horror.
Ao ver aquilo, falei mil vezes para mim mesmo como se estivesse me vacinando daquela realidade: eu gosto de limpeza, eu gosto de limpeza, eu gosto de limpeza.

VIII


Ele me parou no pátio, à meia-sombra, de umas seis e cinquenta da noite, e começou:
- Boy, homem, olha, estou lendo ficção científica pura, daquelas, sabe, geniais.
- São belas histórias, surreais. Eu queria ter mais tempo pra me dedicar a elas. Mas, me conta, são boas mesmo?
- Na hora, né, isso, mano, tipo, bicho: da hora!
- E esse daí que você tá lendo? É aquele que inspirou Matrix, não é?
- Oh, sim, olha, o cara consegue ser sutil sem ser tão insosso e ainda arrasa nos detalhes.
- Está na fila, sim, depois de Proust... Preciso ler alguns livros para me ajudar, mas, logo em seguida, com certeza, reorganizarei prioridades.
- Vixe, né, com certeza, sem dúvida.
E com aquela barba de marinheiro reformado, a calvície protuberante, bem vestido, camisa de botão e calça de tecido, saiu como se fosse uma criança de quinze anos empolgada com histórias para dormir.
“O cara é top, você deve ler, poxa, que bicho zica!” – Moz me falou ontem à noite quando ia embora, bolsa com alça, de lado.
E o Adolfo? Para que tá feio. Eu me identificava tanto com ele, até descobri-lo residencialmente.
Como separar a pessoa de sua casa? Como separá-la das ideias que acumula, das coisas, do óbito – diário de reciclar após uma coleta de lixo mal sucedida? Capitão Feio me desesperou. Ser alguém extrapola o que alguém é. Aquele sujeito que andava limpinho, de fato, apertava minha mão várias vezes, K., o sujeito cujo nome simbolizava moral, ética e cidadania, cabelos bem penteados de lado, o nariz pequeno, de um esquilo, e os olhos afiados, como de alguém suspeito, Adolfo tinha o porte atlético de alguém que se cuida, e não se inunda em hábitos pestilentos.
Daquele dia em diante, olhei para as pessoas de maneira diferente, nunca do mesmo jeito, jamais com a mesma ingenuidade, espiritualidade e perseverança.
O Z. tinha me avisado sobre isso quando eu era mais novo. Toda vez que me impressionava com alguma figura que desconhecia, ele me revelava o lado oculto da lua. Z. era médium, sensitivo e, para ele, um anjo caído, mas não demoníaco, pelo contrário, dizia-se divino, ter outro nome, uma missão nesta Terra. Z., fora o apetrecho fantástico que atribuía a si mesmo, percebia como as pessoas não podem ser constantemente o que dizem, o que aparentam, o que julgam, o que são. Admirar alguém, logo se tornaria um ato de amor revolucionário, um desafio tremendo, quase inalcançável. Como peneirar contradições e, daquela mistura picotada, melódica, deteriorada, compor um indivíduo?
Há quanto tempo não vejo Z.? Tive de me deletar de todas as redes sociais. Foi difícil me apagar – de cada histórico do qual não havia mais um eu. Pequenos cadáveres, postagens, fotos, comentários, compartilhamentos, decoravam meu obituário.
Que não descubram quanto de nós são intragáveis. Ou que descubram em proporções ínfimas. Ou que sejamos isto: o ínfimo.
A situação tá feia. Estamos começando, por isso, a desejar o mal uns para os outros, só por birra.

IX


No dia de seu aniversário, ela foi da alegria profunda, gratuita, desinteressada, à tragédia mais funda, megalomaníaca e mortífera.
Dei-lhe de presente De profundis, de Oscar Wilde, para que pudesse sentir o que há de cruel na prisão da existência e de como podemos reagir, nos piores momentos, às maiores atrocidades, embora essa autoanálise nos deixe profundamente abalados, desvalidos, agonizantes, é necessário passarmos por isso, por essa via-crúcis das meias verdades, dos convicções enganosas, dos amores inomináveis, do mistério da liberdade, para que alcancemos, isolados no tempo e no espaço, a dignidade de ser humano, convulsos ao menos. Ela se mostrou orgulhosa com o presente, como se alguém lhe desse alguma importância verdadeira na vida, “Ezra procura quem sou”, como se eu a notasse como uma pessoa especial, única, humana, além do que os outros a julgavam, a puniam, a excluíam de qualquer possibilidade de interação sadia, apropriada, coerente, porque ela agia para dentro, ignorando a tudo e a todos, se esvaziando à deriva de si mesma, vendo-se naufragada no meio da noite, abandonada, tão pútrida quanto a lavagem de porco, a sudorese, o amálgama de ódio, ressentimento, fingimento e desprezo. Costumava dormir tarde, ter pesadelos monstruosos a ponto de desejar não mais descansar seu espírito cansado, acordar tarde, não fazer absolutamente nada nem pela manhã, nem à tarde, tampouco à noite, em definitivo.
Mastigava o bolo sem desejo, massa, amassa, o bolo quase a engasgava de desgosto. Esboçava um riso quase-humano para nos distrair daquela cena. Parei para sentir a dor que se confundia com o ser dela. Engoli seco – e suspirei.
Ela baixava o olhar para o mundo, como se o penetrasse, mas era afogada por ele. Eu sabia que ela estava doidamente perdida, desestruturada, não havia encontrado nenhum sentido destacável na vida, disfuncional, foi criada numa redoma de ferro, corroída pelo desejo insaciável da mãe em mantê-la assustadoramente perto, protegida de tal que forma que tivera suprimida sua liberdade básica, pois não conseguia ir ao supermercado só nem sabia (desconhecia noções comerciais simples e saudações banais para iniciar uma conversa), fosse na esquina, poderia não se situar, sua cognição estava aquém das expectativas do que se espera para sua idade real, defasada, não ousava ir além de qualquer perímetro “ameaçador” que ultrapassasse o seu lugar de repouso, a sombra vítrea do seu teto asfixiante, os braços pegajosos de seus pais desmiolados, começaria a criar asas, assim, para seu medo patológico de conviver lá fora, ter de enfrentar o outro, o desconhecido, as coisas do mundo. Estava pálida, fantasmal, mal crescida, mofina, aparentava ser muito mais nova do que uma mulher de vinte anos, talvez doze, onze anos. Deixara de comer carne, se alimentava apenas de arroz, feijão e ovo praticamente todos os dias, numa dieta terrível, restritiva, involuntária. Aos poucos, não se importava nem com a comida, tinha esquecido o que é o sabor de alguma coisa perpassando seu corpo, integrando-o. Suspeitava que todos a perseguiam, a paranoia era seu método de análise da realidade, se corresse ao redor de casa para tomar um sol na companhia do pai, que odiava, e alguém passeasse por ali, ao acaso, achava que estava sendo vigiada, alertava ao protetor, olhava de esguelha, apressava o passo, voltava para casa.
Estriando os joelhos, as pernas afiladas, os olhos afundados pelo terror do além, ela criou um mundo imprevisível para si própria: tão distorcido quanto o nosso, incoerente, insignificante, porém, menos aceitável, tributável ou possivelmente habitável dentro dos limites do que se julga minimamente terráqueo. O seu verdadeiro asilo era a internet, o maior espelho da atualidade, o grande Narciso opinador, juntamente com os vídeos e tudo aquilo que nos orbita como um eu e nos fazem acreditar que somos o soberano e o controlador de nosso próprio destino, da liberdade, assinamos nossa intransferível prisão e sentença a cada dia, diariamente. Após os parabéns, as velinhas sopradas com pouco envolvimento, partilhamos o bolo.
Perdi a cabeça com aquela menina. Quebrei todas suas teorias de conspiração e desfiz seu plano de controle global. Na mesa, a conversa galopou, de política à religião, de religião à política, estendeu-se e ela, indignada, irrequieta, me olhava pegando fogo, sentindo-se ferida, humilhada e destruída, fumegava de ódio de mim, tentava emendar alguma sentença plausível, uma justificativa lógica, um motivo válido, uma palavra mágica para se mostrar superior, perfeita, irretocável e refutar meus argumentos constatáveis. Contudo, seus esforços para afiar sua opinião a ponto de ferir a carne da verdade fora em vão, e ela me estocou:
- Você é imbecil.
- Eu?
- Sim, é um idiota. Não sabe que vejo uma aura negra sobre você. É um espírito mal, um desejo insubordinável de se destruir e acabar com a saúde dos outros. Você suga as energias das pessoas, você nunca vai se equilibrar na vida, criatura de pouca luz.
- O quê?
- É, Ezra, o diabo está sugando sua alma! Eu vi no Youtube o doutor em física quântica falar sobre energias quânticas e relações quânticas.
- Oi?
- É, tem o Osho, o sábio, o benevolente, o autor de livros sobre como a gente deve equilibrar a aura interior com o universo exterior e depois amansar os dois num só. Quero comprar todos os livros dele, é meu sonho. – ela me falou num tom de esperança tão acalentador que seus olhos, antes raivosos, agora brilhavam e parecia alegrar-se com a ideia de um dia possuir todos os tomos daquele sábio pervertido.
Engoli minha compaixão, não me contive:
- E?
Como se desabasse um prédio firme e inflexível, aquilo veio a chão como desespero e a coitada já perdera os segundos de prazer que antes pareciam tão lívidos em seus olhos, em seu peito, e se desmanchou:
- Eu, eu, eu vou chorar! Não consigo falar mais. Me deixa, por favor. – senti pena, o rosto dela estava vermelho e murcho, mas meu coração endureceu mais ainda:
- Você endoideceu?
- Não, eu... tô chorando, não consigo falar. Por favor, para.
- Por que você lê essas coisas? Veja isto aqui. Traga aí o notebook. Olha, leia isto, e isto, e isto.
- Eu tô mal!
- Mas o que houve?
- Perdi a vontade de viver!
- Isso é sério. Olha bem para mim e diz nos meus olhos isso que você acabou de dizer.
- Não... não... não consegui nem sair com minha amiga... já soluçava, eu não quero nem me levantar mais!
- Você precisa de ajuda. Me fale mais sobre o que sente. Por que esses gurus não tem libertam assim como você imagina ou você acha que a vida é fácil como essa galera aí diz?
- Eu sei... eu sei... é porque... não vou falar mais, elas estão aqui...
Senti pena, dor, remorso. “Eu deveria ajudá-la”, arrependi-me de ir tão longe, “porque não fiquei em silêncio”, de abrir tantas camadas, “que razão eu tenho para interferir na loucura dos outros”, ferir tantas dores, “e quantas vezes me julgaram”.
Reninah, por que você cresceu assim?

X


Pensem num sonho terrível, pior do que o prato especial do Ramon (carne de porco triturada com carne de gado com cuscuz, azeitonas, tomates, cebolas e feijão) e as piadas de K. sobre pessoas orelhudas.
Mandei uma mensagem para Marcel:
- Não se esquece de mim de propósito. Finja acaso.
E ele me respondeu instantaneamente:
- Tá. Feliz agora?
Deixei-o no vácuo e vadiei. Eu falava com um norteamericano cabeludo que usava uma bandana estranha, com uma estampa de caveira, e ele me pedia dinheiro, sempre mais, dinheiro. Não me convenceu, mas quando saiu do beco escuro e vi que tinha três cabeças, quase enfartei. Dei-lhe em reais uma quantia que seria ínfima em dólares, me olharam de revés, fez piruetas, em seguida abriu a mão e recebeu com uma gargalhada sinistra aquele punhado de notas desvalorizadas. Ao jogá-las pelo ar abafado da saleta, começou a me dizer algo em inglês – como se pretendesse me ensinar algo, brigamos feio, soquei as três caras do cara, e foi então que me vi numa sala de aula transmitindo esse vídeo para alguns alunos animados, eufóricos com a exposição, e eu, assustado e pasmo com o que via, assim que o vídeo parou, tentei continuar a improvável aula sob o olhar de Alexandro, pigarreando, engolindo o catarro do peito, até perder completamente a voz. Mais de quarenta pessoas na sala, meus olhos esbugalhados, alguém diz “exposição tediosamente interessante”, e um telefonema de madrugada.
- Oi, tá acordado?
- Sim, já são seis horas da manhã?
- Não, são doze da noite.
- Eita, perdi a noção do tempo. – depois que os olhos ajustaram a nitidez, vi a escuridão literalmente – perpassada pela luz dos postes da rua e pelo silêncio arranhado por criaturinhas invisíveis e súbitos urbanos.
- Dormiu cedo hein.
- Foi.
Quem nunca?
Não sonharia, porque fui dormir com medo depois daquele filme trancoso da cabeça de alguém sobre a cabeça de alguém na cabeça de alguém que era ela mesma e a outra ao mesmo tempo e nada... porra nenhuma. Tenho ficções proibidas demais para permitir que a realidade me desfaça enquanto durmo. “Estuprador é astro de futebol. Tudo bem, sabe jogar bola e tem dinheiro. Segue o jogo”.
É esquecer, sim, e dormir.

XI


Não ouvi nenhum dos áudios. Odeio áudios, por que, bem, porque odeio e odeio, é isso, odeio. Odeio e, só para deixar claro, não é por causa do gemidão, sou esperto, domino a técnica de desconfiar de imagens estáticas sem contextualização apropriada e de vídeos extremamente vagos com pessoas suspeitas, volume baixo no início para estimular a regulagem do som, e conteúdo-isca, sugestivo. Se perdemos a coragem pra escrever, perdemos a coragem. Falar é tão fácil quanto agir. Escrever exige. Como visualizou a indiferença, pôs-se a digitar. “Querido, você tá bem comigo? Percebi que estava estranho da última vez que nos vimos, fiz alguma coisa errada contigo? Me perdoe, por favor, não quero que se indisponha comigo, sou uma pessoa boa, apesar de querer aprovação nas redes sociais e saber que isso diminui a qualquer ser humano, ainda me julgam por ter mudado de nome para Cláudia, a Hera. Conquanto me violentassem direta ou indiretamente, você sempre se mostrou aberto às questões de gênero, me defendeu, e nunca julgou ninguém porque tinham um pensamento diferente de se próprio em relação ao corpo e ao sexo. Foi o que mesmo que houve, Ezra?”. Os lábios dele estavam descascados como a pele duma cobra encontrada no mato, sem bordas aparentes, como um borrão de um mal desenhista, talvez seja tratamento para acne, vaidade, a mesma da realeza britânica.
Por que durmo e acordo com esta coisa na mão? E a tv por assinatura?
- A gente divide e paga na honestidade. Combinado. Ótimo. Beleza.
“Tá tudo bem, não se preocupe”, foi o que disse.
Ramon me convidou para jantar, mas dispensei. Massa Crua não tem realmente aquele senso culinário elevado que as avós possuem instintivamente e os universitários compreendem depois de cortejarem a fome.
“Hoje não”.
“Por quê?”.
“Bicho, eu já...” – corrige, digitando: “eu estou doente do estômago”.
“Vai ficar me devendo essa hein, bichão”.
“Vou, vou, pode deixar para um dia isso aí”.
Desisto. Reuni-me com K. hoje à noite e discutimos sobre histórias fantasiosas. O curso rolou bem e estamos atrasados em relação aos dias que planejamos para finalizar todo o roteiro. Precisei me ausentar no finalzinho para respirar. Ao sair da sala, me encostei no pilar do corredor e olhei para o céu. Puta estrelaço, e eu aqui – desesperado, à espera de qualquer refúgio ou balaço. E amanhã, eu me pergunto, amanhã quem estará aqui comigo, a pensar, a imaginar o que será de mim no outro amanhã. Silenciosamente, me recolho no infinito, o céu se arreganha mais ainda, me pego excitado pela emoção que aquelas formas ocultas despertam em mim, algo se esboça misticamente naquele instante, “ei, você Pedro Alberto de Júnior Albuquerque” – não, não o vi, “obrigado”. Obrigado. Tudo desaparece. É o mundo real que me chama. Ou talvez me incendeia. Pedro Alberto de Júnior Albuquerque. Puta que pariu, que nome longo, infeliz. Eu sei lá quem se incendeia assim! Queria traçar meu corpo como os vermes que me ocupam e não como um ser que se distrai por aí enquanto o deve lhe chama. Desisto.

XII


Nos sofás, a conversa fluía fiada. Lá na mesa, Calina, com seus trinta e poucos anos, segundo casamento, cabelos curtos com uma bandana estilo, olhando o notebook, com óculos grandes, e o sorrisinho malicioso de ruindade pueril.
Tentei atiçá-la para puxar conversa, sem compromisso. As coisas boas e as coisas ruins sempre começam e terminam por mim. Pisquei para K., fui aleatório no comentário, e então me dirigi a ela:
- Calina, com esse vestidinho floral e essa blusa dançante, você está parecendo uma coquete!
- O que é coquete? – seu sorriso ficou cada vez maior e seus olhos ajudaram a construir o clima inusitado da pergunta.
- Coquete é coisa boa.
- Não conheço, me explique aí, sou do Sul. Ô Julialberto, você sabe o que é coquete? Ele é meu dicionário regional. Traduz tudim pra mim.
- Não, minina, num sei que isso é não. Ai, sei lá, eu conhecia croquete, aquela coisa gostosa que lambuza a boca da gente, a começar pela forma. E cocota, a periquitinha verde, que era gíria para menininha nas antigas. Coquete – pausa melodramática intensa, curvada para marcar a cintura – NAUM. – ela se voltou para mim com mãos interrogativas e conjecturei:
- Coquete é mulher nova, jovem, no estilo.
- Hum.
- Olha, aqui diz: “mulher que gosta de ser admirada, de chamar a atenção, bem danada no cuidado”.
- Olha, que isso é coisa boa, viu, Ezra!
- Mas é claro, você acha que vou usar uma palavra sem saber exatamente seu sentido.
- Aproveitem! Porque hoje eu tô na promoção!
- Malina...
Sai de sala, até eu fiquei sem jeito depois da indireta.
Mas é só um escaneamento desta reportagem sobre a radicalidade radical radicalmente radicante. “Estou assoberbada de coisas para fazer” – não, sem problema, respondo educadamente. Assoberbada também significa cheio. Hum.
O olor de café se esvai em pequenos tufos neblinosos de sabor. Pus na garrafa o gênio e depois o bebi.
Repetido, repetido, mas ridiculamente singular, plural. Farei em casa.

XIII


Olha aí a nova propaganda eleitoral. Leitura de textos, olhos trocados e a tríplice aliança da retórica vazia: saúde, educação e segurança.
A última vez que vi isso foi naquele filme de David. Não, que nojo. Isso aí tá parecendo coisa de História inventada – de cadeira elétrica e pau de arara. Olha aí, olha aí. Que nome estranho para um candidato. O engraçado é que ninguém percebe isso, ou é de propósito. Se o fundo do poço for frio, sombreado, aconchegante como um kitnet na capital, quero me mandar pra lá. “Vai vir hoje” – talvez.
- E... - Jaules me interrompeu, como fazia com todos, ininterruptamente:
- Abacatismo contra abacatismo. É, não, olha, veja só como que, por obséquio, ninguém percebe como o Iron Maiden possui uma pegada anti-político-social-cristã-anarcoide, uma vez que a Shakira deu uma entrevista “ai mamãe, chupa papai”, sobretudo quando se percebe a clarividência dos projetos egoísticos de cada um – é como aquela história de “quem sabe menos sabe talvez alguma coisa”, então, é só perceber que todos estão “menina, para com isso, vem ver beber nascer”, é, sim, com certeza, o funk de Catra, que as virgens no céu o tenha, só para educar criancinhas, que malícia! Rá! Não disse por onde termina aquele meio termo insidioso no qual a sapiência dos roteiros – os encadeamentos, aquele onda de “paraguaios sem paraguaias”, movimentos dos feios contra os bonitos, seja já, vai passar mal, isso mesmo. Sinto como se agora, antes que o arraiar feche o ano, rompa o anus, pera, humor negro, quer dizer, afro, e o bolo de chocolate preto, para, isso é bastante ofensivo, senhor. Continue! Rá! É paranistobemcomoaquiloprebirnost, Beyonce, Vittar, não, Cazuza.  E daí, Santa, sua Santa, para! Não, sem brincadeira, agora é sério: seja positivo, rá, como ele, o débil mental. O quê? Adalberto. “Todos os dias quando arroto” – só no Dark. Né isso que tento dizer, se você é batata, ele é maçã, você é abacate, é cada um por si. Se a gente desse firme, quem gritaria né? “E sua dissertação sobre homoviadagem” – rá, não, sério, para me assumir não preciso escrever uma dissertação, basta só me doar, bicha, olha meu cabelão, ui. Não, não, é porque ele nem sabe como os artistas se perdem nas biografias. Como assim, veja, olha, analise. Sou puta cristão Jesus na cruz, aliás, faço uma campanha beneficente, chama-se, botei na camisa a estampa, pás de cristo, rá! Entenderam, pá, paz! Fui ofensivo, continue! Este relógio tem maquinário dos bons, vem lá da Suíça, gringada, outro nível, outrossim faço um rock-progressivo, não tenor, estilo esgoelado, mas de baixo calão, daquele tipo highlander, carne crua de coxinha humana de Garanhuns, ai, Zacarias, que delícia! Ainda dizem que ele é um monstro, mas é adorado, não, é sério, sem escárnio, pra valer, é só clicar no feicebrook e no pornogram, cheio de academias com as pepecas marcadas, com a voz grossa, e aí MAno! Aí vai ver como se compreende a “mitada”, aquilo que nem ele sabe, é só espúria – forma de delatar o flagelo humano da incandescência cardíaca dos artistas que não sabem o que cantam ao acreditar que nem vida nem arte agem da maneira que, enviesadamente, o exposto se pospõe ao proposto no qual a vida invalida a desdita jaculatória. Por isso digo, sem ironia, sério, nem sarcasmo, tem d’aver coerência. “Ah, mas não sabem que naquele dia tinha tempo de girar”, e outros, como Jiraia, utilizando a voz máscula de quem acabou de copular, “onde é que boto o dinheiro, Carnulda”. Data venia, não quero ser assoberbado, há quem se ache cult, estressado, apesar de hodiernamente os olhos virados dos bois sem expressão digam mais que tudo, é só pressuposto entorpecido pela áurea dos que se dizem, abre aspas, “machões” do brejo, do espírito anti-X-coisa-qualquer, mas sem ter origem nele o olhar ébrio dos que se acidentam às vésperas do ocaso que, por acaso, é belo daqui se olharmos de fora. Portanto, sou louca Bambi, sem brincadeira, deixe de altruísmo falso voluntário. É, Adalberto!
- E... Pera aí, tenho de ir.
Ramon me chamou para fora e me perguntou:
- Rapaz, você entende o que esse doido fala?
- Não, mas eu gosto do jeito como ele desanalisa as coisas. Às vezes tem coerência, mas, no geral, há em tudo o que diz um incompleto inacabamento peculiar e pretensiosamente inteligente.
- Eu hein, tem doido para tudo. Já tá até falando como ele, viu, cuidado.
- Deixe de conversar bosta, Massa! Cê não sabe, mas dizem que ele tem “altas habilidades”, só não sabe como geri-las. Quero dizer, organizar as ideias, bicho. A questão é só uma: ele não deixa ninguém falar. Só ele pode, parece até que está mijando com a bexiga apertada, se alguém tentar interrompê-lo, o bicho estoura!
Ramon arregalou os olhos e me segredou segurando a risada:
- Ezra, bicho, é isso mesmo, um dia me disseram que Jaules ligou para Adolfo e ficou falando pelo telefone sem parar, feito uma pata choca. E o Capitão Sujeira, imundo como é, simplesmente deixou o telefone no viva-voz em cima da mesa para ir fazer suas coisas. De vez em quando, Adolfo passava por perto só para espiar e, depois de umas meia hora de um terremoto de palavras, gritava “mas é assim mesmo”, e o Jaules, num monólogo desenfreado, o interrompia imediatamente, dizendo que o sujeira ia ter que ouvir ele falar tudo e que não o interrompesse de novo!
- Porra! Que cachorrada, Ramon! – putaria danada, agora eu ri.
Ele tinha saído da sala.
Parei na frente da tela para ler as notícias. CRIMES, crimes e mais crimes. O dia hoje não foi bom, confesso. Sinto-me no fim do segundo tempo, esperando o juiz apitar para acabar com o jogo. Estamos atacando, ali vai eu no meio de campo, um tanto míope, vislumbro os colegas próximos, forço a marcação, toco para o centro avante que se para o meio e o aguardo na lateral esquerda, atento, aflito, cansado. Estou no final da copa e não sei qual resultado terá. Ele se prepara, mas só será no domingo, o tempo para, todos no estádio se petrificam, a pipoca paira no ar, a criança projeta o pulo, mas não alcança o colo da mãe, o dedo se dirigia ao nariz, o céu firma.
Mas deixe quieto, ainda não superei bem aquilo que me tortura a galope, já vislumbro a criatura à distância sedenta por mim, louca para me esfolar, à espera dos meus ossinhos e do meu juízo desmiolado. Fogem de mim, mas, no fundo, querem me pegar. Segurança é artigo de luxo, lei de hombres, tacitamente, conversa fiada, a prazo. O humor é a maior arma dos terroristas contemporâneos. Se você brinca com fogo, de repente, se queima, e sua mãe não precisa avisar para acontecer, tudo está premeditado. Valha-nos Deus! As imagens em preto e branco brilham nos filmes antigos. O que vai acontecer daqui a pouco? Me coloco no lugar dos mais fuzilados e não sei como vou me encontrar se, por acaso, a noite criar luzes venenosas e se fundir com a aridez angelical dos templos.
- Zabel, como vai? Não, não, estou com a boca suja e as mãos também. – aquele X-tudo estava gorduroso demais, o bacon escorrendo pela mão, a maionese de alho melou tudo, embora delicioso, senti gases, à porta do banheiro (irei me limpar) nos encontramos, mas ela não hesitou:
- Pode abraçar, querido, tem problema não. Estou bem, que bom revê-lo.
- Eu é quem digo! E aí, me diz, o que está ocorrendo? Você por aqui.
- Um evento do nosso curso sobre pessoas com necessidades especiais.
- Que legal, e vai até quando?
- Até sábado.
- Ah. E, me fala Zabel, o que tem a dizer sobre essa conjuntura política aí, hein?
- Olha, difícil demais, os ânimos estão à flor da pele. Ninguém pode falar nada que já é acusado, rotulado e julgado. Imagina como vai ser daqui a alguns meses.
Receio no ar, noto que ela não se sentira confortável para continuar o assunto, aí engato:
- É verdade. Mas, veja, estou vestido – desde a semana passada – com esta cor.
- Ah, sério, ufa! Estamos do mesmo lado então. Deixa eu dizer! A senhora estava na fila para votar quando recebeu a amiga baixinha que saia da sala, bem velhinha também. Aí elas conversaram e a outra, a menor, simplesmente começou a gesticular como um fuzil, atirando em tudo e para todos os lados. Isso é um absurdo, olha só a que ponto chegamos. E pior, outra vez, a pessoa que simplesmente passou a vida defendendo a democracia, agora colocava em risco o futuro da gente simplesmente porque o ódio contaminava seu coração. Aonde vamos parar desse jeito?
Um gato branco com manchas pretas, sem rabo, passou por nós e ela mudou de conversa:
- Ah bichano sem futuro. Olha só como ele vai acompanhado a outra, uma moça o alimentava. Dei um carinho e agora me abandona, mas é traidor mesmo, a gente não pode confiar nessas criaturas, como são interesseiras! Fiz um carinho nele e agora já está dando em cima de outro, mas rapaz!
K. passou com aquela cara de baixa pressão pelo corredor perpendicular aos banheiros e me saudou. Estava com uma bolsa magenta e os olhos bem cansados.
- Vá lá, pode ir, até mais – despediu-se Zabel indignada com o gato ingrato que nos observava indiferentemente.
E K. e eu conversamos até o fim do expediente.

XIV


Fiz a lista e finalizei-a: dentre os itens mais importantes, frisei os mais relevantes para e pus na parede do quarto:

- ser responsável por aquilo que eu comprar (sobretudo com a prestação de serviços online)
- agir de acordo com o que meu instinto não diz (ele só me diz para ir lá e fazer)
- ser mais prático quando alguém me pergunta em quem eu votei nas últimas eleições e dizer: nele não
- tentar não levar demais peso na cabeça, porque não aguento nem nas costas (o peso)
- olhar para trás e perceber que eu e Joanne estamos mais longe um do outro do que o Everest de mim até o ponto, mas mesmo eu amo ela – (a amo) e estamos superando os limites
- inventar alguma coisas mágica para ganhar dinheiro (mágico) e deixar de ser liso (realidade)...

E, claro, “menos criar gatos”. Compartilhei no grupo dos amigos sem culotes. Não deveria explicar o nome do grupo nem vou.
Billie Kawasaki discordou do último item, “desumano, os bichinhos, cadê a injeção eletrônica no seu coração-de-palha?” E me disse como são fofos, estão em todos os lugares da internet, pensativos, poéticos ou peludos, eles possuem portabilidade e independência, alta aderência na traseira para saltos e torques de alta potência, as bolas de pelo da carenagem não afetam o custo-benefício, além de ficarem lustrosas como o aço, se bem lixados no petshop; é tudo mais simples que trocar buchas, rever amortecedores, trocar borrachas do limpador de para-brisa, veja, é só calibrar a caixinha de areia do cocô, limpar os filtros a cada três dias (depende do modelo, da raça), e você está pronto para dirigir, é, bem, ter um gato para dizer que é seu.
- E ele já vem emplacado? Billie não entendeu minha pergunta, olhou para cima pensativo, pôs a mão no queixo, apertou a vista, e mudei de assunto:
- Mas gatos não arranham sofás e são vilões da companhia?
- Sim, mas veja, você vai ter um amor de desempenho gatílico. Compare um camaro com um um gato. Pronto: não são quase nada diferentes. Tirando o preço, é óbvio.
- ?.
- !.
- .....
- : oi?
Cada coisa deveria estar no lugar, Billie, postei, e eu sei o que não quero. Que vida! Cansado, ainda tem gente digitando... Guardei o celular, não posso tornar minha vida pública assim, é vontade demais de ter a aprovação dos outros, vou mandar essas coisas só para Joanne.
É hora de caminhar. Deixei o tênis sujo para outro dia. Os pés suaram demais nos últimos tempos. Nervosismo, calor? Vai saber. Casa varrida, almoço pronto, e banheiros limpos. Sim, carregar o celular. “Saindo”. Deixei o portão aberto? O lixo já começou a acumular vermes? Onde estão meus óculos? O que vai acontecer daqui a poucos segundos se eu ficar sem internet por um tempinho só?
Parece-me que me falta algo emergente, por isso estou a cada segundo conectado, a cada instante, me procuro e faço buscas na internet, sei que não posso perder nada, nadinha mesmo, se não serei descoberto, impelido a aceitar as piores punições.
- Não existe nada pior no mundo do que você viver em expectativa constante sobre tudo – Rui falou arquejando. J. apressou o passo e Z. fez um breve comentário:
- Na verdade, não vivemos assim hoje em dia. O problema, espera eu respirar... o problema é... o problema é que estamos tão conscientes de como as coisas mudam tão rapidamente hoje em dia, e sempre foi assim na verdade... que não nos damos contas de verdade...
J. olhou mil vezes para ver Z. desembuchar, ficara vermelho, de tanto olhar para trás e gritou:
- Fale, Z.! Que coisa! Morra não, só diga.
- De que essas informações todas só servem para quem consegue armazená-las...
- Isso aí, cara, pode crer – afirmei impressionado com obviedades verdadeiras ditas numa caminhada.
O Rui sorriu de leve, e assentiu com a cabeça.
Preciso estar constantemente deslizando o dedo sobre a tela, procurando informações, filmes, séries e vídeos, livros, a cada segundo, abro e fecho as janelas, me sufoco, não consigo me distanciar desse Universo digital que me suga, me controla, me contorna, Z.
Quero o ócio e o silêncio de volta, murmura Rui, a paz sem janelas virtuais, não que sumiram, mas que parem de me abrir abismos.
E J. diz:
- Por que o Rui não para de falar como um escritor!?
- E você, J., por que não para de falar como um imbecil?
- Pessoal... cadê a saúde?
Todo esse conjunto de redes e fios virtuais age em mim como uma força estranha, sobre os corações desesperados age quando perdemos a noção de quem somos, a ânsia de algo novo, instantâneo, analisado, decodificando, ressignificado, uma descoberta, o furo, tudo que não for real, palpável, próximo, a internet das coisas, a sucessiva atualização dos mesmos assuntos e, no meio deles, as novidades ultrapassadas sem fim, nada nunca cessa.
- Está na hora de ir, fiquei cansado.
- Que tal sair?
“Cabarés”. Melhor ir para o bar, galera. Eu estou bem com minha namorada, sabe. E aí, J. e e Z.? Rui?
“Vamos lá então”, às oito.
Ainda faltam dois quilômetros, ai!
- O que os barcos transportam à noite nos oceanos do medo? – Rui me pergunta e não sei o que dizer. Estão marchando em mar e em terra rumo a Eldorado. Gillete agora tem fita lubrificante, Z. Roncos estomacais da indústria, J.
- E Rui, nada de escrever?
- Naquela jornada chocha, pretenciosa, não me encontrei em razão do pretexto que fora atribuído à narrativa no início: a pretensa análise de frases e as construções de mundos possíveis com a palavra. Afora isso, o restante do conto, do meio para o fim, foi apetite brutal, coisa de sexo proibido-moral-e-religião, exceto pedofilia.
“Você viu o assassinato brutal do cara maníaco bom de família que deu pizza antes?” – espera, estou ocupado, cortei J., quero dizer, pode falar – “e trocavam mensagens...”, macabraço isso aí “né”.
Estou vendo ali um banco robusto de alvenaria, com leve balanço na parte de trás, uma folga devido ao desgaste do tempo, para três caras suados nas axilas e pelo tórax inteiro, e um pouquinho acima do peso. Um segundo para respirar, por favor, pedi... Rui começou a me contar sobre suas últimas leituras.
- Sim, nos fale – concordamos.
- Então, o personagem esquelético caminha dentro do espírito da época como se fosse mudar a ordem do mundo, mas, no fundo, ele é só um garoto mimado pelos pais que se ressente do cuidado excessivo que lhe foi dado ao longo dos anos antes de ir para o internato e, lá, encontrar pessoas que lhe tiravam da zona de conforto umbilical, da região onde se pode ser o sujeito mais desprezível da natureza e ainda assim ser amado. Conheceu cigarros, álcool, proibidos, prostitutas.
- Continue.
- Sim, claro. Dentre elas, a misteriosa, a jovem inocentemente vadia, mas nenhuma o atraía, se ressentia, parecia não gostar de mulheres, afogado em cigarros e bebidas, delirava. Quando se deparou com um crime no internato, um roubo inspirado pelas necessidades mais nobres, seus amigos moralmente destruídos pela visão distorcida da caridade cristã, começaram a explorar a pobre alma desviada que se desencontrava consigo e com o sexo que lhe atribuíram ao corpo de nascimento. “Precisamos da sua boa-fé para aceitar uns favores”.
A história era tão longa que resolvi cortar uma parte (nem me lembro exatamente como tecia tão bem um exagero tão simples) para não dar a parecer que Rui era tão prolixo.
- “Não é mentira, é só um jeito de faltar com a verdade”, bem pontuado, disse J., e Rui continuou:
- Sim, abusivos, exageradamente maníacos, perseguindo, fisicamente e sexualmente aquele ladrão de hipocrisias, torturando-o, o jovem filhinho da mamãe hesitava em protegê-lo depois de ter consumado um caso de amor estranho com a vítima. Longe de si, do tempo da história, o herói renegado se sente completo, ignora o que houve naqueles períodos obscuros de nudez crua, sensual e libidinosa, de hipocrisia institucional, para contar com orgulho àqueles que amor sobre o que viveu e sobre o que nunca foi capaz de ser.
- Ezra.
- Fale, Z.
- “E a poesia?”, me perguntam, só porque comecei a me interessar por versos depois de conhecer uma garota que gostava de Neruda.
- Galera exagera. O que tem a dizer, Z.?
- Ela morreu, acabou.
- Para, a menina?
- Não, Ezra. Pior: o professor de inglês Kevin, sim, estou cursando online há seis meses, me disse ontem numa vídeo-aula que ninguém mais lia poesia por lá. Ora, nem nos EUA! Que golpe.
- O sonho de vida americano, amigo! O último livro de autoajuda que li não foi o suficiente para me recompor do estresse que perpassa meu tédio de viver. Por que as pessoas sorriem e se divertem lendo isso? Por que dizem ter melhorado e, sempre quando as vejo, percebo que estão desesperadas, mal resolvidas, esvaziadas? Na verdade, tem piorado, tem sido até difícil seguir aqueles modelos de felicidade absoluta, prática, que dizem atingirmos se seguirmos as recomendações de acordo com o nosso eu – e são tantas e invariáveis, rígidas – que não me apetece crer que seja tão fácil ser feliz impossivelmente dentro de regras encaixotantes, falaciosas e verdadeiras. É como disse Estefânio para mim certa vez:
- Ezra, a fórmula para se realizar é simples.
“Todo ano ele tinha um data marcada para tirar a própria vida”. Até hoje nunca tinha conseguido.
Saí de casa de sete e meia, Rui não foi, ficamos bêbado, J. e eu, e Z., malucaço, fez um escândalo. Subiu em cima da cadeira e disse que me amava como uma “bicha louca”, saltando e batendo os braços como as asas de uma borboleta. Que miséria... Joanne não sabe de nada...

XV


Perambulando, perambulado, ontem fiquei sem dormir porque estava vidrado no imenso vazio que é ter tanta informação, imagens desconexas, pessoas estranhas, casos improváveis, o espelho distorcido do reflexo que fazemos de nós mesmos, um nome, uma palavra, um grito.
Não pude notar o momento exato do sono, mas desmaiei, embora tenha resistido até à exaustão, comecei a criar diálogos comigo mesmo, vi-me num galpão, estava lá há muito tempo, não compreendi bem a sensação que se apoderava de mim, então despertei, desliguei os aparelhos e voltei a dormir profundamente.
Deixe-os livres, deixe-os pensarem.
Almondega congelada horrível. Calabresa podre do feijão. Enjoo. Macaxeira insossa e sem gosto. A fritadeira resolveu pregar uma peça comigo hoje. Que refeição memorável. Quando me esquecer de que comi, a lembrança descerá pelo meu esôfago e regurgitarei a memória. Aquele sabor seboso de novo. Hoje sairei para comer para afogar minhas mágoas. Não, para limpar o paladar. Quem sabe mesmo só para sair de casa.
Diga não.
K. me ligou perguntando se ia acontecer. Como adivinhar uma catástrofe sem vivê-la?
Não. Não vai.
Envolvi-me perigosamente com a morte. Procrastinei. As tarefas foram adiadas. O prazo sempre parece possível e, se adiasse, no meu cálculo impossível, nunca o ultrapassaria, nunca perderia as datas, jamais atrasaria as atividades, “estava em dia”. Sempre havia um dia após o outro, é claro, sempre havia tempo para depois.
Por que não descansar mais um pouco e aproveitar o fluir deste sentimento trágico da vida?
O silêncio foi incomodo, comecei a me descontrolar, porque não me senti aliviado por não ter feito nada, pelo contrário, fiquei cada vez mais angustiado e olhava para o amanhã com uma sensação de medo, a desesperança parecia nascer em mim, a desgraça ria na minha cara, percebi que não era diferente daqueles que tanto enojava, dos que agem conforme suas doenças e manias.
É por isso que vamos nos explodir, amigo! – disse-me Leo. E ninguém merece agir assim consigo mesmo: feito uma porcaria sem jeito, um grito moribundo, uma lesma nojenta, um bicho-preguiça humano do tamanho daquele que foi encontrado no Ceará.
Haja mal gosto na vida! Esta tarde quieta e isolado me exila. Sinto-me fora do todo, do que dizem fazermos parte. Sorrisos, sorrisos.
Para de pensar nisso. Para de pensar nisso. Para de pensar nisso. Se é se.
Mais de três semanas dormindo só depois das três e acordando depois das dez. Que buraco. Eu queria ser o Peluso: livre de pensar o que está em mim, fora dele.

XVI


Ruas vazias, fim de semana.
Mais um, errei pelas estradas, a vizinha esvaziava o movimento do bairro.
Às vezes, Zé Manuel faz um churrasco com os vizinhos mais chegados e ficam, das duas da tarde até às dez da noite comendo, bebendo Samanaú, cerveja com milho, sucos, fritando desde peixes, como tilápia, picanhas suínas, até mesmo abacaxis, legumes, queijos de coalho, o cheiro voava como uma seda pelo corpo e contagiava os pulmões ocos, lubrificando o paladar, incensando a alma. Pão, precisava lembrar, terminar a leitura depois de Osamu, pão, café – e louça suja. Assim que sai, o ipê estava cheio de flores amarelas, cintilante, alegre, cada botão estourara em delicadeza sobre cada ponto obscura da ruela de barro que lhe rodeava por baixo.
Olhei o sol acima da cidade, ao lado, o prédio branco com bordas vermelhas dava uma dimensão do tamanho do astro em comparação. O sol se erguia faraônico, uma bola gigante de basquete pendurada sobre o teto azul-celeste sobre nossas cabeças, descabelado, coroando de ouro a paisagem, matizando os tons de branco, azuis, verdes e cinzas. Senti-me num grande estúdio norteamericano, em meio à encenação da natureza, naquele quadro recortado do painel do carro que conduzia – alheio às tonturas do cotidiano, livre do ar recoberto de fuligem, poluição e quente, acima de tudo, quente, quase 40 graus no couro ardendo, nas pestanas, na língua e no suor frio que escorria do pescoço e por trás das orelhas.
Aquele círculo imenso dobrava-se pelo caminho, e as árvores, eu e tudo, se assemelhavam a pequenas formigas diante daquela luz – fumegante, incandescente – da qual não se podia fitar cara a cara. A poeira se remexia no painel, gente correndo no acostamento, o que ia comprar, o bar fechado, a praça vazia, as promoções nos postos se o pagamento for à vista, o preço da gasolina acima do limite viável para os consumidores arcarem com o prejuízo, os pneus roendo, a moto na contramão, dirigia-me à padaria.
Fui mal atendido. Nem liguei. Francês e carteira, pão, além desse negócio aqui. Quero esse daqui e esse daí. Cartão, sim, de crédito.
- Pois não.
- Disponha.
Joanne ficou trancada. Não foi eu, foi a porta.
Repreendi-a e doeu tanto. Por telefone, mais ainda. Quis dizer que a amava, mas a repreendi, “aquela bosta de almôndega congelada, não compre mais aquilo, por favor, quase vomitei, você já pensou demais em não comprar, agora faça”.
Descanse, criatura, descanse.
Estou sem cabeça depois de tanto beber. Tom, pense num cara bom. Pedi x-bacon para a janta e ele pedi x-egg.
- Preguiça, cara.
- Preguiça não, bicho, é vontade mesmo, vontade de se transformar.
- Em quê? Barata?
- Quê! Não, caçamba! Em cama.
- Engraçado, ouvi “acamado”. Mas pensei que você ia dizer borra.
- Borra?
- Sim, de café.
- Deixa quieto, macho. O pior ou a verdade é que não quero fazer nada, só ficar deitadão, relaxado, bocejando, comendo e bebendo, sem fazer nada, só de boas, sabe, como aqueles milionários – que abusam da vida só porque já deram a volta ao mundo, comeram de tudo, viram tudo, e me ajudam a ser feliz ocupando o cargo que ocupam.
- Sei. O meu sonho é me tornar um cara assim, “bem sucedido”, produtivo, um exemplo. Nada fácil, muito trabalho, trampo, quer dizer, tem trabalho, mas não é trabalho “trabalho”, entendeu. É coisa de quem usa mais a cabeça, inteligência artificial, saber mandar nos outros, botar criança no meio, vender cigarros, é, talvez, com alguma vontade, o desejo de mudar, fazer diferente, inventar algo, né? Aí eles merecem.
- Merecem. Sim, mas mesmo assim não é garantia. Quantos morreram sem conseguir porra nenhuma, mas foram geniais, inventaram coisas, abriram negócios estupendos, mas quebraram. Quebra mesmo, não é fácil não.
“E o governo só fode a gente, mano!” – o dono da trailer atirou, e a partir daí diminuímos o volume da conversa.
- Verdade, é o sobe e desce, lei das leis. Quer dizer assim que não é fácil não. Só trabalhar, inventar, ser o diferencial, aquilo que dá palestras e tal, mostrando o que sabe, ainda não é suficiente não.
- Claro que não, cara, eu já sabia disso, só não queria ter certeza. Precisa de um pouco mais, ou menos, sei lá, se eu soubesse já taria rico. Tem coisas que facilitam, um boom, sabe, um talento, a tal da ideia na caceta da cabeça e um lápis na mão, uma câmera, aquelas dicas lá, tipo, nascer filho de um cara que já tem uma fortuna que foi do pai, do avô, do bisavô, do tataravô e daí por diante. Ou se jogador de futebol, não aqueles lascados de quinta categoria que passam fome, mas, de preferência, de time Europeu.
- É!
- Embora tenha uns exemplos aí de gente que saiu do zero para recrutar os zeros. Steve Jobs, Bill Gates, Barack Obama. Não sei se estou certo quanto ao último, mas é por aí.
- Muitos?
- Muitos. Pera, depende. Muitos em relação a todos ou muitos em relação a poucos que conseguiram?
- É, depende.
- Vamos supor: 9 bilhões de pessoas, tem mais, claro.
- É, pode-se concluir que são poucos.
- Claro, poucos.
- E aí, já se sente mais rico agora? – Tom abriu um sorriso de pagodeiro galanteador, cheio de catchup e maionese de alho na barba, e respondeu cientificamente:
- Considerando a matemática, parece que não tem ninguém assim na minha família.
- Nem na minha.
- Vamos trabalhar.
- É isso.
- Tá na hora.
- Espera.
- Oi.
- Tem Igreja também, né.
- Tom.
- Oi.
- Homem de muita fé não cai nessa.
- Verdade.
- E político, Ezra?
- É preciso estar no sangue, Tom.
- Só a última, a última.
- Diz.
- E universidade?
- Ajuda ou atrapalha, depende do ponto de vista, mas, a meu ver próprio que vi no vídeo “investir ou travestir” ontem de manhã às onze horas, é melhor ganhar dinheiro dormindo.

XVII


Levantei tarde depois da ressaca e quis ver que ruído importuno era aquele na rua, depois do ipê amarelo (desta vez, os galhos estavam secos e sem flor).
Ao longe, bandeiras verdes e amarelas, e mais bandeiras do Brasil, e camisas de uma instituição brasileira que foi investigada nos últimos anos por corrupção. Esse povo amarelo ainda vai rasgar a cartilha.
Frases feitas com bumbuns à mostra, filosofia abundantemente brasileira.
O que tem haver a legenda da foto com a foto e a foto com tudo e o restante com os demais?  Haja bagunça. Voltei para casa desanimado e menos patriota por causa daquilo... fui ler poesia, porque é na melancolia que encontro o consolo para as coisas alegres da vida. De repente, o celular vibrou, um pedido de socorro de longe, não mais que de repente, me revirou.
Fique horas mal quando recebi a notícia. Tentei falar com amigos próximos, arrecadar alguma grana. Pedrão não me ajudou, o que era certo, uma vez que ele vive de discursos vazios e metafísicas ocas. Z. e K. não estavam por perto e não me responderam nada. Tive de recorrer aos colegas das antigas, na época da miséria, aqueles que me acompanharam nos botecos dos anos juvenis.
Tínhamos poucos dias, mas, depois de campanhas nas redes sociais, apesar de tudo que acontece lá, conseguimos arranjar dinheiro para que sua mãe fosse levada para terra de origem de todos nós, África.
As embaixadas negaram ajuda, mas conseguimos, W., irmão de outro ventre, que os baobás a fecundem.
Fui dormir tranquilo.
Baltasar gravou áudios inaudíveis. Fiquei sabendo que Nikolau se matou por causa do que vai acontecer daqui a pouco. Tava depressivo há dias, disse aos amigos, falou sobre a falta de memória da galera que não se lembra nem do que tomou no café da manhã, e que não viveria para ver o que estava por vir daqui a pouco.
Encontrou-se a resposta para o suicídio ou o suicídio como resposta?

XVIII


Esqueci, meu Deus, esqueci aquela palavra, a bendita, a danada, quase escorregou como a resposta que não se dá no calor das discussões, e nos calamos. Cabeça de bêbado é osso. Como se diz, a palavra, quase como terra, mas lembra água, terroso, lama, submundo, e iluminação. No meio dela, sensorialmente, existe pimenta, contudo, se formos levar ao pé da letra, poderíamos supor que fosse poeira, migalha, animalesco, mas a palavra exata é quase como indústria, fábrica, apesar de não significar produção fabril em linha de montagem, desvio de rotina, mecânico, a palavra é quase o mesmo que desnível, bem, só se o ponto crucial do que eu ia dizer se relacionasse com a palavra postagem, recado, vírus, é quase isso, bom, viralizar não, miséria, espalhar, como posso ser mais claro, estou quase me perdendo, mas sei que é ideia, não como ideologia, coisa mais profunda do qual não se aprofundam os doutos, o termo se liga a crença, porém, sem conotação religiosa, soando quase como intolerância, denotando condenação quando se refere a gastos e liberdade quando se refere a consumo, que palavra difícil, Senhor, lembra doçura, entretanto, terrível, exceção, se relaciona com mentira a palavra distante, aquela, estava na ponta da língua, longe, não é um verbo, como sugar, tampouco, espera, tampouco não é verbo, é advérbio, entretanto, a palavra conversa bem com ela, dialoga com ganhar se não for no sentido irônico, é tipo radiação, ondas, argumento, tensão, não é bom por aí a morfologia dela, a palavra, embora se assemelhe a lugar, família, espécie de arranjo territorial, recinto, reduto, região, tem gente que a confunde com luar, porque lá existe um espaço, um chão, semelhanças com a Terra, e já outras pensam que ela pode ser definida como fita métrica, receptor, sucesso, ausência – dizem os desatentos, pois a falta tem a cara do vazio, o corpo da memória, a fome do obeso, sempre há lugar para mais, por isso a palavra não me vem à boca diretamente, pensando bem, boca não é ela, está em mim, borbulhando, eu sei, estou prestes a vocalizá-la, vibrando-a, como é difícil dizê-la quando se esquece, no breve movimento de recordá-la, fissura, redondo, sim, a forma de uma boca, mas esta abre e fecha, possui dentes, profissão, ora, falar é para ser ouvido, se bem que nem todos ouvem, por que não tinha pensado nisso, retórica, agora a palavra se aproxima cada vez mais de minha consciência, raio, perímetro, causa, espada bretã, não, viajei, de origem ou almofada indiana, mas fofa ela não é, aliás, todas são, mas não a palavra, implica erro, humanidade, potência, ai, se eu pudesse dizê-la mais uma vez só, solidão, sim, máfia, bem dissemelhante na verdade, a história, as engrenagens sussurram afirmando que é exploração, não obstante, é minimamente impossível a analogia, bastar calcular dois mais dois, procurar a raiz quadrada de dois mil e trezentos, prejuízo, uma vez que se caracteriza também como benefício, reciprocidade, teia, rede, virtual e real, de balanço e de dados, que palavra perturbadora, imarcescível, divino, hediondo, nos dias de chuva, o sentido muda ou mudo, mas aqui não chove, logo descarto essa palavra, de tamanho e formato similar ao de uma curva de grade peculiar, giro não, volteio, sede, vontade de beber água e mascar, chiclete, carreta furacão, que palavra notável essa que me foge, ah, mapa, sim, caminho, eu acho que segredo, aquilo que ninguém compartilha para ninguém até que se diga o contrário, hipocrisia, beleza, não, são tantas, não há precisão, algo como isto, definível, a palavra estoura como mel na boca, já sinto o sabor dela sendo pronunciada no ar, plástico, flexível, essência, mais próximo a ela do que existência só emocional, poxa, que palavra radicante! – desisto.
Foi, cabo Calebe, semana passada, ela fez.
Ah, me lembrei: histerectomia.  
Ontem disse que ia fazer, ontem. Ontem sempre é ontem, por isso, não fez.
Rui, não rui, Rui. “Belo poeta contemporâneo és tu, Pi, dó”. Para além de se cansar dos trocadilhos, ele parou de escrever o romance. Iniciou dez vezes, nunca passava dos primeiros capítulos, trinta e poucas páginas, e parou. A décima primeira ficou só no peito. Falei com Rui, mas ele não quis mais saber de escrita, “coisa de defunto”, “QI dos pesados”. A última história decente escrita aqui foi há mais de vinte ou menos, também não sei de tudo, me disse. Só querem viajar, coisas de vampiros, bruxarias, alquimistas, nada de vida, coisa daqui, ao nosso redor, os escritores estão desorientados com essa noia de mercado.
O último personagem de Rui foi uma senhora aposentada que abordava pessoas na rua em frente ao banco. Ela diz algo enigmático, profético, e depois some. A pessoa vive aquilo como se estivesse predestinada e, desesperada com as coincidências do insólito, a ausência da sanidade, as ligações consanguíneas bestiais, nunca mais ignora qualquer senhora que apareça e peça ajuda, porque acredita que pode ser salvo daquela maldição.
À beira do colapso, a cena se repete e não se consuma, loop. Rui desistiu, evidente, pois ficara nevrálgico demais, difícil de encaminhar, conduzi-la.
O aconselhei, Rui, olhe para o passado, veja Machado, e o que dizer de Pompeia, além de Raquel, Clarice, o que essa galera fazia? Suave, coisa de outro mundo, mas coisa daqui. Além daquelas seis propostas para o próximo milênio de Calvino, que me esqueci, mas são importantes. Apontando para cabeça e, em seguida, para meu peito, trazer daí para cá, sem superpoderes, sem personagens asiáticos abrasileirados com tendências juvenis. Repara teu tempo, o que vê? “Ezra, você não fuma, não sabe o que sinto”.
Aquela história lá sobre a infância que não lembra era promissora, mas, se narrar é lembrar, como contá-la? “Você já leu Infância de Graciliano? Não, né, então não sabe como me sinto em relação a isso”. Se liga no João Valério, quem sabe ele não te sirva de exemplo para parar de pensar em literatura fantástica de quinta. “Você não desistiu de Borges, não sabe o que é se sentir impotente”, droga! Cara impossível.
Ocupado, K., ligue depois.
Quantos documentários no-sense serão veiculados nesta semana? Alienígenas antigos até dá para descer, saber as histórias dos meus irmão, mas o do Pezão e o do Thunder Caipira, e este sobre o ininteligível Tesla. “Vamos mudar o mundo com esta descoberta” – o outro sujeito olha com uma cara discreta para esse outro que acabara de fazer uma afirmação revolucionária para ele e, de repente, aquele último balança a cabeça assentindo, hirtamente, fazendo olhinhos de confiança e determinação, descaradamente achando ridículo por dentro aquela besteira toda, porque, obviamente, faz parte do roteiro prender a atenção do telespectador até à exaustão, mas aí, antes que ele morra de rir se esgoelando, “que lixo de história é essa, Bruce, mudar o mundo, e só passeando, sem estudar, que patetice”, cortam o vídeo para a próxima cena.
“As raízes da...
Quantas cobranças fiz durante o dia, ouço uma voz no beco. Quem será que grita a esta hora?
“O alfabeto...
“Redescubra...
“Mundo louco...
“O último episódio da série...”
Chicago é a terceira maior cidade dos EUA. Vibration on Slim Body Energy Impact, compre já, ligue 0800... anotar aqui antes que me lembre: não preciso disso aí.
“Ezra, novo jogo da From”, em anexo, a foto dum ninja com seu braço mecânico multiuso. O psicólogo Barbante (adorava cheirar barbante com odor de cabra quando era moleque) me falou dos novos lançamentos. Adorei! Dark Souls é uma espécie de metáfora sombria sobre nosso tempo de vida, o lugar onde se denomina o sentimento místico da morte.
A mecânica alma-recompensa, os dragões, os feiticeiros (prefiro cavaleiros, são mais diretos), pura mitologia, coisa de Freud, metempsicose, pense em estudá-los, como Blood, lovecraftiano, que é como damos vida aos pesadelos, e nos convencemos de que o desespero de sermos afligidos pelo inconsciente nunca nos abandona até a morte, a transfiguração em lesma-cósmica, a depender do final.
A boneca é sinistra, claro.
- Vocês viram, não, para! Cara, é coisa demais para ver.
Conversa fiada de “vocês viram”, já está virando uma paranoia sem fim isso aí de ver, ver, mas não ver nada. Cadê o filtro de Sócrates? Não quero ver mais nada nem irei ver, sei que não posso fazer nada além do que me é cabível, conforme os deveres apresentados pelo estatuto que não sei o nome, sou apenas um pobre e infeliz sujeito que está sujeito às sujeições dos sujeitos que me sujeitam.
Como vou acompanhar todas as votações do congresso e ainda ter minha vida? É coisa demais. Tenho acompanhar séries, ligar todos os dias para Joanne, me encontrar com a rapaziada, procurar filmes para me desenterrar da vida, livros, ainda tenho de acompanhar, vejam o absurdo, todo o trabalho daqueles que devem trabalhar – em prol do país, ou seja, que diabos eles estão fazendo para amedrontar, todos os dias, o povo?
Absolutamente.
A moto estruge – como um avião retumbante, nalgum lugar da BR acima do ipê amarelo, e o berreiro do vrum se espalha, ah, menos compressões por segundo, o efeito doppler é música pra os zumbidos.
E em relação à sexualidade de Sam e Frodo, e de Dumbledore? James Bond é, em Operação Skyfall, dada as devidas proporções, bi. Vai nessa, Rui. “Fui”.

XIX


Saudades, saudades. Toda vez que sinto saudades, é estranho, sinto algo me pinicando como formigas na... barriga.
Jim se levantou. Estava internado há seis dias. Olhou pela janela do apartamento onde esteve – meio mal – ardendo, a gemer, e viu o mar. A vista engrossou, de camisola azul, tremeu, a brisa reanimou suas sinapses, aquela massa movente, densa, de tonalidade azul, verde-turquesa, os biquínis rasgam a palidez dos glúteos.
O arroubo juvenil o fez arrotar.
E foi de longe, distraído do que a vida pode ser, via aquela, aquela, a que o faria descer correndo pelos corredores do hospital, desajeitadamente, sem mesmo dar satisfação a ninguém, imagina.
Ele se despluga dos fios, dos soros e começa o trote.
Vai, nos primeiros metros, médicos, enfermeiros, o guarda tentou segurá-lo, quase o despe, mas não o detém. Jim se esquiva profissionalmente dos censores e rompe as portas de saída de sua prisão mental.
“Que maluco!” – “Isso é delírio, peguem-no!”.
Corre, escorrega.
Desliza entre as mãos que o sufocariam mais uma vez, se esquivando como portas giratórias, amanteigado, liso.
Respira, mãos nos joelhos, ofega, está perto.
Está livre, enfim. E salta!
Ei, ei, é você, grita, tresloucado, para aquela morena-cor-de-púrpura, que o ouve e não crê no que vê, desarmada, até ele se lançar aos braços dela, animalescamente, antes que grite, implore, peça socorro, a beija.
A resistência se tornou resiliência e, paulatinamente, Jim foi correspondido, sendo pressionado contra ela.
Vão acudi-la, mas parece encantada, acena com a mão para afastar os curiosos, diz que seu namorado acabara de sair da UTI, ele é quente, e que não precisariam defendê-la do seu “amor ressuscitado”, e eles se atracam loucamente.
Perna enraçada, e os braços percorrendo os corpos como andaimes, para cima e para baixo.
Os lábios ardentes misturam temperaturas açucaradas e marítimas, frias e quentes, o couro se atiça, os pelos fremem, enquanto os olhos fechados pulsam, como os órgãos íntimos se friccionam, voláteis, pulsando um no outro, e o casal instantâneo inicia o lap-dance litorâneo, desinibido, lentamente, aos cicios dos estalos das línguas nos dentes.
Ui, ela sussurra.
Hum, ele segura.
A camisola azul é arrancada e revoa pelos céus.
O pôr-do-sol cai sobre as costas do prédio, e desce sobre eles uma fina luz mórbida que misturas os tons de cinza dos amantes.
Ele está de cueca, não tinha percebido, faltava-lhe memória, que uma enfermeira o levara para o banheiro à noite e pediu que ele vestisse a cueca depois de ir dormir, porque, no outro dia, provavelmente iria sair, ter alta, ter com a família, os amigos.
Jim e a morena misteriosa de biquíni verde-turquesa lançam-se em direção ao mar, agarrados, bufando, insaciados, apertando-se, rábidos, loucos para se devorarem, dois desconhecidos que se descobriram no calor escaldante da paixão de quem enlouqueceu depois de quase morrer todo entubado e se jogara ali, nos braços de um certo alguém, cupidamente.
“Liguem para família, ele fugiu”.
- Ezra, viu a notícia no jornal?
- Não, o que foi?
- Jilberto Imir, o Jim, teu irmão, morreu afogado na praia.
...
- Meus pêsames.
...
- O corpo foi encontrado hoje à tarde, lá pelas cinco e meia, por pescadores da região. Parece que ele fugiu do hospital – em estado de delirium tremens, totalmente fora de si.
...
- Foi encontrado com uma bela mulher que, disseram os relatos, ele atacara e a levara para o mar, pensaram que era briga de casal, não se meteram. Sufocando-a em alto mar, depois morre afogado. Tinha a força dum animal gigantesco, não conseguiram segurá-lo, foi mais rápido.
Mais um ano sem ele, o parlapatão que se tornara penseroso demais, assustado como aquele Autorretrato de Gustave Courbet. Ele tinha o cabelo bem curto, e a barba um tanto mais rala no queixo. De resto, se aparentava muito.
Jim não tinha personalidade, como se diz, dele própria, talvez. Imitava demais os outros e acabou se ferrando depois de começar a beber – quase diariamente, e a usar drogas. Por que não o censurei quando pude? Ele personificava a liberdade que nunca tive, aquela coragem mentirosa que contamos para nós mesmos quando queremos nos convencer de que ainda não somos quem somos. Seus olhos constantemente vermelhos, “ligadões”, pediam ajuda, apelavam, apesar de não se mostrarem amigáveis nenhuma vez, susceptíveis, dispostos a recebem alguém, algo, qualquer coisa que o reerguesse, havia piedade neles. A escassez que rodeava aquele apartamento minúsculo, cheio de risquinhos nas paredes, buraquinhos no teto, de cerâmica estranha, cor de marrom-cocô, do lado do sol, a feira livre ao lado da janela de seu cubículo, tudo isso junto e misturado, as leituras incompressíveis de Kant, que ele relutava em compreender, só podiam deixá-lo deveras perturbado. Aquelas pernas flácidas, as estrias na cintura, a ausência de exercícios físicos, os lábios secos e murchos, a queda de cabelo precoce, as olheiras foscas, escurecidas pelas sucessivas noites de vigília maluca, denunciavam a falta de fé, a insônia constante causada pelos vendavais (ele me dizia que era um som agudo e estridente que soava de vez em quando nos ouvidos), os entulhos no qual ele se aninhava, louças, roupas, livros e cadernos. As várias mensagens dele me fazem lembrar de como sofria infernalmente. Segundo ele, “a vida é um equívoco, embora seja extremamente útil”, “mas ela, por isso mesmo, por ser um erro, é a pior coisa que se pode dar a um ser humano”, “antes, nos dessem, seja lá quem for, a existência como dádiva da vida e não como contraponto da morte”, frases como essas, e outras, “eu estou tão chapado que fiquei três horas tentando lembrar do meu próprio nome, Ezra”. A última sentença foi a mais triste: “o homem é um fetiche preenchendo o apavorante abismo que é ele próprio” e a creditou: Terry Eagleton, “a-deus”.
Guardo até hoje seu desespero comigo, palavra a palavra.
Nunca me esquecerei de quando Jim era bem pequeno e só dormia se mamãe lhe desse um beijo na testa. Esperneava se ela não o fizesse, até recebê-lo, quando pai ia dormir, e depois descansava feito um anjinho balofo. Talvez isso o tenha matado. A ausência, em verdade, a falta.
Sua mulher sumiu.

XX


Quando Ramon Massa veio me procurar, estava mal. Notava-se pelo lábio contraído e pelas bochechas inchadas de quem prendera o ar nos pulmões por anos.
A tinha deixado só, ao relento, não sabia o que era amar alguém, ter de se dedicar a uma pessoa, um indivíduo, compartilhar segredos, dúvidas, medos... contas.
Apesar do mau hálito, que não me incomodara pela distância e pela suavidade do relato de alguém arrependido por ter sido cúmplice da própria ignorância, ouvi-o confessar-me, amansado: “eu a deixei porque aprendi tarde demais como meu pai era idiota com minha mãe. Ele não a respeitava, fui ver depois, quando perdi a minha mulher, que me ajudou a prestar concurso, a buscar aprender coisas novas, a me sentir um novo homem, mas eu não lhe dava valor, eu era mesquinho, bem como meu pai com minha mãe, querendo me impor a qualquer custo, sem ter razão nenhuma, só por capricho.
Foi ela que me trouxe até aqui, a minha ex-mulher, por isso a agradeço bastante, estamos separados há sete meses, mas às vezes ficamos, eu fiquei com outras no passado, uma ou duas, logo depois de terminarmos, mas ela me disse que não ficou com ninguém, pelo menos, até aonde sei, e parei de me aventurar. Se eu pudesse, desfaria tudo de novo. Seria outro homem, outra pessoa, outro sujeito. Sabe, a gente só sabe o valor das coisas quando perde, parece besteira, né não, mas é a mais pura verdade.
Ela sempre foi fiel a mim, mesmo depois de eu deixá-la, abandoná-la, ela queria ficar comigo, e eu não conseguia ver o quanto eu fui estúpido como meu pai com minha mãe. Sempre abusava dela, eu o admirava, porque era a referência que eu tinha, achava-o o máximo, o herói, contudo, agora o vejo verdadeiramente como sempre foi, e eu, na minha ingenuidade, não percebia: um homem bruto, ríspido, insensível, coisa de quem aprendeu na porrada e esse será seu método durante o restante da vida.
Mas eu preciso de ajuda, sabe, não me sinto bem ainda, estou me adaptando, revendo meus conceitos, já visitei psicólogos e, aos poucos, estou reavivando meu casamento. Queria só te dizer isso”.
Raras vezes Ramon se abria assim comigo. Disse-lhe:
- Isso é péché, amigo.
- O quê?
- Piolho na cabeça. Mas sara.
Aceitei, por causa disso, o centésimo pedido para ir jantar, claro, depois disso, ombro amigo, e, se a massa estivesse crua, eu dava um jeitinho. Ele saiu mais cedo, e dei-lhe adeus.
Na hora do café, parei-o, e aí, amigo. Acabei me lembrando do último tópico da velha conversa milenar entre o ovo e a galinha, óbvio que tive de inquiri-lo:
- Adriano, me diz uma coisa, por que você não lê livros em primeira pessoa?
- Sei lá, parece que o autor não tem o que dizer e só quer só contar a vida dele e pronto. “Ei, minha vida é tão interessante que precisa ser contado, ora, estão esperando o que para me ler?”, é quase isso.
- Mas você sabe que, mesmo vida-vida, a ficção é a ficção, mesmo que seja autobiográfica, né?
- Eu sei, sim, sei. Ah, para não dizer que estou sendo indômito, eu até gostei de Memórias Póstumas, o livro é bem simples (pensei na hora, simples?), quero dizer, é a vida dum cara doente, digamos, morto, a dele próprio, do autor, vivo, como um pretexto para, “ah, vou falar agora da minha vida, romanceá-la como se estivesse morto”, mas, no caso de Machado, a forma como ele conta é que conta, sacou? Aí faz diferença, apesar de ser “autobiográfico”, curti.
- Entendo. Mas você gosta mesmo de ler o quê?
- Eu? Sim, tipo, Stephen...
- Hero?
- Não, King. Li-o demais. Gosto de como ele conta as histórias e, em poucas páginas, no início, consegue ambientar bem os romances, você vê e, além do mais, se encontra fácil, rapidinho lendo ele.
- Legal. E o que mais te atrai nele?
- São os relatos, a pegada do terror, as sacadas tensas, aquele ritmo banal e sinistro que ronda a narrativa, o teor sarcástico poroso, aquela coisa de trocentas páginas que, com o tempo, vai ficando repetitivo e tal, o cara escreve como profissional, tem prazos, mas, por outro lado, ainda que as exigências o sufoquem, ele consegue colocar algumas reviravoltas, como o cara da bomba de um romance que King destruiu praticamente todo o mundo, aí ficou monótono depois de 400 páginas, então o cara da bomba, que vivia nas comunidades sobreviventes, foi lá e deu mais gás para obra, tipo assim, “não tem mais conflito nenhum depois de o mundo ser praticamente dizimado, por que não agitar isto aqui com um terrorista”, e boom! Aí os conflitos voltaram e o carro pegou no tranco.
- Poxa, são histórias profundas.
- Né!
- Tenho de concordar que não são nada autobiográficas, pelos menos em tese.
- Ô, claro, não são. Sim, eu tô pensando em escrever um romance também, quem sabe, tempinho ou outro ocioso aqui, acolá. Pensei até em ambientá-lo na época do descobrimento, coisa de caravelas, índios, a invasão toda. Naquele período dos jesuítas, aí eu faria uma narrativa paralela, de um grupo que se desviou do bando, tipo romance policial, Zumbi dos palmares, eu contaria a história a partir daí.
- Poxa, massa pacas! Adriano, esse cara é formado mesmo. Vamos conversando. Gosto das tuas opiniões a respeito das histórias que lê, você tem um estilo, digamos, único de comentar os livros.
- Valeu, Ezra.
- Nos vemos lá.
Pego um saco de pedras e coloco num papel. Deveria jogar-me dali, depois de comer macarrão integral com linguiça e queijo parmesão ralado, salpicado de batatinhas-palha.
Vazaram, há dois minutos, o vídeo da orgia de Jó D., o empresário honesto, com meia dúzias de mulheres mamando nas tetas do... poder. Semana retrasada, há dois minutos.
“Privilégio” de quem retira “privilégios”.
O amor é lindo. Bem-vindo à república, senhor carinha-de-santo-moralista-de-bundas.
Equilibravam bem as taças as moças.
O que não vemos, o que não vemos, o que está por trás de toda encenação que é a política, os números, a vida, e as investigações... o que é revelado de fato, sem filtro, sem tiroteio, e não revelado apenas como indício do que é verdadeiro, suspiro dos fatos que soltam na impressa para darem impressão de que tudo está sendo julgado, analisado, quitado, é o rastejo de uma ideia vaga de ordem e progresso que propagam heroicamente para dizerem que as coisas funcionam bem e estamos punindo os injustos, os contraventores, e as instituições, idôneas, estão cumprindo belamente seus papéis.
Apago a luz, canso de pensar no que supostamente vejo, quero dizer, desligo o interruptor, ou melhor, ativo-o, quem sabe, aperto-o na direção que indica luz apagada, pronto.
Deitado na escuridão, medram-se ideias na aridez incipiente deste lugar, confundem-se auroras, o grito é curto.
Espera, não estou bem da cuca, é um dorzinha de cabeça oriunda de uns cassetetes, o argumento da maioria. Olhei o relógio e perdi a hora, a noção das coisas, o espírito do tempo. Quem nos via, há dez anos, jamais suspeitaria de que vivêssemos numa realidade tão distópica, organoléptica, e incongruente. “Brincadeira, o que fala, é besteira, mermão, quem vai ligar para isso?” – nos diziam os desconfiados que compactuavam com aquilo secretamente, fosse por causa de Igreja, do ódio, da intolerância ou até mesmo do racismo. Outros, de propósito, se alegravam, “o fim das feministas paguei pra ver”.
Foi de súbito, o portão que se abre na casa do vizinho troou e – do nosso lado, uma panela que cai na cozinha sob forte pressão dos ventos do norte anunciou o pleito. Roubaram-me o horizonte, aquilo que miramos para sorrir, às vezes, em terrenos baldios, para mijar, ou apenas meditar sobre o que há de ser, sobre o que há de ser, esta amanhã. K. e meus amigos se revelariam ou seriam descobertos. Pagamos pra ver. Domingo. A terra palpita. Nalgum lugar, a criança tropeça e a vida se ergue. As ruas estão silenciosas e levemente vazias. O rumor é sincero. A gritaria se vai à medida que a camionete se afasta. As nuvens no céu ocultam.
Abafados, não definhando, latejamos. Antes de sair, o avistei novamente, próximo ao pé de ninho, e o interpelei:
- Adriano, ei! Queria te dizer mais cedo, mas só te vi agora. Sim, era só que todas as histórias de todas as pessoas são interessantes.
- Sério?
- Sim, só falta existir alguém que as conte e mostre como são intricadas as relações humanas mais simples, sinceras e humildes. Para que pudesse convencê-lo, acrescentei: inclusive a sua. Daria um belo romance.
- É, talvez você tenha razão. Eu seria uma espécie única de sujeito não-sujeito na cabeça de alguém que foi engolido por uma criatura vindo do céu para tentar existir entre os terráqueos, tentar uni-los como Bob Marley, só que sem as armas nos cases e as utopias dos borós. Aí eu iria pregar uma filosofia verdadeira para além do bem e do mal, tal qual, e todos se curvariam diante de mim, quer dizer, dele – e nenhum homem se sujeitaria a outro, somente ao Ser – que eu seria diante deles. Estilo policial.
- Pois é. Que vida!

XXI


“E que livro você recomenda que eu leia?”, como assim, não entendi qual foi a de Ramon. “Um livro curto, para eu crescer, ser uma pessoa melhor, assim, sei lá, diz aí”. Leia Édipo o rei, e você cresce rapidinho. “Como?” – Freud explica. Ramon saiu com o seu prato e se sentou na mesinha ao fundo da sala, perto da copa, fazendo anotações no celular. “Obrigado!”.
O cheiro de alface com feijão e frango à milanesa dourava a sala. Já reparou? Ao invés de lembrar de toda minha infância e viajar através de um tempo distorcido, como fazem os escritores, apenas salivei.
Se bem que eu poderia ter ido além disso: lembrado de que não tive uma infância fácil, comia pouco porque tinha pouco, e era tão desprezado quanto o cachorro sarnento do vizinho.
Olhando bem para esse feijão, até que brilha, puseram cebola nele, e batatas, além de chuchu, porque o caldo está consistente. Quando comecei a aprender sobre feijões, percebi que é uma ciência.
Um pedreiro foi meu mentor e me disse tudo sobre cozinhar feijões. Zé Bigodão, meu velho. A sua técnica englobava: sabor, gostosura e candura. Com prego, com mortadela, sem legumes, o caldo fino, o caldo grosso, as texturas, tudo.
A lembrança é como aquele relógio suíço de mais de três milhões: ou você não se lembra ou não tem dinheiro para comprar. Mas os mecanismos são complexos, minúsculos, sensíveis às variações do próprio tempo. Fiquei aéreo.
Aprender a cozinhar feijões foi bom, senti-me útil, vi que cozinhar significava me libertar: uma nova fase, alquimia qualificada, sobrevivência animal. Quando o meu primeiro feijão ficou bom e fui correndo mostrar para o Zé – que provou, fez carinha, beliscou o caldo, lambeu a colher e disse:
- Na medida! – e como um palhaço cheia de marra, começou a gargalhar que nem louco, dizendo: iça! Tinha aprendido, é isso.
Vivi sozinho demais na época do martírio universitário... águas passadas, roupas engomadas!
Agora, estava com umas bolachas na mão e um café morno. Almoçavam em mesas brancas de plástico.
À luz pálida de led da sala, ouvi burburinhos estranhos, como “Ezra enlouqueceu, não fala em outra coisa”, “talvez tenha perdido o juízo durante a madrugada”, conversar besteira, eu disse.
Perto da copa, fazendo uma torrada com mortadela (palavra política brasileira), Adriano me disse que estava lendo sobre um livro no qual o personagem teve a vida comparada “à bunda de uma rodoviária suja”.
- Foi o maior xingamento que já ouvi na vida.
- Cara, muito feio mesmo.
- É.
- E se eu te disser um pior?
- Home, diz aí.
- Esquecei, depois eu digo.
Estive parado nos últimos dias, sem reação, Rui parou de escrever, Adolfo tomou um banho, Jaules fez tratamento lexical para economizar palavras e piadas. Parecia infinito aquele mês de outubro.
- Quem foi que mexeu no meu caneco?
Ganhei meia hora de piadas por causa dessa pergunta.
“Ih, o caneco do Ezra sumiu!”, rapaz, “cuida do teu caneco, senão os outros...”.
Novidade. O político levou facada no processo e ainda disseram que ele “iria ganhar por causa disso”, achei estranho, até porque se ganha com propostas, ou deveria ser assim ... o juiz liberou mensagens e mandatos de prisão no pico eleitoral, as fakes explodiam, simplesmente se fez de tudo que se faria num plano bem maligno envolvendo ratos e poeira radioativa, além de agentes da máfia sarcásticos e vídeos de mulheres com armas matando outras mulheres que se dizem feministas.  
Mas os convertidos já tinha se decididos e só esperávamos acontecer o que está previsto desde sempre.
O mesmo papo: cores, nação, religião, vazios. Veja o passado aí na internet. Está do mesmo jeitinho. O problema é que o país formou uma geração de analfabetos porque os alunos sem condições para serem aprovados foram sendo, como se diz, “empurrados com a barriga” para os próximos anos sem terem nenhuma condição de avançarem. Saudoso Jarel me disse que, quando professor duma escola pública, foi obrigado a promover os alunos do segundo ano do médio para o terceiro, mesmo sem terem aprendido nada de física, e o que ele respondeu para os colegas foi:
- Por que não passamos as cadeiras da sala do segundo ano para a sala do terceiro também? Uma vez que elas assistiram às aulas, deveriam ter o mérito reconhecido e, também, receber a aprovação.
O resultado é esse aí: uma geração de gente ignorante com ensino médio. Verdade, pontou J., desde a ditadura militar, que o ensino público decaiu. Aliás, lembrou K., nunca alavancou, falar verdade.
Todos iriam viajar naquele dia. Aproveitei a deixa. Fomos para o interior, visitar o bom Maléu, pai de Joanne.
Os resultados sairiam às 19:00 e chegaríamos mais cedo para os vinhos e as comidas.
Bebemos e confraternizamos até o horário. Entre sonos, diálogos como “vai mesmo”, “não sei”, “será”, “e depois”, só certezas certamente incertas. Ramon queria cozinhar, mas pedimos pizza, ora, “não se canse, amigo”.
- É verdade, Ramon, você veio até aqui para cozinhar?
- É melhor não sair de casa.
- É, pode ter briga generalizada.
- Vixe, até imagino o povo se batendo, jogando pedras, até porrada mesmo geral.
- Pede isso aí.
Comíamos pizza na apreensão de que nada aconteceria na hora da apuração dos votos. Só faltava o Acre.
Maléu estava abatido, e olhávamos para a TV com a certeza de que tudo daria errado. Não havia mais jeito.
- Maléu, esse vizinho que está gritando é aquele que bate na mulher?
- É, Ezra.
- E ele vai votar no coiso né, só pode, porque estou ouvindo daqui uma defesa ferrenha dele dizendo que o cara é o melhor e mais “preparado”.
- Esse é o perfil, menino, do eleitorado da criatura, gente que bate violentamente nos outros, a maioria pensa como ele, poucos sabem disso, mas o danado tomou conta do ódio e dividiu como quis pra nós.
Paramos a prosa puramente política, porque parece que a notícia saiu.
Inacreditável, sim, mas previsível, apesar de sentirmos que não, parece que já tava definido.
Sim, foi ele, foi eleito, mais um pedaço de pizza, por favor, Maléu, já que tudo no Brasil termina assim. Ramon Massa Crua saltou do sofá e disse:
- O discurso do presidente é perigoso, viu aí, o que ele comentou sobre as perseguições? E o projeto Escola Sem Juízo? Estão avançando as deformas. O cara se chamou de despreparado em rede nacional.
- Sobre perseguições, nem me fala, bicho. Uma tal deputada postou nas redes sociais uma espécie de “caças às bruxas” para os professores, pedindo para alunos gravarem aulas, denunciarem “doutrinação”. O clima tá tenso e nem as universidades ficaram imunes. O que vai ter de aluno ensandecido correndo atrás de professor...
Em nosso tempo, os assuntos se sobrepõem uns aos outros de tal forma absurda que, às vezes, não temos noção para que lado virar, sobre qual pauta discutir, por que eles usam essa estratégia de “tiro para todo lado” para dispersar tanto nossa atenção para aquilo que é importante?
E Rui diz:
- E o pior é que os fanáticos não veem isso. Para eles, é tudo flores.
- Mas isso é porque estão na fase de lua de mel. Quero ver daqui a pouco.
- E Joanne, Ezra?
- Tá de viagem.
- E aqueles que dizem que precisamos ser positivos? – Maléu se mostrou preocupado e Rui disse:
- Se dependesse só de ser positivo... até parece... eles não sabem o que sentimos.
- Olha aí, pontou Marcel, os jornais do Mundo enlouqueceram com a decisão, olha as manchetes: a extrema direita avança no Brasil; o regime volta ao Brasil; Brasil isso, Brasil aquilo, Brasil.
- Eu sabia que não iria dar certo desde 2014. Aquilo de não respeitar a Constituição de forma constitucional foi o que derrubou a “democracia”. Sei lá, já faz tempo isso, não?
Estefânio bebeu um copo cheio de refrigerante de uma só vez e disse, depois de arrotar:
- Claro.
- Ele é violento.
- Demais. E, só para salientar: ignorante. É um puto Górgias!
- Altas referências, hein, Rui.
- Vocês viram o que Pedrão disse no grupo? Ele o apoia escancaradamente por causa da religião e das crenças numa moral imutável, mas disse que votou nulo, acredita?
- Claro que votou, disse Ramon, ora, todo mundo sabe como a religião influencia nesse processo e como as pessoas que se dizem mais esclarecidas participam dessa alienação toda aí.
- Nas ditaduras fascistas...
Maléu olhava para nós e não captava bem o teor da conversa, mas dava pitacos aqui e acolá, “verdade sem dúvida mentira não é”:
- E o dono daquela emissora apoiou o Coiso na fé do Deus que não é o mesmo do povo do mundo.
- Estado laico-cristão.
- Né isso.
- Pedrão adora o fato de ser prejudicado só para manter sua ilusão de cristandade do mundo e conservadorismo.
- Cara, mudando de assunto, foi ridículo esse processo eleitoral. Propagandas de carro no meio com mensagens explícitas sobre suas preferências políticas, até comercial de hambúrguer!
- É, disse Ramon, palhaçada grande. Pega mais um pedaço de pizza, J., estou ficando cheio.
- Ei, a de Ramon é melhor, hein, brincou K., politicamente incorreto.
- Vai se danar, bicho!
- Calma, gente.
Não, ele não assumiria, disse Pedrão, isso é coisa injusta, olha, são poderes distintos, jamais aceitar assumir um cargo no governo. O tal do Juiz foi chamado, num disse, “e aceitou”, comentou K., ou seja, era tudo político.
- Está consumado o ato!
Pedrão tentou acalmar, relativizar, disse, como todos os que votaram no “Coiso” – “vamos esperar, vai dar certo” e emendou:
- Ele é um herói nacional.
- Herói, de quem, Pedrão?
- Ezra, você é radical demais, vai-dar-certo.
- Tudo bem, Pedrão, precisamos mesmo é de heróis e não de gente de verdade.
A conclusão final, acabada, concluída, sem senões da noite foi que a pizza salgada estava com muito sal, e a de chocolate, por outro lado, estava boa, equilibrada, embora as bordas estivessem grossas demais, o recheio compensava.
E o vinho seco é bom, mas melhor é o doce, “porque ninguém sabe o dia de amanhã”. Esta parte não entendi.
- Não importa.

XXII


Marcas de freio na pista, pneus pesados rangendo, a vegetação tomava conta do acostamento e as árvores delineavam um arco – sobre nós, entrecortada pela luz ardente, buracos de luz bordavam uma dança de folhas vazias sobre o asfalto, palco de silêncios indomáveis, que se uniam à roda minúsculos dos mosquitos que eram esmagados no para-brisa do carro. A viagem de volta foi dura. Buracos opacos obstruíam o velocímetro, o pé quase emperrava na embreagem. Em silêncio, não parávamos de pensar no que tinha acontecido no dia anterior.
O pingo do asfalto e o ar-condicionado. Por onde se ia, uma quentura tremulava no ar e bobiletes tremelicavam nos acostamentos – quase caindo.  
Meio dia. Todos pensavam só naquilo, emaranhando redes de acontecimentos, situações inusitadas, incertezas, quando falávamos, a conexão ficava clara: era o medo que unia o país, não a esperança.
“Pega fogo, queima, Ele vai queimar você, deixa Ele te incendiar, deixa Ele incinerar você, alma aflita, para aqueles que estão longe dos meus olhos, para aqueles que estão longe de mim, queima!” – a voz do radialista embaçava o ar. A perseguição começou no dia seguinte. Lavamos as mãos, penteei o cabelo e saí às pressas. Pedrão se satisfazia secretamente, “líquido e certo”, não podia revelar seus desejos escusos. Joanne decidiria se dividiria o apartamento ou não. Estávamos angustiados com a cena.
- Adeus, amigos! Até a próxima, e cada um foi para sua caverna.
No outro dia, estávamos perplexos. Dormir tarde e acordar cedo está me envelhecendo...
O café da máquina é com leite já, o favorito, “cuidado, Pedrão, esse bolo aí tem lactose, vai peidar muito”. A paisagem estava fixa e começou a se mover: o copinho de plástico suicida. Aquilo foi hilário. “Mas, mas o quê?”, não, não queira saber o quê. Imagine. “Ai, que bobagem”, melhor, esquece. “Não fale”, você quis dizer não vírgula fale? “Foi, foi”, mas não adianta, você não conhece a pessoa; “esquece então”, boa escolha. “Não, eu não disse esquece como vou me esquecer”, então, “eu disse esquece como vá se foder”, ok., entendido, idem.
Caminhei pela sala para sentir o clima e vi inúmeras câmeras olhando para mim. As coisas estão mesmo mudando. São iguais às do meu bairro. Senti-me tão seguro. Pedrão coçou a barriga, derrubou caspas do cabelo depois de coçar acima da nuca, e saiu da sala logo que sentamos à mesa. O que aconteceu com ele? E essas câmeras... Como invadiriam alguém que já foi invadido?
Brincamos para distrair, ora, e lancei a questão:
- Diga aí o que diabos é um abraço cognitivo?
- E um grito cognitivo? – K., como sempre, avacalhou.
E J. não se segurou tanto, pelo visto, e bradou:
- Que apelo, homem das cavernas! Cris, como qualquer um, não perdeu a oportunidade pra caçoar do nosso amigo:
- K. nunca sabe se escreve onde ou aonde.
E propus:
- E um pelo cognitivo?
Todos concordaram: não, para, você pode ser pior do que isso.
- Tentemos, ora! Sempre é tempo para ser pior nestes tempos! Deixe-me ver, hum, talvez eu tenha encontrado:
- Uma aranha cognitiva!
E J. me parabenizou pelo feito:
- Olha, quem diria, Ezra, você é um espanhol-brasileiro assassino serial. E o que seria uma história cognitiva?
Cris esnobou, não achou nada de extraordinário nas palavras J.:
- Mas ela nem existe mais, a história, cara. Isso de história é coisa do futuro, porque “a história vai dizer, a história contará”, quem disse que ela é presente? Tem razão, só nos sobra, portanto:
- Uma política cognitiva! Talvez deva considerar isto. A manipulação de dados poderia se encaixar nisso? Se formos levar em consideração o desleixo e a preguiça das pessoas para ler um texto que consideram ilegível só porque é “maior do que a página”! Estamos caminhando para isso.
K. encerrou o assunto:
- Nós inventamos informações demais para pouco contratempo existencial.
- Frase distorcida, apesar de soar verdadeira, frisou Cris.
- Nem aqui nem na China – J. não aceitou o ponto final de K. e reafirmou:
- Isso aí não. Exagero demais. Não, nem no país das neves nem em carái nenhum.
Falei na real, retrucou K.
- Não pediram um diálogo? Ou sou apenas um robô simpatizante? – e tive de intervir na briguinha:
- Calma, Cris, não se estresse por pouco, veja o exemplo da Barbie milica. Fineza no look, desagrado para os bofes, nada de fuxico.
Meia hora depois, xícaras vazias, K. disse que tava na hora da bronca, Cris falou que ia se espreguiçar; o bicho desabafou para mim, J:
- E as escolas foram ocupados pelos alunos, me diga aí, e já não eram?
Meu corpo está cansadamente quente e excitado. Os olhos pendem, quase a cair, penso em coisas proibidas, desejos impossíveis, fome de espelhos.
Olho para trás e vejo que estávamos chapados demais para compreender aquilo.
J. estava agitado, parecendo uma metralhadora a mil ao falar, com os óculos quadrados, os olhos levemente puxados, e a boca larga, pontuda, como o bico de um pato, e, ajeitando os óculos com a unha do dedo indicador, meio curvado, como sempre, disse-me, com a voz enrouquecida e juvenil:
- Que parada sinistra, bicho. Eu já vi de tudo. Já vivi muita coisa nesta vida, a última foi um filme russo de nove horas. Sério, tirei o dia todo. Foi coisa de louco, cara, tipo, a mão dele parecia um raio laser, assim, do fim para o fim, duplamente único. É, afirmou com aquela boca reptiliana, brother, onda de guerra, como se a complexidade da criatura fosse além do que a ingenuidade humana pode oferecer.
- Que livro é esse aí, J.?
- O ser e o nada.
- Você não precisa disso aí não, macho, disse K., que ignorância é essa. J. olhou com uma mistura desdém e indiferença que mais se parecia com o carinho de alguém que ignora amistosamente aquilo que dizem sobre ela, de boas, cabisbaixo, erguendo a vista, só riu.
- Quando li, não entendi a parte do ser. Só a do nada.
J. não riu da minha piada exatamente, olhou para mim fixo, com olhos assustados, mas sem susto, fez uma carinha maliciosa, um risco de orelha a orelha na boca apareceu, quase piadista, rindo sem rir para não se entregar de fato, e pôs as mãos nas cinturas, marca típica de quando não entende algo, mas se arma para o desconhecido, “vai saber”. Para não amarfanhar a conversa, fiz uma pergunta que J. sempre relutava em responder:
- Mas, me diga, bicho, onde você mora mesmo?
Ele parou, como se não acreditasse naquela pergunta tão absurda, deu uma risada peculiar, esticando-a até parecer sorrir de orelha a orelha, e o cabelo crespo e pontudo, bem curtinho, como o de Wesley Snipes em Blade, quase perfura meus olhos, aí ele fala misticamente:
- Bem ali, depois de lá, não exatamente onde é, do outro lado do cemitério, para o lado de cá, bem ali.
J. enrolou mais que a cobra em dia de São João e não me respondeu de jeito maneira. Deixei-o de lado e me virei para o “desfigurador de palavras – replicante – o Jaules.
- Jaules, meu chico, “tá magrinho, olha a pança sumindo aí”.
- Sim, “Ezra...”, me perguntou se eu estava bem, mas demorou meia hora para me dizer e, mais duas, em casa, para eu perceber. Ele sempre está à frente de nós, não há dúvida.
Foi só comigo? Com você também?
Me diz que você que ser paparicado, imundo, me diz. Eu – efeito doppler, não.
Rô jogou a maior para mim, “homem desista, vamos trocar o quadro, tem futuro não insistir nisso aí”. Eita, e pois não era que foi.
Se eu não for Vim aqui só para resenhar com o Gordo.  me deitar...
“Quantas, me diz, quantas não existem por aí, desista”.
Tá vendo.
Entro no modo stand.
O simulacro de planta de plástico balança no timbre do vento falso do ventilador que me esfria verdadeiramente diante do calor ardente da noite. O martelo falso brilha no escuro, à luz apenas da TV, no encarte do caderno escolar com a capa escura do Thor da Marvel na mesa de centro, entre o sofá onde estou e o painel da sala. Foi proposital, a centelha argêntea das faíscas se espalha como fogos de artifício do seu musculoso braço erguido, se ofuscando, variando, as luzes e as tonalidades, de acordo com as cenas da TV, e quando vistas mais ao centro, os lampejos, onde começa a surgir a cabeleira loira do herói, se apequenam e, logo abaixo, como se a tomar vida de novo, a armadura peitoral refulge como o dourado do templo ao fundo da figura e o som do trovão, luzidio, ruge silenciosamente como o raio prateado que atravessa seu nome metalizado e eu, aqui, sentado, a ver o pisca-pisca mitológico, e a pensar em como tudo isso atinge a gente.
Em cheio.
Isso não é só uma capinha de caderno que brilha se colocada contra a luz fraquinha de uma TV ligada resmungando?
Dois dias depois, o caderno ainda está ali. Hoje ele não tem tanto brilho quanto há dois dias tinha.
Nada de perder venda alguém venda. Tudo para ser show. Você tem tudo para não dar errado. Nada de complicar. Nada de pegar fila. Pra frente! – diz a publicidade. Pensei, sim, juro que pensei em “nada de nadar”.
- És tudo, Ezra – falou-me Rui.
Disse-lhe:
- Obrigado.
- Não, é mais um trocadilho bobo... que encontrei por aí. Estava no banheiro e me lembrei de ti, por isso te enviei esta... me...
- Mensagem, tchau.
A forma como ele fala as coisas transforma tudo em patifaria, convenhamos.
Queria não dormir para não acordar. Mas que lógica há entre mim e o sol, entre as pessoas e eu?
Hondurenhos marcham em direção aos EUA, e eu me pergunto, por que um monte de pessoas com crianças e fome, e sede, e ameaças, caminha na direção oposta? As câmeras os acompanham, o jornalista da Turquia: torturado, decapitado, esquartejado.
E daí, me diz Pai Jusé.
Cuida de ti, cacete. Não sabia que seria xingado por um guru se falasse de algo que me incomoda pessoalmente, porque me solidarizo com os miseráveis do outro lado mundo.
É assim que nos controlam, fique sabendo, Ramon.
Os astros não me revelaram o caminho.
Se eu vi, faz mês.
Eu sim.

XXIII


Contei histórias loucas na cantina sobre nós. Joanne briga quando vou além... quero dizer, aquém, não sei. Uma das brigas foi porque “falei demais” sobre o relacionamento, porque não me controlava, etc., e tal.
Mas me sinto tão aberto às conversas, sem tabu ou restrições, que não me vejo calar nenhum minuto sequer. Por isso Joanne não bota fé em mim, eu sei.
Falo demais, sonho demais, projeto direto. Tenho tanta esperança dentro de mim e nos outros que às vezes não percebo que nem todos pensam assim. Por isso, estou só, embora conviva com os demais.
Aliás, é o Rui que não me entende nem sabe como eu me sinto. E falei dos objetivos para ela, do que almejava conseguir, como iria chega lá, o que já tinha feito, dos avanços, mas ela os ignorou pateticamente, sorriu ao telefone, “ai você”, como se não desse a mínima para o que eu tinha acabado de dizer, tão empolgado quanto um adolescente quando se vê diante duma interdição e a transgride, sem se importar com as consequências, os danos, as lições de moral; mas ela, pelo contrário, me enxovalhou, porque tinha certeza de que eu não tinha condições para seguir, atingir aquele patamar, desistiria no meio do caminho, como fiz com todas as coisas da minha vida, ou, porque, pior, não seria capaz de conseguir e, portanto, por que, desta vez, daria certo, comigo então?
Insisti, pedi que me desse apoio como se implorasse amor, algo pelo qual não se pode pedir a seu ninguém nem possuir, como proceder se o sentimento dos fracassados, dos humilhados e ofendidos, me batizou; como uma coroa na cabeça rolando de um imperador morto, se apoderou de mim a espada, a lâmina, esperem, já sei, que exagero, é só um estúpido tagarelando por aí, metido a inteligente e meio injuriado por causa do imenso ego paranoico que não para de murchar.
A pegadinha do enforcado da tv é boa.
Malícia demais, “coitadismo”, que fala desonesta.
O xixi está ficando com um tom mais amarelo-queimado, preciso beber mais água. Não sobreviverei assim.
Nunca cheguei até aqui. O lugar é escuro, com luzes amareladas no teto. O limiar se abre diante de mim e estou prestes a dar o próximo passo. Nunca cheguei tão longe, como desta vez, neste caminho. O que me aguarda mais adiante, para além deste perímetro seguro que se tornou a minha vida confortável, segura, silencio e, embora caótica, extremamente macia.
Mostrei-lhe os tomos, e mais tomos, se nada der certo, irei mudar o rumo. Tirei duas fotos e mandei para ele.
“Vai fundo, amigo” – disse-me Rud. ao vê-las.
Rud. é daqueles que vai fundo, mas não vai além disso. Rud., em verdade, nem sabe o que sinto; agora te entendo, Rui. Em partes, claro, porque me esforço para fazer o que pedem os amigos, apesar de não receber em troca aquilo que nunca pedi.
“Tentativa de entrega”, droga, não há ninguém em casa. Amanhã vai ser assim de novo.
Fiz trocadilhos e, no entanto, não me satisfiz com nenhum deles.
És barro, caramba, Rui, não sai mais da cabeça.
Ó eu! Se eu viajasse de mim, como Pessoa, o poeta, que não viajou de si, quem sabe o outro me trouxesse paz e conforto, abandono e ciência, imensidão.
Pense em como você deve agir depois de te desmascararem, alertou-me Joanne, hoje à noite. K. corrigiu um fake news que quase arrancou meu coração das mãos de Deus!
(Façam silêncio, agora me ouçam, silêncio absoluto).
Baltasar me perguntou se as citações dum artigo científico podem ser puras ou impuras.
O que falta para mim, por favor, me digam. Ninguém me responde e todos parecem fazer a mesma pergunta para si mesmos. “O que devemos fazer, alguém nos diga”, “par aonde devemos ir, nos digam”.
Fui com um livro debaixo do braço, mas não mudou nada, o resultado das eleições foi o mesmo. O que nos aguarda nos próximos anos? – mandei mensagens para Júlio, Adriano, Rui, mesmo o Pedrão, para ele sacar o que fez, além de Adolfo, o sujo.
Volto da noite, volta, por favor, volta para casa.
Mais uma morre por causa de cirurgia plástica no bumbum.
A injustiça inerente ao mundo... quem tem controle sobre isso? Quem pode minimiza-la, ao menos um pouquinho, para que possamos agir humanamente, sem firulas, trejeitos ou desatinos. Olho para mim mesmo e sobre o último que li de autoajuda sei que não posso me ajudar nem com alguém me orientando.
Discuti com um fanático e fiquei desnorteado.
O que posso fazer por mim mesmo, energias! Energias! E se Reninah estivesse certa?
- Vocês já leram o Weber, ele fala sobre essa questão da ética.
- Ele, disse Rô, era um jogador de baralho, viciado, sem futuro. Esse vagabundo.
O vídeo daquele empresário era fake. Montagem, quem diria.
Ele é contra mim, mas suas propagandas dizem ser a meu favor.
S. disse que isso vai virar mania, vão controlar a alma das pessoas, manipulando-as com mensagens, “estou aguardando o dia em que F. vai cometer suicídio ao-vivo, depois de vazarem uma montagem dela”.
Grito, gritos, os tiros foram para lá do Norte, o toque de recolher foi declarado e, nas selvas, evacuaram os postos policiais.
Ele era doce, cândido, filosófico, o Ritov. Mas amava ferir, pelas costas, as pessoas que defendia magicamente com seu vídeos tão fofinhos e artísticos com cavaquinho e voz mansa. “Sejam livres como eu, sigam o que acreditam como eu, não pensem na cabeças do outros assim como eu”.
Me explica isso aí, me arrependi de dizer.
- Pré-Socrático, Socrático também, dialético, é a caixa de chocolate, não só, mas também, se analisar como aquela atriz, “ai como aguento me submeter a essa situação”, né isso, é o ponto de Pedrão, sobre o conservadorismo, pode ser e não também, quem se rotula de forma linear, de família, tipo ervilha, dois bilhões de anos, ah, passa muito rápido, depois dos noventas, aí é que é ligeiro, como a cientologia, é a dicotomia da caixa de chocolate, a falácia dos bombons, “ou você come o meu ou não come nenhum”, nempordenéláporcontracom, percebe. Adalberto.
Jaules saiu da sala depois de mais de uma hora de um debate infindável sobre um tópico que não consigo dizer e terminou “pedi um americano com chapéu e uma arma na cintura”.
- Você é arrogante, autoritário, se eleva acima de tudo e todos, inconfundível e infalível, clama por adoração e é totalmente indiferente, cara, você só pode ser, obviamente, um deus, assuma.
Jaules tinha um humor humanus ininteligivelmente compreensível.
Ela é bonita, perguntou K., a mim.
- Bonitinha. Infelizmente não sabe o que é feminismo.
- Por quê?
- Ora, vê-se no perfil dela as asneiras que posta. Não é querendo julgar, K., mas é absurdo ver como uma pessoa pode se contradizer tanto em tão pouco tempo e, ainda assim, se dizer coerente e coesa, una e absoluta.
- Mas...
- É, pronto, cara, é bonita, cê tá dizendo.
- Você não está sendo sincero, Ezra.
- Nunca fui.
- Quem é?
- Então.
Ele saiu sem se despedir. Não me importa. Se você se preocupar demais, acaba pirando.
- Joanne, você está bem?
- Tive um dia estressante, mas conversei com o povo daqui sem ressentimento. Preciso ser mais irônica e também dizer que tudo vai dar certo.

XXIV


Queria dizer a alguém que Joanne está estranha comigo desde que a deixei naquele dia fatídico em que me disse que não se importaria comigo se eu morresse. Amar alguém deve, pelo menos, incluir desespero diante da imagem da pessoa amada morta. Será que algo além do que sei está ocorrendo entre nós? Mas, uma vez sem vida, de que adiantaria se importar com alguém? – talvez, quem sabe, ela tenha razão.
“Se você morresse, enlouqueceria” – também não seria uma resposta sensata.
Por que não me diria algo mais falso, aceitável, moderno? Resolvi esperá-la. Adriano me perguntou sobre o último livro que li. Retirei os de autoajuda das preferências, porque já superei o trauma daquela viagem com Joanne e agora partia para experiências mais radicais de leitura. Aí fui relatar.
Sala cheia, só com homens e um cara varrendo nossos pés com uma máscara de borracha, enquanto conversávamos e nos afastávamos da vassoura. Aquela mulher era ninfomaníaca, viu, a do livro. Chifrou o marido até o diabo pedir paciência. Desejava todos os machos da história e ficava de quatro querendo morder o tapete, animalesca. Que faminta, observou-se e, em seguida, disseram “Ezra, tem mulher chegando na sala, cuidado”.
E K. ficou incomodado com a censura, e disse a todos:
- Continue a história, porque mulher também é gente, então, por que nós devemos tratá-las diferente?
E Calina disse que nem se importava.
O cara ia transar loucamente com ela, o carinha da escola, aí...
Fui interrompido dez vezes, então desisti de juntar os cacos.
Ali poderia ser bem a última reunião, ou a mais pacífica. Embora ninguém pudesse provar nada, ficamos à deriva.
- Quer dizer que Tite só admitiu o erro agora pela derrota na última copa?
- Cara, ainda isso?
- Vamos mudar de assunto, Ezra.
“Joanne brigou comigo hoje, Z.”... – melhor esquecer.
Não se engane, o tiro saiu pela culatra, a imprensa foi quem pagou o pato. Certeza, K., foi. Veja, no outro dia, começou a censura e ouvi novamente aquele troço de “ame-o ou deixe-o” nas guerras virtuais. E não foi censura simples, cutucou-me J., foi coisa de cinema de faroeste, estilo mosca na boca, vingança, rancor, “viu como vai ser”, desarmonia. Cada entrevista foi uma bomba. K. disse que trataram o novo líder da nação como se ele fosse uma criancinha mimada, de cinco e poucos anos de idade.
Frase feita, frase fácil, frase-bala. Esse será o tom.
- Você conhece alguém que disse que conhece alguém que votou em Collor?
- Não, nunca nem vi.
- Pois é – disse Adolfo.
Ao fundo, uma confusão entre pessoas no corredor indiscerníveis; as pessoas e a confusão foram, aos poucos, silenciando.
- Vai ser assim daqui a pouco. Esperem, amigos.
- É, ninguém votou no “coiso”.
Primeiro foi Pedrão a se encastelar nos espelhos que só refletem a imagem dele aí cara você tá aqui vozes se aleatorizaram depois tá no celular em seguida vai ver na tv escreve digita lê em livros vê as histórias aí vem outra notícia um vídeo ao mesmo tempo vai acontecer um jogo do outro lado do planeta o café está apitando no fogão corre que o leite vai derramar não há pausa para mim os dedos coçam que modelo nova é essa será exagero supor do carro debaixo foi me disseram ontem que preciso dessa invenção vitimismo quem me pediu em amizade no celular se nem dei o número olha as ausência pilhando saudades boy talvez o comercial com fundo rosa duas vezes mais rendimento duas vezes mais remoção amanhã os casulos da ordem o que vai ser daqui a pouco o que me espera e enquanto o cérebro gigante se desmonta então é isso é aqui que ele dorme desde que o mago destinou aprisionar a criatura por muitos anos que bom que não vem mata uma ova duvido pra burro desse controle vieram leguminosas salvam principalmente você vou caminhando entre uma informação fotos novas quem tava lá onde até que outra se sobrepõe e não há mais graça bicho é instantâneo falsear pacotes vendemos campanha como seis vezes por dia para não acumular nos culotes cara Ramon de atestado ela perdeu os filhos recorreram à condenação sem sucesso as pesquisas disseram isto mas aquilo devia ter acontecido pense aí como o K-Pop rodou o mundo com um bando de gente de idade equivalente a de um bebê recém-nascido os pneus do carro zoaram é tanta onda que sobre si nós vamos tentar engolir o tanto absurdo do mundo num só dedo deslizando dedo deslizando tela sentido informação à tona em tons o vai e vem destas correntes sem fundo mensagem novo notícia produto raios socos de Goku solos de guitarra de animes violentos salve Brasil pátria amada pariu?
Veja nós aqui.
Adolfo se retirou, que saco, Ju comentava ao fundo sobre a diferença entre vintage, retrô, J. saboreou o pedaço de bolo do aniversário de Calina, mais cinco pessoas atravessam a sala, trocando telas e bips. Billie Kawasaki está comparando o rosto maquiado daquela modelo plus-size com mais de cinquenta modelos de moto dos últimos trinta anos. No sétimo dia, descansaríamos. E fez-se.
Caixas de papelão pela casa, sacola de lixo na cozinha, comida estragada, cajus podres na geladeira, poeiras nos lençóis, os sapatos vazios espalhados pela casa.
“Bom dia, Mily, como é que vai?”, que bola de fogo nos couros. Bruxaria, “climão”. Erro, dúvida, são palavras que se aninham bem com solidão e vida, seres humanos e vontade, o desejo – que inutilmente Joanne alimenta – quando não sabe o que não pode saber. É onde J. e K. se encontram, apesar da diferença de idade: no abismo, ou melhor, na esquina, naquele lugar que viramos para nos livrarmos de uma linha reta, inviolável, mas, sem nos darmos contas do desvario, nos deparamos com outra, que fará de esquina a linha reta anterior, da qual fugimos, ou tentamos esquecer. “Os correios”, já vou, respondo no interfone. “Assine aqui”. São os desavisos geométricos, a perspectiva que se encara de quem vem e de quem vai, o limite ingênuo que estipulamos para nós mesmos e para as criaturas, a limitação originária para poder acumular séculos de conhecimento e, ao mesmo tempo, conciliar com séculos de ignorância que acompanha boa fatia da humanidade, como um órgão vital de resistência, à revelia de tudo que se conquistou. É o desajeitamento prático da vida, da história, das coisas que se perderam no meio do caminho, a fortuna de Jim, o destino do irmãozinho nefasto, o nome do meio da senhora K., a líder transcendental de si mesma.
- Mas o que faço para o almoço hoje?
Quem se interrompe constantemente a ponto de anular-se como Pedrão, me questiono, também desalinhado, quem me dera poder consolar a mim mesmo, ou compreender como se pode alcançar o consolo de si mesmo diante da desconsolação do mundo. Por que somos egoístas a ponto de nos alegrarmos de não estarmos sendo perseguidos, caluniados, injuriados, como os povos do outro lado do mundo, ou melhor, das demais porções territoriais que formam este globo obtuso de carne viva, fresca, sapiente, sobre carne podre, úmida, e modorrenta?
E se fosse dado a quem crê a fé que crê possuir, como o seguiríamos, aleijados, inertes, insetos do saber? Isento da glória, nenhuma razão é suficiente para tirar-me do topo, da cabeça do mundo.
- O vídeo é triste, quer dizer, engraçado, comentou X., o sobrancelha rasgada. Viu aí, olha.
Aquele sujeito que estava com celular na mão durante o assalto no bar não estava ali, por isso, saiu ileso. Literalmente, não estava ali, por isso se assustou quando se teletransportou para a cena do crime onde estava – paradoxalmente, minutos depois.
Parece que o vídeo daquele sujeitinho lá é verdadeiro.

XXV


Paciência, Baltazar, estão preocupados com pornografias de grupos de conversa. Imaginem quais grupos anônimos existem por aí...
Nenhuma novidade. Ia fazer e disse que ia. Era esperado, não se surpreenda. Quem pensou diferente apenas pensou porque quis. Assim se desfazem as coisas diariamente sob os olhos abusados do tempo.
Z. ligou para mim ontem à noite para me dizer que o país está normal, não houve nenhuma espécie de guerra civil, estamos bem, embora estejamos sob o signo da violência, da opressão, da censura, do medo, da perseguição, do perigo iminente cair sobre nossas cabeças, de a economia degringolar, de a justiça ser injusta e por razões políticas, de a nação, como um todo, da mídia ao pobre que alimenta uma tv no fundo do quintal, perseguir, alimentar, persuadir, uma luta ideológica vazia, baseando-se num maniqueísmo em moda, esquerda e direita, bem, sim, estamos bem.
Não acreditei que pudesse receber uma mensagem desesperada de Clarinha. Juro que me assustou! Para quê? Parece que vão arrancar a língua dela e depois comerem num churrasquinho.
- E o emprego, e a vida, e a família, e o futuro... – e foi, sem respirar, enumerando os fatos que poderiam acontecer.
“Calma, minha filha, você está nervosa”.
- Nas redes sociais, estão perseguindo os perfis, os que se opõem, eles estão nos comentários dos jornais, os fakes, nas notícias, no Youtube, não param de defender o Coiso cegamente.
- Calma, Clarinha, você não está dando muita atenção para isso? Até aonde sei, ainda somos livres e ele disse que irá respeitar a constituição.
- Quem disse isso, quem me garante, ah, até mais ver, Ezra.
Qualquer foco de incêndio para intimidar alguém no país inteiro só precisa de uma pequena fagulhar nas redes sociais. De repente, o medo está espalhado, o controle virtual é infiltrado na cabeça das pessoas, a ideia de que eles têm um poder sobre tudo é assimilada pelos usuários através dos compartilhamentos, do recrutamento voluntário dos “soldados” que se dispõem a atender ao chamado e pensamos que eles, amigos, vizinhos, colegas de trabalho, são vigilantes atentos e patrulheiros de tudo aquilo que fazemos. O medo está instaurado ilegalmente e criminosamente na voz daqueles que deveriam nos proteger.
Logo uma mentira compartilhada mil vezes se torna a verdade, a grande arma apontada contra nós.
É por isso que Pedrão ignorou a entrevista que enviei para ele sobre a convocação daquele juiz para o governo, porque o Pedrão, sim, o homem de família, simplesmente pagou para ver.
Não adianta, já dizia meu avô.

XXVI


A ilha radiava ao entardecer, que sol sob nuvens reconfortantes, o calor ruminava o suor das pessoas, e as árvores bordavam sombras na calçada. O vendedor de picolés fazia a vez nos quiosques. Avistei Marcel caminhando e logo me estressei.
- Ei, bicho! – ei, ei, Marcelo! Ele não me deu bola até que eu tive de cutucá-lo bruscamente. Depois do susto, percebi que estava com um fone de ouvido. Conversamos.
Ele não se sentia confortável nem eu. Havia um ar de podridão entre nós que não era o do suor ou das roupas íntimas mal lavadas. Travamos um papo entrecortado por monossílabos vazios. “É”, “isso”, “pois” – e depois de perder a confiança, estávamos a um passo do abismo. Briguei feio com Marcel, silenciosamente, é óbvio, porque ele não quis me dizer por que sua lembrança era tão distorcida e borrada sobre as coisas que tínhamos vivido durante todos estes anos.
Marcinho foi meu amigo de escola, de infância, brincamos juntos, colamos juntos, fizemos mais coisas juntos do que eu com meus pais. Mas o narigudo não me reconhece como parte de seu passado, sou só um quarto que ele visitou, uma sombra, um espectro, nada mais do que algo que passou.
Passei por desconhecido, e nos despedimos – com um meneio de cabeça. Não iria atrás dele de novo.
Desisti de várias coisas no último ano. Joanne ainda resiste a mim, mas até quando? Parece que se foi uma eternidade na mesa de bar ontem.
Falei com o bicho dos olhos azuis sobre começar um projeto de vida. Viveria de recursos pequenos, como apostas online, jogos de azar, não sei. No fim das contas, preciso trabalhar menos, não tenho tempo para nada, e K. me perguntou como faria para sobreviver se eu não estava afim de nada.
- Bem, quem sabe, é uma ideia bem boba e distante, eu viva de arte.
K. me disse que eu estava indo bem com a ideia, a de ser artista, embora não reconhecesse em mim, sua sinceridade me mata, nenhum talento “acima da média”. E olhe que eu amo essa porra.
- Quero vender minha arte na praia, cara, sabe aquelas florezinhas de dez reais?
- Sim, ah, disso aí você tem condições.
- Né não.
Retirei da cabeça uns conceitos mal acabados sobre humanidade e criaturas inteligentes, em seguida triturei tudo com abacate e açúcar.
Andamos pela ilha à noite, e contei-lhe sobre o episódio com o Marcel. “Esquece”, venha ser feliz comigo e, em tom de brincadeira, tiramos fotos juntos, “românticas”, brincadeira. Ele estava com saudade de ar fresco e vida natural, à sombra de luzes artificiais, caminhamos.
Que pastel bom! – e com cerveja, homem, olha a miséria.

XXVI


Levei o smartphone para o banheiro, desliza tela, cocei o joelho, e espirrei. Ô manhã horrível... De novo! Na próxima, desliza dedo, eu enlouqueço... Todos os dias acordo com notícias e notícias, incessantes, noticiando-me. O planeta só pode ser uma notícia que nunca para de acontecer e nunca para na minha cabeça de se apagarem coisas e de outras virem se alojar. É tanta informação me inundando...
Por falar nisso, encontraram, enfim, o submarino argentino que estava perdido em águas profundas. Um cemitério no mar. Coisa assombrosa: para o fim de uma tripulação. Afora tragédias internacionais e assassinatos dos mais diversos, o assunto político esfriou à medida que não vimos mudança nenhuma no cenário. As mesmas frases, as mesmas indicações, os mesmos disparates. De certa forma, sentimos que o país precisava de uma grande pedrada na testa, embora não desejássemos tal decrepitude, “o diabo entorta as linhas como as escreve”, já diria K., o senhor insônia.
Jaules me deu carona e me explicou como funciona o rock progressivo dos anos setenta. Ele utilizou mais palavra que eu durante a vida inteira para me explicar as nuances das tonalidades vocálicas e das notas de toda a composição da música. Teorizou até sobre o que é “rock progressivo” – e parecia ter estuda há séculos sobre o assunto.
Enquanto explicava, mexia no celular e ajeitava os cabelos, dirigia. Mestre na arte de intimidar, sem dúvidas, me assustou.
Rui me telefonou e falou sobre captar a vida e o que ela tem de essencial é algo que não consegui prever nem sentir. Se eu soubesse como funcionam as palavras, assim, dizendo de um modo mais verdadeiro e mais sincero possível, ora, eu sei que não conto basicamente uma história, tentei atrair para mim as coisas mais previsíveis e percebi que viver é estar diante de coisas impossíveis de ver, sentir e imaginar. É nesse sentido que escrever vai além do que a vida – voluntariosamente – pretende mostrar, e que mostra, mas não de forma direta ou a qualquer desatento pela passarela do mundo.
Disse-me: tentei há pouco escrever sobre uma tal de Francisca que pede esmolas na praça de alimentação, mas não sei sequer sentir sua fome nem sei que nome ela tem. É assim: o suspiro arbitrário de uma artista que não vê nome nem sentido no que faz e no que supõe crer. Escrever está longe de ser, para mim, um lugar comum cheio de latas vazias.
- Comemos pizza hoje e acertaram a massa. Quem a fez? Não digam... Sim, digam! O Ramon! Finalmente ele aprendeu o que significa fermentação! Glória Crua!
- Amanhã nos vemos na piscina do Gago.
- Chame a galera.
- Certo.

XXVIII


Soltei bolhas, fui percebido – e galera caçoou por horas na piscina.
- Eu não sabia que aqui tinha água fecal... termal! Cachorrada!
Tremíamos. Brincamos de imitar Sylvester Stallone, o eterno Balboa-Rambo, if you can change... Mas não havia como fugir do assunto instantâneo: “tem que mudar isso aí”. O mundo inteiro, e não é exagero, mania não, internet demais, virou o nariz contra nós. Faz muito tempo, não é de hoje. Algo mal cheiroso pairou pelas terras brasis, ninguém sabe por que todos sabiam o que não ia acontecer e aconteceu. E aí, o que está lendo agora – perguntou-me Rui.
- Eu estou lendo a tragédia pós-moderna brasileira.
- Oi?
- Isso mesmo. Encenação dramática-virtual-memética.
- Sério?
- Nunca fui tão sincero na vida, Rui, e veja que estou ficando, a cada dia, mais cínico. Mas como fingir diante de tudo que está acontecendo agora?
O clima ficou feio na virada do ano. Há dois meses não como pizza... Billie Kawasaki sofreu um acidente de moto (quase escrevi morto). Apesar de ter sido muito grave, ele está bem, colocará alguns pinos de aço e ficará de castigo por um semestre sem poder pilotar nenhum tipo de veículo.
Marcel, por outro lado, abandonou os amigos, se isolou com sua família e foi para o litoral. Rui me disse, com profundo esgar, que desistiu de escrever, porque não havia leitores no Brasil, mas só escritores e, claro, ele não queria ser um desses. É, a coisa não pararia por aí. “União” seria a palavra do milênio, Rui me contou, contudo, nem todo mundo está disposto a se unir com quem oprime os que dizem não, lhe respondi.
Tentamos nos reunir várias vezes e, em todos os parcos encontros, o assunto era o mesmo: política. Perdemos o tato para filmes, a literatura e poesia são coisas obsoletas do passado mais remoto do que antigamente era uma vez já foi.
K. me falou que o dia a dia se tornou melancolia armada, coisa de tropa equina, vai vendo o bizu aí, macho.
Calina, vestida sutilmente com um biquíni púrpura, tibungou na piscina e fechamos os olhos! A água clorificada se esparramou para todos os lados dos azulejos azuis. Enquanto limpávamos a cara, ela comentou que, em poucos dias, todo mundo se perguntou no grupo da família dela se ainda vivíamos num país livre e por que estávamos tão apreensivos com as mudanças democráticas recentes. Rui acrescentou que, embora nada fosse novo, tudo parecia tão diferente.
Fui pegar umas bebidas no freezer e o celular tocou. Estefânio ligou para mim dizendo que estava animado, deveríamos esperar, “vai dar certo”. Sinceramente, me surpreendi com esse bigodudo sem escrúpulos! Esta palavra é tão velha, imbecil. Crápula! Enfim, alguns amigos mostraram o que pensam a respeito do sujeito que assumiu o trono do ca(c)os.
A cada hora, me pergunto tanto, pessoal: por que não mudamos a respeito do que deve ser levado a sério, e não como uma piada de meia tigela? E não fui sou eu que me perdi.
Joanne ligou para mim e disse que não havia previsão para voltar. Meu amor! O que está acontecendo, afinal?
Quando dei por mim, vi-me sozinho e de férias, sem ninguém que pudesse me consolar, a não ser em mesas de bar, comecei a ficar soturno, jururu, sei lá.
Ele não sabe nem o que faz, comentou Z. Quem? O homem lá de cima, abaixo do outro maior, o divino. Que cara maluco, já pensou? K. riu e disse que ele, o abaixo do divino, simplesmente assinou um cardápio de restaurante pensando que era um decreto presidencial.
O secretário dele, claro, consertou o erro, o expôs na imprensa, o negócio tá feio, Rui emendou. E o Pedrão, não vai banhar? Não adianta conversar com Pedrão, o bicho tá isolado, vive nos grupos de zap, silencioso, compartilhando aquelas idiotices... ele é inflexível, é o negócio da “pós-verdade”, é assim e pronto, porque não, e já era.
Quando voltamos para a mesa, o homem de bem, Pedro Lácio Júnior, já havia ido embora e pagamos o restante da conta.

XXIX


O bar estava lotado. Dançavam forró ao fundo, velhos e novos, e umas meninas bem arrumadas com saltos altíssimos e saias curtíssimas trocavam mensagens pelo celular e olhares para os convivas na mesa próxima ao palco, improvisado para aquele lugar. Grossos lábios vermelhos, rostos bem ovais, estilo capa da sexy, pernas roliças, mas bem firmes, e peitos bem simpáticos, calvíssimos, puros, se comparados à robustez ameaçadora dos glúteos. Já estava um pouco grogue. Estavam em serviço, disse-me o colega do lado do balcão. Entendi. Tentei mudar de assunto para não parecer interessado, havia, o que é raro, uma pequena televisão em cima da prateleira onde estavam os destilados mais caros. Alguma coisa mudou, olha aí, me dirigi ao estranho, porque não estão falando sobre corrupção hoje. A TV está anunciando mais uma tragédia. Foi isso. A canoa tá virada. A primeira é real; a outra, de memes. Cuidado! Se você tocá-la sem carinho, fica pedrada que nem gelo dos infernos. Essa cerveja é das boa, gelada que nem frieza nos pés! – Tá, bunda de geladeira. Mas bunda de geladeira é quente. – Gelada tá. Bem gelada. Gelada! Afinal, quem é você?
- Bruce, primo de Baltasar, prazer.
- Sim, prazer, brindo a nós!
- A nós!
Bruce era mais calvo do que Estefânio, embora parecesse cabeludo, não dava para enganar aquelas entradinhas marrons.
- Você viu? – o pança me pergunta.
- O quê, Gordo?
- A lama, tapado.
- Sim, a alma. Quero dizer, lama. Pensei que você estava falando sobre política.
- Só tem mala.
- Na política?
- Na lama.
- Lama e mala, nos dois, diria. O Gordo me olha sem fé, então lhe pergunto sem dó:
- E quem é o culpado, G.?
- De acordo com os ministros, o culpado é quem levantar a mão primeiro, Bruce comentou depois de um gole.
Previsto, previsto demais, previstíssimo, ora. Ninguém previu, mas estava previsto demais. Mais uma, Gordo! Ei! Escuuute! Bem geladinha. Foi em Mariana e agora em Brumadinho, não tenha dúvida, é só coisa de acerto parlamentar mesmo. Governo? Qual? Estou dizendo, homem, deixe de duvidar de mim, por que será que me julgar como abestado? Olhe que nem tenho trinta ainda, sou novo feito gente besta no mundo. Deixe de onda, deixe, preste atenção no que vou te dizer, saia desse celular, esquece esse negócio de política, esquerda e direta, é tudo maçada! Você nem sabe a diferença – entre isto e aquilo, fake ou verdade, sim, eu sei, que importância, vou duvidar de ti para quê? É, é sim, puta certo tu estás, irmão. Ouça, você viu a mulher falando na tv “ôvo”, então me ôva, mas não vai interferir muito na minha vida não, só se for para ferrar, e nisto, estou bem demais, não preciso de ajuda para piorar não, vê se relaxa, só um pouco, pegue este suco de maracujá, é de polpa, mas lembra a fruta, sim, não é tão puro, quero dizer, é polpa, mas é um, me poupe, por favor, você está só enrolado, não quer me ouvir diga, porque não tenho o dia todo, Z! Não não não não, agora sou eu. Quieta aí! Sonho louco tive na meia noite depois das duas horas da manhã ontem de madrugada quase virando o dia! Sem brincadeira foi, negócio foi peado, foi o caminhão do inferno! Ou dos infernos! Mais um pesadelo! Eu estava numa rodovia sei lá onde, perdido, com outros malucos andando à beira da estrada, e de repente uma assombração sem tamanho apareceu de um lado que não dava para ver no horizonte, e era um caminhão enorme, com vagões, quase trem fora dos trilhos, carregando a alma das pessoas, e eu ali tentando fugir daqueles gritos, daquela zorra toda, nem sei como descrever, cadáveres, coisas do além, bem além de mim, como vacas cagadas nos pastos, aquilo torturava a vista! E eu entrava e saía do caminhão dos infernos, nem sei se estava dormindo ou acordado, não fazia tanta diferença...
O motorista, um dos diabos mais importantes, ou melhor, aliados do diabo na hierarquia diabólica, conduzia o monstrengo de um jeito tresloucado. Sentia amor nos seus olhos pelo ódio que tinha em levar aquelas criaturas humanoides em sua maluca carroceira de bois.
Eu corria de um lado para o outro, entra a estrada e a beirada, sem saber se me pegariam ou não.
“O cão te quer, Ezra!” – aí eu ficava doente de mal paralisado feito coruja sem pescoço!
“O cão é teu amiguinho, Ezra” – ave Maria!
Até os céus escureceram e ficou aquele clima de tornado – sombrio, um nublado, nimbos roxas cuspiam relâmpagos!
“O cão tá abanando o rabinho, filhote!” – valha-me! Sai daí bando de louco! Parece até que saíram de uma manifestação dos infernos tropicais do meu país!
Jogavam correntes, os diabos dos infernos, urravam para mim, os condenados só os ossos, riam, o circo caótico virava e revirava meu estômago ao fazer retornos – triscando pelo acostamento, tentando me capturar de vez!
- Pare, pare, pare de coisa, home.
- Calma, cara, deixa eu chegar lá. O nervosismo ficou visível, gordo suava, se espremendo:
- Pule, home, pule.
- Tá. Mas você não quer ouvir a parte que o caminhão vira não?
- Não. Pule, home, pule.
Às vezes desconfio, Gordo, que ninguém sabe que está tendo uma vida múltipla no multiverso. Eu sonho comigo às vezes em outros lugares, com outras funções, às vezes com as mesmas pessoas do meu convívio, quase nunca com desconhecidas. O que é isso? Será que estou abrindo uma janela para ver a mim mesmo do outro lado da rua? O caminho dos infernos pode realmente existir numa realidade em que eu jamais acreditaria em filtro de cachorrinhos nas fotos das pessoas? Deixe me dizer que não sou doido não, é coisa séria, venho passando sobre isso há muito tempo, sério, não, não, juro, tenha paciência, bicho. Esse home parece é que de sete meses! Foi assim: sonhei que vivia numa loja de brinquedos, coisa de filme, não é? Não. Era pior. Coisa de filme de terror, não é? Não, era pior. Nessa loja, as pessoas eram os brinquedos e os brinquedos eram as pessoas. Espera, não é sobre isso, não é metafórico, era real. Cada brinquedo escolhia uma pessoa para destruir, sério, não era para brincar, porque, naquele mundo, “brincar” significava “destruir lentamente de acordo com o protocolo de repetição de comportamento desejante embasado na teoria do desejo”. E o que acontecia depois? Eles devolviam seres humanos desmontados, como quebra-cabeças, assim, uma perna aqui, cabeça acolá, como fizeram na inconfidência mineira com o Tiradentes, mas lá era divertido. O sentimento de satisfação não se comparava a nada! Frankenstein? Não, as pessoas não tinha vida, porque eram brinquedos! Sangue? Você é sanguinário, gosta de ver desgraça, né. Apoia as armas também, Gordo? Deixe pra lá. Depois que os seres humanos eram descartados, ganhavam uma alma – e podiam se transformar em brinquedos – e, como outros brinquedos, viver em sociedade. Lindo, não?
- Você está fumando há muito tempo isso aí?
- Não fumo, Gordo. É só falta de glúten, eu acho.
- Lama demais...
Bruce me perguntou se eu estava acompanhado. Ficou ambíguo:
- Não, por quê?
- Aquela galegona ali ó, de pernas cruzadas – quase desnuda, não para de olhar para você.
- Curto, curto, mas, não, cara, sou fiel.
- E quem não é?
- Vim aqui só para resenhar com o Gordo. Aliás, sempre venho. Lugar bom, petisco pabuloso, cerveja dos infernos, como ele diz! Ele ouve meus sonhos e pesadelos e sente medo dos dois. Curto demais. E bebendo? Aí é que fica bom! E Bruce me olhou dos pés à cabeça e, meio atiçado, disse:
- Casado então?
- Não, não, só namorando.
- Tá bom. Não quer, não dou – é assim. Esta é minha última, foi uma prazer, de novo, até mais.
E ele se foi meio tonto, saudando aquelas mulheres, que quase o seguem até a porta, mas são impedidas por algum homem estranho.
- Gordo, me diz, qual é a do Bruce?
- Ele curte homens. Ou, como diz, “pessoas”, tá na moda, parece, dizer “pessoas” e não homens.
- Tá explicado. Será que ele se relaciona também com “estabilizadores”?
Gordo quase não para de rir e me xinga de “nefelibata onanista” do caminhão dos infernos! Continuei:
- Acho que ele achou que eu dei mole. Conversamos sobre magia, mas não qualquer magia, mas sobre magia mesmo, coisa de francês, lá de longe, nada de bruxaria ou coisa do tipo. Foi. É.
- O Bruce só gosta de homens casados. Aquele tipo – responsável, mas livre. Não chegou a tua vez ainda, hein, boy magia!
- Ai ai ai!
O bar só fechou depois de uma briga às duas da manhã. O Gordo me disse que era comum haver confusão depois que todos se cansam de festejar.

XXX


Eu já desconfiava que K. usava recreativos ilícitos para adultos adolescentes longe de meia idade. Mas não sabia que era tanto assim, ó. Parece que ele é o tal do “Queirós”, que traz um “finim pra nós”.
- Já usou alguma vez?
- Eu, nunca.
- Pense num acidente de carro.
- Pensei, e aí?
- Não tem nada ver.
K. me disse que estava imaginando coisas depois de usar um papelzinho estranho que ele conseguiu com uns caras na praia. Como é, sim, no dorso da língua, aí espera, como foi. E o macho se soltou: foi algo bem louco: sua mão tremia longe, olha mano, que loucura, rá rá, eu tô delirando, vixe, já imaginou como eu estou além de mim e sem sair de mim mesmo, tô nessa, mais invocado que você! O mar de repente se virou para mim todo molhado – e começou a urrar sobre gente arranhando suas costas desde antigamente, que estava com um saco da porra disso, “eu sou mar mesmo água demais, mas ninguém me respeita”, e todos os dias o bicho-mar estava sofrendo com isso, além da sujeira imunda – “é demais isso aí, muito emporcalham-me os caras da terra, para já com isso aí, surfista faz cócegas, mas canudinhos, parada é!” – e o mar se queixava das fezes, dos pelos humanos, dos iates, das latinhas de cerveja – “eu tô bebão com isso aí, já delirei demais porra, eu – o mar mesmo líquido geral em mim ondulando – cheguei até a virar o estômago, vomitei em ilhas – forte, e ainda levei pancadas de deslizamentos, poxa! Fiquei nesse vai-e-vem lento de marés, a lua foi porca, me fez inundar demais! Já disse que não quero nada com ela, já fui fecundado, dei o amor, recebi Iemanjá, tô bem”.
K. enlouqueceu o foi o mar que desabafou. Sei lá. Coisa mística demais – ou fanfarrona. Deixe o bicho em paz, cara.
- E é por isso que meus olhos ficara azuis, Ezra!
- Sei.

XXXI

Choravam, mas foi semana passada. Senti a dor nos olhos dele, coisa de irmão de acaso, família errante, Tigo se reteve, e voltou a beber – descontroladamente. Tigo é o irmão mais velho de Ramon, o cabeleira de prata, cedo demais para tanta sabedoria. O sol estava do mesmo jeito, porém, mais nublado do que charmoso. Radiando, sob nimbos, estávamos debaixo dele, vulneráveis, enfim, filhos da noite.
Não me anima.

XXXII


Joanne me disse que a coisa piorou para ela:
- Eu não consigo mais sair daqui, Ezra, estou presa. É difícil...
- Como?
- Depois te explico, tchau.
Ultimamente, tenho me sentido velho, indisposto, o peso dos anos me alivia da dor de ter que viver mais a cada dia, e melhor.  A gente finda.
Aí, com aquela voz de ator de propaganda de desodorante, cantante e agourenta, facilmente enlameada pelos graves corrigidos pelos aparelhos, o diálogo zuniu na rádio:
- E aí, Paulo, pelada no domingo?
- Não, Júlio, estou calvo, acho que não vai dar certo não, amigo.
- Cara, relaxa, tem um remédio perfeito para você! Já ouviu falar no Cabelomaisnoszói?
- Não.
- Pois prove já!
- Oh, usarei, Júlio. Tic-tac, tic-tac.
- Uau, Júlio, não é que serviu mesmo!
- Sério, Paulo, eu não te disse?
- E aí, Júlio, partiu, futebol?
Tarde, sexta, os pés suados, quero dois hambúrgueres. O ambiente é retrô: vespas, quadros antigos, velharias, garrafas de café de latão, vintage, produtos com mais de 10, 20 anos, algo assim, uma parede riscada, como um quadro negro e inúmeras placas.
Ela já me conhece, mas não sabemos o nome um do outro, só de ver, visitar, a garçonete sorri.
- Vocês fecham a que horas?
- Às onze, moço, mas, balançando as mãos, dependendo do movimento, até mais tarde.
- Ok, é porque estou esperando uma pessoa aí quero ver se posso ficar aqui e esperar.
- Ah, entendi, sem problemas, e vai querer o quê?
- Dois, dois, ia beber, mas não posso. Este aqui e este, pra levar, porque não vou poder fica hoje.
A tv minúscula em cima do caixa passa algo aleatório e a maior, mas acima, música pop e alguma coisa ruim nos intervalos. “Com picles e sem queijo coalho, porque está faltando, moço.” – pode ser, e só.
O banco, estilo americano, rangia atrás de mim. “Votam em quem, eu”, “não, e você, homem, se fosse o outro...”. “É porque ele vai favorecer os de cima, entende”, mordisquei palitos de dente, enquanto ouvia os debates políticos.
Na rodoviária, te encontro, Joanne. Já disse, está descarregando.
Rodoviária, o início e o fim das viagens: para viajantes, bêbados e prostitutas. Para a felicidade geral, fechei o fim do mundo.
Onde ela esteve?

F.

A RODOVIÁRIA DO FIM DO MUNDO

I Os bárbaros, que paranoia de Ramon Massa Crua, a fuça do Arquimedes de José de Ribera, o “risadinha”. No fim da Nova República, abr...