"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

sábado, 13 de abril de 2019

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Cobaia


O dia deu em chuvoso, como aludia o bom poeta português. Fiquei de casa, no só. Aliás, nem sei que dia é hoje ou quando é amanhã. O cheiro de terra sobrevoa o ar da casa, preparo um café e dirijo-me ao quarto de livros. Então só a luz, a luz intensa – que cega os derradeiros instantes do último pesadelo embaça o mundo. Repousei na mesa do escritório, a testa sobre os punhos, o braço direito dormente, e não me lembro, como toda vez, de quando comecei a dormir exatamente. Fui recuperando a visão, recordo-me, é certo, de que lia sobre uma invenção numa ilha, sobre uma mulher que se chamava... F... foi aí que me vieram à tona as coisas mal acabadas de ontens que não passamos a limpo durante a recorrente maré do passado, a imagem intensa que construímos daquilo que vivemos no passado (seja no amor ou no ódio) e, quando era presente, enquanto vivíamos in loco, não nos dávamos conta ou nem mesmo ligávamos, ora, era “só” vida, o mais do mesmo em relevo, por que se coçar? Cocei os olhos apenas, e tentei me livrar dessa visão desértica de mim, mas, aos poucos, tive vontade de encontrar quem eu talvez nunca tenha encontrado no tempo em que eu estava perdido e louco, no tempo em que éramos um. Não me canso de procurá-la. Sei que a deixei no passado, alocada nos lugares mais obscuros da consciência (inventada e sentida), onde a retive durante tanto tempo e que agora, após anos de meditação e alheamento, voltando à realidade, posso apreendê-la nas conversas mais íntimas que travamos durante seis meses de algo que se pode chamar de relacionamento.
Enfim, éramos próximos demais para nos denominarmos desconhecidos, colegas. Tudo que sei dela é que me fazia muito bem ler suas palavras, me saborear com suas frases, e até me iludir com os epítetos que me colocava, como “poeta”, “meu poeta”. Além disso, não posso ter certeza de quem era, se me usava, se me enganava, ou se existia, não poderia saber, que mistério, de fato! Ela era alguém que eu conversava nas madrugadas, antes de enganar meus velhos pais, depois de resolver as tarefas para casa, quem sabe C. poderia ser somente um espectro nebuloso de tudo aquilo que sonhei amar aos quinze anos em uma mulher, aquela que seria talvez a musa passante, o desvio amoroso que nos ajuda a reconhecer a terrível infantilidade do amor diante da vida, dos negócios e mesmo do medo, com seus olhos fixos. Contudo, jamais terei o veredicto sobre sua aparência real ou ser. E existia mesmo quem dizia existir diante de mim? Que importa se existia ou não? Hoje, sinto que a descubro, me reviro, não posso me conter diante da possibilidade de vê-la no mundo real, presente, aqui, humanamente ao vivo, do meu lado, como se fosse um semelhante, alguém que pudesse abraçar, tocar e até...
Desde que a vi, ou melhor, conversei pela primeira vez, senti tremores, algo físico, longe da camada verbal que nos unia. A encontrei em bates papos ermos da velha internet, na era de ouro dos chats. Sempre tímido e notívago, buscava, nas conversas aleatórias dessas regiões de solitários virtuais, encontrar um segundo de atenção, alguma palavra de consolo, quem sabe até um amigo para a arribação. Uma amiga... Durante esse período, não tínhamos a exata consciência de como todo esse mundo virtual, superconectado, funcionava. De tão novo, assustava e entusiasmava aqueles que se aventuravam nele. Tudo era uma aventura sem precedentes, como homens ao mar em quinhentos, ou à lua, em sessenta. A sensação de que se podia ler alguém antes de tocar, antes de ver, é que despertava em mim o estranho desejo de me conectar às palavras de um ser – humano, uma alma, como se do avesso tivesse acesso primeiro à pessoa do que através do seu corpo, como se fazia com absurda frequência outrora. A verdade é que me relacionava com uma certa figural fantasmal, um amor, pode-se dizer, vago, verbal – escrito. Ela me encantava e eu me perdia quando me punha diante de palavras tão bem alfinetadas em mim, como se eu fosse sua borboleta magra, frágil, arfando para contê-la no ruflar de minhas asas sem força e no meu corpo sem bordas. Conversávamos quase todas as noites e me envolvi tanto com essa criatura inventada, do outro lado de onde? –, que passei a me sentir isolado com alguém que estava, assim como eu, sozinho em absoluto, alheio a alhures, livre do real.
Nunca saberei quem ela foi, contudo, sei que fomos algo juntos. Um grito, um sussurro, qualquer coisa imprecisa na escuridão, algo rastejante por trás da porta, subimos cada degrau silenciosamente, não nos deixamos entrever, senão como sombras. A cada fantasia, a nossa irrealidade se tornava cada vez mais real, próxima, verossímil. Chego até a pensar que nos conhecíamos pessoalmente, se não fosse pelo fato de nunca nos vermos cara a cara... nem eu nem ela vimos um ao outro, quero dizer, uma vez, sim, ela me mostrou uma foto de uma bela mulher loira na janelinha do perfil, com os cabelos lisos e ondulados como os das deusas ocidentais, de olhos claros, seriamente sensuais, e tez virginal, uma mulher daquelas que inspiram confiança e desejo na mesma medida, avantajada no colo, foi uma visão. Era ela? Nunca saberei, repito, tudo que vivi com aquelas palavras, aquelas frases físicas, quase tangíveis, foi um volteio sem fim, uma paixão retida pelos mais fortes diques, tão inquebrantável quanto a dor de uma traição, sim, fomos arrebatados, nos entregamos ao mistério energicamente, mas, é preciso frisar, com a mesma doçura que mordiscamos pela primeira vez um bolo muito doce, sentíamo-nos levemente enjoados pela ausência um do outro com o passar do tempo e de outras colheradas... E digo ausência física, corporal, fluida. Faltavam abraços, beijos, talvez cócegas, apertos ou beliscões, não estávamos satisfeitos no fundo (que palavra indecorosa!). Vivíamos bem, assim, nos comunicando de um além, para quem sabe, talvez um dia, pudéssemos nos aproximar – para sairmos cada vez mais debaixo da linha de sombra que nos cercava. Com o tempo, alguma esperança de marinheiro, de náufrago, de perdido, se aproximava de nós como o milagre da ressurreição. Era óbvio que nunca iríamos nos ver. Apesar de nunca aceitarmos essa verdade, eu, pelo menos não a aceitava, era notório que nosso encontro jamais se realizaria no mundo em algum dia de nossas vaporosas vidas sem freio, sem bússola ou gps.
Em uma noite, concluí que ela era a mulher de minha vida. A mulher inexistente, inefável, indissolúvel e perfeita. Perdi as contas de quantas vezes ela me chamou de “amor” e “meu homem”, além de expressar inúmeras vezes como ansiava me ver, fosse como fosse, qualquer dia. Que jovem eu era. E tolo? Ela viajaria, disse-me, na última conversa, que iria para longe, para Europa, estava na universidade, iria para o berço da civilização, mandar-me-ia fotos, não perderíamos o contato, etc. Mas, intimamente, eu sabia, se existisse ou não, o fato de que não conversaríamos mais foi a única grande verdade palpável, ao longo dos meses, de nosso amor sem identificação, após sua inesperada despedida. A sua imagem radiante, aquela foto sorrindo para quem quer que fosse, mentirosa ou não, pregou em mim como uma raiva num cão desnorteado instala a cólera espumante. Não queria admitir, mas, o que poderia fazer, animal sem recursos, pobre internauta? Eu, que amei tantas mulheres pela internet, que chorei na webcam tentando convencê-las de que meu amor era sincero e real, assim como elas para mim nalguns enleios; eu, o rapaz sem rosto numa terra sem chão; eu perdi a razão de ser naquele mundo – sem endereço, ou melhor, de endereços virtuais, voláteis, nas nuvens. Ela se foi com um breve, lacônico e histriônico “adeus”. Lembro-me de que parei diante do computador e, francamente, estaquei. Fiquei travado, seco, pútrido. Respirei fundo e apenas fechei as janelas. Todas! E me certifiquei que morreria ali, sufocado, sem nenhuma fresta de luz. Que fui para ela, afinal, parei para pensar. Juntei as peças do quebra-cabeça por vários dias tentando remontar tudo aquilo que escrevemos, trocamos, as imagens, os ícones de emoções, cada detalhe, os risos, enfim, as migalhas da imensidão que desdobramos naquele pavio diminuto que foi nossa implosão. Descobri intimidades improváveis, palavras suaves tecidas em entraves, rimas sutis, enigmas, sugestões vagas, cegueira juvenil, como não vi, amor sem demora, como não percebi, digitais imprecisas, e aquilo tomava a forma de um estupendo rato... sério, eu não quero mais falar nisto.

F.

domingo, 30 de dezembro de 2018

Terceira lista de recomendações de livros para ler


Alguns clássicos (Maravilhosos ou irresistíveis)

1 Lolita, Nabokov.
2 Humano demasiado humano, Nietzsche.
3 Caninos Brancos, Jack London.
4 Antes de Adão, J. London.
5 Com a maturidade, fica-se mais jovem; Herman Hesse.
6 As viagens de Gulliver, J. Swift.
7 Górgias, Platão.
8 Parmênides, P.
9 A casa das belas adormecidas, Yasunari Kawabata.
10 O país das neves, Y. Kawabata.
11 Confissões de uma máscara, Yukio Mishima.
12 O declínio de um homem, Osamu Dazai.
13 Fogo pálido, Nabokov.
14 Uniões, Robert Musil.
15 O retrato do artista quando jovem, J. Joyce.
16 O Amor de Mítia, Ivan Búnin.
17 O Eterno Marido, Dostoiévski.
18 Bola de Sebo e Outros Contos, Guy de Maupassant.
19 Ratos e homens, John Steinbeck.
20 Kappa e o Levante Imaginário, Ryunosuke Akutagawa.
21 Memorial de Maria Moura, Rachel de Queiroz.
22 Caetés, Graciliano Ramos.
23 A hora da estrela, Clarice Lispector.
24 Primeiras Estórias, João Guimarães Rosa.
25 Quincas Borba, Machado de Assis.
26 Otelo, Shakespeare.
27 O Ateneu, Raul Pompeia.
28 Diário do hospício & O cemitério dos vivos, Lima Barreto.
29 Objeto Quase, José Saramago.
30 Retrato do artista quando coisa, M. de Barros.

F.G.M.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Pu...



Resolvi sair de casa pela madrugada. Devo dizer que havia tomado um banho bem gelado depois de morrer de calor durante a noite inteira. Assim que me deparei com a porta, senti um arrepio no peito e me perguntei por que sairia tão tarde da noite se já era hora de dormir? Tenho passado os dias assombrado pela ideia do amanhecer. Sim, amanhecer. Parece-te estranho se me assusto ao pensar que o dia pode acabar e recomeçar sem fim? E se a noite durasse a vida inteira? Fiquei preso por anos a esse pensamento e, depois de muito tempo pensando se sairia ou não de casa, num dia comum, sem festa em clube ou movimento na rua, apenas para descobrir – e sozinho – como seria passear sozinho sob um céu estrelado com portas fechadas e luzes acesas, tomei o último gole de coragem que faltava-me à curiosidade. Desta vez, me senti bem melhor do que da última que tentei sair, porque não havia tomado banho nem tampouco pensado no passado. Enfim, estava despreparado, é certo. Passei o dia comendo bem, relaxei até não sentir as pernas, fiquei vidrado na ideia de sair de casa à noite desde o raiar do sol. Psicologicamente, sem entender nada de psicologia, senti-me apto para viver tal aventura. Quem diria que os perigos da noite de tempos outrora brutais pudesse se tornar apenas a patologia de um homem sem coragem de abrir as próprias portas e, simplesmente, sair de casa, tomar um ar, se dirigir à calçada e, quem sabe, até mais longe, como a rua, o outro lado da rua, a próxima parada. Mas não podemos mover a vida com medos passados, quero dizer, é preciso dosar razão e tensão. Esquece. Bebi água após meia hora esperando o efeito do enxaguante bucal passar, vesti uma camisa de algodão, agradável e leve, um calção até o joelho de jeans falso, pus as chinelas e estava pronto. Espera, lembrei-me de que esqueci de algo na cozinha. Um saco plástico no chão! Sim, eu não poderia deixar nada faltando para minha partida. Cada coisa mínima me incomoda tanto que eu não posso me concentrar em mais nada se eu não resolver. Posso dizer a vocês que já fiquei atolado de tarefas para fazer e só não fiz porque estava com medo de não concluí-las e, pior, de ter consciência de que eu as tinha acabado, que não eram tudo aquilo que imaginava minha vã neurastenia. Eu sou estranho, bem, quem não é? No meu caso, eu odeio criar rotinas e ter a certeza de que farei tudo no mesmo horário, com a mesma disciplina, a mesma dedicação, em todos os dias, ora, sou brasileiro e não nego minha pertença. Preciso de caos, criar caso, encher o saco e socar o ar enquanto, na verdade, deveria estar colocando minhas coisas em dia. Talvez você me pergunte sobre o que estou falando agora, mas posso retomá-lo ao assunto: fui à cozinha jogar no lixo uma pequena embalagem de bolacha recheada. Alguns chamam de biscoito, eu costumo chamar de bolacha. Em verdade, há uma confusão quanto a isso, contudo, não quero perder o hábito que criei há anos de chamar bolacha. Vejam, odeio hábitos, mas de uns – não posso me desgarrar. Já pensou? Estou com um leve tremor na barriga, o cheiro não é bom aqui... Então, como a memória da gente pode se lembrar de tanta coisa tão besta e se esquecer das coisas mais importantes? Lembrei-me de que havia deixado um cotonete embaixo do tapete na semana passada, guardei na memória aquela frase horrível sobre eu “não ser inteligente”, além de recordar de coisas inúteis, como a posição da maçaneta da casa do meu primo, a preferência de gravação dos canais da tv paga, além da posição que defequei no ano passado, depois de beber um leite estragado, o papel higiênico rosa, o meu tio me perguntando se eu “não queria ser cremado”, uma buzina forte anunciando um acidente. Sim, mas tudo isso para me lembrar daquela mosca em cima do xampu anti-caspa, azul-verde. Horrível.
Sei que me distanciei da porta por um instante, mas voltarei a ela. A cozinha estava bagunçada. Para me sentir em paz, apto, em perfeitas condições, tive de arrumar a louça, prato a prato, copo a copo, talher a talher, e guardar a comida que havia em cima do fogão nas panelas. Depois de respirar fundo, a janela da porta estava aberta, dava para o céu, dava para o muro. Encostei os braços nessa fenda mística e fiquei a olhar aquele infinito. Puxa, que cena imensa! Por que deveria sair, pensei, se já estou fora? Eu sou o mundo. Eu sou eu. Já tinha me esquecido de tudo que era importante no dia anterior. Pensando bem, olha, já parou para pensar que tudo aquele que é importante é, ao mesmo tempo, estressante, trabalhoso, insuportável, imundo? Por que transformamos as coisas importantes em grandes prisões da liberdade? Tudo aquilo que devo fazer não passa de tudo aquilo que não me deixam fazer. Talvez tenha sido por isso que nunca abri a porta de madrugada para sair e ver o que é a vida sem dever a ninguém! Olhando para quem sou hoje, após ter viajado tanto de um quarto para outro, de um reino (não, foi Gulliver), da cama para rede e desta para o sofá, percebi que me transformei numa revolta íntima contra mim mesmo. A minha mente paralisou o meu corpo o quanto pôde. Toda vez que devia fazer algo e os meus sentidos começavam a comichar, o pensamento dizia para. Era como se meu pior amigo me dissesse “seu inútil, pare agora mesmo o que seu corpo pensou em fazer”. Meu corpo, corrigindo, não pensa. Ele sente, é óbvio – e sente muito por tudo que tem ocorrido com ele nos últimos anos. Um dia, um dia bem longe, cheio de buzinas e cachorros latindo, em um dia sem sol nem lua, sem verso nem rua, sem prosa ou rosa, iremos nos separar. Sim, eu e meu corpo, um casal inconsequente, presos um ao outro, reduzidos um pelo outro. Ouvi uma batida na sala. Alguém acordou? Meu... eu moro sozinho... por que não me lembrei disto? Mania de criar companhias de fins de semana. Às vezes me perco, não sei se estou só ou se estão me acompanhado durante o dia. Não me refiro a aparições, diabo! Que susto, o inferno do meu smartphone acabou de tocar – o alarme de recebimento de e-mail. P... toda vez isso me esfaqueia o coração quando toca. Só pode ser o demônio querendo me matar de um susto. Agora eu vou ter que olhar quem me enviou esse e-mail dos quintos dos infernos. Sabe de uma coisa? Melhor não. Vi a prévia aqui é apenas um spam... nem o diabo me envia e-mail. É a vida. Pus o capeta no bolso e me encaminhei à porta. Finalmente, eu e ela estávamos juntos. Aliás, sobre eu saber ou não se estou sozinho, é coisa desimportante agora, pois estamos bem perto do portal que irá me conceder o silêncio da madrugada, o volume máximo da noite. Reitero: uso apps de encontro e saio com tanta gente que não sei mais nem quem me abandonou na última t... amar, hoje em dia, é... a porta! Vamos à porta. Eu sei que todos se interessam pelo amor e todos querem saber um pouco mais sobre o que não sabem a respeito desse sentimento divinabólico, mas preciso seguir com minha história, senão, quem irá contá-la por mim? A porta. Sim, a imensa pequenina porta que me separava do portão. Primeiro a porta que dá acesso à área/garagem e depois o portão e, então, a rua, a noite, tudo. Quando a abri, fiquei gelado da cabeça aos pés. Comecei a salivar excessivamente. Que dor! A tremedeira começou pelo queixo e desceu para os joelhos! Ai... coloquei o smartphone no silencioso para que não me matasse do coração e, às duas da madrugada, abri a portão depois de ficar meia hora tremendo diante dele. O vento assobiou maliciosamente assim que pus o primeiro pé na calçada e fui colocando meu corpo todo para fora. Fechei o portão. Olhei para trás, mecanicamente, arregalei os olhos e notei que deixei a chave do lado de dentro! Ou seja, fiquei trancado pelo lado de fora! E agora? E a aventura? E as delícias que me fariam esquecer o que viver dentro de casa, preso às paredes, sonhando sair? Pensando bem, mas bem mesmo, talvez fosse melhor se eu tivesse enfurnado, quieto sob lençóis, cueca na bunda, olho no history. Seria mais livre do que imaginaria depois que saísse. Se eu pudesse voltar! E agora? Comecei a pensar no chaveiro, no rombo que fariam no portão, na vergonha alheia... por que me prestei a tal serviço se eu poderia ter ficado... já disse isso... agora estou ficando repetitivo. É o nervoso. As palavras estão saindo de mim pausadamente.
“Burro, burro, burro” – pensei contra mim mesmo. Comecei a suar, fiquei com calor, agoniado, queria gritar, mas não queria ser ouvido, mordi a barra da camisa, soquei as paredes e, não havendo mais nada a fazer, sentei-me de pernas e braços cruzados, cabisbaixo, arrependido por ter nascido um milhão de vezes na minha alma. Será que não há sossego para ninguém neste mundo? Em que tipo de paz doméstica eu acreditava existir? Por que sair de casa parecia ser a liberdade que os franceses pregaram na revolução? Ah, que vida injusta, ingrata e ignara. Se era inútil qualquer esforço por mudar o mundo através do pensamento, resolvi perambular, como se diz, por aí. Levantei-me, decidido, com o coração um pouco aflito, e fui. Todo aquele misticismo de sair de casa, a mágica envolvida sob o céu de estrelas, caíra por água abaixo depois que a chave para tudo se tornara o esquecimento para todos. Sim, é preciso virar, trancar e guardar. Sim, é preciso desvirar, destrancar e guardar. Vira e desvira, vira e desvira, sempiternamente. É tudo obrigação por fazer, datas comemorativas, o índice da bolsa de valores, as frases polêmicas do político Brutus Asnus. Embora saibamos que fizemos tudo para termos a tal estúpida qualidade de vida, no fundo, no fundo, bem lá na paz e tranquilidade tumular, sabemos que a vida – sim, esta vida vivida e desvalida vida, não passa de encheção de saco e excesso de gordura aqui, flacidez ali, lubrifica aqui, dá um polimento ali, ajeita aí, faz um favorzinho pra mim, planeja a m.... vida é sobrevida. Após chutar a lata de cerveja, percebi que caminhei quase cem metros sem olhar para frente e, pasmem, estava no meio da rua! Em outra hora, seria deliciosamente esmagado por um carro, uma moto, uma viúva (em um carro). E por que não um viúvo? Ora, digo, tanto faz, seja homem ou mulher. Se você reparar bem, não fazemos nada na vida que realmente importa. Fazemos tudo, mas tudo mesmo, tudo, tudo exatamente o contrário. Senti um calafrio depois de pensar nisso, um tremor de gelo no peito e um engasgo nos olhos. Algo aparece por trás dos pés de algaroba. Uma sombra humana. Ela se parece tanto com a minha! Não tive medo, juro, estava pronto. Que libertação. Fui, por muito tempo insensível, mas agora eu sinto e sei por que não fiz nada a respeito disso. Mantive-me útil e prático aos olhos do mundo, rentável e funcional, ou seja, não prestei atenção nos detalhes e aquela sombra, agora tão hostil por parecer ter dois metros e meio, ainda assim – não me assombrava, nem um pouco. Fui banhado por ela e, dentro de poucos segundos, o espectro sombrio diminuiu até sumir. Passei a mão na testa, voltei a mim. Já eram três horas da manhã; dizem, a hora dos mortos. Senti refluxos, um gosto de salmão estranho na boca, pigarreei até passar. Mexi a cabeça para todos os lados para relaxar o pescoço e, do nada vertiginoso em que me encontrava, um gato apareceu diante de mim, no movimento ondulante de penas negras no ar – quase me tirando toda a cor que restava neste pobre corpo possuído por tormentos e misérias! Ele me olhou e disse: é você. Eu? Como, você? Agora? Não, não era assim que eu queria dizer... ele se desfez depois que cocei os olhos para vê-lo melhor. Aos poucos, fui percebendo algo trágico naquela aventura. Na verdade, eu não fazia mais parte do mundo que acreditava. Estava em outro plano, vamos dizer, vivendo de outra forma. As pessoas foram surgindo e me cumprimentando. Viam, falavam, sumiam. Eu fiz o mesmo. Não era nada novo para mim. Sorri largamente, acenei, e caminhei por horas e horas. Por um acaso, pus a mão no bolso e lá estava a chave, sim, aquela mesma que eu havia perdido, a tal da chave, a casa que me trancou por fora. A chave não tinha mais dentes, estava lisa, velha, apócrifa. Se eu disser a vocês que dormi, é mentira. Eu passei a me comportar como uma palavra errante na alma dos que procuram um conciliação entre corpo, alma e vida. Foram tantas palavras que encarnei, tantos provérbios douraram minha boca, tive os olhos vazados de tanto ver e a língua, após espernear pelos séculos, ensombrada pelos terríveis sentimentos de ódio, fúria e dor humanas, caiu – antes que eu pu...

F.

print textual

O sonho é o aquário da noite. - Os trabalhadores do mar, v.h.