"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Sobre a arte de escrever histórias

Escrever uma história é uma arte interessante. Você começa a escrever algo e alguém termina. Mas você jura que "esse alguém" é você. E como se parecem!

F.G.M.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Companheiro nós


Ontem eu saí de mim e repousei sobre meu corpo pesado. Estava bem, embora não me sentisse bem. Estar bem – é algo que me incomoda bastante e nanja posso estar bem quando estou bem.
É como se tudo estivesse bem e não me faltasse nada. É contraditório, eu sei, contudo não posso me convencer de que estou ou de que algum dia estarei bem nesta vida. Não é exagero, até pode parecer, às vezes eu só me sinto insuportável mesmo, impossível de acontecer.
Mas, apesar de tudo, continua-se a viver. É a lei dos vivos: viver. Não há espaço para o “contraditório” quando se fala em vida. Todos temos certeza de que ela é importante e ponto. Mas, apesar de tudo, continua-se a viver. E o cansaço é como o mormaço: o cheiro vem de longe; é da terra, do ar, do espaço, quem vai saber?
Minha cabeça está fatigada e eu reluto em ficar bem, relaxar, me distrair com qualquer ideia consoladora sobre o mundo.
- É. – apenas digo em silêncio e nenhum pensamento me vem à cabeça.
Como, me distraio, me deito, e lá está meu corpo a fazer coisas boas por mim, grande companheiro. Foi quando eu me senti estranho que o conheci e nos apresentamos, eu e ele, este envelope, esta criatura orgânica e resiliente.
Anda, “vamos comer”, digo para ele e caminhamos juntos. Eu suspiro fundo e, bastante cansado, deixo-me quase voar na superfície do meu corpo.
Tão leve, tão alto, tão sensível ao silêncio de minha voz. Os meus olhos testemunham toda a intempérie que eu estou sofrendo e meu corpo – fora de mim. Não sei se eu teria coragem para sê-lo.
Depois de anoitecer, cada um foi para seu canto. Eu fui escrever e ele ficou deitado, a me observar, seguindo o fluxo do meu pensamento com seus movimentos sincronizados.
- Ah, meu amigo! – eu te transpiro.
De minhas memórias, ele se esquece e segue seu rumo na curva do tempo. De meus anseios, desejos, inspirações, ele apenas me guia, misterioso mestre.
Precisamos cuidar bem um do outro.
Precisamos tomar sol e beber licores. Se quiseres, podemos ler um poema, ou sentir como a brisa te afeta em mim. Repor as energias, que tal?
Meu camarada, você falou muito mais do que eu hoje. Estava na cara, nos braços, no peito, nos olhos, em tudo.
O que você estava pensando fora de mim?

F.G.M.


segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Inglório ofício


“Iniciei um livro!” – vejam, amigos! Aqui pus isto, “hunrum”, aquilo foi com o intuito de..., “entendi”. Quando menos você espera, os dois bons amigos estão conversando sobre o placar do brasileirão, a mais nova série sobre zumbis, e o décimo quinto calçamento da rua que ainda não fora calçada até hoje.
Você olha para aqueles papéis lisos tão cuidadosamente escritos, aí aperta os lábios, olha para o nada, e os acha tão inúteis, tão fúteis diante de todos os assuntos existentes, até mesmo as fofocas mais insalubres sobre artistas, o placar do jogo no grande “clássico”.
Para mim, a palavra clássico só se aplicaria a clássicos. Mas tudo, depois de umas semanas, se torna “clássico”. E me recolho no meu silêncio, louco por me convencer em não acreditar mais naquilo, contudo, para mim – funcionaria como um suicídio, e eu amo a vida, apesar de odiá-la, e escrever, apesar de tudo.
Escrever é um ato extremamente solitário. Quando você começa, gera um entusiasmo entre os amigos, querem saber o que tem a dizer, por que diabos escreve daquele jeito e como terminará o episódio – no capítulo do lançamento.
Mas essa empolgação apenas surge por causa da novidade, do burburinho em torno de alguém que resolveu entrar nas páginas pela primeira vez e arriscar sua própria existência para que um novo mundo possa surgir.
Depois desse boom, ninguém para socorrer, só você e sua alma, aflitos do que pode ser. As histórias se misturam no calor das emoções, as memórias se confundem, tudo o que tem potencial de existir pode apenas parecer bom, não é trabalho dado aos mortais descobrir o que deve ou não estar em cada espacinho da página.
As pessoas que se interessaram no início, agora estão distraídas com outras coisas novas que também lhe causarão um cansaço rápido, e eles irão precisar procurar cada vez mais coisas novas para tentar, talvez, exaurir esse tédio infinito que nunca esgota, mesmo diante da pretensa eternidade das obras da arte.
Ao seu lado, estará apenas a esperança que, ao menos, ao terminar a obra, serás lido. Mas, mesmo isso, não nos dá garantia. Parece que perdemos tempo demais para produzir algo bom e o público, reduzido apenas a amigos e familiares, não aguenta esperar.
E, claro, o que esperar desse sujeito que ainda não fez sucesso? Por que ele já não nasceu com vinte livros publicados e aclamados pela crítica? Por que ele deve construir uma carreira e não nascer com uma, por exemplo, já ser filho de escritor?
E diante de tantas dúvidas, o público some, e o autor – ainda berçário de estrelas – se esconde atrás de uma máscara de resistência revolucionária, pacífica, torturante. “Continuo com este ofício inglório” – diz o autor com o peito estufado e a alma murcha, feito uma rosa estranha na estante da sala, descolorida, escura, abstraída de qualquer essência.
Mas, que hipótese! Por que não a levamos em consideração? No dia de sua morte, talvez, o procurem. Mas, que loucura! É preciso estar vivo para escrever, ou... vivo de alguma maneira. É aí então que o autor, não o de primeira viagem, mas o que já tem quatro livros publicados, sorri de sua sorte.
“Morrer, bem, morrer, é isso mesmo que as pessoas querem”. E sua frase absurda parece ter sentidos que nenhuma mãe perdoaria.
E os best sellers explodem nas livrarias! Enquanto você sonha se tornar um fazendo o que acredita e não só para ganhar dinheiro. Eu me pergunto, insistentemente, como alguém pode fazer algo só para ganhar dinheiro?
Mesmo aqueles sites inúteis, como tudo que faço, sobre o zelo que se deve ter com o piso da casa, a posição dos ombros à hora de ler, como consertar um espelho, ou reiniciar uma smart tv, ou dar conselhos de amor, alguém que produz essas coisas e tem muitos acessos, um público, só pode fazê-lo porque acredita nisso e consegue monetizar tal existência.
Por que eu não consigo monetizar o que escrevo? Por que eu não consigo escrever aquilo que vende aos milhares e rende prêmios? Porque eu não acredito naquilo que não acredito e faço somente o que dita essa consciência. Alguém no mundo perceberá o que percebo – e até consiguir ir além daquilo que acredito. Contudo, um autor que tenha um livro pouco circulado em seu país, ou até mesmo em sua minúscula cidade, jamais será visto.
Quem irá financiar um maluco na sua jornada entre o ser e o nada?
Ocupar um universo criado, como todo ele, originário de uma consciência cósmica singular, da grande explosão de nossos devaneios, demônios ou referências, é se arriscar na árdua tarefa de encontrar vida quiçá nalgum lugar distante de nossa galáxia, com a certeza de que fracassar representa praticamente o cenário propício para todos os viajantes siderais.

F.G.M.

domingo, 5 de agosto de 2018

Dia livre


A nova vida precisa de um começo. Não é necessário quebrar o ídolo completamente. Enquanto nos desfazemos, a imagem do ser se realça com as imperfeições que fizeram parte de nós desde eras imemoriais.
O primeiro acesso de mudança, ou lampejo, é quando olhamos para o espelho e nos vemos distante daquela imagem que nossa estrutura anatômica não nos permite ver. Os olhos são para fora, e por isso devemos sempre ocultar nossa presença externa, essa visão exata de algo que está longe de qualquer exatidão e que parece habitar o topo de nossa pirâmide.
Se você pensa em mudar, tome cuidado com aquilo que se tornou hábito e diz que se parece contigo. É semelhante a você, tem a sua cara, mas não é quem você de fato é. Depois de uma noite intranquila, a vizinhança colocara o som nas alturas, pude, finalmente, dormir às duas horas da manhã.
Antes de conseguir pregar os olhos, tive de me distrair com a variedade infinita de inutilidades que a cultura e a arte/pop me oferecem, desde filmes a séries, até livros, e notícias sobre novos visuais de artistas, lunáticos na política, atentados forjados contra presidentes e crimes contra a sanidade das pessoas.
E, depois de mal dormir, levantei-me às nove horas. Tinha os olhos fundos, apertados, insatisfeitos por acordarem ainda cochilando, despertos abruptamente, estufados.
Mas, apesar de tudo, tive um dia livre. Ganhei um dia livre. Livre de mim, longe de mim, perto de todos.
Olho para o amanhã cheio de coisas para fazer e penso em como ontem me aventurei em mundos distantes, hoje apenas socializei com colegas de que tenho muita estima. Foi um dia cheio de conversas, confraternização e alegria.
Comemos macarrão, preparado pela visita, discutimos sobre futebol, política, poesia, filmes indianos, educação, bem-estar, sex shop. Estávamos à vontade e não vimos o tempo passar como acontece quando estamos com velhos conhecidos, mesmo que eles não sejam tão velhos assim.
Eu tenho muitas lembranças e as servi à mesa como grandes combatentes do terreno sinuoso de minha existência. Cada um pôs um pouco de si na aventura amistosa que empreendemos desde às dez da manhã. Entre fotos, imagens, vídeos, memórias, olhamos para o tempo, e o ignoramos!
É assim que se deve fazer quando existe comprometimento com a palavra. Largar as distrações, deixar o smartphone de lado, esquecer que o tempo passa como um personagem sem graça por trás dos muros e depois nos assusta, ao transpô-lo, sem nos impressionar com sua presença indesejada.
Após longas tertúlias, um terceiro amigo visitou-me para me pedir um favor e, de quebra, me emprestou E o vento levou. Não poderia ter desejado um dia melhor. O acompanhei até o portão, enquanto os outros continuavam até à tardinha, a boa prosa na cozinha, e conversamos, sob as árvores frondosas de minha casa, sobre os filósofos modernos brasileiros, ou seja... nos despedimos depois de longas discussões.
Voltei ao papo com os camaradas, e já no início da noite, todos satisfeitos com o longo almoço, que se estendera até o café da tarde, combinamos um jantar numa hamburgueria da cidade.
Comemos à vontade e terminamos com um bom e velho açaí.
Só posso dizer, mesmo estando com o estômago roncando agora neste fim de noite, que terminamos em grande estilo: com boas histórias, gargalhadas e algaravias.

F.G.M.


sábado, 4 de agosto de 2018

Os fins me começam


Eu não queria escrever isto, sinceramente. Sinto-me forçado a escrever qualquer coisa, inevitavelmente, contra minha vontade, algo para dizer se faz urgente na minha alma, algo que só poderia explicar através da escrita, escrevendo... Estou suando debaixo da luz de minha luminária e acabei de ler uma novela extensa de um escritor japonês que não tem fim.
Vejam, que ironia! Assim como minha sede de escrever não se encerra, aquela novela também não. A história é bela, comovente, existem trechos memoráveis e até analogias atuais. O autor foi persistente em sua visão de mundo e não a abandonou durante os quatro capítulos da história.
Apesar de não terminá-la (a meu ver), eu comecei a escrevê-la logo após meu silêncio demorado depois de não ter aceitado aquele “fim”.
Em minha cabeça, os personagens se esboçaram diferentemente do que ele previra. Minhas conclusões inusitadas sobre o desenrolar da trama só acabariam, por fim, em dar um final definitivo para o enredo.
Mas seria essa a pretensão do autor? Acabar o que ele começara, pôr um ponto final naquilo que nunca termina, a não ser com a vida, seria mesmo a saída? Terei encontros às escuras como os personagens o fizeram? Para descobrir o que realmente sinto a respeito do livro?
No início, as coisas são tão abundantes que não nos preocupamos com fim nenhum. Assim era tal história. Lívida, desde o berço, impecável, memoriosa, minimalista. O impulso do escritor em esboçar uma realidade palpável em palavras é tão forte que chegamos até esbarrar com os personagens de vez em quando, com o intuito de o alertarmos sobre algum perigo iminente que eu, enquanto leitor, logo descobriria.
E aquilo que tinha um fôlego imenso começa a se tornar um silêncio ininterrupto de descrições cada vez mais longas e intermináveis. Toda aquela paixão do personagem pela observação acurada e filosófica da realidade começa a se tornar algo breve, tedioso, prosaico.
Todo o vigor imaculado da história agora se vira pesadamente sobre as costas do leitor, que terá que carregá-la como um soldado tombado no campo de batalha, extenuado, ferido, nostálgico por ter vivido tanto em tão pouco tempo.
E foi um dia inteiro de leitura, intercalando entre trivialidades, lanches e receios do amanhã. Só de pensar nos “receios”... meu coração palpita como o daquele autor diante do seu infortúnio.
Alguns momentos históricos podem elevar a força de uma narrativa como nenhum outro artifício aristotélico. Mas, mesmo nessas horas imperativas, inadiáveis, heroicamente inspiradoras, o autor descuidado pode se deixar levar por um buraco sem fundo, à procura de uma corda, uma ajuda, algo que o tire de lá e o traga novamente à história que iniciara meses antes do conflito.
Eu sinto que ele não desceu tão fundo, mas tampouco conseguiu chegar totalmente à superfície. Havia algo intratável naquele texto que eu não poderia esperar resolução melhor do que um fim sem fim. Não critico as histórias que não têm fim, pelo contrário, às vezes o ponto final está nas mãos de um editor faminto, um crítico, sei lá onde. Agora, um história que (não) termina no seu...
Minha vida inteira foi preparada, desde que eu me entendo por gente, para que as coisas tivessem um fim. Contudo, intimamente, creio estar errado quanto a isso, porque todas as noites durmo com a certeza indubitável de que eu nunca aceitarei nenhum fim no mundo.

F.G.M.

Sobre a arte de escrever histórias

Escrever uma história é uma arte interessante. Você começa a escrever algo e alguém termina. Mas você jura que "esse alguém" é voc...