"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

A morte do autor


O mistério que ronda meu sangue é peregrino. Como a noite, eu me vejo na escuridão das eras a perambular por uma resposta sobre o que aconteceu comigo no último dia. E irei demorar quase um século para saber. No infinito, não há exagero, tudo é pequeno.
E foi quando eu me aventurei pela vida adentro, nos segredos mais íntimos das almas em chamas, que meu coração bateu devagar e minha boca secou como um rio morto. Foi assim que me senti quando me disseram que eu morri. Juro, jamais pude imaginar que meu corpo, ali, resvalado sobre o nada que é tudo, pudesse sentir, em seu derradeiro suspiro, os bons ventos do amanhã.
Mas não seria tarde para mim, então? Por que não me salvaram em vida? Por que me deixaram ao relento de um porvir incerto, do qual nem eu jamais poderia imaginar em meus mais belos dias? Em tudo que me habita, há uma decepção que magoa fundo no meu ser. Sou indignado com tudo, porque aprendi – da pior forma – como é ser rejeitado desde cedo até morrer.
As pessoas te machucam à distância e de todos os lados. Seu inimigo, algoz do teu ego, é o único ser sincero ao teu redor. Foi assim que me vi abandonado pelos meus entes queridos e até pela pessoa que eu mais amava na terra...
Quem há de imaginar que eu poderia ser tão trucidado enquanto andava pelas ruas com a esperança como pendão? Foram-se os tempos em que acreditei ser algo! E pude ser pelo tempo o suficiente para me esquecer de como tudo não passa de um cortejo sombrio de almas cálidas no caudaloso destino das criaturas passageiras.
E, com fome, sede e angústia, cultivei, além dos piores males da existência, a dor de perceber. Privei-me daquilo que mais me servia como alimento: a derrisão das coisas presentes. Foi o pão diário da humanidade por séculos. Mas, na minha mesa, só me serviam desprezo, enquanto eu oferecia amor e paixão.
Depois do sono, eu sabia, nada iria adiantar para mim, pois já estava insatisfeito, sedento e renegado e, àquela altura do apagamento de qualquer ego, meu sangue esfriou no caldeirão do mundo.
Olhei para cima e a luz que deveria guiar a humanidade errou em mim. Ninguém estava disposto a acolher o filho da escória e o presságio da escuridão.
Fui longe, eu confesso. Antes de morrer, lancei-me muitas vezes às criaturas estranhas que me receberam com desdém.
Agora, rasgado, estropiado à feição da desventura e do nojo, aquele corpo cuja vida se esqueceu de abençoar suspira pela derradeira vez. É belo, apodrecendo, suave feito as doçuras que se estraçalham na boca, aquele ser imoto.
Agora, o reconhecem. Ele é incrível. A palidez roxa na região dos lábios e olhos lembram o olhar dos outros sobre ele.
Quando descobriram o silêncio, a voz apagou de vez. E, como uma centelha guiada por mil estrelas, um vácuo profundo se apoderou do meu peito em direção a tudo que se desfazia em nada.

F.G.M.

sábado, 7 de julho de 2018

Dimensão do erro


Todos os dias nascemos e morremos. Quem há de sonhar com templos onde divagamos sobre futuras quintessências?
Não adianta se redimir diante de palavras sutis e fardos extremos.
É a lei eterna. De onde viemos? Assim se faz e se desfaz o ciclo sem fim de nossa ignorância. A quem procuras no vazio? E nosso coração é um pedaço de silêncio na alma do caos. Ontem eu mesmo me joguei de um abismo e, vejam, como me refiz!
– Eu corro feito um louco para atravessar o rio violento que me arrasta da vida. Infelizmente, nunca saberei a hora de parar.
E foi assim com tudo em minha vida. O meu desejo impassível de sempre seguir adiante para alcançar tudo aquilo que me foi dado em apenas um segundo perante toda a eternidade da existência.
E segui, silenciosamente, em meu caminho enfeitado a horas e passados. Me enxerguei entre aqueles que faziam parte de mim e todo o céu era plenamente azul e desconhecido. Agora, eu não os vejo mais, é tudo aqui, ou é tudo além do que poderia ser se eu não soubesse de nada.
E são sóis.
E em cada um desses sóis habita um sonho.
E em cada sonho em que um sol abriga o calor sempiterno do espaço, há um germe que se contorce entre a vida e a morte.
E nunca alcançaremos. E sempre estaremos à espreita deles, como formigas tontas depois duma enchente oriunda de um copo d´água.
Do mais especial, estranho, inacessível e longínquo, o propósito universal recrudesce.
É tão maior do que qualquer obra humana.
Impossível compará-lo às divagações platônicas.
Parei um segundo para respirar. São formas arcaicas e ancestrais que transitam pelo meu corpo como pássaros errabundos do ninho absoluto do tempo.
Suspirei fundo e tudo aquilo que me possuía, de repente, se tornou apenas fome, desejo, sono, anseio.
Por que me colocaram lágrimas de cristal?
Eu quero arrancar meus tímpanos.
Destroçar meus exércitos.
Deem-me o que peço, por favor! Não há nada mais prazeroso do que provar do próprio suor de nosso desespero.
Sonhando ou dormindo, cada estrela inicia seu ciclo ao fim de uma era, e todos veneramos os destroços de um deus prematuro.

F.G.M.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Naqueles dias: mal


A cabeça pulverizada, em chamas. Nada me conforta ou me consola.  As horas passam tortuosas na minha alma como a lama no ralo. Rolando, como recipientes vazios em becos estreitos.
Vejo coisas que não deveria e sinto-me mal por ser quem sou. Não sinto, não cheiro, não provo, estou letárgico e perdido. Onde está meu centro? Por que as coisas mudam tão cruelmente de face? E sei que meu presente me sufoca como meu passado se torna desconhecido e futuro.
Calma, calma, eu digo para mim mesmo, e meu calor transborda pelos meus olhos, nada faz sentido, estou vagando pelo vazio que há em mim – e não temos previsão para sair. Hoje, amanhã, nunca, quando, talvez? A cada ano, uma distração ou duas é preparada para nos iludir – e nos abortamos.
Falei mais de mil vezes em vão para mim o que deveria fazer e não fiz. À noite, resmunguei, praguejei, desisti.
Quem poderá lutar contra si mesmo e vencer? Onde está a razão nisso? Eu sei, mais uma vez, eu sei, mas não adiantar saber, é preciso viver. Se reerguer, sair, sorrir. A cada dia, parece-me difícil cumprir a sina de existir e todos pensam que viver é assim.
Eu fiz descer de mim a luz e, no entanto, não posso mantê-la.
Tão forte quanto frágil e serena, ela trepida de mim para a escuridão e só me resta sentir quando – vagarosamente – ela vai se esvair até o finito sem fim. É lá que me perderei e não terei notícias de mim.
Eu vou: consolar a minha sombra enquanto meu corpo apodrece em silêncio no tempo.
Se são tantos mundos, por que vim parar aqui?
E o que sou no meio de todos os bilhões de estranhos viventes?
Estamos bem? Existe mais alguém que não é daqui? Por que nos obrigam a viajar tantas e tantas vezes por aí para, enfim, subirmos?
Eu fui infantil, eu perdi o controle, eu me estranhei e me coloquei abaixo do chão. Eu não deveria ter feito aquilo. “Perder a vontade” – não deve ser guardado em mim. Me arrisquei, fui fraco e quase desfaleci.
É porque às vezes estamos tão mal, tão afundados, imundos...
No final das contas, está tudo bem, no caminho, em ordem, impecável. Por que relutamos em esconder de nós mesmos aquilo que está iluminado em nós e no mundo? Por que nem chegamos a ver nossa rotina passo a passo para perceber que não há nenhum mistério em termos desafios, grandes, pequenos ou impossíveis? E erros, ainda que minúsculos?
Por que deixar de crer?
Quando estou mal, deixo me ver através de uma neblina espessa, grosseira, distorcida. Eu mesmo jogo o barco contra as rochas!
Eu não preciso disso, eu sei.

F.G.M.

A morte do autor

O mistério que ronda meu sangue é peregrino. Como a noite, eu me vejo na escuridão das eras a perambular por uma resposta sobre o que ac...