"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

terça-feira, 8 de maio de 2018

A Primeira Fantasia Eletrônica

 
Idos de mil novecentos e noventa e seis. Foi talvez uma vez e, veloz, zoava a luz na zona, o arrebol estilhaçado.
Me disseram que era proibido fazer aquilo. A minha mãe morava no meio do mato e o meu pai descascava ferro como frutas. Augustinópolis, – TO. O ruído era grande. A sua oficina talhava peças para carros e fazia pequenos ajustes nas peças velhas. Cidade pequena, o chiado da rua se misturava ao zizio da floresta. Nos quintais, longos como sítios, latidos, grunhidos, estampidos loucos. O sol nascia e soldava nosso dia como uma parte quebrada da nossa vida. Os desenhos animados me deixavam feliz. Às vezes a televisão chiava, mas dava pra ver aqui e acolá a imagem boa de Chaves. A casa era apenas dois vãos: a oficina e, por trás, sala-cozinha-quarto. Vivi tempos difíceis.
Quando decidíamos viajar, era algo milagroso, aparição, bicho-assombração. Embora fôssemos apenas para uma quitanda próxima, não tão longe dos vizinhos, imaginar estar longe de casa era bom, comendo pastelão de carne com suco de maracujá por apenas um real e nos lembrando apenas de comer e beber o instante que não passava e passou.
O quintal foi o único lugar para minha fuga, minha viagem interior, enfim, meu longe-de-tudo-afinal. Lá, as aventuras ganhavam um aspecto mágico e real. Tudo existia. Saci, Curupira, Pica-Pau. Uma bruxa morava nele. Chamava-se Dona Sinhá. Era negra como uma pantera negra. Escurecia no dia.
Meu pai e minha mãe gostavam dela porque não sabiam que ela tinha poderes sobrenaturais. Eu sabia e, certa vez, invadimos sua casa.
Marrom, de barro, bem velhinha, acobreada, com um vão apenas. Não tinha tranca, era atada apenas por um cordelzinho, tão fácil de abrir, que o vento gostava de passear no seu interior. Eu sempre pensava em como fugir de uma região inóspita e mística, e dizia a mim mesmo, “cuidado: o mundo estranho é tão simples quanto o real, não existe diferença, pois, quando o mal surge, é tão mau quanto o mal na realidade”. Estávamos eu, Chiano e Leo. Medo era pouco. Vontade de se borrar, cair pra dentro, embrulhar a tripa, vomitar coragem, estrebuchar, baixar o pano, chamar mamãe, correr pra sempre. Será que Dona Sinhá deixou algum feitiço?
- Felipe, cuidado! – Chiano me empurrou para a longa da porta, assustado, e disse-lhe:
- Que foi? Que foi?
- Olha só o que está em cima do teto! – Virei-me e, quando olhei, inquieto... Sério, respondi-lhe:
- Seu infeliz! Deixe de brincadeira besta...
E ele sorriu abrindo aquela bocona, gengiva roxa, com mil dentes separados.
Depois da descontração, voltamos a ficar com medo. Ao entrar... A casa era soturna como a parte oca de um violão. Soava misteriosas melodias. Tudo era antigo, como a filosofia. Coisas pequenas, rústicas, um lampião enferrujado, uma cômoda do período colonial, grossos trapos, uma mobília secular, humilde, envelhecida. Não tocamos em nada, vai que estivesse enfeitiçada! E, plim! Voltaríamos à nossa condição de verme! Quando ouvimos nosso coração bater rente ao ouvido, aí era demais, saímos correndo de lá!
Depois desse dia, nunca mais fui o mesmo. Fiquei dado a bruxarias, encantamentos, seres estranhos, palavras, milacrias, aventuras desconhecidas. Fato tão memorável quanto a primeira vez que joguei videogame. O jogo era Mortal Kombat. Alguns dias após, ganhei um Super Nintendo velho do meu tio lá de Brasília. Mário foi o jogo favorito. O videogame mudou a minha forma de ver TV e ficar em casa.
Os meus amigos mudaram também, eu mudei muito tempo depois, mas mudei de cidade, de estado, de rumo.
Cresci. Já não sou menino-pequeno. Sou menino-grande. Ainda gosto de muita coisa e tenho saudades do que eu vivi quando vivia no mato meio cidade.
Em Caicó, conheci alguns caras no João XXIII que gostavam de um jogo diferente. Apesar de serem caras legais, gostavam de ilegalidades. Fui com eles pra Zênia, lendária dona de uma antiga locadora de videogame daqui, que se localizava na Barra Nova, antes da subida para o Paulo VI. O fenômeno das locadoras foi algo que marcou minha adolescência! Eram espaços de vivência fantasiosa, casas de Dona Sinhá espalhadas pela cidade, mundos em pequenos CDs, com fotinhas coloridas, pregados na parede. Tudo isso por um real a hora. Melhor que invadir casa no mato!
Em japonês, um jogo diferente. O personagem principal era um “galeguinho”. Você podia controlá-lo pelo cenário como se fosse VOCÊ! Lutas, batalhas, magias, conversas... Cristais! Como era bom sair de si um pouco para ganhar horas vivendo em outra realidade! Tinha ganhado um Playstation do meu tio (aquele mesmo de Brasília) e eu tinha comprado uma revista sobre tudo a respeito do Final Fantasy 9. Chorei, briguei bastante e, finalmente, meu pai me deu 30 reais para comprar os quatro CDs do jogo. Foi um marco na minha vida. Zidane e Dagger. A primeira fantasia de amor, de guerra, loucura e RPG em jogos eletrônicos. 

F.G.M.

domingo, 6 de maio de 2018

A EXCALIBUR: Jogos de videogame e Literatura


A Literatura é a escrita do homem, é a imagem do pensamento, é Homero cego a escrever as maiores narrativas épicas do ocidente: a Ilíada e Odisseia. É a forma de dizer que somos outros sem sê-los, quebrar monotonias, tédios, criar seres, trazer os Beatles, 2PAC, Dom Quixote, dividir o céu e o inferno. Isaac Asimov produzindo uma nação futurista: naves, civilizações, regras para se identificar um robô e padrões para o Universo. Júlio Verne indo ao espaço, ao centro da terra, ao fundo do mar.
Rimbaud esticando a sua temporada no inferno, seu momento no paraíso, sua eternidade no agora. Talvez não saibamos, mas a Literatura é uma forma de entrechocar os mundos, é a linha paralela e transversal, é o caminho oposto e o caminho, a curva extrema do caminho extremo, é saber demais antes de ver Deus e além-mar.
Eu creio que saber/conhecer é essencial para crescermos em espírito e, se lemos o Paraíso Perdido de John Milton, a epopeia de Gilgamesh, Beowulf, nós estamos um passo acima na escada da vida. Por quê? Como diz Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, “Porque eu sou do tamanho do que vejo/ E não do tamanho da minha altura...”.
Através da Literatura, conhecemos mundos improváveis, realidades irreais, espaços invisíveis. Ela é um dos meios para se ir a uma rua em Buenos Aires, bater um papo com Jorge Luis Borges, sentir o Fervor de Buenos Aires sem irmos lá. E os jogos de videogame, o que são? Parecem ser irmãos nascidos de pais diferentes, ou não, nascidos de mesmos pais, mas provindos de diferentes maneiras, emergiram de contextos diversos, entre a tecnologia e a tradição.
O jogo é algo programado para fazer funcionar um mundo complexo onde personagens vivem e interagem em torno de um conflito que poderá mudar as suas vidas. É necessária uma plataforma para rodá-lo, um console, seja ele Playstation, Super Nintendo, Xbox, com um, dois ou mais controles para acionar os comandos do jogo através dos botões. Esse videogame será responsável por fazer a leitura do jogo para que funcione todo o seu universo latente. Ele precisa ser controlado e, portanto, você é o jogador. Vários são responsáveis por sua produção (edição, imagem, história, sistema de jogo, etc). Nos primórdios dos jogos digitais, eram registrados em cartuchos (algumas plataformas ainda usam esse tipo de suporte para armazenamento). Hoje em dia, pode estar em um CD (sem bem que este já podia estar na lista dos antigos), DVD ou Blu-Ray. A atualidade ainda proporcionou um HD interno para o console, com a possibilidade de se colocar um HD externo para salvar os jogos COMPLETOS!
Se analisarmos de forma criteriosa, podemos dizer que o jogo tem, praticamente, os mesmos elementos da Literatura! Belas narrativas (verbais e não-verbais), combinações de possibilidades de leitura, personalidade poética e provocadora, aspectos de mitologias, finais abertos e múltiplos, críticas e análises da sociedade, da história, e demais disciplinas do conhecimento humano, como cultura, antropologia, ciências naturais, articuladas de forma criativa e imaginativa, sob o comando do leitor/jogador. Assim como as narrativas literárias são múltiplas e os poemas também, os jogos partem do mesmo pressuposto de variedade (acrescentando-se a jogabilidade como componente estruturador das histórias e do desafio): existem jogos mais narrativos, outros mais poéticos, abertos, como quebra-cabeças em constante construção e desconstrução, e aqueles mais livres, ousados e experimentais.
Quando os primeiros "videogames" chegaram, sem pretensão nenhuma, construídos a partir de uma tecnologia militar americana, equiparáveis aos dinossauros dos computadores atuais, eles foram reprogramados para entreter de forma simples e prática. Os jogos, como acidente mágico do ócio e do desejo de entreter-se, foram então criados. Não seria a invenção de uma nova roda? Naquela época, a capacidade dos jogos era muito fraca, bastante restrita e a AI (inteligência artificial) ainda precisava de reajustes colossais. Mas a revolução só estava começando.
Com o tempo, depois de vários desenvolvimentos, o Atari se tornou o Playstation da época! Anos 70, e os jogos começaram a surgir no mundo de uma maneira mais caseira, pois essa plataforma, diferente dos fliperamas, foi vendida de forma compacta e, quem podia comprar, tinha o seu em casa. O console fez tanto sucesso que, naquele período, um jogo sobre o filme E.T., de Steven Spielberg, foi produzido para Atari. Poucos recursos, gráfico restrito e grandes expectativas, resultado: um gigante fracasso. A era dos videogames parecia estar acabada mesmo antes de nascer. Spielberg chegou a dizer que os videogames jamais teriam a capacidade e o encantamento que o cinema proporciona.
Contudo, a história e o tempo trataram de recontar essa tragédia. O que dizer, então, de Final Fantasy? E dos inúmeros jogos de ontem e de hoje! God of War, The last of us, Battlefield, Resident Evil, GTA, Medal of Honor, Afro Samurai, Legend of Legaia, Breath of Fire, Star Ocean, Mega Man, Super Mario Bros, Assassin's Creed, Crash, The last guardian, Legend of Mana, Shadow of the colossus, Kingdom Hearts, Bomberman, The Last Story, Jackie Chan Stun Master, Bushido Blade, Valkyrie Profile…  Dark Souls, Nioh, Inside, The Witcher 3, Horizon Zero Dawn, Bloodborne! Tantos jogos que ficaram na memória!
A respeito do mundo dos games, o diretor em questão não tinha uma boa visão, sem dúvida. As histórias dos jogos mudaram a maneira de vermos o mundo, os gráficos avançaram e, de tão bem produzidos, parece que estamos jogando em um filme ou estrelando um jogo! Falas, grandes cenas, excelentes produções, é extasiante.Ter um videogame em casa é como ter um lugar novo a visitar a todo o momento. Não seria Literatura também?
Os dois têm muito em comum. Não há mistério. A Literatura narra histórias belas, estranhas, horrorosas, abrange o homem em sua multiplicidade, nos leva para lugares lúgubres, mágicos, místicos, podemos ler um poema, uma narrativa, um conto, uma crônica e, com o mesmo encantamento dos jogos, pertencer a esse mundo, interagirmos através do livro/ou controle.
Assim como o videogame, você não controla diretamente a história, mas pode imaginá-la ao longo do seu desenvolvimento e, como leitor, poderá interpretá-la, agir diretamente na parte movente do texto, do jogo, os sentidos, as entrelinhas, o universo possível entre o escrito, o lido e o ilimitado contexto de ambos.
Para estreitarmos os laços entre a Literatura e jogos de videogame, vamos ver o exemplo de Hironobu Sakaguchi, que se autodenominava um “contador de histórias”. Essa afirmação não é à toa, pois, quando jogamos Final Fantasy, encontramos várias referências às mitologias universais, a fatos históricos, a momentos culturais, a modelos de narrativas literárias, os “arquétipos” de personagens, os enredos, as histórias. Tais referências nós encontramos nos ambientes medievais dos primeiros FF, a presença do caos e da ordem, de deuses intervindo no destino de homens, a presença de cavaleiros, castelos e princesas. Vemos também o deus da destruição hindu, Shiva, Odin, o deus nórdico, Gilgamesh, rei da Suméria, além de concepções criadas em cima de diversos modelos universais de seres e narrativas. A Literatura e os jogos de videogame são de grande importância para a formação cultural do sujeito, pois nos proporcionam novas possibilidades de vida, de concepção de mundo e, além de toda essa responsabilidade, você se diverte, e muito.
O que está esperando, leitor-jogador? A EXCALIBUR está fincada, e você é o escolhido.

F.G.M.

Dúvida noturna 7



Quem escolhe?

f.g.m.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.