"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Francisco Félix: poeta dos fins



A invenção de sentimentos reais, livro de poemas do professor Francisco Félix, é o retrato de um poeta que carrega uma dor profunda e grandiosa pelas coisas da vida, sentimo-nos chocados ao ler – verso a verso – como sua experiência com o mundo rendeu, de uma semente obscura, o fruto mais amargo e doce de uma obra poética.
Em um tempo em que os poetas se perdem em experimentalismos vazios ou em acrobacias iníquas com as palavras, e todo o conteúdo de suas produções se resume a uma grama de artificialismo pirotécnico, Félix nos presenteia com poemas curtos, com versos e métrica irregular, simples, densamente compostos, frutos de uma experiência de leitura longa e mais ainda de vida, oriundos de uma alma verdadeira, cujo conteúdo orienta a forma.
Ana e Félix.
E, mesmo nos poemas mais longos, não lhe escapa a velocidade do verso, a argúcia, a constância do ritmo e a consistência da forma em conjunção carnal com os temas e com o teor lírico que condensa e unifica a obra em sua diversidade ímpar.
A capa traz as imagens infantis do poeta e de sua amada sobre o fundo com versos escritos à mão; o frontispício da obra comunica a dualidade do homem que encontrara o amor de sua vida e que, tragicamente, o perdera ainda muito cedo. Tal acontecimento faz ressurgir, no poeta, toda a potência de vida que os fins nos acometem.
Leitor cauteloso, verás, neste livro, o indício de que tua existência plena só ocorre quando a exuberância da noite repousa em teu colo. Em “Os peitos de Ana”, o poeta desloca o leitor para um lugar recôndito, familiar, e nos oferece um dos poemas mais agudos, belos e intensos do livro:

Os vazios entre os vazios
Que a plenitude do amor deixa
Tornam-se abismos infinitos
Como a opulência dos peitos de Ana.

“Os peitos de Ana” acalantam a lira do poeta, são fruto e fonte de toda a inspiração que permeia os versos de sua composição lírica. Erótico, e materno, ela é a musa e, para Ana, Félix volta o seu olhar, sua vida, sua inabalável poesia.
Seus poemas contêm o canto de um pássaro solitário que canta suaves canções cotidianas e graves melodias noturnas. É um livro de invenção, mas também de sentimentos. Ambos se confundem, as palavras se desdobram entre os sentidos ficcionais e biográficos do poeta, ele – a um só tempo: analista, réu confesso e fragmento de uma totalidade amorosa que percorre sua intimidade (des)velada nos poemas.
A sua poesia é urdida no força que a vida carrega ao longo da existência, o peso de ser, o peso de viver, o peso de cantar, são expostos como fraturas enraizadas na alma, são as gotas de humanidade que expõem fenômenos únicos:

ARMAGEDON

Nunca viram um poeta chorar?
Nunca viram suas lágrimas?
Elas descem, e doem, e furam.
São os seus mais puros versos,
São as suas mais veneradas dores,
São seus devaneios mais mercenários,
São as mais rochosas pedras de seu caminho.
Mas os poemas vêm profundos
E roubam esses fenômenos únicos,
Essas emoções tão encharcadas
Roubam e denunciam algumas coisas delas,
Porém não tão autênticas,
Quanto aquele orvalho divino.
Pois os consagrados o fitarão
Como se presenciassem o Armagedon
E gritarão, e lerão, e sentirão:
Um poeta chorou... apenas!

O choro não é ladainha, não devemos julgá-lo ingenuamente, os seus versos são dores veneradas e devaneios mercenários. Entre o que o poeta sente e o que ele é – reside a invenção de todos os seus sentimentos reais. Félix, assim como Pessoa, sente a dor que finge, porque no sentir transcende toda a natureza das coisas.
Algo escapa do controle da mão do poeta – e habita uma região consagrada na palavra, onde o verso desfigura a vida ou qualquer indício de nota autobiográfica para, inversamente, marcá-lo, tatuá-lo de sentido de alguma forma criada:

Demorei a escrever um poema,
Tive medo dos medos
De que as dores dolorosas
Da poesia fossem me marcar.

“Fingir é conhecer-se” e, nessa via de mão dupla, Félix tece sua poesia – entre o real e a invenção que faz dele(s), pois “Ser feliz é muito difícil/ Para quem nunca estudou essa matéria”, portanto é preciso, constantemente, criar-se, ser-se, inventar-se.
Fartamente nutrido de poemas, o livro, dividido em duas partes (Para os meus de ontem, de hoje, de sempre, com um sentimento profundo; vinte poemas diretamente para você, Ana, como um beijo eterno), apresenta um poeta que transita entre diversos temas – morte, vida, suicídio, racismo, poesia, amor, saudade, filosofia, arte, aprendizado – alguns relacionados, sobretudo, aos amigos, familiares ou entes queridos – que compõem e ressignificam toda a vida do poeta e o seu “ser-no-mundo”.
Os textos que são dedicados, de forma explícita, sempre têm uma pequena nota explicativa no fim do poema, que ajuda bastante na contextualização da leitura. Embora não interfiram drasticamente na compreensão do poema, elas auxiliam o leitor e, às vezes, até acrescentam um tom mais grave/biográfico ao texto como se pode ler em Lenda:

Poema para meu ex-aluno e sempre amigo Flávio, que ousou desafiar a ordem do universo num suicídio tão misterioso aos mortais.

Félix é uma lenda e Caicó a conhece por todos os quatro cantos da cidade. Em sua visão atinada da vida, o que o poeta escreve não é melancolia, é dor, é a dor – que, em seu versos, se transmuta em poesia e, como poesia, lemos não somente o sofrimento, a dolorosa ferida que arde de um homem vivido, mas também sentimos, na lição apresentada pelo autor, a flor fina que é o aprender através dos espinhos, ele, cego de guias e, nós, guia de cegos.
Como professor de português há muitos anos, Félix sabe muito bem como lidar com a palavra. Seus olhos pertencem às palavras como seu coração à Ana, e todos aqueles que o leem sabem que, em sua produção literária, existe o aluno, o eterno aprendiz que se contempla diante de tudo o que passa e deixa de ser, de existir e no serve de

APRENDIZAGEM

Quando se aprende a morrer,
Aprende-se a viver,
A chorar, a sorrir.
E tantas são as mortes,
E tantos sãos os suicídios,
Que temos que aprender a aceitá-los,
A amá-los
Para que fique bela e inesquecível
Cada marca de morte
Que fica em nosso olhar.
É uma aprendizagem inevitável,
Pois morrer é a única lição
Que a vida, má professora,
Nos ensina
E nos faz esquecer.

A invenção de sentimentos reais.
“Aprendizagem” é um poema que nos transporta, é a expressão mais pura e sábia de quem arduamente sentiu (conflitantes, paradoxais e fortes) e criou os seus/e nossos inomináveis sentimentos reais.
A segunda parte do livro inteira é dedicada à Ana, e vos digo com toda a sinceridade de um escritor, verás ali não só um poeta, mas um homem “viúvo da vida”, despido de toda a vaidade, e um amante intermitente. Aos corações mais rígidos, verás, leitor, a solidariedade de um ser humano que aprendeu com os fins como a vida é apenas o começo de algo maior.
 A invenção de sentimentos reais é um livro que surpreende, toca, retoca, destrói e constrói tudo aquilo que resistimos em nós, ele nos diz, e não sabemos como sabíamos e sentíamos que toda invenção é uma reinvenção de si mesmo.
O final do livro é uma surpresa. Quer dizer, é surpreendente. Na quarta capa, a foto de Félix e de Ana – crianças no início – agora se unem num gesto de amor inesquecível de um casal maduro e apaixonado. Todo o livro é composto como um signo de amor e dedicação pelos anos de vida que a vida roubou e a poesia, como redenção, tentou restituir. Mas não se esqueçam, leitores desavisados, de olhar a orelha do livro e o último poema. Inevitavelmente, eles são um só.
Para Félix, os fins não justificam os meios, eles, os fins, são os únicos meios pelos quais o poeta pode perpetuar a existência. Então, leitor, estás disposto a sentir-te?

Nanobiografia: Félix é professor, poeta, pai, avô e o amor de Ana.

F.G.M.

sábado, 1 de julho de 2017

Literatura e fracasso



Ser escritor é lidar, continuamente, com a sua imensurável solidão. Isso não é ruim, de longe, ela é uma de suas maiores companheiras; contudo, se a solidão vier acompanhada do silêncio dos leitores, ela pode se tornar estranhamente cruel e inspiradora.
Não ter leitores no presente ou talvez em nenhum tempo é um desespero. Saber lidar com isso é extrair da aridez humana toda a fonte de vida. O sentimento de fracasso é duramente apresentado por Álvares de Azevedo em sua doce lira dos vinte anos como símbolo de resistência e insubordinação. Ele quem o diga, e deixe escrito!

Deixem-se de visões, queimem-se os versos:
O mundo não avança por cantigas.
Creiam do poviléu os trovadores
Que um poema não val meia princesa.

Um poema, contudo, bem escrito,
Bem limado e bem cheio de tetéias,
Nas horas do café lido, fumando...
Ou no campo, na sombra do arvoredo,
Quando se quer dormir e não há sono,
Tem o mesmo valor que a dormideira.

Que o sono carregue as belas canções entoadas pela humanidade e que o mundo abandone a Literatura, posto que é chama. É assim que Azevedo percebe, com ironia, as ironias da vida. Quem há de despertar diante de todo o sonho de um poema? E quem não quereria dormir perante o abismo da realidade?
Recentemente, Raduan Nassar (autor de Lavoura arcaica) disse que abandonara a literatura porque havia tido um sentimento de fracasso. Ele não foi o primeiro que fizera isso nem será o último: suicídio, abandono, silêncio. Ser escritor será sempre carregar tais pesadelos abarrotando a alma.
Às vezes penso em desistir e isso me abate profundamente, porque escrever ultrapassa qualquer expectativa de vida e não imaginaria um mundo que pudesse existir sem cantigas. Quem vai entender o que estou dizendo? Não é fácil conviver com esse conflito interno, mas talvez não haja outra saída. Se o escritor acreditar no que escreve, creio que tal questão será apenas uma nota de rodapé obscura em sua biografia, até porque não é possível prever o que vem depois da vida.
Dificilmente o reconhecimento virá em vida e, se vier, o que seria? Alguns elogios, algumas críticas e esparsas notícias de jornal. Talvez só, e nada mais. O que representa o reconhecimento para um escritor? Apenas meia dúzia de jornalistas – ou amigos – trocando meias palavras a respeito de meia dúzia de textos? E depois, nada mais. Algum estudo, alguma tese?
Mas o reconhecimento salvará o autor, a sua obra... e mesmo um autor reconhecido como Raduan, é notório o pesado esquecimento ou ignorância sobre suas obras. De quais leitores se fala quando se fala de reconhecer? Onde está o homem que escreve para os seus? De que sucesso se fala quando se fala de Literatura? Financeiro? De crítica? De público? São muitos mistérios em poucas frases e ninguém saberá por que veio este homem do futuro:

O POETA FUTURO

O poeta futuro já se encontra no meio de vós,
Ele nasceu da terra
Preparada por gerações de sensuais e místicos:
Surgiu do universo em crise, do massacre entre irmãos,
Encerrando no espírito épocas superpostas.
O homem sereno, a síntese de todas as raças, o portador da vida
Sai de tanta luta e negação, e do sangue espremido.

O poeta futuro já vive no meio de vós
E não o pressentis.
Ele manifesta o equilíbrio de múltiplas direções
E não permitirá que logo se perca,
Não acabará de apagar o pavio que ainda fumega,
Transformando o aço da sua espada
Em penas que escreverão poemas consoladores.

O poeta futuro apontará o inferno
Aos geradores de guerra,
Aos que asfixiam órfãos e operários.

Murilo Mendes

Talvez o poeta ou o escritor queira apenas ser pressentido e que suas palavras se tornem o (des)equilíbrio desse universo em crise, o homem oriundo da luta, da negação e do sangue espremido na alquimia verbal de tudo.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.