"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Caderno Poético 5



O caminhante em mim aprendia a respirar silenciosamente enquanto viajava loucamente pelas ideias do meu sistema solar. Caminhar, viver, escrever. Foi assim: a solidão e o silêncio como reformas constantes da casa do ser. Eu precisava de alicerce, eu precisava de estrutura e de condições (sociais, econômicas, literárias) para viver longe de minha vida tranquila com os pais no passado.
Foi então que comecei a me envolver com a poesia intensamente e ela já não saía da minha cabeça um segundo sequer, minha pátria, minha família, meus amigos – eram a poesia. Em meu período como universitário, eu não tinha computador em casa, morava só, eram tempos difíceis para mim e, quando precisava acessar a internet, tinha de ir à lan house, economizar uma grana para imprimir os trabalhos e só.
Não tive o privilégio de ficar horas e horas navegando na internet e, muitas vezes, perdendo tempo. O mundo virtual para mim era restrito a poucos acessos e interações pontuais com amigos distantes. O boom das redes sociais ainda não ocorrera, embora já existissem, mas não tinha o grau de interação que nós vivenciamos hoje, as informações, as novidades ultrapassadas, a imensa estupidez viral.
O meu caderno poético era minha plataforma para a escrita. Todos os meus poemas, obviamente, eram escritos à mão – da maneira tradicional e romântica, como os nossos antepassados escreviam. Eu não sabia ainda como era escrever poesia, ou melhor, digitar poesia ainda recém nascida em um computador. Às vezes eu transcrevia para a máquina e, quando me metia a digitar em nascedouro, parecia perder-me entre fontes e teclas, sem me encontrar num verso sequer.  
Naquele período, mais ou menos entre 2007 e 2008, eu pensava em escrever literatura nova e, mesmo em pesquisas, parecia não haver muita gente com o mesmo propósito, era tudo escasso, só encontrava os mesmos autores “consagrados” – por um grupo de jornalistas duvidosos, até por alguns prêmios estranhos. Quer dizer, havia bastante gente interessada em fazer algo novo, como se pode ver atualmente, contudo, àquela altura, eram invisíveis – estavam se preparando para aparecer – de alguma forma, em alguma hora.
Não tinha parado de escrever: meu caderno poético se enchia de poemas, cada vez mais cuidadosamente escritos, ainda com o suor da juventude e a tristeza das crianças. Minha vida não era nada fácil, tive de conviver com problemas financeiros da família e de saúde também, além de me contorcer de todas as formas para viver próximo a Natal, terminar meu curso de Letras, conseguir um emprego após e ter um pouco de sossego na vida enfim.
Diante de toda essa tormenta, a poesia me erguia, me sustentava, éramos um só – indistintamente. Meu tempo era totalmente dedicado ao curso, às disciplinas, às leituras. Passava horas e horas pelas livrarias e pela biblioteca Zila Mamede, sempre buscando algo novo, sempre buscando poesia, sempre aquela busca insaciável e infinita por uma palavra diferente. Lembro-me que dormia por cima de livros, de tão cansado, depois de ter ficado mais de quatro horas lendo...
Se eu não encontrasse o que eu buscava lá, o jeito era comprar, economizando o máximo possível, às vezes comprometendo a renda do mês. Quando eu comprava um livro de poesia, quando eu descobria um poeta novo, era um acontecimento único em minha vida e ainda o é! Nunca houve prazer maior do que o da descoberta de um poeta – entre as estantes, entre as veredas – que marcara o mundo indelevelmente e sua obra estava ali, encostada, esquecida, fervilhando, à espera. Maiakóvski, Rimbaud, Cruz e Sousa, Olavo Bilac, Baudelaire, Augusto dos Anjos, Drummond, Manuel Bandeira, Anna Akhmátova, Fernando Pessoa, Mallarmé, Ezra Pound, Emily Dickinson, T.S. Eliot, Mário de Sá Carneiro, Marina Tsvetáieva, Camilo Pessanha, António Nobre, Dante, Petrarca, Sylvia Plath, Cecília... e pesquisava sobre suas biografias, a história de como cada um traçara seu caminho, os obstáculos, os poemas, verdadeiros fingimentos da lida humana, as leituras infindas e noturnas, cobrindo toda a realidade do mundo de sentido, de estilo – e poesia.
Os poemas predominavam em minhas preferências, mas não eram os únicos textos literários que me agradavam; romances, contos, novelas, crônicas também compunham meu universo de leitor em formação. Eu tinha encontrado um sentido, um propósito, a revelação e pensava que, como penso agora, eu jamais poderia perder aquilo.

F.G.M.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

A respeito de Morrediço mar: fragmentos soterrados: trípticos



Escrever coisa nova não é fácil e muito menos previsível quanto pareça ser ao olhar fascinado do leitor diante de tantas produções dum autor. Morrediço mar: fragmentos soterrados: trípticos é a síntese inesperada de minhas últimas descobertas ou buscas. Na verdade, passei por um processo de (de)compor meus poemas ocultos através de um regime de exposição anímica ou mística à palavra encarnada.
Ainda que o escritor esteja em constante pesquisa, leitura, indagação ou buscando constantemente uma resposta para tecer uma nova obra, raramente ele a encontrará de “mãos dadas”, livre de qualquer indício misterioso que possa ditar – magicamente – sua origem.
O que se busca nem sempre é o que se encontra. A trilha para se descobrir um livro deve ser cheia de encontros inusitados, inesperados, singulares.
Morrediço mar: fragmentos soterrados: trípticos é o meu quarto livro de poemas, tendo como antecessores: Frio forte (2012), Cápsula (2014) e Pó-E.t (2015). Eu não sei bem quando comecei a escrevê-lo, um livro de poemas sempre é uma incógnita irreal, uma existência de repente e uma surpresa invulgar.
Embora eu não consiga precisar sua origem, posso dizer que – incialmente – ele apareceu em um antigo poema que eu havia escrito e ficara guardado. Considerando o período de escrita, foi algo mais ou menos entre o segundo e o terceiro livro.
Aqueles poemas que tinham afinidade eletivas bem claras, em forma e conteúdo, formaram os livros que compus após um longo percurso de (des)construção, meditação e (de)composição. Já os que estavam estranhos a toda hoste de versos já escritos ou publicados por mim, os renegados, os conservei – íntegros – para um possível depois.
Já escrevi muito durante esses últimos anos e – assim como o ato de ler – ainda não encerrei as atividades e não tenho previsão nenhuma para terminar-me. Os textos e as leituras foram ficando acumulados e não pude controlar o meu ímpeto de criar. Escrever é uma das incapacidades mais louváveis, – é quando se percebe que não podemos conter este silêncio que descarrila dentro nós e que deveria permanecer intacto, mas transgredimos e desembocamos dizendo mais, livres para fracassar.
Depois de passar por diversas formas e poemas, quando pensei que não saberia mais o que escrever no livro seguinte, aquele texto deixado de lado reapareceu como uma palavra no horizonte. Por muito tempo, não o compreendi e, de repente, fazia todo sentido o fato de ele existir em minha produção poética.
Todos os livros são sequelas dessa violação íntima que nos calcina sempre quando buscamos dizer aquilo que sangra fora das veias e faz apertar o nosso ínterim intensamente na gravidade incomum do tempo. Às vezes perdemos o fôlego e não podemos controlar, sequer, uma lágrima ao nos depararmos com o resultado de uma ruína legada ao futuro.
Aquele poema renegado ascendera triunfante. Entrei em estado de transe e isso nunca tinha acontecido de forma tão intensa e imersiva comigo antes. A partir daí, passei a andar com um caderninho para não perder um segundo sequer de instantes. Meu ser, meu olhar, tudo estava voltado para um mundo poeticamente concebido pelo meu delírio contínuo e irrequieto. Eu não conseguia me concentrar em outra coisa e estava arrebatado pelas palavras avassalando o Universo que me desconcertava doidamente.
Tudo se tornava um verso, um poema, um absurdo. Fiquei um bom tempo assim e, confesso, foi uma experiência perigosa – e nem sempre tive controle sobre mim durante o fluxo.
A ideia do livro – bem, é um pouco difícil dizer, partiu de um pressuposto não intencional de “fragmentação”. Todos os poemas do livro foram construídos a partir de outros existentes e resistentes (ao tempo, à palavra, ao silêncio). Fiz uma espécie de autoanálise implacável deles: dissequei versos e versos dentro de outros versos e busquei-os no que eu não tinha dito ou inconscientemente no que estava dito.
Aproveitei ao máximo aquilo que eu não percebera na primeira vez que escrevi e notei que havia muitos versos valiosos – icônicos e intensos – no meio de um monte de tralha verbal ou desperdício abrupto.
Portanto estripei, rasguei, refiz, desfiz, decompus, enfim, busquei – entre poemas soterrados, fragmentos e estruturas verbais, poemas que pudessem compor o morrediço mar que começara a se esboçar furtivamente a partir do primeiro poema até chegar a essas íntimas escavações, aos estados de êxtase, à visão danada do mestre Alberto Caeiro.
Aliás, o título do livro surgiu de um dos poemas da primeira versão do original – no qual há o verso que carrega parte do título, e foi Tonho França, meu editor, ao ler, que o sugeriu – quase espiritualmente –, como deixa. Depois desse encontro ou revelação, emendei, sem dificuldade, os subtítulos e tive, ao passar do tempo, cada vez mais clara a ideia, a forma dos poemas que comporiam o livro.
Foi então que os denominei de trípticos. Quando penso num livro-poema, penso em um todo, portanto os trípticos deveriam dialogar com o conceito geral que emendei para a obra e, consequentemente, para eles.
Outros poetas escreveram “trípticos” ou pelo menos intitularam dessa forma; eu, na verdade, só pus minha forma de vê-los de acordo com o que eu acredito ser um tríptico, inspirado – sobretudo – em Francis Bacon, a partir das pinturas e das concepções do artista a respeito de sua própria obra e do seu processo criativo.
Quer dizer, os reconheci como trípticos, mesmo sem saber incialmente como seriam, aí fui conceituando, descobrindo o e aprimorando a forma e me distanciado dos autores que escreveram “trípticos” como quaisquer outros poemas de três estrofes ou partes.
Portanto, para definir esse formato, inicialmente, todos os poemas do livro foram separados por asteriscos.
Além de internalizar a ideia de tríptico do pintor Francis Bacon, recorri a Deleuze, e vi, em sua Lógica da sensação (um estudo sobre a obra de Bacon), o caminho pelo qual eu me desintegraria por completo.
Aos poucos, compreendi o que eram os trípticos que começavam a tomar forma dentro de mim e resolvi colocar os poemas numa relação de horizontalidade, tal como na pintura, para que realmente surtisse efeito a ideia de 3 poemas em 1.
Como são fragmentos, e a própria epígrafe aponta, eles não são um poema de três estrofes. Mas, como não se pode saber como eram em sua forma integral, como são fragmentos extraídos de mim e do todo, como são resquícios de poemas que sumiram ou versos remanescentes, assim como os poemas de Safo, eles formam – ao acaso ou ao caos – três poemas de estrofe única, ou seja, – uma tríade.
Então, a partir dessa exploração do espaço literário da página, eles já não mantinham mais uma relação de linearidade, podendo ser lidos da esquerda para direita ou vice-versa, do meio para um dos lados, enfim, da forma como o leitor preferisse. Neles, não há uma narrativa, uma história sepultada por trás. A lógica que tentei imprimir foi, como dirá Deleuze, a da sensação.
O título do livro é a designação do que se pode encontrar dentro de poemas que habitam poemas dentro de poemas. É a desolação do mar sobre a rocha, no insistente trabalho de esmerilhar o infinito. O livro é o atrito permanente entre a fluidez do mar e a rochosa forma fragmentária das coisas que lutam onde a memória falha e o esquecimento triunfa.
Em verdade, Morrediço mar: fragmentos soterrados: trípticos é o contorno silencioso de um tempo de espera e morte, após intenso e fresco lampejo de vida no volteio inacabado do ser. Havia, desde o início de seu surgimento, a busca pelos injustiçados que padeceram sob a lei violenta do todo, do exorbitante e do desengonçado.
Como todo livro de poemas, aconteceu – e precisou ser compreendido. Primeiramente, pelo autor; depois, por ninguém. 
E ele se tornou o desconhecido comum do próprio autor líquido, morrediço, fragmentado e soterrado entre trípticos e pérolas marinhas; Deleuze e Francis Bacon guiaram-me após a caminhada intensa entre as palavras fatais e os corpos dilacerados pelo tempo.
Foi o vento e foi a lua, o pescador de orelhas, a paranoia piviana, Platero e eu, o silencioso falastrão do litoral incólume. O título significa que nós, poetas, temos muito mais do que sete vidas.
O livro é a intensidade do mar sobre o mar sobre o mar sobre o mar – morrediço entre fragmentos soterrados, – trípticos.

F.G.M.

domingo, 7 de maio de 2017

Sete razões para não escrever poesia e uma para tentar


1

A maior ilusão que se pode imaginar quando vivo é de que escrever poesia fá-lo-á imediatamente um poeta. Primeiramente, ninguém o chamará de poeta. É mero anacronismo chamar uma pessoa disso e ainda mais em um mundo em que não se lê poesia. É muito mais interessante alguém te chamar de assalariado do que de poeta. De que serve perder seu tempo ou sua vida se dedicando a algo que, em pouco tempo, fracassará e, sobretudo, cairá no esquecimento? Todos se acham Drummond ou Pessoa, mas na verdade eles são os melhores poetas da própria rua em que vivem e, por sinal, deve haver muitos se concebendo como gênios em todas as vielas. Os que serão lembrados são os que aparecem nas revistas, TVs e fazem vídeos no youtube. Às vezes nem escrevem poemas ou sequer precisam fazê-lo para obter sucesso. Quer dizer, escrever poema? O que é isso? O fato de ter só uma vida e não estarmos ensaiando outra melhor é também outro exemplo do desperdício dessa tarefa. Um poema não muda nem mudará o mundo nem resolverá a crise mundial. Humanizar? Aprender a ler e a escrever é o suficiente para permitir que as pessoas sejam más ou boas – independente do que leiam – farão aquilo que lhes der na telha, por mais humano que possa ser uma leitura feita por elas em dado momento da vida, antes de cometerem o crime ou não. Melhor ser chamado de engenheiro e habitar o reino da técnica do que se conceber poeta e ser o maior babaca jamais conhecido em todos os tempos.

2

Poesia não cola. Esse negócio de achar que ser poeta é legal, massa, está longe de ser verdade. Antes de tudo, ele é um tolo, não um forte. Em outros séculos, poder-se-ia pensar na vida abundante e rica de um poeta, mas hoje é melhor ser um jogador de futebol, pagar mico com as palavras, e fazer um show entre as quatro linhas. Não existe mais poesia nas coisas como fazem parecer, até porque a prosa consegue captar bem melhor o sentimento deste século do que qualquer outra forma de expressão e, mesmo ela captando tudo, sempre estará aquém do vídeo e da fotografia. Não é nada platônico, mas a poesia é um desperdício gigantesco de palavras. Até mesmo os que se dizem poeta não leem poesia nem porra nenhuma. Escrevem porque não descobriram que ler um livro técnico é muito mais importante do que se doar às avarias do destino. “Porque ler é viajar”, não, nunca vai ser, o melhor é viajar e ponto final. E para aqueles que têm fé e acreditam em tudo que não existe, só uma palavra basta para lhes convencer do necessário: fome. E com comida se resolve, suprimentos, dinheiro e um bom fogão – se a comida em questão não for um delicioso sushi, está valendo o que for para cozer um prato útil, real e necessário. Sem falar que o discurso dito poético jamais terá qualquer função, a não ser a de ser existencialmente e essencialmente inútil.

3

Por mais que ela nunca tenha sido isto em sua curta passagem pela Terra, sempre vão associar a poesia ao mundo “encantado e belo e perfeito” e coisas como florzinhas e bibelôs bonitinhos, com frases feitas e trocadilhos curtos. Enfim, a canção já superou o poema em muitos sentidos e é bem mais capaz de tocar uma pessoa e arrastar multidões do que uns versinhos mal feitos por um rebelde sem causa. Quando se fala em poema, não podemos nem ter paciência para ouvir o pobre “poeta” recitar suas acanhadas amarguras ou seus desejos malévolos de olhar para debaixo do vestido. Pior: pessoas que se acham sensivelmente incapazes para se desencaixar no mundo e passar por baixo de tais saias. Em qualquer meio, poeta sofrível, ainda que escrevas um ramerrão de miniaturas clichês e comparações broxantes, só irão te ofertar o mínimo de atenção se tu fores da companhia e lograres oportunidades para os demais iludidos com essa tua veia poética. No final das contas, é prazeroso fazer as necessidades todos os dias, mas o melhor mesmo é poder viver para pagar as contas, poder ver 1000 filmes antes de morrer, viajar para 1000 lugares antes de morrer e tomar 1000 vinhos com todas as 1000 listas de coisas para se fazer antes de morrer. Todas as listas, menos ler poesia. A vida é o curto intervalo entre a tua consciência e o eterno esquecimento que cairá sobre ti. Então, ainda estás a pensar? “Mas daqui a alguns anos...”. Não, meu caro, jamais, em nenhum ano e em nenhum planeta até o fim dos tempos. “Mas a Bíblia”, sim, aí é fácil, é só escrever outra e que não seja em verso – no máximo em versículos bem estilizados – para que sejas lembrado como Jesus.

4

É fácil sonhar na Califórnia, agora, em teu quarto? Não seria melhor estudar? Estudar pra ser algo ou gente. Ser jovem inventor? Escrever poesia, concluímos, não te fará ser gente ou alguém; serás apenas um estorvo no meio de tanta gente importante que fez algo importante para a própria vida e para o mundo. Não existe quase ninguém especializado ou que se interesse por algo novo na internet, e isto é uma realidade que se expande nos livros e revistas. Só publicam o pessoal da banca e fazem críticas ralés, com elogios parcos e citações mais absurdas ainda. Poemas? Não queremos saber nem de originais. Acaso alguém o leia, no máximo, o que poderá receber como avaliação crítica é um “lindo” ou “que belo, poeta”, no mais, caberá à indiferença do leitor a justiça da “obra”. Se houvesse alguém disposto a se doar a tal tarefa de escrever poemas, primeiro teria que ter o mínimo de condições, ou uma herança ou um trabalho de verdade, para que possa se manter íntegro todos os dias: café, almoço, janta, roupa lavada, moradia, internet, água e luz. Um blog resolveria a publicação, mas com o desestímulo da quantidade de visualizações, até você mesmo seria um leitor a menos de sua página. Pensando assim, pensando no bom senso e na autopiedade, é de uma ignorância tamanha abandonar tudo para só pensar em poesia e em coisas do tipo, afinal – aludo a Shakespeare – o que é mais belo do que um dia de verão? Faça a tua vida sem prejudicá-la com a ilusão da poesia, com a promessa de que serás imortal, terás fama e que chorarão por ti em teu túmulo quando lerem a tua lápide: “aqui jaz um tolo exorbitante que morreu em vida”. E, inspirados nela, quiçá resolvam viver – pelo menos, se não apagar a inscrição, deixarás a tua última influência e mudarás a vida de um parente.

5

Olha, meu amigo, os tempos não só são outros, como tudo é outro. Se você acha que é capaz de escrever algo novo nos dias de hoje – com a imensa publicação massiva da internet e dos jovens virgens que ainda não conheceram o amor – tente ser o mais iludido dos homens, vá, escreva, atire-se estupidamente ao desespero de tua falida empreitada e, mais do que isso, vergonhosa e covarde – por não teres aceitado o imperativo pragmático da vida e edificante. Aqueles que dizem e/ou disseram melhor do que ti perderam um tempo vital para suas vidas e, mesmo sendo melhor do que ti e maior do que ti, ainda não são nada para seu ninguém. Aliás, escrever poesia é a mais clara certeza de que você é um vagabundo sem futuro, um sujeito anacrônico e nefelibata, sujeito a chiliques da maior estirpe e, sobretudo, a tratamento médico. Não me venha com teu idealismo bobo de nescau nem com teu desejo de mingau, a vida é curta, olhe só o que digo, não vá desperdiçá-la com um poema que você já sabe que é uma porcaria e que não trará nenhum benefício para a humanidade, sequer para teu estômago, porque irás lê-lo como fazes ao ver o que fizeres no sanitário depois das dores. Aqueles que se dizem realizados por terem se tornados escritores são os maiores frustrados em vida, problemáticos, e até suicidas. É melhor ter a alma grande do que achar que ela é, como achava Fernando Pessoa. Você nasceu – parece-me – tão saudável e disposto a fazer algo verdadeiro e utilitário para o mundo! Imagine o que seus pais diriam sobre esse teu desejo infame de escrever poesia? Abandona tudo ou faz tudo mal feito, padece de fome e se arrepende profundamente; aí de repente você fracassa e abandona tua vida ao esgoto, à lama e ao insucesso, quando poderias ter seguido pelo caminho real, justo e religioso dos vitoriosos.

6

Ainda que pudéssemos voltar no tempo, não valeria a pena escrever poesia. Quem leu as poesias de Machado de Assis? Ninguém, ninguém mesmo, e nem interessa a quem lê o escritor fluminense, porque, afinal, é poesia. Cá entre nós, aquele que gosta de poesia deve ter algum problema grave – ou teve na infância, coisa patológica, para tratamento urgente e inadiável. O “poeta” (palavra mais improdutiva) acaba com o mundo como ninguém. Ele acaba no pior sentido da palavra, e é justamente por isso que Platão admirava os poetas, porque eles mesmos cavavam a sua própria cova. Não existe maior tristeza para um homem que é sadio na vida do que se deparar com um objeto poético, ou melhor, um poema tentando destruí-lo incessantemente. É um dos maiores e danosos distúrbios da humanidade aquilo que ousaram chamar de “poema” ou “poesia” ao invés de “vírus” e “epidemia”. Creio que só não chamaram desta maneira, porque aqueles não têm nada de contagiante. Nenhum poeta sobreviverá ao século vinte e um, podem anotar isto. Sendo assim, para que tanto esforço em algo tão vão, tão tão? Concentre-se em suas qualidades, não as desperdice, não as jogue fora gastando energia tão preciosa com uma reles expressão poética. Encantem as pessoas, não as palavras. Qual é a utilidade da poesia para um mundo técnico? Ainda bem que, aos poucos, ela já está sendo tirada da escola e, em pouco tempo, saberemos aproveitar cada segundo da vida com estudo realmente necessário e prático. Uma mente que se fecha em um propósito tão pequeno está fadada ao fracasso extremo, aquele acompanhado pelo arrependimento e, logo em seguida, pela mais cruel das depressões. Dê uma chance à sua vida, não escreva poesia.

7

Se lestes em ordem (algo que creio ser muito raro nos dias de hoje), se todos os passos anteriores não te convenceram, creio que este será o suficiente. Primeiro: você nem chegou a ler toda esta porcaria e ainda assim acredita que os outros irão ler o esterco que produziste. Além de acreditar, você irá se convencer que é perca de tempo falar merda ao invés de fazê-la e um grande desperdício de adubo para a humanidade. Então é melhor evacuar do que evocar. Segundo: nos programas de TV que têm quadros de paquera, aquele metido a vergonhoso ou poeta sempre é rechaçado por todas as mulheres e motivo de riso irrefreável de milhões de brasileiros que acompanham aquelas porcarias. Terceiro: poesia não dá nada – inclusive dinheiro. Quarto: ser poeta nos dias de hoje, como nos dias de ontem e de amanhã, sempre é ser ninguém, nada, um completo exemplo de fracasso na vida, símbolo de vergonha e culpa, sinônimo de vexame e doença. Quarto: poesia não serve de nada, não resolve nada, não põe nada em prática ou em funcionamento. Sempre será melhor fazer alguma coisa do que escrever sobre alguma coisa em forma de poesia. Há quem diga que ela mudou a vida, não sei o que mais lá, blá, blá, blá; mas o que nós sabemos realmente é que existem pessoas suficientemente interessadas em dizer uma ou outra poesia aqui e acolá porque, ou ainda trabalham com isso nas escolas, ou porque almejam algum título de pesquisador de “nada” para conseguir obter dinheiro e depois esquecer de vez qualquer poema ou poeta da vida. Quinto: em caixa alta, VOCÊ JAMAIS SERÁ LEMBRADO POR NADA NESTE MUNDO A NÃO SER PELO IMENSO ENGANO DE ACHAR QUE SERÁ LEMBRADO POR SI MESMO – algum dia, depois de morto. Sexto: tudo o que você escrever já foi escrito e dito, e ponto final. Enfim, como sétimo, devo dizer: jamais estará satisfeito com o que escrever e nunca será o bastante para você, imagine para os outros.

1 Para tentar

Tudo acabará.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.