"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

sábado, 11 de março de 2017

Literatura e Vida ou de como uma e outra nos dão um bolo


Em tempos de guerra, sacrificam os corpos, os gritos horrorosos rasgam a TV, sonhamos a paz, e eles nos trituram a alma. Ninguém sabe o que é verdade. Mesmo os que vivem, adubam o esôfago. O que fazer com a memória no peito?
A cada dia me convenço mais de que a maior sacada de um homem acontece quando ele – definitivamente – esquece de si. Lembrar de si, como se diz, é para os fracos.
O que eu iria escrever mesmo agora sobre mim? Esquece! Foi ontem à noitinha o que aconteceu. Era uma hora. O nome do bolo: Romeu & Julieta. Bolo ruim, duro, seco. Vi o nome, achei literário, e o comprei. Existe muito bolo assim espalhado por aí. Fazer o quê? O comi aos poucos e, na verdade, nem era bolo mesmo aquele negócio. O assunto deste escrito não é sobre esse bolo.
Crise financeira. O pai assassina seu amor. Pega suas filhas em casa, o carro apitando na rua. As leva por uma estrada nevada, obscura, ladeando um gigantesco rochedo. Há tensão nos olhos. A filha pede para o pai ir devagar. Ele enlouquece e vira o carro colina abaixo.
Quantas madrugadas atravesso vendo esses filmes? E esses demônios que falam não silenciam?
Todos os dias tiro as coisas do meu peito. É como arrumar a casa, é preciso deixá-lo sempre limpo e arejado. Sem esquecer, claro, de deixar a porta do banheiro fechada. Conheci pessoas interessantes no entrechocar da vida, dentre elas, pessoas com um senso incomum para o místico – tanto oculto quanto quântico, outras com uma sensibilidade roxa e esfíngica, bem como umas ocas, vendidas como diamantes.
As notícias não são alentadoras. Em sua grande maioria, elas têm o caráter do conflito de uma narrativa, são como o giro frenético de um ser que se vai eletrocutado. O silêncio. Não vamos fantasiá-lo. Juan Gelman. Apenas ouçamo-lo:

E se a poesia fosse um esquecimento do cão que te mordeu o sangue /
uma delícia falsa /
uma fuga em mi maior /
um invento do qual nunca se poderá falar?
E se fosse a negação da rua /
a bosta de um cavalo /
o suicídio dos olhos agudos?
E se fosse o que é em qualquer parte e nunca avisa?
E se fosse?

Isso é poesia – e se fosse... vida?

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.