"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Ainda poesia


A poesia me persegue de algum jeito. Estou pronto, sempre à sua disposição, rainha etérea. Em minhas mãos, o desejo de escrever vai além do desejo de tocar. Todos os meus sentidos se voltam para o poema como o meu paladar aos céus se volta ao se dobrar diante dos temperos imprevisíveis da culinária mística do ser. É especiaria perigosa, profunda semente que brotou para dentro as raízes aéreas do espírito dos pássaros.
Eu sei, ainda não me descobriram como poeta, poucas pessoas conhecem minha poesia e não estou espalhado na mídia como os escândalos políticos ou os best-sellers adolescentes. Mas, independentemente de qualquer coisa, ela vem, sem pedir licença ou disposição, simplesmente me atinge e eu devo servi-la como se serve aos deuses – sem hesitar.
Dos meus quatro livros de poemas, algo fica em cada palavra inextricável: a força. Cada palavra se ergue como um monumento desconhecido na alma de uma criança e os poemas se sustentam alheios a tudo como um sentimento humano que se apossou da arte para reinar em nós. Sempre acreditarei na poesia. Sempre serei poeta. O poeta em mim descobre a dor. Ele me conhece a ponto de me desconhecer.
Poucos saberão o que é sentir isso, mas qualquer um pode ter a oportunidade de sentir e, claro, serão aqueles que leem – aqueles que viverão em mim, mesmo sem eu ter convidado ou conhecido, aqueles ditos leitores que são como duendes, raros, dificilmente visíveis e muitos acreditam que não existem, embora haja rastros de sua efêmera memória de uma longa linhagem de almas arcaicas que guiam as estrelas.
Ser poeta para mim é um instante em que posso viver de palavras, pelas palavras, nas palavras – indistintamente, e cada parte de mim se realiza estranhamente nesse sopro em que os sentidos dão vida às coisas. Me sinto bem, me sinto mal. É, enfim, o “intervalo”, é o despontar, algo que me foge e fica sem que eu possa manter por muito tempo comigo e some, consome ou adormece.
Nada se revela. Nada se oculta. Tudo atina a ser e a poesia me tenta a ser. Sempre serei poeta. O poeta em mim destila a dor. Ele me desconhece a ponto de me conhecer. Estou no caminho e mais um vez o próximo livro, o quinto, existe fora de mim e está pronto e livre para ser. E assim sempre será comigo, não há como deixar de ser, deixar estar, esquecer. Ser poeta é inevitável para aquele que deu vida à primeira palavra de um poema e decidiu, por fim, ser tragado completamente pela noite que nunca finda dentro da noite.
E eis-me aqui: aquele poeta anônimo e estranho; aquele poeta cuja vida foi reservada ao silêncio de suas palavras sobre o papel; aquele poeta cuja noite inunda a própria noite e as palavras se recolhem no imenso vazio sideral; sim, o único poeta que se dispôs a acreditar tanto na poesia que passou a romper sua própria existência, seus olhos – arrancados ao nada – rolam pela única verdade que se imprimiu em sua alma desde então: a única razão para ser é escrever.
Um dia, não? Serei otimista ou matéria? Um dia quem sabe sintam o que – por toda minha vida, senti e sofri e escrevi. Ser poeta nada mais é do que isto: seguir. E sigo até o fim dos dias, consciente de minha jornada solitária, consciente de meu verbo-chão, louco como a carne possuída dos santos que se renderam ao pecado de existir nuvem, prazer e mistério; enquanto houver vida, canto – e me uno aos poetas que nunca aprenderam a escrever.

F.G.M.

domingo, 15 de outubro de 2017

Dos caminhos do reconhecimento



Em cartas trocadas sobre Castro Alves entre dois grandes nomes da literatura brasileira, destaco:

 “Ínvios caminhos por onde se vai à decepção, à indiferença e finalmente à glória, que são os três círculos máximos da divina comédia do talento.”
José de Alencar

Em resposta:

“Contra a conspiração da indiferença, tem V. Excelência um aliado invencível: a conspiração da posteridade.”
Machado de Assis

F.G.M.

domingo, 8 de outubro de 2017

Smartphone ou do hábito de ler



Ler é, deve ser um hábito. Ninguém duvida disso, mas poucos chegam muito longe para provar de tal verdade. Imagino que, ao lançarem os queridos smartphones, ninguém se agarrou a eles e provou ser tão fiel a esses aparelhos que fosse incapaz de largá-los um segundo sequer para poder ir fazer qualquer coisa, como: ver as estrelas, o entardecer urbano ou até mesmo ler algumas páginas velhas de livro.
É interessante notar como os celulares, falarei assim, se tornaram a nossa “vida”. Nada menos do que isso. Saímos com eles, passeamos com eles, falamos com eles, dormimos com eles, acordamos com eles, vamos ao banheiro com eles, enfim, somos parte dele. E o nosso dedo não se cansa de deslizar no vazio absoluto que tal aparelho causa em nós depois de algumas horas de uso. Sísifo não mereceria castigo pior!
E esse incessante movimento de repetição transforma as pessoas em meros instantes de promoção de consumo, de ego e de vaidade. É da nossa energia vital que os celulares contemporâneos se alimentam dia a dia. Inevitável negar que estamos vivendo uma era em que o espelho, pela primeira vez, perdeu a importância crucial que teve na história humana, para ceder espaço a esses pequenos aparelhos de multiplicar imagens.
Agora, voltando à questão da (falta de) leitura, o que estou tencionando dizer é que, em verdade, toda a sociedade começou a supervalorizar o celular porque houve um processo contínuo e crescente – da mídia, das empresas, da política, da tecnologia em geral – em produzir cada vez mais conteúdo e comportar cada vez mais publicidade e investimento no tempo vazio dos outros, na inflamação ininterrupta do ego humano e em sua solidão inerente para prendê-lo ou arruiná-lo em sua própria imagem.
Daí, criou-se um hábito, não foi do dia para a noite, e todos abraçaram esse “universo” que agora fazia parte de cada um de nós. Quantas vezes vocês pararam de ler este texto para verificar teu universo? A leitura de livros se tornou algo maçante, entediante e de difícil identificação. Ora, em um mundo “personalizado” em que tudo o que consumo deve partir da premissa de que eu devo gostar, logo se percebe que a tendência para termos certeza do que gostamos se tornou, para o mercado, o ponto fraco necessário ao controle e à alienação do sujeito possuído pelo desejo imensurável.
Do que gostamos, afinal? Eis a questão: do que eles querem que nós gostemos? A cada dia tenho cada vez mais certeza de que a leitura é o caminho mais curto para se descobrir do que realmente se gosta. É o mais curto e também o mais árduo, e também o mais intenso, e também o mais autêntico caminho pelo qual tu passarás e terás a consciência de que és parte de algo maior, confiado apenas àqueles que conseguiram desenvolver uma linguagem capaz de criar – completamente – tudo.
Não devemos jamais nos perguntar quantas páginas um livro tem, mas, muito pelo contrário, a pergunta deve ser: quanto tempo nós temos para ler? E de repente sua vida não precisa ser mais aquilo que fizeram dela ou, através de você mesmo, do que fizeste contigo enquanto não tinha consciência de nada. Assim como os celulares, que conquistaram o mundo, pouco a pouco, se infiltrando em nossas câmaras vazias, a leitura deve te completar aos poucos, te invadir, te saquear. E não coloques barreiras invisíveis contra ela! A vida pede, com urgência, a vossa intervenção.
Comece a ler, pouco que seja. O mundo, verás, não é apenas aquilo que dizem que é. A leitura vai te mostrar aquilo que não te dizem e você, por algum motivo, se nega a conhecer. Leia e descubra, como um hábito, que você pode transformar sua prisão em algo maior do que a liberdade. Faça, dia a dia, como aquele que, ao acordar, pega o celular ainda de olhos fechados para ver se o mundo, definitivamente, acabou.

F.G.M.

domingo, 1 de outubro de 2017

Primeira lista de recomendações de livros para ler


Alguns clássicos (Maravilhosos ou irresistíveis)

1 A arte de amar, Ovídio.
2 Odisseia, Homero.
3 Dom Quixote, Cervantes.
4 O Alienista, Machado de Assis.
5 Cinco Minutos, José de Alencar.
6 Metamorfose, Kafka.
7 A linha de sombra, J. Conrad.
8 Hamlet, Shakespeare.
9 Macbeth, S.
10 Iluminuras, Rimbaud.
11 O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald.
12 Da amizade, Cícero.
13 Fédon, Platão.
14 Folhas de Relva, Walt Whitman.
15 O médico e o monstro, R.L. Stevenson.
16 20 mil léguas submarinas, J. Verne.
17 Crime e castigo, Dostoiévski.
18 Ficções, J.L. Borges.
19 Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley.
20 Cada homem é uma raça, Mia Couto.
21 Contos, Edgar A. Poe.
22 Contos, Horácio Quiroga.
23 Aura, Carlos Fuentes.
24 Trilogia Tebana, Sófocles.
25 A pérola, John Steinbeck.
26 Fahrenheit 451, Ray Bradbury.
27 A arte de amar, Erich Fromm.
28 Arte poética, Aristóteles.
29 Do amor, Stendhal.
30 A Morte de Ivan Ilitch, Tolstói.

F.G.M.

domingo, 24 de setembro de 2017

Um poema em inglês.



A poem

My life is infinite. I know, but
My hours don’t stop
And I sleep in my head and put
Your brain in my heart.

Listen: all the words I say
turn into an animal
Where my life gets lost
And I lose the sun.

In my darkness, there is
A human being screaming to sky:
“Come back to your home!
You don’t live alone.”

I wake up and I feel me
Strange: me is not me
When I speak in another
Language: I am you.

F.G.M.

*Estou aprendendo inglês, então, por favor, considerem esse poema apenas como um ensaio, um estudo.
 

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.