"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

domingo, 9 de outubro de 2016

CALAR-ME-EI



O “país para todos” se fechou para mim. Os jornais não noticiam mais. Seguem roteiros e agendas partidárias. Os amigos se isolam – e a luta se torna cada vez mais íntima, cada vez mais solitária, cada vez mais vã. Criticar analiticamente a sociedade se tornou paranoia e somos todos loucos contra a lucidez do longo muro que se ergueu dos pátios do congresso, prolongando-se até o Brasil inteiro.
Acordo de repente e, de tanto trabalho ostensivo e votações, e projetos, e medidas provisórias, parece que se passaram anos após o impeachment de Dilma. A história, que trata do passado, dirá se foi um grande golpe à República e, sobretudo, à jovem democracia do país. Hoje, nos contentamos em ficar em casa e esperamos indefinidamente por aquilo que nunca irá chegar.
Assim segue a grande maioria: o que não nos afeta, nos conforta; e o que nos afeta – nos silencia (quase) profundamente. Ficamos insensíveis? Ou perdemos a consciência? Perdemos os sentidos? Será que o brasileiro terá inventado a morte antecipada? Embrutecemos? O que aconteceu com o bom brasileiro, mesmo com suas concessões, efígie, símbolo de um povo feliz e acolhedor?
A política – leia-se politicagem – apodreceu o país de norte a sul. E esse câncer, a corrupção brasileira, que fora estourada recentemente, é mais antiga do que o “bofete”. Não me espanta o tempo que demoramos para nos incomodarmos com essa sujeira toda. Há alguns anos, ainda se ouvia o discurso “rouba, mas faz”. Hoje, já não se ouve tal afirmação – contudo – ainda se permite, irresponsavelmente e conscientemente, práticas corruptas pelo país inteiro. A politicagem dita do interior, de cidades pequenas, na verdade, é a que representa – e todos agora podem provar conjuntamente – a de todo o Brasil.
Dentro desse contexto, o escandaloso áudio do Senador do PMDB, Jucá, não poderia ser novidade. Ele apenas foi a prova cabal de que a realização do pacto (golpe) era para, além de “estancar a sangria da Lava Jato”, obter o poder – através de um acordão com os partidos aliados – e não democraticamente através do voto. Assim, os políticos envolvidos em crimes teriam suas investigações barradas e toda a culpa do mundo estaria a cargo de apenas um partido: o PT.
Os objetivos eram claros: desviar o foco da opinião pública para uma legenda, implantar uma política para o país, aquela que saiu derrotada nas últimas eleições para presidente e, sem dúvida, livrar a imagem deles mesmos. Eles mobilizaram a mídia, até as ruas – na figura de “movimentos não governamentais”, o judiciário, a opinião pública, a religião, enfim, tudo, para alcançarem êxito nessa tarefa tão cruel à democracia: destituir uma presidenta eleita legitimamente para terem acesso à tão cobiçada caneta do executivo.
Você, brasileiro, é testemunha de tudo o que aconteceu e está acontecendo; nunca se esqueçam de que “Eduardo Cunha e Michel Temer são a mesma pessoa” – nas palavras de Jucá. Eles conseguiram implantar a mordaça na cabeça do povo brasileiro e, por todo o lado, o pensamento crítico, analítico, opositor, foi demonizado, linchado e silenciado por meio de uma censura inoculada através de um sistema de polarização.
A democracia permite a existência de discursos divergentes, permite a existência de vozes diversificadas, contudo, a polarização do pensamento não admite a existência, por exemplo, do diálogo; de instituições como os IFs, de pensadores como Paulo Freire, Milton Santos, de religiões, da sociologia, da filosofia, e tantos e tantas outras. A polarização foi a estratégia de manipulação mais eficaz de quem tomou o poder, porque ela não permite abertura nenhuma ao debate, é extremista, é 8 ou 80 – é direita ou esquerda.
Ela separou, de forma estúpida, os brasileiros. Ela usurpou o direito de se manifestar, a existência democrática de opiniões contrárias. Ela condenou o pensamento crítico e social. A polarização se tornou o grande porta-voz daqueles que são analfabetos políticos. Foi um prato cheio, enfim, para enfiar goela abaixo todas as ideias conservadoras e, é claro, as medidas provisórias do desespero e da irresponsabilidade.
Por que não temos mais o “povo” nas ruas? Primeiro, porque eles não precisam mais de ninguém na rua – afinal, eles não vão patrocinar críticas às próprias propostas; segundo, creio eu ser o caso mais grave, o povo mesmo – aquele que lutou de forma genuína e livre de patrocínios em 2013, simplesmente SUMIU, foi ENGOLIDO, SILENCIADO, OPRIMIDO – ou, espero que não, tenham aceitado o destino resignadamente. O grande projeto eleitoral do governo ilegítimo foi se apropriar dessas vozes (manipuladas ou silenciadas).
Estamos amordaçados ou paralisados ou alienados. Mais um escândalo surge, e não fazemos nada. Mais uma inconstitucionalidade do governo ilegítimo de Temer – e ninguém faz nada, e assim se repetem; as investigações contra o PT andam, mas os demais partidos seguem impunes – como se fossem livres e inocentes –, ditando suas regras ditatoriais a torto e a direito a todo o país. Eles detêm o controle, quer dizer, eles possuem grupos para acirrar a polarização e despolitizar os debates, discussões, em qualquer meio de comunicação. Para aonde isso vai nos levar?
Com quantos selfies e interesses pessoais se faz uma república? Sinceramente, não posso fazer os cálculos, mas tenho certeza de que o país passa por um momento delicadíssimo e boa parte das pessoas – simplesmente – está de braços cruzados. Na era da integração/socialização em redes virtuais, é difícil ausentar-se de uma discussão séria, como as da política, e não ser visto com maus olhos.
Escândalo após escândalo, perderam a vergonha total, os políticos, os crimes passam impunes pelos olhos de uma população anestesiada por discursos clichês em prol da mudança e da economia, e ninguém é capaz de abrir os olhos do povo brasileiro. Não existe mais um “bem comum”, os interesses se sobrepõem a qualquer imperativo e estamos à espera de um herói nacional.
As mídias – devidamente abastecidas com a ideologia dominante – trataram de encontrá-lo, seja na figura de um juiz-estrela ou de um japonês da federal. A cena, de tão trágica, é cômica, porque sabemos que nenhum herói brasileiro foi capaz de resistir às tentações do poder.
Seguimos, nesse dilema de idolatrarmos pessoas em suas funções ordinárias, sem ao menos percebermos que todos os brasileiros são heróis diante da devastação.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.