"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Hospitais Azuis: ou o batismo dos poetas



I

A vida está pronta. Abominável e bela – impalpável, indescritível, invulnerável e...
O mundo está aí e não podemos questioná-lo. É o fim do homem e da história, como flertara Fukuyama. Quem pode dizer o contrário da estetização romântica da retórica técnico-científica de “prosperidade nos rabos do foguete” ou se rebelar contra a máquina irritante de produzir mundos atômicos e emparedados?
A revolução pode surgir de umas palavras escritas no porão da sociologia, mas não, não acreditam os profetas da física moderna que possa surgir um grito que paralise o ar que rodeia o tempo-espaço de suas teorias intactas de incerteza.
Poucas saídas e, para endossar esse discurso egoísta da destruição ou do fim, alguns escritores se empolaram tanto que é praticamente impossível mastigar o plástico-azedume de suas palavras de papa-fina – revestidas de certo ocultismo desastrado e sintaxe bobo-da-corte.
É apropriação indébita do delírio dos retardados sem loucura, a síndrome de uma incapacidade de dizer que os fez agir sem interesse algum sobre suas apatias entediados molemente com o mundo e com a vida – que se suicidaram pateticamente no papel sem a estupefação do mistério, na pretensão de um pensamento “rebuscado” ou ingenuamente concebido como “hermético”, caíram no ridículo infértil e insosso.
Eles abortam palavras antes de fazê-las sangrar no corpo do texto e mostraram total ausência criativa, beleza ou vitalidade. Enfim, se simplórios presunçosamente líricos ou herméticos pretensiosamente profundos, são péssimos “escritores” na vida e na arte.
Como crer nessas criaturas saídas de uma visão de mundo apequenada (industrializada e consumível) com o discurso (mesmo subjacente) de ser falsamente acessível?
Funções estratificadas, funções dinâmicas, funções modelares, funções auxiliares e aplicativos para ver, andar, depender. A fábula-padrão de Admirável mundo novo pode se tornar real. Neste caso, onde reside o selvagem rebelado?
E as clínicas astrais fecham suas portas. Parece haver silêncio nos corredores do tempo. Ninguém busca o amor. O entretenimento do terror e da alienação sobrevoa a consciência do mundo. Crise: palavra impossível de se tornar.
O resultado desse tumulto-sensível, dessa procrastinação enredada à míngua, é o tédio que em geral se desdobra nos olhos do indolente, o sintoma de que estamos reproduzindo a vida como uma sucessão ininterrupta de fatos repetidos e monótonos: interdição e praga.
A vida parece um incansável castigo – e o tempo, o senhor da desolação do amanhã, anuncia mais um dia ultrapassado. Sobrevivemos à insolência de nossa apatia criativa e do nosso desejo de passar ligeiramente à morte – sem proceder ao prazer e à inventividade do percurso.
Semelha a um ciclo infernal e sempiterno se amarrar ou ignorar a vida de uma maneira majestosamente desprezível, a fim de encerrar o curto período de vida terreno como símbolo de uma tortura angustiante que durara muito tempo.
Proceder assim anula o ser humano e retira, da esperança da vida, o desejo de perpetuar o amanhã.

II

De repente, como um sino no estômago de um faminto ou um rio no curso de um espírito, as luminárias arrancam os dedos da escuridão e encontramos um escritor sem origem no tempo.
Aquele capaz de nos dissuadir de que existem outras residências na Terra – como Pablo Neruda o fez e Cortázar, sobre o chamejante poeta de Canto Geral, reconhece: que devemos aceitar que há, para residirmos, “uma dimensão diferente na língua”. Isso pode querer ser: outra dimensão para vida, para o mundo, para dimensões.
É Literatura. “Quero saber se existo” – assim nos revela Neruda.
A sensação inominável de ler alguns poetas que me chamam/convidam ao desespero de (re)ver o real é o indício que estamos por inventar o dia – incessantemente sob as faíscas do Sol. Poucos se (des)esperam ao ler, mas muitos deveriam sentirem-se assim.
Experimenta ler uma tragédia. Sinta-a como Sófocles abre uma simples palavra encantada no coro ou nas lamúrias de Édipo. Como a história desse rei imponente se tornara a realidade de muita gente – ou a libertação de grandes injúrias.
Quem escapará do destino de Édipo? E o que farão dele através das idades? A vida não poderia ser mais intensa do que podermos experimentar a vivência do que não existe, do que está existindo – e resistindo às perguntas íntimas dos seres.
Como, até mesmo a destruição mais mordaz ou cruel, poderá figurar o terrível admiravelmente em nossos olhos pasmos e assustados? É a transposição das agruras humanas no senso apurado (e místico), para além do bem e do mal, da arte.
Ocorre quando se interfere no mundo através da arte ao infligirmos um golpe na consciência do todo, sem perfurarmos fisicamente o corpo de Jó. É assim que se muda ou se metamorfoseia as coisas e o mundo: com a palavra que se (re)torna (a)o mundo ou com aquela que arranca o tédio à espinha dos espíritos aflitos e faz escorrer sobre o corpo a seiva recente da novidade sob o Sol, como diz o Neruda: “sem terminar/ o verdadeiro” para possuir a “saúde/ de inteirar-se de nada”.
Todas as criaturas estão neles. Amamos Baudelaire, amamos Artaud, amamos Rimbaud, amamos Piva, amamos os Macbeths.
Em Macbeth, Shakespeare encena o drama da busca pelo poder irresoluto, é o instinto refinado em sangue e fúria, o mal inerente à alma do homem no controle da realidade que o absorve como fera insaciável à tortura de voltar a si mesmo e estar só; é a transformação da predição em desejo, é a tragédia do (anti)-herói nos descaminhos irremediáveis do destino, o amor e o mal – em mãos ensanguentadas de pavor. É o itinerário insano do medo, a coroação da dor.
E na terrível busca pelo início da história, pela recriação de vida, as três bruxas são o signo da loucura elaborada pelo homem na difícil trama das escolhas do inconsciente humano. Elas são a representação do não significar nada – o “som e a fúria” nas palavras de Macbeth. Todos nós sentimos a noite relutar com o dia para permanecer.
O livramento nos aguarda em cada palavra embriagada e santa, no percurso sempre entre o simples e o sublime, autenticamente oriundos das regiões remotas do discurso, onde se percebe, no estalar de dedos, o eterno transitório dos eventos à claridade da vida entre a derrisão do mundo e o espetáculo do real.
A ilusão de termos o controle sobre os outros e nós mesmos parece trazer à luz a incapacidade de ser no real e na linguagem. É o cavalo louco, desenfreado, correndo contra a Humanidade. E – além da história – como Shakespeare sempre faz, essa discussão acerca da linguagem e do real sobressai brilhantemente no tecido do texto. Lady Macbeth, em sua visão límpida do real, num acesso de maldade benevolente, diz ao seu querido rei que é preciso se parecer com o mundo para enganá-lo. Eis o desafio para ser real, para ser literário ou Literatura.
Chegar ao ponto indiscernível de se tornar nas fronteiras a nossa vida (o nosso corpo em ressonância com o Universo) e a memória de um povo, sem que percebamos (como) quem começou tudo isso. Não se pode exaurir o sopro vital com suspiros de alergia ou gritos insensatos de espelhos na representação esdrúxula de si. Sabotar-se pode ser muito mais seguro do que a falsa impressão aparente de revolucionário ou novo. Reconhecer onde se está é tão importante quanto se perder.
Sim, podemos desbastar a vida e o mundo. Solidariamente, é preciso reinventar o mal. Renegar a prontidão e agir. A palavra no espera intensa como uma espiral no fim dos tempos.  
Eis a beleza desdobrada em terríveis faces desconhecidas. “Conheci a beleza que não morre” – assim inicia o seu soneto Tormento do Ideal, aquele poeta que espiritualmente nos transporta, Antero de Quental, ao infinito que nos oferece a vida e o mundo – finitos desproporcionais, e “fiquei triste”.
Todos nós recebemos o batismo dos poetas, por isso houve luz “entre as formas incompletas”. É o que nos guia ao irreversível e nos faz empalidecer diante da existência (aniquiladora) da morte.
Nos hospitais azuis pintados por Neruda, sobrevivemos! Abençoamos a realidade dos poetas em suas breves mãos, porque sabemos que pode haver outra residência que habita nossa saúde ou nossa doença desconhecida. Pode haver – eis a Literatura, o paralelo, a outra margem, o (ir)real.

F.G.M.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A existência de um livro



O real está aí e não nos diz nada.
Sob suas camadas, tentamos escapar da agulha que escapa do palheiro. É a noite que nos cobre de escuridão como uma dor de cabeça aguda chafurda em nosso juízo mole, impotente.
Fazer literatura talvez seja pinicar o juízo do que está aí – e chamamos de real. É, na verdade, sempre refazer aquilo que não pode ser à tona nem pode nos tocar se o incitamos, a não ser por lei cruéis que, inocentemente, (des)conhecemos.
O livro de Todorov A beleza salvará o mundo nos responde, sutilmente, qual seria o papel do artista na sociedade. O projeto estético, de beleza (ou feiura) que todo aquele que cria deve conceber em sua concepção artística do Todo.
Em suas mãos, ele detém o potencial para mudar aquilo que está em devir-ser, devir-animal, devir-tudo, pensando nas reformulações deleuzianas, o dever do artista é criar uma máquina de guerra contra o que temos aí ou aqui.
Para isso, o artista que se preze deve ter um projeto estético para o real, ou seja, tecer linhas de fuga, abrir novas saídas de emergência ou novas portas de acesso. Sem essa concepção est(ética), o artista pode muito bem servir à indústria cultural, às bandejas do mercado ou ao fast food literário – como foi dito por aí.
Parece brincadeira encarar a arte desse modo, mas muitos cultivam essa visão diminuta, falida ou vendida, do objeto artístico, do ofício. Duvidam do poder-ser da arte. É covardia travestida de coragem ou ruptura, mutismo – ao invés de silêncio ou explosão. É simplesmente uma forma de gerar notícia para o fim da literatura após o Holocausto, é atrair consumidores, alienação e apatia.
Existem livros que não poderiam deixar de serem escritos. Por outro lado, outros não merecem a menção que os fez ceder à covardia do discurso, à vilania da palavra entregue ao mercado dos palhaços que angariam risos e aplausos, aos que endossam o discurso de que a literatura é algo totalmente inútil ou mero entretenimento.
Então, o que dizer dos livros indispensáveis? A existência deles se torna crucial para nossa existência. É como um sopro que percorre os pulmões dos “homens ocos” – e lhes dá vida. São aqueles eventos que mudam a nossa realidade e – por ironia ou acaso – desconhecemos a causa.
Hoje considero impossível dizer se estamos vivendo em um livro ou fora do que foi escrito ou concebido pelos artistas através dos tempos. Os nossos olhos, a nossa alma, nosso corpo – praticamente tudo – fora concebido em linguagens, em conhecimento humano. A vida é o grande palco da crueldade. A interpenetração espiral vida-arte, arte-vida, extrapola os limites de cada uma e reacende, como uma luz improvável, o vigor instintivo da sobrevivência e do desconhecido.
Ninguém poderá fugir a invenção. O Fora é metáfora para Dentro e ninguém sai de si, a não ser através da arte – muito misteriosamente incerto.
Como um livro surge? É possível responder a essa pergunta? E João Cabral nos desarma quando diz nestes excertos:

O que acontece é que escrever
é ofício dos menos tranquilos;
se pode aprender a escrever,
mas não a escrever certo livro.

Escrever jamais é sabido;
o que se escreve tem caminhos;
escrever é sempre estrear-se
e já não serve o antigo ancinho.

Escrever é sempre o inocente
escrever do primeiro livro.

Não podemos seguir sem abandonar o “antigo ancinho”, sem não-saber o que se faz, sem esquecer a “inocência do primeiro livro” a cada novo início desconhecido e primeiro, sem estrear-se continuamente. Cabral reconhece que aprender a escrever é conduzir algo que “tem caminhos”, quer dizer, que está além daquilo que é proposto pelos ofícios tranquilos, ou da empáfia do saber.
Escrever certo livro é tarefa inaugural, nunca um manual – ou uma receita pronta para estilos. Cada nova obra reserva em sua “engenhoca verbal” o desafio de Proteu que ocupa mais da metade do juízo de um escritor.
É o desejo do artista em revirar o estômago do mundo, sua ânsia de abandonar a mortalidade dos caixões amortecidos da realidade, a chance para atingir – potencialmente – o espírito de uma época ou o comportamento de uma sociedade, a forma de ver, pensar, agir. O futuro, a visão, a predição inerente à arte, o "transe".
O artista não tem razão. Nunca a terá e nunca saberei o porquê de ter esse desejo violento de descortinar a janela que oculta a face letal de Deus. Escrever, fazer arte, seja lá o que for para atingir as colunas do real, é o caminho, a rota, a sina.
Terminar um livro é encerrar o dia mais perto da vida e mais consciente da morte. Escrever é tentar conceber a realidade novamente, é a criança que desenha antes de desenhar e vê antes ver.  
Superar a representação ainda é o maior desafio que um artista pode enfrentar. No instinto de sobrevivência que ocupa a nossa curta duração, precisamos constantemente buscar e redescobrir nossa espécie.
A tragédia, o pavor, as falências do projeto humano ou os infortúnios das coisas felizes ainda são o tema que mais contundentemente tocam o espírito dos homens e os fazem mudar, dividir, criar. Assim atingimos a realidade antes mesmo de representá-la.
É algo como um tumor arrancado à alma, um espírito que reina em nosso íntimo e se rebela – numa confusão sem fim – através do silêncio e da palavra. É doloroso parir um livro quando ele te habita em mistério. “Não foi planejado” – de certa maneira, adquire grande sentido.
Depois de "terminar" um livro, me tornei aquilo que não sou: um determinado empenho de voltar ao mundo que nunca fora criado, o desespero daquele que desconhece a razão por que continua a destruir sem planejar, ou viver sem continuar o livro que não me pertence.
Ele está aí e não nos diz nada. É preciso criá-lo.


F.G.M.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Tudo vale a pena: se lemos e escrevemos



Escrever é um processo de aprendizado longo. Scliar, autor de Max e os felinos, dissera em uma crônica que, se não aprendeu a escrever, não fora por falta de prática. Jorge Luis Borges, autor de Ficções, jactava-se por ser o leitor.
Não podemos deixar de lado essas duas afirmações em torno dos processos criativos do ler e do escrever. Todos se arriscavam a escrever um pouco (ou até demais), contudo se esquecem do ler – e isto é um mal latente e iminente da ruína.
A leitura, para muitos, é um ato sofrível. Claro, isso pode ser esclarecido pelo simples fato de ser um trabalho sofisticadíssimo. Não, não estou falando de tecnologia, software ou de interfaces. É de leitura mesmo. A questão a ser considerada é: o que acontece com a cultura letrada brasileira?
Se pensarmos no preço dos livros, podemos também pensar nas bibliotecas – ou na ausência delas – bem como em editoras acessíveis e, finalmente, em vontade de conhecer, experenciar e viver pela e na leitura. Quantas têm essa vontade de ler, viver, devorar e possuir uma obra? Quase ninguém. E de quem é o problema?
A Literatura não tem uma finalidade pragmática, à primeira vista, e leitura, no primeiro contato. Não se lê Literatura para colocar o pneu de um carro ou consertar a cafeteira. O homem também não vive somente de tecnologia, trabalho e atribuições que dizem respeito apenas ao útil, à utilidade imediata e necessária.
Guimarães Rosa fala que também somos homens humanos e, nesse sentido, precisamos de mais. Não é só porque ele fala isso, mas porque temos algo diferente em nossa cabeça e, dizem, em nosso peito. Eu, por exemplo, me emociono com os livros. A arte, sempre, me faz ser. Sem metáforas, é tudo real.
Platão (o que expulsou os poetas da República) foi um dos que sabiam que havia uma força na Literatura. O poder emana de todos os lugares e, no caso da Literatura, não seria diferente. A alquimia do verbo transforma ficção em realidade. Eis o segredo que não se revela. Por isso, perene.
Acredito que muitos escritores tiveram um objetivo maior com a Literatura do que imaginamos. Não foi apenas escrever ou, pior, obter reconhecimento. No sentido pragmático, há uma misteriosa necessidade. Os que não se convencem disso, não atingem.
Quando o autor se coloca numa posição desconhecida, é porque começa a agir nele a promessa da ruptura. O horizonte provável da novidade, novamente, abre-se para ele. Se não escreve, o silêncio precisa ser preenchido, implodido, violado, com a leitura; se escreve qualquer coisa, precisa esquecer.
O mínimo senso crítico há de perceber o amontoado de palavras e escritos que se espalham pela net como a palha da palha de Tomás de Aquino. Não como ele escreveu, mas como afirmou. Por que a leitura não acompanha o ritmo frenético da escrita? É o mal dessa geração macunaímica.
Escrevem qualquer coisa insuportável; pensam que estão fazendo o novo, a novidade, no entanto reproduzem o que de pior foi deixado pelo passado. As últimas páginas de James Joyce se espalham por aí, acompanhando os piores trocadilhos e as memórias brutas (no sentido pejorativo) e infames da infância.
Essa utopia pueril não levara poeta algum a lugar nenhum. E pode até levar, porque a Literatura surpreende. A questão é que ela não falseia, e todos nós sabemos que uma geração se faz nesses antagonismos estranhos (rupturas e permanências), quer dizer, na falta de algo (leitura) ou no excesso de escrita.
“Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena” –, assim, se não conseguirmos encontrar o percursor sombrio na Literatura, tudo se desfará na pequenez da alma ou no vale da pena. Perdoem-me o embaraço.

F.G.M.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O VERSO ANDARILHO: OU A VIDA-LIVRO



A "ignorância erudita" é maravilhosa, o verso mesmo - e a vida-livro que nos faz companhia e promete, no horizonte utópico, a liberdade livre. A impaciência é o verdadeiro pecado capital, bem diria Kafka, com todo mérito. Nos aforismos, esclarece: A partir de um certo ponto não há mais retorno. Esse é o ponto que deve ser alcançado. Acredito nas pessoas tanto quanto nas palavras escritas. Por que hei de questionar? Leite derramado? Conversa.
Os versos que parecem resumir nossos tempos foram escritos há séculos, e trago só o corte preciso e fatal do meu bisturi, de um dos versos que diz: “contentamento descontente”. Saber sentir assim à palavra é raro, reagir ao discurso esticado e estiolado pelo tempo, ver a máquina de durar eternos.
A madrugada é a companheira diária e fiel (nunca deixa de me ver, a não ser que feche os olhos para eu sê-la); amiga para o meu insaciado anseio de realizar – ou melhor, desesperado medo de passar a noite só a dormir, sem fazer nada mais, fechar os olhos, e deslizar do mundo, descuidar-se um pouco. Faz um bom tempo que não me dedico a um livro mais extenso e cheio de novidades, como A Montanha Mágica. Lembro-me do início do livro, que tinha uma expressão excelente: “a pátina do tempo”.
É estranho e delicioso estar lendo uma obra literária. Vários dias você se compromete com ela, conversando com alguém na rua, de súbito, lembra-se do que leu, faz alguma menção ao que foi lido na tertúlia, não vê a hora de chegar à casa que acolheu a obra para procurar os caminhos da realidade, lendo, curioso, até o fim da noite, a luz do sol, que de repente aparece pela janela, o dia já acabou, e é hora de dormir.
Diga-se que é uma sensação única fazer isso. A literatura é isso. E mesmo a mesma obra lida consegue renovar o efeito – o que é ainda mais impressionante, pois se prova, magistralmente, que saber não é suficiente. Existe algo mais na literatura e na vida. Se a obra não nos proporcionar isso, não é uma obra relevante nem uma vida que valha a fofoca. 
Uma vez eu levei Os Sonetos, de Camões, para ler numa viagem que fiz para o interior. Cinco horas de chão, nuvens, e impressionismo alemão logo do outro lado da janela do ônibus. Comecei a ler até ficar sonolento. Lia e lia e lia, decorava, recitava e pulava, um, dois, três: Sete anos... Mudam-se... Se a... Dormi. Acordei balbuciando alguns versos, já compondo, de cabeça, decassílabos instantâneos de tanto ler esse metro.  Peguei a obra, quando fui ler, me surpreendi. Parece que eu não tinha lido nada, tinha me esquecido de praticamente tudo. Claro, nós não esquecemos – isso é outro mistério – daqueles poemas “consagrados” pela crítica.  E eles ainda são novos. Bastar pensar: é um andar solitário entre a gente, e o poema expande para outros horizontes. E, por quanto tempo andei com esse verso! Os outros poemas, não tão badalados assim, são excelentes, à altura – contudo, nos escapam e, se o adoramos, atingem o mesmo efeito milagroso das estrelas.
Duas estantes cheias: ala de filosofia, contos, novelas, romances, peças – e material crítico, instrumental para as sutilezas da língua. Mais abaixo, os clássicos narrando minha vida para umas duas ou três traças, que ouvem atentas.  A outra estante, toda poesia possível, ficção, biografias, obras completas e, sobretudo, em excesso, poeira e poeira. É difícil organizar uma casa em construção – ela nunca fica limpa e é vã qualquer vassoura/ou bruxaria.
Os ratos passaram o dia comigo, correndo pra lá e pra cá, como se conversássemos em harmonia coisas de entreter. Existem uns momentos do dia que penso mais na vida do que nos poemas. Uns segundos escapam, e estou procurando livros, tentando reaver na alma todo o arquivo antigo, renovando, como Walt Whitman fez na obra Folhas de Relva, várias versões atualizadas do mesmo livro.
No fim da vida, só vivemos umas noites em um só dia, que se estende. Hoje faltou o café para acalmar os nervos da cabeça, e o tempo frio já passou da meia noite. Impossível ficar tranquilo sem resolver as coisas do futuro, sempre à frente, com o peso nas costas de cumprir tudo sem decepcionar nada, nem um instante sequer.
Um lance de dados, sim, o cubo que toda noite gira com os seus seis números na superfície e, no interior ou âmago, um número especial que oculta o nosso desassossego.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.