"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

sábado, 30 de janeiro de 2016

O poetic stress x inveja ou de como tapar o Sol com a peneira



A primeira vez que li Rimbaud senti um dor nas palavras. Foi como se eu não pudesse mais escrever qualquer coisa relativa à Literatura. Em certo período, diante do espelho, me vi distorcido e, por causa daquela visão, me tornei um Crítico Solitário.
Das minhas lembranças, emendei estudos e leituras. Tenho um fichário com mais de mil notas sobre tudo. A análise que tenho feito sobre escritores dará um belo livro de crítica para o futuro e – quem sabe – um belo alimento para o esquecimento total. Não saberei dos descaminhos nem das deformações que este homem passará, por isso leio e me gabo disso em tempos de total apatia a esse ato possível e real.
Foi eu que fiz – separando Steiner de Heine. Hoje à noite, ao me deparar com alguns versos de Dante – do seu inferno grotesco e magicamente alegórico – pensei em suas imagens cintilantes e no poder emanado do material poético que era trabalhado pelo vate, vulgarmente conhecido como poeta.
Era o gênesis do caos aquela Divina Comédia. Pude me ver naquele violento círculo verbal me cerceando de flamas e flâmulas infernais. Além do mais, pois já faço minha segunda leitura dessa obra estridente, a primeira vez em que o li estava – literalmente – prostrado diante dos infernos da alma humana. Tinha perdido o amor e a esperança. Nada tão drástico, se virmos sob o prisma de nossa sociedade contemporânea, no entanto severamente doloroso para um sujeito só sentir estranha dor.
A questão espiritual estava lá como uma marca do fim dos tempos impregnada no coração do homem. Depois de muito pensar, senti como nunca em minha vida – perdoem-me este exagero – a sensação de ter morrido por não me alucinar como aquele visionário do impossível. Lembro-me de um crítico de Rimbaud que, certa vez, disse-me: ele escreve o incognoscível. Aquilo para mim foi um soco na vértebra. Ele parecia dizer para mim. E eu fiquei horas e horas me torturando com aquilo, repetindo, em tom de questionamento: incognoscível... incognoscível... incognoscível...
Como assim? “O insuportável é que não há nada insuportável” – disse outrora Rimbaud. E depois de bem o viver, compreendi. Não bastar alardear palavras, golfadas ao vento. É preciso se desconhecer ao ler. Desesperar-se ao ver agir a sua própria (de)formação. Poucos escritores causaram isso em mim e, inversamente digo, muitos.
A respeito de Dante, muitos não o lerão, eu sei; mas lá entre as páginas sombrias do tempo, ele vive e revive e se revira através dos séculos. Qualquer poeta sabido, depois de o ter lido, decerto desistiria de sua empreitada poética ao sonhar em ser um versejador. Talvez nem se atrevessem a tocar num lápis ou numa tecla com o intuito de designar qualquer expressão minimamente verbal produzida como literária.
Poucos sentirão essa frustração artística – sobretudo porque não o leram, tampouco os da estirpe de Dante e até mesmo menores, que a tradição perdurou. Os escritores, de fato, que leram, do inferno ao paraíso, no que diz respeito à Literatura, se defrontaram com o verdadeiro dilema de um homem feito de palavras, que eu considero de estresse poético, ou melhor, para ficar mais garboso, poetic stress. Para acanalhar, de vez, minha terminologia, em menor grau, podemos dizer que isso pode até ser considerado inveja mesmo, aquele negócio de desejar sordidamente o que o outro possui em exclusividade, sendo capaz de – violentamente, destruí-lo para conseguir seus objetivos.
Mesmo que essa destruição signifique e sempre significa autodestruição. O que percebo fortemente nas letras atuais é essa estrutura de “camaradagem” no âmbito literário, de imposição de regras a escritores e, consequentemente, da “exclusão” deles dos seus meios de comunicação mal visitados e derruídos, ainda que de maneira indireta e inescrupulosa. Quando os detentores desses canais se sentem ultrapassados pelas novidades de jovens escritores, fazem como o mais cruel dos tiranos fariam com seus capachos: excluem-nos de seu sítio para se autopublicarem sofrivelmente e se satisfazerem com o mais idiota dos elogios – porque o elogio, infelizmente, passou a ser tomado como uma “crítica”, o que é uma vilania das mais capengas e o maior dos engodos.
Existiam algumas revistas interessantes e online que publicavam novidades, no entanto, optaram por continuar publicando camaradagens e, o que é pior, perpetuando o velho (o)vício da inveja no contexto das letras. Algumas até arriscaram publicar estudos sobre o tão mal estudado simbolismo. Estudos que jamais citarei e que não limpam nem a bota – desbotada na parede. Resmungam como gente insatisfeita a sua erudição burra e gordurosa.
Fazer “sumir” aquele que perturba a ordem – o monolítico e ultrapassado – nunca será garantia de levá-lo ao esquecimento. É como querer tapar o Sol com a peneira, ou melhor, impossível, improvável mesmo. É um dos mais inócuos atentados e, sem dúvida, mesquinho. Alguns escritores querem tratar o livro como modelos, ou coisa parecida, para conseguir um lugar ao Sol e um espaço em grutas ancestrais. Não adianta, como diz o poeta, é “tempo perdido”.  
Em meio a tudo isso, o poetic stress faz parte do processo de renovação literária, embora seja extremamente nociva a ideia de inveja nos âmbitos da Literatura, quer dizer, nas estâncias que publicam, julgam, avaliam, dizem se a obra é boa ou ruim, divulgam, difundem e as analisam de forma crítica e comprometida, levando em consideração o todo do todo em partes e em frações rizomáticas de produção de sentidos in contínuo.
A inveja entre Machado e Eça, estudada por certo teórico, foi, vendo sob certo ângulo, boa para ambos escritores. Agora, essa suposta inveja entre os dois envolvia construção, desconstrução, criação etc. Longe de ser algo destrutivo, menor, castrador, ou situada nos patamares da baixaria; era algo que fazia crescer a Literatura. E isso era bom.
Lembro-me que Rimbaud, em suas inumeráveis cartas, tentava publicar seus poemas em revistas, tentava ser lido pelos círculos, queria mostrar o quanto era bom e essencial para todos, enquanto – em verdade – era um gênio e revolucionário para além de si e do outro. Ora, faço-me a pergunta: de quantos prêmios literários ou publicações em revistas “renomadas” um escritor precisa para trocar uma lâmpada?
Esses círculos são infernais para um escritor. São as instâncias de enforcamento, os silêncios impostos à sua voz, ao seu monstro posterior, e à sua ligação íntima com a eternidade. Mas nada impede o triunfo do escritor, embora atirem balas de prata contra aquele monstro feroz, ele resistirá e crescerá cada vez mais, a rir-se de todos.
Depois de minha leitura noturna inusitada, só pensei nisto. Realmente, ninguém sabe do que faz parte, embora saibamos de algumas coisas, como: escrever não é reproduzir em série etc. Compreendo que esse “leilão” das artes – desde o princípio – já anunciou seu fim e os compradores fizeram jus à feira popular. Apesar de tudo e de todos os arredores, Rimbaud e Dante ressuscitam e vivem. Assim, ouvem-se estampidos secos no peito, o escritor espera calmamente a sua morte eterna, pois a palavra está com Deus.

F.G.M.

Razão Tardia



“Oh ilumínios”!
Antes de começar, eu só queria fazer um pedido a mim mesmo: que eu não me separe de mim. Sou solitário, portanto, se me separarem do que sou – poderei ter razão e serei nítido como um confim. E todos poderão me visitar de vez em quando, perdidos ou desesperados, sempre à procura do fim.
Para tanto, cito Lawrence Ferlinghetti: “Em toda a minha vida jamais deitei com a beleza/ confidenciando a mim mesmo/ seus encantos exuberantes”. Haverá maior sinceridade nestes versos no que diz respeito à postura de alguns pretensos escritores cheios de razão diante do que consideram como literatura e produzem?
A única vantagem de ser um crítico solitário é não ter interlocutores para ter razão. Isso é uma dupla-vantagem, pois, ao mesmo tempo em que me questiono, e não sou questionado, posso rever meus preceitos sem que eu queira ter razão sobre os outros. Assim, dialogo. Em minha exposição adiante, darei ênfase à Literatura.
Tenho andado muito impaciente, sobretudo quando o assunto é obra de arte. Opiniões, das mais esdrúxulas possíveis, autores ressentidos, dos menos vendidos possíveis, rixas, ciúmes, invejas, uma série de temas que bem poderiam encabeçar uma novela televisa. Cada um sob a ótica do egoísmo ou da promoção gratuita dos seus amantes.
É difícil analisar algo ou ter algum critério (sério) para se debruçar sobre obras de alguns autores que o ambiente mercadológico e os “críticos” oficiais produzem. Nesse contexto, como podemos reconhecer uma boa obra? Sob quais aspectos, meu querido leitor, podemos dizer que “aquilo é bom” ou “aqueloutro” é ruim? É possível carregar um juízo de valor à hora da avaliação? Ou podemos simplesmente comparar?
Nunca me esquecerei das palavras de Ezra Pound quando se referiu à Literatura: “linguagem [muito] carregada de sentido”. Qualquer definição de Literatura, seja ela mais prescritiva ou pretenciosa, esbarrará sempre em parâmetros – delineados desde Aristóteles, com o princípio da verossimilhança até Pound, quando relê os antigos, e fala sobre a novidade que permanece novidade.
Quando eu penso em Literatura, sempre me vem à cabeça a noção de empenho e compreensão do mundo. Pôr-se a escrever significa desafiar, mais do que compreender, tudo aquilo que nos sitia. Aquele que lê é, constantemente, levado à embriaguez a que alude Baudelaire e, quase sempre, à loucura ou crueldade a que alude Artaud.
Impossível dizer os rumos que uma obra de arte pode ter, até mesmo quando consideramos este mundo pós-moderno e toda sua gama de incertezas e contingências. Tudo pode ser, entenda-me, sim, mas é preciso ser. É justamente essa questão ontológica que nos desestrutura toda vez que sondamos algo que é.
A Literatura é. Contudo, saber que ela é, ou seja, que existe algo que é possível reconhecer nela – mas não rastrear – como algo de valor e longo e que nos abre para qualquer possibilidade de ser, não nos dá um álibi para cerceá-la em discursos apocalípticos, do tipo: isso não é.
Gosto sempre de frisar que é impossível não reconhecer uma peça única dentre as demais, quero dizer, se existir, por parte do observador, leitor ou interlocutor, uma formação compatível, à altura, no sentido de (re)conhecer, dentre um amontoado de saberes produzidos pela arte e pela cultura, algo que se possa chamar de “bom”, de “muito bom” ou até mesmo de “obra”, “duradouro”, “arte”. Formação ou deformação são sempre salutares também obter – com menos peso, claro – o artista, aquele que produz e apresenta sua cria ao mundo.
Por que não se torna tão rígida a exigência que fazemos do artista? Ora, porque ele não é mais o centro do Universo, daí a importância do leitor, a peça que faltava ao quebra-cabeça; e ele mesmo, o autor, não podemos esquecer – também é mais um leitor. E, claro, deve-se aplicar ao autor, como leitor, essa exigência da maneira mais severa possível, até porque, como diz Laura Riding, “Estar viva é estar curiosa”. O ato de criar envolve tais intervenções.
A fórmula é simples ou deveria ser: aquele que escreve, lê. O contrário não é verdadeiro – mas pode vir-a-ser. O escritor é a tensão máxima entre a leitura e a escrita.
A “discussão” que empreendi aqui é introdutória, claro, e quero apenas terminar dizendo que devemos ter muito cuidado quando julgamos uma obra como boa ou má, desde que nossa razão tardia não nos acuse, até porque são de concepções e palavras que todos somos feitos.
A realidade não pode ser filha do absoluto nem escrava da relatividade.
Sendo assim, tenha apenas o cuidado de não reconhecer algo que –significativamente – mudou qualquer coisa que seja ou o mundo sob a perspectiva artística. Não reconhecer é o mais grave juízo de valor que, irresponsavelmente, podemos aplicar a qualquer obra de arte.

F.G.M.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Morte sonhada



Fraco: teu resquício verbal e o suicídio (inútil) prostrado na experiência dos fatos.
Lembro-me dos teus tristes ecos, dos desesperos no assoalho – e do olfato, o sabor do sangue, fétido e amargo na insalubridade do ralo.
Quem recuperará sua existência?

F.G.M.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Lembrança



Seus olhos lembram o sonho, eu os vejo atravessados pelo meu corpo, ainda frágil e silente, diante de tua imagem invisível.
Como uma lua violenta orbita o pesadelo de uma alma presa às entranhas do destino, e cheia de fome pelo último ardor, assim o vejo.
A chama inquebrantável do futuro e o desejo infame do passado a nos calcinar como uma fera sem lei.
Através de toda esperança que anima a espécie extinta e o caminho, que destrona os reis, sempre em direção ao suspiro e ao grito, ainda insone e intenso, o vejo.

F.G.M.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Selvagem




Nenhuma lei obedece o meu juízo, estilo, forma; sei que há um meio para me encontrar no meio do nada e, mesmo que cheguemos ao mesmo fim, serei outra coisa.
Serei outra coisa de que desconhece o desconhecido – feito fenômeno químico.
Uma nódoa pintará seus olhos, um cálculo, um postulado, um brilho mágico e instantâneo sairá da alquimia do silêncio, e de repente não sobrará nada sob a nervura do nada, em síntese, terás livre o livrar-se de todos, como uma melodia invisível soa no entrelaçamento das partículas separadas por um espaço-tempo infinito de proporções intensas.
Serei a onda e a pedra e o que os dobra incondicionalmente e o desejo de não ser quem tu és através de ti – todo o tempo – tentando buscar um sentido lógico para as coisas quando eu não sou – senão selvageria, você e eu, as membranas irreais em que assobiam os ventos.
Um dia irei retornar à palavra para conhecê-la, assim como ela me conhece à noite e durante o dia me guia na escuridão.


F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.