"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

domingo, 26 de julho de 2015

Got


Sempre tive a incerteza de que dizer que a “é” b é um absurdo. Não é exatamente isso o que eu quis dizer, mas é.
Um sábio chinês poderia dizer sua última frase com as seguintes palavras: não adianta dizer. Seria um alívio.
“Eu jamais esperaria isso de você”. Acontecer comigo? Em que ponto – ou linha – o destino traça a sina de um homem? Posso dizer que me controlo clandestino? Talvez fosse a expressão mais apropriada para minha falta de sentido.
E não estou sendo trágico dizendo isso.  
Repousa uma alma. A história segue. Eu sigo. Nós nos perdemos. Após tudo – eis-me aqui! Pensando que tudo poderia não ter acontecido e se. Se eu tivesse deixado a história em seu recinto escuro e achatado, todos viveriam na primeira página.
Mas o mundo não é assim, quer dizer, cada pessoa – em particular – é o impossível, aquilo que não pode permanecer enquanto existir, tão transitório quanto um velório, e mais eterno do que um adeus. Ainda assim, amamos, amargos de nossa desventura.
O vício é tão amplo quanto a grama do nosso vizinho.
Se eu pudesse calcular as vezes em que uma pequena perturbação mexeu com meu espírito, perderia o juízo em três segundos. Nunca caia em um papo. Por que estou dizendo isto? Ora! Mas é óbvio. É porque nunca se pode confiar no “é assim mesmo” ou “tem gente que não se importa”.
Sou capaz de passar dias pensando em como resolver algo que não depende – a posteriori – de mim. Ou seja, bem depois. Agora, quando minha cabeça dá uma volta em todas as estrelas da Via Láctea, sinto que não sou capaz de lidar com minhas preocupações.
- Quando acabarão?
- Nunca.
- É verdade.
Odeio séries. Um filme, para mim, dá conta de uma boa história e ponto final. Até aturo alguns animes, como Monster, Neon Genesis Evangelion, etc. São razoavelmente breves e enigmáticos.
Se as pessoas mudam, e eu sou pessoa, então, alguém me indicou game of thrones para arriscar. Fiz-lhe justificativas aristotélicas, argumentações infindáveis sobre teoria literária, discussões sobre cultura de massa e indústria cultura...
- Assista.
E eu a vi. Realmente, tornou-se minha novela sanguinolenta. Não li nada, para deixar claro, meu querido leitor. Bom, cada episódio da série é um pestanejar de ideias e, progressivamente, a cada fase, vai crescendo, dentro de mim, um desinteresse cético sobre a história.
Posso dizer que aprendi algumas coisas com got. Digo que a maior foi: um filme dá conta de uma boa história.
F.G.M.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Comentário de Joaquim Dantas sobre Pó-E.t



Todo poeta é um ceifador
Joaquim Dantas
           
            Eu não gosto de pensar em termos de pequena ou grande Literatura. Para mim, só existe uma Literatura: a verdadeira! Qualquer coisa menos visceral, pulsante e violenta que a linguagem literária – por mais que tente se passar por ela –, nunca será a verdadeira Literatura. É uma questão de substância, que está para além da mera aparência de texto literário.
            O poeta é um ceifador habilidoso; assim como a morte! Como a morte, o poeta apara as arestas, amputando as gangrenas, retirando o tecido morto que corrompe a vida. É sua natureza romper os ossos e músculos, a calcificação do discurso normativo, na tentativa de criar uma veia torta, um novo caminho, por onde jorrará o sangue limpo de impurezas.
Sem a lâmina da morte, a vida se tornaria uma pústula ambulante, apodrecendo ambientes, calcificando, amortecendo. Sem a poda, o poeta preencheria formulários, bulas, dicionários, apodrecendo com sangue de percevejo as veias/versos dos poema-corpos.
            Felipe Garcia entendeu isso; e desde o seu primeiro livro, Frio forte, ele vem trabalhando na sua linguagem de bisturi. A afiação da lâmina tem dado resultados, como se pode perceber pela leitura de suas obras – passando pelo certeiro Cápsula e chegando agora ao refinado Pó-E.t.
            O mais novo trabalho desse poeta é um verdadeiro esforço cirúrgico no campo da Literatura. As arestas foram aparadas com precisão, chegando ao talo dos ossos e ao vermelho dos músculos. Quase não restam cartilagens no poema-corpo. Ele é todo nervos!
            Logo na primeira página, você reconhece o eu-lírico de tantos outros poemas de Felipe: “imagino/ a Ítaca/ vindo”. E que verso, diga-se de passagem! Felipe amputa o clássico Homero, seu espírito guia de descida aos infernos de sempre. Melhor dizendo, ele amputa o que há de clássico em Homero, guardando para si somente os modernos nervos poéticos.
Só mesmo um louco ousaria orquestrar uma cirurgia no próprio pai. Mas um louco habilidoso!
Como Aristóteles, Felipe ignora o risível em sua arte, atendo-se somente à fria lâmina. A leveza de seu poema só pode ser comparada à leveza da navalha. Seu Frankenstein é magro e esguio, como uma sombra ou uma moreia submersa na escuridão.
Esse novo poema é o pó de seus ossos. O pó dos ossos de seus últimos poemas. O pó que resta nas páginas esquecidas pela vida moderna nas antigas bibliotecas.
Das raspas, o poeta fez a porção. Da porção, o poeta retirou os aromas acres e sufocantes da poesia difícil da vida.
Se continuar nessa lida, eventualmente, Felipe perceberá as últimas pequenas pústulas de seu corpo, as últimas esquecidas gangrenas, os últimos tumores seculares, e os amputará com mãos firmes e impiedosas.
Forjará, então, um poema-morte! Um poema-ceifa! E dará – não a luz, mas – as trevas a uma criatura soterrada em violência e caos. Encontrará assim outros demônios e espíritos. Aqueles que habitam o último lar dos versos.
O lar com L maiúsculo.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Resposta para João Lemos - a respeito do livro Pó-E.t



Quando bem jovem, estudei bastante a forma do soneto. Tanto estudei, que tentei racionalizá-la verso a verso, como se eu tivesse controle sobre a vontade no homem. Isso passou, mas o desejo de escrever um livro de sonetos sempre foi algo vivo em mim. Depois descobri, com certa alegria, que um soneto é um poema como todos os outros.
O soneto é uma forma literária extremamente mutante e tem se renovado ao longo do tempo. Embora alguns poetas sigam a estrutura fixa, os versos regulares e as rimas, é notável a diferença entre um soneto de Raimundo Correia e um de Florbela Espanca, por exemplo. Os sonetos – de alguma maneira – contêm o temperamento de um poeta, sem dúvida! E como é um momento importante na trajetória de um poeta, resolvi repensá-lo, reinventá-lo, inicialmente, a partir de algumas intervenções de Rimbaud, que escrevera sonetos brevíssimos e contundentes – ainda que apenas os visse como uma “brincadeira”; depois, o livro que me inspirou substancialmente foi: Cem Sonetos de Amor de Pablo de Neruda. A alquimia verbal era clara: Neruda unia os elementos mágicos da natureza – e da “natureza humana” – como uma supernova faz com os elementos químicos do universo. Ele escreveu um livro com o mesmo material que João Cabral de Melo Neto utilizou para construir seus poemas: a materialidade, ou melhor, a coisa mesma em sua composição. Esse livro me lembra a sopa-cósmica, algo fluindo dentro do sentido da vida, ou a origem dela do papel. Tudo isso estava em mim pronto para gerar vida em algum momento e, depois da explosão massiva dos meus dois primeiros livros, senti um silêncio primordial desembocar dentro de mim. Era algo como o “resta pouco a dizer” de Samuel Beckett.
Então, tudo de repente veio em alguns meses de 2014, especificamente, outubro, novembro e dezembro. Os registros de pequenos poemas escritos por mim são antigos (os escrevia como embriões, proto-poemas ou brincadeiras), os guardei há muito tempo e, como relatei, essa memória poética voltou para meu fazer mais consistente, real e autêntica, e comecei a escrever os sonetos ininterruptamente. Parecia um trabalho de inspiração, algo que eu mesmo podia intentar dizer, uma vez que expliquei uma linha de pensamento em torno dos acontecimentos, nada funcionaria se não houvesse um mistério fundamental que faz com que as coisas aconteçam, de uma forma ou de outra, um dia, depois de muito germinar dentro de nós o trabalho que acumulamos com muito esmero e dedicação em busca do desconhecido. Escrever para mim, além de um imperativo existencial, sempre vai ser buscar novas formas de respirar em (uni)verso, descobrir, reinventar, criar; é assim que todos os grandes escritores fazem como razão de viver e não temos respostas para isso. Portanto, mesmo escrevendo vários poemas curtíssimos nesse período, ainda não os via como um livro. Faltava um que agisse como a gravidade. E foi justamente, depois de muito me questionar sobre o ser poeta em tempos de descontrole, que escrevi “Um Pó-E.t”... E esse poema me mostrou a síntese do tempo e o princípio de tudo.
Assim, o meu terceiro livro, além de si, é um diálogo intermitente com alguns autores que tenho admirado de forma secreta. Por incrível que pareça, todos eles são brasileiros e essenciais, como: Baudelaire, Rimbaud e Mallarmé. São eles: Bilac, Augusto dos Anjos e Joaquim Cardozo. Eles são poetas-cósmicos, diria, aqueles que pensaram a poesia em consonância com o UNIVERSO – a diversidade e, sem dúvida, com a ciência – durante ou em algum momento de suas vidas. Lembro-me de ter lido e me maravilhado por livros sobre literatura fantástica e sobre literatura e ciência e, ao lado disso, sempre fui apaixonado por física – sobretudo, por física moderna, por física quântica e também por astrofísica. As teorias mais excêntricas e maravilhosas me fascinaram até à espinha, a palavra “origem” elevada a todas as potências me enchia de ânimo e zoé. Esse meu interesse pela ciência – e as leituras em torno dos poetas – me fez pensar em uma poesia de partículas (obviamente depois de ter quase finalizado o livro tive essa impressão) – para fazer analogia com a física de partículas. A lei para física menor é outra, assim como para o poema menor ou poema-partícula. Sabendo que somos pó oriundo das estrelas, os pó-emas (de)formam um ou vários pó-emas, daí uma possível razão pela qual não os intitulei individualmente. A partícula se comporta de diferentes formas, a depender do observador, e assim também acontece no poema. Sou leitor e não “o leitor”.
Fiz muitas considerações! Mas, dentro do universo, ainda poucas e breves sobre o livro. Para poder responder ao comentário do meu caro Lemos a respeito do meu livro, eu precisava dizer isto. Primeiramente, achei fantástica a visão dele, tão aguçada, lúcida e rara para os dias de hoje, algo que só pudera ser embasado com muita argúcia, leitura e perquirição. A analogia que ele fez com os moai é bem feliz, uma vez que as primeiras sociedades guardavam o mistério e a magia das estrelas em seu coração, e boa parte da teoria dos astronautas antigos é provinda dessas civilizações. Como disse meu querido colega Ricardo Guti: “como os moai, só aparece a cabeça, pois o restante do poema está enterrado nas páginas”. Segundo, o que Lemos diz a respeito da forma dos poemas, da superfície profunda de cada um deles e de sua sinuosa simplicidade, também condiz bastante com a ideia de busca, de (des)construção, de reinvenção e de metamorfose que sempre tenciono atingir ao escrever um poema. Ele capta a sensibilidade hostil e provedora da serpente semântica como um fenômeno singular e distante na leitura e releitura dos poemas, algo como tangível, porém escapável, frio-oblíquo e, quiçá, dissimulado.
E, sem dúvida, o que me surpreendeu deveras foi a ideia de (obs)cena em meus poemas. A obs(cena), um dos eventos poéticos mais interessantes que estudei com admiração e curiosidade em meu mestrado e creio ser admirável ele notar tal presença no livro. As perguntas colocadas por Lemos, bem ao fim de sua apreciação, são as que me faço diariamente em um esforço louco por encenar o absurdo e o vertiginoso, e me espanto ao ver que ele respondeu que aquilo que eu fazia era – iluminadamente – paixão.
Sim, meu caro, eu gostei do teu comentário.

F.G.M., dia 08 de fevereiro de 15.

Os três.


F.G.M.

terça-feira, 21 de julho de 2015

"Pó-E.t" - meu novo livro de poemas. Em breve, o lançamento!




"Pó-E.t" - livro-poema de f.g.m.
O poeta jamais silencia. Sempre palavra. Meu coração segurou! Que arritmia atroz! E eis que ele veio, pássaro sertanejo, anunciar a rebelião do caos, o meu novo livro de poemas. “Pó-E.t”. 

Um ciclo se encerra e o outro ressurge em minha poesia – e a cada livro, um novo poeta, um novo poema. Não posso descrever minha felicidade neste momento. Quero agradecer especialmente a Monielle, por ser minha musa, aos camaradas Wilson e Tonho – por acreditarem, a partir do primeiro livro, em meu trabalho, e aos amigos distintos e considerados André Pinheiro, Joaquim Dantas e Regina Medeiros - pelos trabalhos feitos à Literatura.

Claro, um forte abraço a todos que também, de uma forma ou de outra, me fazem acreditar nas canções, minhas iluminuras!
Galera! Em breve, o lançamento.

F.G.M.

sábado, 18 de julho de 2015

Quase



De madrugada as horas filmam as sombras, e as árvores se dobram ao contorno do vento. Eu iria escrever este conto, mas estou muito triste.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.