"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

terça-feira, 30 de junho de 2015

O Cúmplice



Ninguém fica pirado por fazer papel de bobo ou por ignorar uma coisa muito importante. Eis uma verdade. Eu tenho meus assombros, mas estes são de ordem sobrenatural – ocultos.
Ecos me procuram constantemente em minhas reflexões. São vagos e espessos como o sono fracionado durante o dia. Perdemos a noção do tempo, do espaço e até de nós mesmos. É aí que me indago, sempre quando me vem à cabeça a ideia de suicídio:
- Por quê?
Não existimos. Quando eu vejo uma palhaçada na TV, um partido político criticando o outro de forma cômica ou burramente sarcástica, não só tenho enjoo, mas pena. Pena mesmo, gratuita, assoberbada. Ninguém sabe o limite do próprio descaramento.
Mas não é daquilo que eu quero falar. Portanto, é bem sabido que os homens são livres. A liberdade é uma forma de dizer que temos consciência da vida. “Ser livre” significa saber “estar vivo”. Embora pareça um axioma furado, tenho quase certeza de que nunca fui livre e sei muito bem disso.
No dia em que me perguntarem qual foi o motivo de eu estar aqui – quiçá agrilhoado – eu direi:
- Meu amigo, quer saber?
E passarei o dia inteiro contando histórias da carochinha, darei uma de mil e uma noites, e nunca chegarei a conclusão nenhuma, a não ser aquela que todos nós conhecemos: que é de nunca sabermos o porquê de tanta coisa nos incriminar – desde o nascimento!
Há dias que não chovia dentro de mim.
Foi um período de secura imenso, uma estiagem severa, comparada só à que vivemos hoje, diante de todos os reservatórios minguados, e a toda nossa ignorância no que diz respeito à consciência – seja ela qual for – que nos interroga diariamente.
Tive sensações febris durante esse período e pude sentir, mas do que pensam e sentem os filósofos, uma certa angústia graciliana entre meus ossos.
É difícil ser cúmplice. Evito os detalhes e descarto o sorriso. Tudo o que, em mim, sabe – ignora. É um nevoeiro estarrecido, uma alucinação procrastinada que sempre vem à cabeça quando já não mais surpreende e é real.
Não me recordo exatamente a razão pelo qual me pus a escrever esta história. Juro a vocês, embora ela fosse comovedoramente sincera, já me escapa a intenção, o raio, o motivo mesmo de eu compô-la.
Façamos o seguinte. Finja que entendeu – e sejamos cúmplices de mais um segredo inviolável.

F.G.M., dia 30 de junho de 2015.

domingo, 28 de junho de 2015

Cápsula está no "Poebiblio" - acessem!


Breve descrição sobre uma das intenções do Poebiblio: “Outra intenção da presente bibliografia é revelar edições fora dos grandes centros editoriais, uma geografia da criação poética mais panbrasileira do que revelam os catálogos editoriais e as livrarias.” (TRECHO EXTRAÍDO DE http://poebiblio.com.br/index.php/bibliografia/5-poesia-brasileira-em-livros-de-arte-edicoes-especiais-e-alternativas).

segunda-feira, 22 de junho de 2015

O Manifesto da Poesia Compilada – uma apreciação


As artes poéticas surpreendem pela transmutação da realidade e da palavra poética. O novo sempre vem à tona, e podemos nos deparar com um poema até mesmo diante da última tragédia da existência terrena: a extinção. Nenhum evento na história anunciará o fim do poema, pois faz parte da humanidade a criação intermitente que nos lança a si, mais longa que a vida.
Prova indubitável disso é a intervenção literária que vivenciamos em todo nosso imaginário, desde uma situação banal (uma conversa perdida) até mais complexa (a contemplação de uma eternidade fugaz). Com a palavra, o mundo foi inaugurado e, através dela, outros serão descobertos ou criados. Dessa forma, o que podemos apreciar ainda em seu período embrionário – e deveras avançado – é o poema compilado, mais uma proeza da palavra sobre o mundo. 
Como representante e efígie do movimento, temos O manifesto da poesia compilada, que inaugura um estilo único, que mescla uma linguagem da informática [o virtual] com a poética [verbo-visual] para compor uma expressão i-r-real. A temática: a vida ou a matrix ou a syntax. A forma composicional: poema compilado. Como dizem os autores que assinam o manifesto, Soraya Roberta e Felipe Tavares, a poesia, nesse sentido, é um loop infinito.
Um dos pilares desse tipo de poema, a ideia de código-fonte, não é tão distante de uma tradição mística e literária, como as grandes buscas da história humana, como o segredo da imortalidade, o sentido da vida, os mistérios do Universo, a síntese de Tudo ou a tapeçaria do Nada. De repente, os neo poetas descobriram formas e maneiras de (de)formar, (re)formar, (re)configurar esse código-fonte, e expandi-lo, colocá-lo em pânico, (re)iniciando tu[na]da-do.
Na aparente simplicidade do projeto lógico-poético do manifesto, há uma filosofia do contemporâneo (a desintegração do sujeito via virtualidades e a busca de uma totalidade fragmentária), além da visão de uma sociedade hiperconectada à internet das coisas, que já não se imagina, como à época do início da era da eletricidade, sem conexão.
Estruturalmente, esse tipo de compor/e perceber poesia dialoga, também, com a tradição poética brasileira, sobretudo quando nos remetemos às construções poéticas dos poetas concretistas, do vínculo dos irmãos Campos e de Pignatari com a semiótica, a tecnologia, e com a morfologia das palavras, considerando as (re)construções e neologismos, a polissemia, os ritmos.
Semanticamente, as implicações do movimento são bastante interessantes. Incialmente, desautomatizando o utilitarismo dos programas, colocando a poesia compilada em liberdade de linguagem, os neo poetas podem liberar aquela visão humanística e inventiva que Steve Jobs tanto lutara por empreender e aplicar em seus produtos. Não se pode prever como o mercado pode absorver tal perspectiva, mas o que os move transcende esse direcionamento castrador e os transporta a desafios inomináveis.
Essa intervenção ousada da dupla aponta para questões cruciais do futuro da humanidade. Por quê? Imagino que um dos maiores desafios da ciência será criar uma autoconsciência nas máquinas, nos robôs, uma sensibilidade. O ato de criar um poema compilado poderá despertar, em uma virtualidade puramente digital, o aspecto inventivo nas máquinas, uma espécie de autoconsciência cibernética, uma volta do parafuso, o humano-máquina de Isaac Asimov será levado em conta à hora de programar e isso poderá mudar nossa relação com o mundo, a vida e tudo.
Esse tipo de compor poesia tem qualquer coisa de ficção científica, que nos perquire e nos assombra. Fazer pensar, fazer criar, fazer ser: tudo que nos fez humanos e nos distanciou também de qualquer ideia aquém-homem, aquém-humano.
Já se sabe que a poesia pulou fora da página (não a abandonou), e está alcançando setores que vão além da preexistência efêmera do gênero poético. Ela não abandonou a página, pelo contrário, cada vez mais, como processo simbiótico, o poema assimilou novas linguagens e superou as barreiras enigmáticas da página para abstrair e consubstanciar, da programação, inusitadas formas de ser e de dizer.
A Literatura recebe e assimila mais uma expressão inovadora e dá espaço – cada vez mais – para linguagens diversas, meios e mecanismos concatenados de um jeito intrínseco, dialógico, levando em contas os âmbitos [compilar] e [poetar] sem sobrepô-los, mas integrando-os de tal forma que não se pode separá-los. É poesia-programação & programação-poesia.
Onde houver vida, haverá poesia.

Algoritmo – poema de Soraya – é o exemplo mais cabal desse movimento, o precursor. Confira o manifesto & outros poemas: aqui.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.