"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

DA POESIA



A palavra mesma. Eis todo o poema. Como o homem mesmo – eis todo o poeta. Riem do que choro – e rio do que choram. É assim: cada um com o seu cio. O saber poético. O senso estético das coisas e a democracia da beleza – do belo e do feio. Hoje não há mais como questionar o status quo da palavra poética acessível e aberta a todos os signos e símbolos. É a semiótica de tudo que confere ao olhar do poeta contemporâneo o signo totalizante, singular e particular – hegemônico e marginal, estreito e profundo à superfície de nossos olhos. Todas as coisas se tornaram superfície em potencial para a discursividade poética. Cada passo é um significante intenso e permeado de tessituras semânticas e linguagens de(codificadas).
Já não se pode mais dizer que a poesia está nas coisas ou nos pensamentos, sentimentos, desejos etc. Ela é as coisas e tudo. Perceber isso, em nosso século, é um triunfo para a poesia. Buscamos a palavra antes mesma. Ela comporta as possibilidades e as correias dos discursos. Como ela diz, ela faz, ela fez e fará, pois o seu tempo “é quando”. Ainda que exista ordem – lá estará ela, como uma mut(ação) plena. Seu desejo de transgredir extrapolou o ego. A poesia reivindica existência pelo que ela é em poder ser. Seu poder-ser é tão inviolável e semântico quanto o saber-poder. A palavra do homem é o verbo-anunciado-esperado. A palavra aguardada ou a palavra dele é como o próprio mundo.
O mundo, para ele, é criado como o que poderia ser. O maior grito é longe. A maior palavra é pequena. O maior silêncio é prolixo. Não há qualquer empecilho para seu intento poético – pois ele mesmo o é. Quando sonha, ele tem os mais cruéis e terríveis pesadelos. Os seus sonhos são máquinas estranhas de monstruosidade. O sonho é sua realidade – e o real é o seu duplo. Ainda que exista – o seu existir é um universo paralelo. Tem sensações de clima – o clima e sua memória estão atrelados, o tempo que atravessa o dia é envolvido pelas sombras, pelos raios de luz, enfim, por todo o espaço e coisas e seres que interagem nesse espaço em solidariedade; ele cria novas sensações dentro desse tecido humano no espaço-temporal e sente o Fora mais do que o dentro.  
A rede e o rizoma se espalham pelos espaços do Fora. O(s) tema(s) subjaz(em) na espiral incessante e não podemos encontrá-lo dentro de um sistema fechado e monolítico. Cada coisa desperta n sensações, sentimentos e pensamentos – afectos e perceptos – que transcendem a massa singular humana e interpenetra o sujeito como uma comparação cabralina. A palavra fiat é instaurada, a palavra mesma – a palavra e o ato, a palavra em sua imanência e existência como fator de (re)produção criativa, viral e significante.
O poeta está solto diante da realidade e não cabe mais a ele o desígnio de uma escola ou de um instrumento messiânico. Sua palavra ainda é aguardada, mas não como a do salvador – e sim como a do núncio, de um pré-núncio; ele silencia com palavras, produz silêncio, faz silenciar. Hoje, o poeta está mais para a desconstrução e destruição do que para a insurreição ou para a formação. Seu caráter criativo e proteico, diante de um imperativo utilitário, conformista e pragmático atuais, deve ser avassalador.
Há tempos não falo sobre poesia. Tenho me ocupado com tantas coisas mundanas, que não tive tempo para fazer reflexões acerca do poético – ou de qualquer coisa que diga respeito à poesia. No entanto, não consigo parar de pensar em poesia e de como ela consegue fazer o meu dia valer a pena e a minha vida valer o esforço. São raros os casos em que os poetas não dão a mínima para o que fazem – nestes casos, eu diria, apenas encontramos aqueles que estão mais interessados em criar um frisson ou certa fama que lhes galgue uma pífia notoriedade, nada além do espetáculo e do espasmo após o gozo.
O meu caso com a palavra é mais duradouro do que imagino. Sempre penso que posso deixá-la para curtir a vida ou outras mulheres, mas – intimamente – tenho a certeza de que sou fiel à palavra como um cristão devoto ou como um revolucionário convicto de sua morte e de sua missão. Se eu parar para pensar um pouco a minha vida atual, olhar para mim mesmo em câmera lenta, fixar os olhos em mim, deixar-me à mercê do meu próprio juízo crítico, creio que verei um sujeito aficionado pelo que faz, às vezes obsessivo, por ora apaixonadamente louco ou decepcionado, sempre insistente e deveras envolvido como um cão leal a seu dono ou uma vadia ao seu ideal. É uma imagem estranha a minha, mas é a real, devo dizer.
Procuro formas a cada instante, forço-me a não retroceder um passo sequer, a não pensar de maneira retrógrada, a não sentir de maneira rasteira ou ligeira o evento intenso que me perpassa toda vez que eu me inscrevo, toda vez que eu me sujo, a cada vez que eu me desconheço. Aquilo que me inunda não pode ser detido por, absolutamente, ninguém e, muito menos, por mim. Deve agir como uma catástrofe, deve descer pelo desfiladeiro, deve levar o mito tardio, deve arrancar árvores como os furacões, ainda que seja leve como uma pluma. Porque aqui não há uma relação direta com o desejo de destruir ou de construir, mas de pertencer a um instante de violação. Assim que começo a escrever algo estranhável ou diferente, sempre tenho a ideia de que violei uma lei universal. As coisas não deveriam ser assim – mas poderia.
É então que meu estranho pensar se confunde e posso sentir ou sonhar ou supor que a máquina do mundo extraviou, os poetas conseguiram, atingi o meu intento: pude ser palavras por inteiro, pude me desvincular do mundo, tornei-me verbo e, ele, carne, fui batizado pelo instinto do poético – respiro, a longas distâncias, o cheiro animal do verbo, entro em animal-estar. Depois disso, nada mais faz sentido. Olhos para as coisas e todas elas tombam, se esfarelam como um objeto carbonizado à sensibilidade do toque. Como posso viver sem viver? Antes de isso atingir qualquer sinal de vida em mim, pressinto que ainda há esperança para empreender uma nova magia. Aos poucos, duvido de mim, sei dos meus limites e dos meus projéteis, carrego a eterna angústia dos fracassados e a ligeira convicção de vitória dos desiludidos, e me convenço de que há sempre um caminho para aquele que busca – e é um caminhante, para além do desespero e da exaltação plena.
Ainda que estiolado, me percebo abraçado com os poetas que se foram na lembrança de todos, me agarro àqueles que foram pouco lidos, afeiçoo-me aos que não foram compreendidos, os entendo e os alimento noite adentro, simpatizo com os que conseguiram sobreviver com um poema, tenciono viver com os que foram humilhados, sinto uma paixão extrema por todos aqueles que desistiram depois de deixarem uma cicatriz imensa dentro do meu peito; sei, todos eles vêm a mim e os recebo cheio de vida para amá-los, cada um foi poeta e escreveu até exaurirem as suas forças vitais em favor de suas obras e de seus propósitos inexplicáveis. Sim, nunca me esqueço daqueles versos de Shakespeare: “como compará-la a um dia de verão?” – a poesia mesma, a palavra mesma.

F.G.M., dia 02 de dezembro de 2014.
  

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.