"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

sábado, 15 de novembro de 2014

Manhã


 
Aí está:
Fiz algo que não me deixa dormir. Isto dói em mim. Há algo estranho na minha alma depois daquela dia... Por que fiz aquilo? Estou me sentindo um monstro, um monstro, um monstro! Disseram que era normal. Como poderei viver com essa lembrança?
Rilo
Dele, só nos sobrou esse bilhete. Foi encontrado morto na varanda da sua casa de praia. Estava de férias. Além de ser bem sucedido, ter tudo o que o dinheiro podia dar, era solteiro, curtia a vida, não dava “satisfação” a ninguém.
Ele me encontrou ontem à noite para me contar que estava feliz depois de ter tomado uma atitude que mudaria sua vida por completo.
- Sim, serei outro homem, rapaz. Depois dessa, eu juro pelos meus pés amarrados que não cometerei o mesmo erro duas vezes.
- Isso é sério?
- Claro! Estou feliz. Não é isso que importa às pessoas?
- Sim.
- Então! – depois de pronunciar essas palavras, foi-se. Realmente, estava diferente, não era ele, não, com certeza não o era. O seu semblante vigoroso de antes agora parecia mole e frouxo, como se tivesse acabado de doar sangue, algo assim.
Morto, morto, morto, agora é assim que está. Os peritos vieram ontem para isolar o local, checar e analisar os vestígios. E o que ele me guardou, qual foi o segredo que ele não ousou revelar para mim, o seu melhor amigo? Eu poderia evitar?
Um cara que brigou com a família por causa de uma mulher não poderia me surpreender assim... Será que fiz algo? E que importância eu tenho nisto? Não cabe a mim decidir o destino do homem. Eu sou mais um.
Torturava-o falar no passado. Uma vez mencionou o fato de ser ignorado por um conhecido, porque não era seu amigo como eu, e se mordeu de raiva ao lembrar.
- Odeio lembranças! Odeio lembranças! As mais cruéis, não as que tiram o sono, mas as que produzem os pesadelos, o desejo da morte, a fome pela ira e pela ambição...
- Entendo... Deixa isso pra lá. Vamos tomar uma, beber um pouco naquele bar da subida, ficará melhor lá, comigo, tem espetinhos, som e mulher.
- Vamos. – respondeu suspirando os demônios que circulavam nos seus pulmões.
Fomos para o bar e brigamos. Por quê? Ora, eu já sabia. Ele não podia beber, era fraco pra bebida e, depois de uns goles, me humilhou descaradamente. Diante dos outros, zombando de mim, falava os meus defeitos mais mesquinhos e pueris.
Ele expunha aos outros as suas próprias fraturas. Só por causa de uma noite.
- E o que você fez depois dessa noite? – questionou o policial.
- Estava derrotado e deixei ele lá. Meu amigo, meu melhor amigo...
- E o que tem a dizer sobre as suas roupas na casa dele no dia do crime?
- Eu o despi. – precisava dizer, uma hora ou outra, eles iriam descobrir.
- Naquela manhã aliviei sua alma.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.