"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

Antologia pessoal

POESIA ATÉ AGORA




Verlaine

Ocaso.
O caso é conhecido.
Procurei as obras poéticas
dum francês velhaco
(resíduo remoto da raça humana)
saturnino/símile a um símio
com o osso malar encruzilhado
(a calvície, a pestana,
só o caco)
possuidor
do ósculo das eólias harpas
com suas melodias crassas, platônicas, chispadas
das paisagens dos becos/bares/bocas
e brocados parisienses
à época sombria
dos impérios franceses
decadentes.
E sonhei um dia antes
de consegui-las
como se um milagre fosse
mas santo não foi quem imaginei
à beira do inferno vazio/vasculhando
vulcão/voz/vexame.
(Armadilha,
me destilas
vodcas e visões
/côcos e ilhas).
No meu caminho a vodca Marosk
envelhece
nas viagens feitas várias vezes: ida/volta/voltaída.
Ficava atrás
e, na verdade,
às vezes na frente e zás!
Revezavam nos círculos
antipatias
- se um estava ausente,
o outro enlouquecia
vicinais, a beber com poesias, à noite/ vela de Rimbaud
armavam  peças ao destino, tiros/delírios,
álcoois, losnas, absintos
nas tavernas dos rebelados/à revelia
ao lado do espírito dos porcos
vadiando labirintos.
O que Verlaine anoitecia?

Chove, Verlaine
e as águas dos teus versos
infiltram minhas telhas
e, com panelas
frigideiras,
canecas, esfregões,
ouço vossa melodia/vossa taxidermia
- gotas de água pingam no notebook
mas não me importo
com as nevascas nonada/no Neva
tampouco com as cheias do Amazonas
desde que caia
cantarolando
caroável, as lonas
sobre a treva
e, no horto,
se ouça a música que cantara antes de deitar-se
e nos ares do galpões (nu em Eva)
cheios de alaridos/labiais.

Trocou a tavolagem
pelo jovem
e, na estiagem,
nas paisagens dos trigais amarelados
andaste com ou sem
nenhum vintém
ao lado dele o outro
longas horas de tertúlias em Astúrias na viagem

(ouço o passo do gênio a sapatear no infinito
cheio de bordejo
o cachimbo avesso
o ópio/o haxixe/a bebedeira
as árvores cristalinas, os animais de fogo, a grama
e, espesso,
o beijo
a cama)
e na beira
do rio
a aragem
a balançar os fios: e a folha correndo nas águas mito.

No sebo do Magno
Verlaine de uma biblioteca dum velho leitor doentio,
estavas. Onde está Rimbaud? Hoje o dia está frio.
Tão frio!



Melancolia

A ca-
sa
es-
vazia os pul-
mões.
Tro-
peço
nas estrelas
do u-
niverso.

Não, eu não estou sozinho

é o mundo que rola
nos meus dedos
como pino
solto
no tempo
e eu não
sei
o que fazer
com ele.

FRIO FORTE (2012)

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Ausente em Lugar

Cicatriz
na
língua,
o lábio rasgado/
e a bochecha
alinhada no rasgo
os olhos
fundos
no crânio

eu poderia ser feliz

se a vida fosse um trago
(não de cicuta/amônia
ou
urânio)
meio litro de nada
e duas doses
de
esquecimento
puro
às doze
da
manhã e da noite,
gole a gole
eu tomaria
a largar

apunhalado na mesa

a melodia
doce
do passado,
e a carranca do presente
futuro?
Em fim, beleza.
O dado
sujeito
no   
zero
(os anos se oprimem
no estômago)
a quem
amo?
De olhos abertos
estou longe
de ti
não
junto
os grãos
depois da meia-noite,
o monte
pardo
de sombras

cobre, zinco
nas
minhas pupilas
e a angústia
matutina
de
viver mais só
que um cabelo
azul
no vento.

Não devo
partir depois da meia-noite
abrir o envelope
açucarado
do
meu convite
à morte
o nascimento mútuo
escrevo
na última página
da vida:

era ter uma tragédia
meu destino.


Ao Leitor

Meu único desejo
é  não
ser
teu parente

se repousas
na superfície
da guarda
materna

ou na alça
da
tua espingarda

ou no seio
da tímida
ama

não canto
tuas
lembranças

para te arrebentares
em soluços

desconheço
a angústia
das
estações
de águas

pois eu não vivi
todos
os destinos

suplico-te: me recuses!

Ah, se
pudesse
acontecer, meu irmão,

que não caíssemos
nos braços
um
do outro.

CÁPSULA (2014)

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*

Eternidade,
vem
a
mim,

filhinha,
no
horizonte
e a só

me esquece
à beira
do abismo

entre o
que tu
és e eu sou.

*


Palavras
são eólios,
e o jogo
poético é

o estar em
algum ar
seja céu ou
seja mar

o tráfico
instantâneo
de corpos

o mágico
artifício
cutâneo.

*


Seja eu
Aquiles
no campo
último

e lute só
em longas
falanges
de cinzas;

nos ares
terras frias
e mares

crepitam
estrelas
e homens.

 
PÓ-E.T (2015)

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MORREDIÇO MAR: FRAGMENTOS SOTERRADOS: TRÍPTICOS (2017)

F.G.M.

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