"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

Exórdio



A geração a que (não) pertenço não almeja o brilhantismo nem as feiras. O poeta quer ser lido. Afora isso, ele busca, de todas as formas, o reconhecimento literário, a aceitação, uma afirmação da crítica e a existência de um público ou de alguém a quem confie a sua obra.
É nessa busca que se perde, se entrega, sofre, e trôpego, desiste, pragueja, se arrepende, e parte para o vale tudo que, muitas vezes, não resulta em nada. A cada dia passado, não temos noção do que o vácuo consome – e tudo o que é escrito se perde nesse buraco-negro.
Não se tem dimensão das incríveis perdas, da dispersão da falange, dos casos inteiramente novos e desconhecidos, do número de sumiços e de abandonos do campo de combate, além das irreparáveis derrotas comandadas pelo tempo e do desejo absoluto de abortar-se. Nada se compara à aridez de ser poeta nestes tempos.
Meditando sobre a posição do poeta na sociedade, perguntamo-nos: existe tal posição? Parece haver um silêncio maior do que o do próprio poema. Não paramos para pensar no sentido de escrever nos dias atuais – corrijo – escrever poemas, gênero impossível, sem necessidade, que apenas nos rouba o tempo e nos traz o nada, o inútil.
Escrever poesia é uma tarefa que cobra daquele que escreve o sangue. Não é dado a qualquer um o corpo para suportar tal enfermidade. Uns se matam e, outros, tentam fazê-lo. Ser poeta é uma condenação que cabe a poucos.
Abandonar a poesia – esta peste – eis a solução para muitos que escrevem esse gênero tão estranho e cheio de adversidades estruturais. O que fazer quando a prosa, o romance, impera em nossa sociedade? Partir para ele? Poesia não deveria ser para poucos e não é, embora seja. Diante de tantos empecilhos e dolorosas perdas, pensamos em desistir de escrever versos, afinal, poesia não serve para nada mesmo.
Diante de um contexto tão hostil como esse, por que tanto poeta ainda teima? As perguntas se enfileiram. Infelizmente, na verdade, existem poucos poetas. O público leitor é mais raro ainda e, quando se fala em prosa, todos sentem a delícia de conhecer um degustável best-seller e poder comentá-lo com “autoridade”. Quando se fala em poesia, fazem-se caretas, os comentários mais tacanhos se restringem a “lindo”, “wow”, “belo”.
Não se faz leitura de poesia, mas calibragem de egos. Pretendemos fazer leitura de poesia e, sobretudo, falar de literatura, dos fenômenos exteriores que a envolvem, e na medida do possível, falaremos de tudo.

F.G.M.

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