"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Cobaia


O dia deu em chuvoso, como aludia o bom poeta português. Fiquei de casa, no só. Aliás, nem sei que dia é hoje ou quando é amanhã. O cheiro de terra sobrevoa o ar da casa, preparo um café e dirijo-me ao quarto de livros. Então só a luz, a luz intensa – que cega os derradeiros instantes do último pesadelo embaça o mundo. Repousei na mesa do escritório, a testa sobre os punhos, o braço direito dormente, e não me lembro, como toda vez, de quando comecei a dormir exatamente. Fui recuperando a visão, recordo-me, é certo, de que lia sobre uma invenção numa ilha, sobre uma mulher que se chamava... F... foi aí que me vieram à tona as coisas mal acabadas de ontens que não passamos a limpo durante a recorrente maré do passado, a imagem intensa que construímos daquilo que vivemos no passado (seja no amor ou no ódio) e, quando era presente, enquanto vivíamos in loco, não nos dávamos conta ou nem mesmo ligávamos, ora, era “só” vida, o mais do mesmo em relevo, por que se coçar? Cocei os olhos apenas, e tentei me livrar dessa visão desértica de mim, mas, aos poucos, tive vontade de encontrar quem eu talvez nunca tenha encontrado no tempo em que eu estava perdido e louco, no tempo em que éramos um. Não me canso de procurá-la. Sei que a deixei no passado, alocada nos lugares mais obscuros da consciência (inventada e sentida), onde a retive durante tanto tempo e que agora, após anos de meditação e alheamento, voltando à realidade, posso apreendê-la nas conversas mais íntimas que travamos durante seis meses de algo que se pode chamar de relacionamento.
Enfim, éramos próximos demais para nos denominarmos desconhecidos, colegas. Tudo que sei dela é que me fazia muito bem ler suas palavras, me saborear com suas frases, e até me iludir com os epítetos que me colocava, como “poeta”, “meu poeta”. Além disso, não posso ter certeza de quem era, se me usava, se me enganava, ou se existia, não poderia saber, que mistério, de fato! Ela era alguém que eu conversava nas madrugadas, antes de enganar meus velhos pais, depois de resolver as tarefas para casa, quem sabe C. poderia ser somente um espectro nebuloso de tudo aquilo que sonhei amar aos quinze anos em uma mulher, aquela que seria talvez a musa passante, o desvio amoroso que nos ajuda a reconhecer a terrível infantilidade do amor diante da vida, dos negócios e mesmo do medo, com seus olhos fixos. Contudo, jamais terei o veredicto sobre sua aparência real ou ser. E existia mesmo quem dizia existir diante de mim? Que importa se existia ou não? Hoje, sinto que a descubro, me reviro, não posso me conter diante da possibilidade de vê-la no mundo real, presente, aqui, humanamente ao vivo, do meu lado, como se fosse um semelhante, alguém que pudesse abraçar, tocar e até...
Desde que a vi, ou melhor, conversei pela primeira vez, senti tremores, algo físico, longe da camada verbal que nos unia. A encontrei em bates papos ermos da velha internet, na era de ouro dos chats. Sempre tímido e notívago, buscava, nas conversas aleatórias dessas regiões de solitários virtuais, encontrar um segundo de atenção, alguma palavra de consolo, quem sabe até um amigo para a arribação. Uma amiga... Durante esse período, não tínhamos a exata consciência de como todo esse mundo virtual, superconectado, funcionava. De tão novo, assustava e entusiasmava aqueles que se aventuravam nele. Tudo era uma aventura sem precedentes, como homens ao mar em quinhentos, ou à lua, em sessenta. A sensação de que se podia ler alguém antes de tocar, antes de ver, é que despertava em mim o estranho desejo de me conectar às palavras de um ser – humano, uma alma, como se do avesso tivesse acesso primeiro à pessoa do que através do seu corpo, como se fazia com absurda frequência outrora. A verdade é que me relacionava com uma certa figural fantasmal, um amor, pode-se dizer, vago, verbal – escrito. Ela me encantava e eu me perdia quando me punha diante de palavras tão bem alfinetadas em mim, como se eu fosse sua borboleta magra, frágil, arfando para contê-la no ruflar de minhas asas sem força e no meu corpo sem bordas. Conversávamos quase todas as noites e me envolvi tanto com essa criatura inventada, do outro lado de onde? –, que passei a me sentir isolado com alguém que estava, assim como eu, sozinho em absoluto, alheio a alhures, livre do real.
Nunca saberei quem ela foi, contudo, sei que fomos algo juntos. Um grito, um sussurro, qualquer coisa imprecisa na escuridão, algo rastejante por trás da porta, subimos cada degrau silenciosamente, não nos deixamos entrever, senão como sombras. A cada fantasia, a nossa irrealidade se tornava cada vez mais real, próxima, verossímil. Chego até a pensar que nos conhecíamos pessoalmente, se não fosse pelo fato de nunca nos vermos cara a cara... nem eu nem ela vimos um ao outro, quero dizer, uma vez, sim, ela me mostrou uma foto de uma bela mulher loira na janelinha do perfil, com os cabelos lisos e ondulados como os das deusas ocidentais, de olhos claros, seriamente sensuais, e tez virginal, uma mulher daquelas que inspiram confiança e desejo na mesma medida, avantajada no colo, foi uma visão. Era ela? Nunca saberei, repito, tudo que vivi com aquelas palavras, aquelas frases físicas, quase tangíveis, foi um volteio sem fim, uma paixão retida pelos mais fortes diques, tão inquebrantável quanto a dor de uma traição, sim, fomos arrebatados, nos entregamos ao mistério energicamente, mas, é preciso frisar, com a mesma doçura que mordiscamos pela primeira vez um bolo muito doce, sentíamo-nos levemente enjoados pela ausência um do outro com o passar do tempo e de outras colheradas... E digo ausência física, corporal, fluida. Faltavam abraços, beijos, talvez cócegas, apertos ou beliscões, não estávamos satisfeitos no fundo (que palavra indecorosa!). Vivíamos bem, assim, nos comunicando de um além, para quem sabe, talvez um dia, pudéssemos nos aproximar – para sairmos cada vez mais debaixo da linha de sombra que nos cercava. Com o tempo, alguma esperança de marinheiro, de náufrago, de perdido, se aproximava de nós como o milagre da ressurreição. Era óbvio que nunca iríamos nos ver. Apesar de nunca aceitarmos essa verdade, eu, pelo menos não a aceitava, era notório que nosso encontro jamais se realizaria no mundo em algum dia de nossas vaporosas vidas sem freio, sem bússola ou gps.
Em uma noite, concluí que ela era a mulher de minha vida. A mulher inexistente, inefável, indissolúvel e perfeita. Perdi as contas de quantas vezes ela me chamou de “amor” e “meu homem”, além de expressar inúmeras vezes como ansiava me ver, fosse como fosse, qualquer dia. Que jovem eu era. E tolo? Ela viajaria, disse-me, na última conversa, que iria para longe, para Europa, estava na universidade, iria para o berço da civilização, mandar-me-ia fotos, não perderíamos o contato, etc. Mas, intimamente, eu sabia, se existisse ou não, o fato de que não conversaríamos mais foi a única grande verdade palpável, ao longo dos meses, de nosso amor sem identificação, após sua inesperada despedida. A sua imagem radiante, aquela foto sorrindo para quem quer que fosse, mentirosa ou não, pregou em mim como uma raiva num cão desnorteado instala a cólera espumante. Não queria admitir, mas, o que poderia fazer, animal sem recursos, pobre internauta? Eu, que amei tantas mulheres pela internet, que chorei na webcam tentando convencê-las de que meu amor era sincero e real, assim como elas para mim nalguns enleios; eu, o rapaz sem rosto numa terra sem chão; eu perdi a razão de ser naquele mundo – sem endereço, ou melhor, de endereços virtuais, voláteis, nas nuvens. Ela se foi com um breve, lacônico e histriônico “adeus”. Lembro-me de que parei diante do computador e, francamente, estaquei. Fiquei travado, seco, pútrido. Respirei fundo e apenas fechei as janelas. Todas! E me certifiquei que morreria ali, sufocado, sem nenhuma fresta de luz. Que fui para ela, afinal, parei para pensar. Juntei as peças do quebra-cabeça por vários dias tentando remontar tudo aquilo que escrevemos, trocamos, as imagens, os ícones de emoções, cada detalhe, os risos, enfim, as migalhas da imensidão que desdobramos naquele pavio diminuto que foi nossa implosão. Descobri intimidades improváveis, palavras suaves tecidas em entraves, rimas sutis, enigmas, sugestões vagas, cegueira juvenil, como não vi, amor sem demora, como não percebi, digitais imprecisas, e aquilo tomava a forma de um estupendo rato... sério, eu não quero mais falar nisto.

F.

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O sonho é o aquário da noite. - Os trabalhadores do mar, v.h.