"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

domingo, 28 de outubro de 2018

28 de outubro de 2018 – DOMINGO



Madrugada. A noite estonteante vibra dentro de mim. Não sei como deitar nem imagino como irei dormir. Às vezes, prego os olhos e balbucio palavras indizíveis para mim mesmo como um consolo, um prelúdio para os pesadelos. O que será do amanhã, o que será de nós daqui a pouco? Domingo. As nuvens estão espessas e o sol lá atrás no fundo se parece mais com um pontinho amarelo de um fósforo prestes a se apagar na mão de um alcoólatra que costuma fumar depois de beber; bebi vinho até tarde da noite no sábado e, como numa vigília, me cerquei de livros e amor para me convencer do que poderia acontecer. Saio de casa ao meio dia.
Se acontecer, "em verdade, farei minha parte e poderei dizer, no futuro, que não participei disso”, revelarei para o meu eu-amanhã. Não existirá desculpa para aqueles que se isentaram, para aqueles que cruzaram os braços, para aqueles que disseram que não tinham nada a ver com o destino de ninguém. Não podemos nos esquecer de que estamos tão entrelaçados quanto ar e os pulmões, quanto a água e o organismo, não penses que tu és à parte de toda a sociedade que te mantém. Cada decisão tomada será crucial para que o amanhã não perca o frescor de uma bela tarde que se incendeia com um sol brilhante de memórias e uma esperança incandescente na alma.
Ele irá fazer a diferença, ele irá anunciar a noite, os temores, os sussurros daqueles que não podem se pronunciar. Se acontecer, cabe a mim dizer: eu não participei disso. Ou melhor, fiz minha parte. Por mim, pela minha família, pela universidade, pelos meus quatro livros de poesia, pelo meu amor à amada e à Literatura, por tudo que acredito ser mais próximo da justiça no mundo e do bem, ainda que estejamos muito aquém dos dois, creio agir de acordo com as infindáveis conquistas que aos seres humanos foram dadas através de gerações através do conhecimento e do saber. Nunca mais trevas! Nunca mais violência! Nunca mais racismo! Nunca mais homofobia! Nunca mais violência contra a mulher! Nunca mais desespero! Nunca mais tortura e o ódio!
“Amanhã, amanhã, amanhã” – ele é o hoje, o aqui e agora, o instante entre mim e ti.
E será, eu me pergunto, um dia histórico, será um dia normal, que dia será este, que grito soara à noite quando soubermos o que aconteceu conosco, o que fizemos, o que a dor ditou, o povo. As minhas mãos coçam e meu coração bate freneticamente, suo frio, tenho nervosismos absurdos, nunca pensei que pudesse ter tantos poderes sobre mim, nunca imaginei que fosse tão longe quanto hoje. Logo hoje, que eu não queria ferir o longo e grosso tecido da realidade! Alguns compreendem qual é o destino a se seguido para a ascensão de um país, enquanto outros se deixam levar pela corrente grosseira da ignorância nacional, autodestrutiva. Não somos patriotas, somos deserdados.
Invadiram as nossas universidades e espalharam vírus nos celulares dos indivíduos para contaminar a população com ódio e fúria, alienação e perdição, confundiram-nos, nos dispersaram, mas estamos vivos, resistentes, e na luta! Eles nos abandonaram e agora dizem fazer parte do país. Os olhos ardem, não sei o que me transtorna nos pés que não param de suar, a espera será longa. Os carros estão percorrendo a cidade. Por que ninguém percebeu o que houve com o país? Com um livro na mão, percorro um longo caminho até lá. Estou confiante, a esperança vai vencer o medo, não há nada mais resistente do que a força que nos manteve unidos e fortes para vencer todo tipo de atrocidade contra a humanidade, e ela está aqui, em minhas mãos, para agir, três, seis, quatro vezes, somadas, ininterruptamente, até o fim, para sempre e além.

F.G.M.

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definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.