"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

NOVO LIVRO - ACESSEM E ADQUIRAM!

"Escrever este livro, Fernando Pessoa & heteronímia: a transa (homo)erótica, me permitiu descobrir como o mais estudado poeta português levou a fundo o seu projeto heteronímico, o seu desdobramento contínuo entre vida e obra, a tal ponto que, para ser convincente em sua ambiciosa empreitada, não deixara escapar – ao tecer-se noutras almas – nada a respeito de seus outros eus."


Para adquirir o livro, acesse: https://www.editoraappris.com.br/produto/2474-fernando-pessoa-heteronmia-a-transa-homoertica

F.G.M.

OS MARGINAIS SÃO ATUAIS


Logia e mitologia

Meu coração
de mil e novecentos e setenta e dois
já não palpita fagueiro
sabe que há morcegos de pesadas olheiras
que há cabras malignas que há
cardumes de hienas infiltradas
no vão da unha na alma
um porco belicoso de radar
e que sangra e ri
e que sangra e ri
a vida anoitece provisória
centuriões sentinelas
do Oiapoque ao Chuí.

CACASO. Lero-lero.

domingo, 28 de outubro de 2018

28 de outubro de 2018 – DOMINGO



Madrugada. A noite estonteante vibra dentro de mim. Não sei como deitar nem imagino como irei dormir. Às vezes, prego os olhos e balbucio palavras indizíveis para mim mesmo como um consolo, um prelúdio para os pesadelos. O que será do amanhã, o que será de nós daqui a pouco? Domingo. As nuvens estão espessas e o sol lá atrás no fundo se parece mais com um pontinho amarelo de um fósforo prestes a se apagar na mão de um alcoólatra que costuma fumar depois de beber; bebi vinho até tarde da noite no sábado e, como numa vigília, me cerquei de livros e amor para me convencer do que poderia acontecer. Saio de casa ao meio dia.
Se acontecer, "em verdade, farei minha parte e poderei dizer, no futuro, que não participei disso”, revelarei para o meu eu-amanhã. Não existirá desculpa para aqueles que se isentaram, para aqueles que cruzaram os braços, para aqueles que disseram que não tinham nada a ver com o destino de ninguém. Não podemos nos esquecer de que estamos tão entrelaçados quanto ar e os pulmões, quanto a água e o organismo, não penses que tu és à parte de toda a sociedade que te mantém. Cada decisão tomada será crucial para que o amanhã não perca o frescor de uma bela tarde que se incendeia com um sol brilhante de memórias e uma esperança incandescente na alma.
Ele irá fazer a diferença, ele irá anunciar a noite, os temores, os sussurros daqueles que não podem se pronunciar. Se acontecer, cabe a mim dizer: eu não participei disso. Ou melhor, fiz minha parte. Por mim, pela minha família, pela universidade, pelos meus quatro livros de poesia, pelo meu amor à amada e à Literatura, por tudo que acredito ser mais próximo da justiça no mundo e do bem, ainda que estejamos muito aquém dos dois, creio agir de acordo com as infindáveis conquistas que aos seres humanos foram dadas através de gerações através do conhecimento e do saber. Nunca mais trevas! Nunca mais violência! Nunca mais racismo! Nunca mais homofobia! Nunca mais violência contra a mulher! Nunca mais desespero! Nunca mais tortura e o ódio!
“Amanhã, amanhã, amanhã” – ele é o hoje, o aqui e agora, o instante entre mim e ti.
E será, eu me pergunto, um dia histórico, será um dia normal, que dia será este, que grito soara à noite quando soubermos o que aconteceu conosco, o que fizemos, o que a dor ditou, o povo. As minhas mãos coçam e meu coração bate freneticamente, suo frio, tenho nervosismos absurdos, nunca pensei que pudesse ter tantos poderes sobre mim, nunca imaginei que fosse tão longe quanto hoje. Logo hoje, que eu não queria ferir o longo e grosso tecido da realidade! Alguns compreendem qual é o destino a se seguido para a ascensão de um país, enquanto outros se deixam levar pela corrente grosseira da ignorância nacional, autodestrutiva. Não somos patriotas, somos deserdados.
Invadiram as nossas universidades e espalharam vírus nos celulares dos indivíduos para contaminar a população com ódio e fúria, alienação e perdição, confundiram-nos, nos dispersaram, mas estamos vivos, resistentes, e na luta! Eles nos abandonaram e agora dizem fazer parte do país. Os olhos ardem, não sei o que me transtorna nos pés que não param de suar, a espera será longa. Os carros estão percorrendo a cidade. Por que ninguém percebeu o que houve com o país? Com um livro na mão, percorro um longo caminho até lá. Estou confiante, a esperança vai vencer o medo, não há nada mais resistente do que a força que nos manteve unidos e fortes para vencer todo tipo de atrocidade contra a humanidade, e ela está aqui, em minhas mãos, para agir, três, seis, quatro vezes, somadas, ininterruptamente, até o fim, para sempre e além.

F.G.M.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Por trás de tudo



Na sala de cirurgia havia um sentimento de apreensão indigesta. “Ele não deveria fazer”, isso já tinha ocorrido antes, alguns curiosos apontavam, mas não com ele, um recém-formado inexperiente. Apesar das críticas e dúvidas, Gabriel finalizara o transplante. “Sucesso”, a equipe se parabenizava diante da ilustre paciente. Era sua esposa, a primeira que se beneficiaria dos seus poderes. O jovem ignorou o protocolo, e resolvera o problema do coração de sua esposa – ao trocá-lo. Tinha os olhos firmes, disseram, e parecia nervoso, embora infinitamente confiante.
Depois de ver que tudo estava bem, chegou a pensar que já não era mais aquele coraçãozinho que se apaixonara por um colegial, e que agora batia ali o de alguém desconhecido. Fantasiosamente divagava, mas, de que importava saber disso, a não ser pelas piadas que faria com os amigos? O avô ficou satisfeito com o neto, aplaudi-o, “mais um dia de trabalho bem sucedido desta geração de médicos da família”, e a casa nova voltou a ser prioridade novamente na cabeça do jovem cardiologista.
Há poucos anos na profissão, em breve, poderia ter a sua própria mansão, algo digno para quem possui o poder da vida e da morte, além de certa nobreza adquirida pelos brasões imperiais da família, coisas conservadas pelo dinheiro.
No suntuoso jantar de comemoração do procedimento, deram vivas à esposa do médico que, dentro de dias, receberia alta e voltaria a alegrá-los novamente.
- Que alma bondosa! – as senhoras acariciavam as mesas e, do outro lado, um amigo da família acalmava os ânimos:
- É um espírito divino.
Após os rasgos elogiosos, alguém chega até Gabriel, um amigo conhecido como Dabom, e lhe diz:
- Você poderia ser Deus.
- Exagero, não é para tanto.
- Dinheiro sempre diviniza as almas, meu amigo.
- Mas nós devemos agradecer a Deus e não queremos nos tornar como Ele.
- Sim, tens razão. Mas não existe, seja sincero, nenhum pontinha de Deus nesses seus dedos?
- Ah, mas é claro! Ele é quem me controla.
- Não seja humilde consigo mesmo!
E os convivas brindavam até à embriaguez.
Nenhum homem possui o valor que o seu coração doado possui para alguém. Foi esse o maior legado daquele indivíduo franzino, queimado pelo Sol e, para os familiares do enfermo, satisfeitos pela vida que ressurgira de uma outra que ia, agradecem-no até hoje.
Afora isso, do outro lado extremo da realidade, lamentou-se o fato de não saberem quem estava por trás do sumiço de Joaquim Santos. “Se tivesse descoberto cedo, talvez tivesse chances”, mas, afinal, “por que nos preocuparíamos com ele mesmo?”, “esperem, ele fazia parte de um projeto importante”. A relevância do sujeito ou falta dela atrasou as buscas e, não há como negar, interrompeu drasticamente as chances de vida do pobre diabo. Ali, perto da saída da cidade, repousava um ar silencioso incômodo sobre o desaparecimento do servente de pedreiro que morava na periferia, num bairro como nome de Papa. Foi no fim de outubro que os vestígios do desaparecimento vieram à tona. A obra da casa do médico Gabriel Soares estava parada e os pedreiros que trabalhava por lá nos fins de semana deram a notícia:
- Senhor, não vamos terminar no prazo.
- E por que não?
- Um de nossos serventes não veio – e faz duas semanas já que a gente não vê ele. Nem aqui nem as bebedeiras. A gente trabalha há mais de anos, mas não sei bem onde mora.
- Agora deu o caralho! – o médico cospe para cima, e reforça:
- Quero a casa pronta com a piscina no prazo combinado, se não vocês terão de me pagar! E caro, ouça bem: caro.
- Procurem esse tal de Joaquim – alertou o filho do patrão, porque quero dormir no meu quarto antes do fim do ano.
Gabriel entra no carro apressado, deveria voltar para clínica urgentemente, pois recebera a notícia de que havia mudanças no quadro da esposa.
Antes disso, não se davam conta de sua ausência, e foi aí então que se começou a busca pelo “sumido”.
Joaquim Santos pegou os materiais, deu bom dia aos vizinhos, passou a mão no cabelo diante do espelho para ver se nenhum fio estava fora do lugar e saiu para trabalhar depois de ter se afastado durante duas semanas. Dor de barriga, indisposição, o fato é que recebeu um atestado de quinze dias. Claro, compensou a ausência, refez os planos, revendo a agenda, os cronogramas, auxiliou maciçamente na construção, reviu os papéis e, após deixar tudo em dia, réguas, lápis, linhas imaginárias e reais, voltava para a casa contente, numa noite quente de outubro, com dor nas costas e a vista ardendo.
- Amanhã é dia de bronca – dizia sempre a si mesmo.
No percurso, admirava a paisagem e sentia o vento abraçar-lhe o corpo. Aquela lua cheia englobava o céu como um sonho de um futuro promissor enche os olhos daquele que trabalha arduamente para conquistar a vida que não tem, mas que pulsa dentro de si. As casas acendiam as luzes e algumas pessoas se perdiam nas calçadas a prosear debaixo dos pés de ninho. Carreatas, o som ressoava pelas ruas – incomodamente.
Cada vez mais se afastando da pequena agitação da cidade, Joaquim pegou o anel viário e, antes que sonhasse mais uma vez com o amanhã, o terrível acidente acontece.
Descontrole, cabeça nos ares, falta de revisão da moto, o certo é que seu corpo estava ao lado de um matagal extenso, recoberto por tons marrons e verdes, secos.
Nano segundos antes: ele olhou para cima e viu um céu lunar embriagá-lo como da última vez que esteve com os amigos a beber até cair, pensou nas mulheres que amou, inclusive em Princesa, aquela jovem sadia e corpulenta, acobreada, com os cabelos lisos e densos, da franja sensual até à cândida bunda, as pernas torneadas como de velocistas e a barriga fininha de quem se alimenta bem, gentil e inteligente. Como estava linda agora diante da morte, sexy, os olhos dela brilhavam ainda mais, e seus lábios o beijavam por inteiro, como se reduzisse a vida inteira ao tesão esfomeado daquela língua macia que o desenhava, enquanto seus braços se enrolavam cada vez mais ao corpo dele, cada vez mais firmes, mais próximos um do outro, até que se fundiam numa só massa – faiscante e anônima – que distorcia tempo e espaço. Afinal, e quem colocará comida para Betty? E como se levantar assim depois de sonhar inúmeras vezes com a mesma queda até o fim?
E se espatifou no chão. O sangue pingava do crânio exposto. Não usava capacete, a consciência ficaria suspensa durante horas.
Com poucos vestígios, demoraria séculos para ser descoberta. Ninguém suspeitava que algo acontecera naquela estrada. Passaram muitos caminhões e carros pequenos, alguns costumavam caminhar no acostamento, contudo, nada aconteceu. Tarde da noite, um sujeito, não muito alto, com chapéu de palha e camisa de político, saía de um lugar próximo ao restaurante para caminhoneiros debaixo da ponte e, assobiando, atento à paisagem, viu um corpo palpitando à luz de um farol quebrado. “Socorro”, se assustou e logo se conteve, “vou levá-lo ao hospital regional”. A camionete estourava roncos pelas ruelas da cidade. Na urgência, o homem se apresentava como um agricultor local que avistou a vítima. Sem chances de reaviva-lo, a vida se esvai, embora boa parte de seus órgãos, como rins e coração, estivessem em pleno funcionamento.
O agricultor vai embora pasmo e nunca mais se ouviu falar nele, um tal de Zé da Bica talvez, mistério.
Ninguém reclamou o corpo. Seria enterrado como indigente. Após receber uma ligação, retiram-lhe os órgãos.
Alguém ligou para o hospital para perguntar sobre um homem moreno, magro e curvado, pouco musculoso, um metro e setenta e cinco de altura, olhos grandes, com o nariz pequeno e fino, o cabelo preto caindo na testa, enrolado, e as orelhas “pontiagudas”.
- Sim, está aqui.
Identificam-no. É o Joaquim.
- Patrão, ele morreu.
- Arrumem outro.
Descobriu-se que Joaquim foi, na verdade, assassinado. Disseram pelas redondezas que a razão tinha sido por causa de política, declaração de voto em redes sociais, perseguição, o verdadeiro dos relatos é que a moto, além de estar adulterada (o freio não funcionara), não era o veículo que ele mais dominava. Costumava ir ao trabalho de bicicleta, mas, naquele dia, recebeu emprestado de um amigo a moto para que pudesse aproveitar o máximo de tempo possível na obra. Por que não? Chegaria mais cedo e trabalharia mais.
O criminoso se chamava Alan e foi preso na oficina onde a moto tinha sido avariada.
Alan aterrorizou a cidade anos antes, perigoso. Em perseguição, na época, quase foi alvejado em frente ao clube do time da cidade, trocaram tiros, porém o capturaram e pagou quinze anos na prisão. Depois de sair, resolveu voltar à vida normal, trabalhando na oficina de Tonho das motos e, vez por outra, como um bico para complementar a renda, ameaçava alguém, punha na sua mira descalibrada a vida de alguém.
Chegaram a ele depois que Pedro, pedreiro da obra, ouviu de Joaquim que tinha passado naquela oficina na semana passada para “ajustar” a magrela e que a revisão de verdade só faria no final do ano.
As peças estavam sendo montadas.
A discussão que Joaquim Santos teve na internet envolvia um grupo de radicais que não toleravam nenhuma espécie de questionamento dos seus métodos. Ao recuperarem as conversas, soube-se que o servente tinha sido ameaçado por “figurões” da sociedade que detestavam aquele tipo de gente.
Mas que interesse pífio levaria aos mais poderosos assassinar uma pequena criatura? Parecia invenção demais para o imaginário popular.
O certo é que ele se desentendeu com Alan Delon e já sabemos o resto.
O que não esperávamos era a ligação estranha com o jovem médico Gabriel Soares. O médico participava de discussões fervorosas na internet e, depois de descobrir que uma amiga também médica fora afastada do emprego apenas por rasgar uma receita, ficara indignado.
Dia a dia, atacava aqueles míseros opositores. Não olhava para o nome de ninguém, apenas atirava, nos intervalos das cirurgias, suas ideias radicais para quem quer que as ouvisse ou lesse. Dava-lhe prazer machucar ideologicamente as pessoas, através de frases feitas e descontextualizadas, sempre com imagens chocantes, distorcidas, incisivas. Em quase todas as postagens, havia a palavra “morte”, “escória”, “vagabundos” ou “pobres”. O casulo do ódio eclodiu nos últimos tempos e todos consumiam e compartilhavam um pouco do seu mel. Gabriel, dentro de alguns meses, se tornou o membro mais admirado pelo comitê de ódio da página virtual e Alan Delon era um de seus seguidores mais fervorosos.
Alan confessou no depoimento que “fez o que fez” porque, além de salvar a sociedade, ajudaria um grande amigo (dizem que ele se referia a Gabriel). Psicopata, sem dúvida, sobre isso não se discutiria, que razões absurdas para se justificar o assassinato de alguém.
Como não se pôde provar a ligação entre Alan e Gabriel, este ficou de fora da investigação, acima de qualquer suspeita, e o caso foi dado como encerrado.
Alan Delon foi preso por homicídio culposo, quando não há intenção de matar.
A mansão de Gabriel estava pronta – após meses de atraso, transtornos – e de os filhos terem passado o natal na casa dos pais dele, porém, agora poderia descansar o sono dos justos.
Dizem, apenas dizem, ligações perigosas, que ele estava por trás de tudo.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.