"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

domingo, 16 de setembro de 2018

De que âncoras?



“Poesia é ouro sem valia” – sim, Gullar escreveu desse jeitinho (atroz, mordente) e já faz um tempo que retumba esse provérbio blakeano, pelo menos para mim, e para meus camaradas Rudinei Borges e Kelson Oliveira, etc. É difícil publicar um livro de poesia. Antes de ficar parado em frente ao notebook, sob a luz forte da luminária, ouvindo o cachorro latir na rua, enquanto um ruído estranho tomava conta da casa e meu rosto começava a suar, talvez por causa do ventilador que não liguei, me pus a escrever estas linhas para mostrar a insatisfação de um autor que já não consegue mais esperar, além do que já esperou, pela publicação de seus livros, e sinceramente não sei como consegui publicar quatro livros, todos de poemas, uma vez que nosso mercado editorial sofre com o que se chama de poucos leitores, pouca divulgação, suspiro. Tenho dois livros de poemas guardados e não sei se sairão um dia, a vontade de alguém talvez seja feita no meio editorial, mas não a minha, porque me dediquei muito (palavra pequena) aos poemas, pus tanta vida neles, mais que palavras, aquelas coisas de que nomeamos e só nos damos conta de que a atingimos quando a vemos escrita, foi com um sentimento de tempo abundante, um calor sem violência, algo que, se não foi sincero, pode ser dito compreendido como verdadeiro, humano, poético. “Poético” pode soar absurdo, mínimo, inútil, há quem goste de boa poesia no Brasil e somos muitos, até aonde me é dado saber, então, por que só se publica a torto e a direito autoajuda em verso, é vendável, não há dúvida, é publicável, ora, se vende, por que não, mas como mudar a visão do leitor médio, iniciante, inteligente (que se autoajuda a si mesmo), desafiador, se não lhe oferecermos algo diferente, um poema novo, não os mesmos, os histriônicos, os pedantescos, os da... explorei a palavra e só queria que apenas os leitores me explorassem, não as editoras, ou melhor, as impressoras de livros. Desejaria que as editoras de verdade me conhecessem, creio ser a palavra mais justa, e juntos, pudéssemos explorar o que a literatura pode oferecer, se oferece, a alguém – algo.
Sei que devo me conter e não posso me expressar aqui como eu queria, aliás, não estou morto ainda, como Machado de Assis (escritor brasileiro, autor de Quincas Borba, Memórias Póstumas, Dom Casmurro), ao lado de Carlos Drummond de Andrade, um dois maiores, também escritor e poeta (autor de Alguma Poesia, Rosa do Povo, Claro Enigma), deixo registrado aí quem eram tais figuras, porque já passei vexame certa vez ao citá-los para diversos públicos em diversas situações – que os desconhecia – e olhavam para mim com espanto, como se eu estivesse falando de dois vizinhos remotos da infância no qual eles deveriam ter a obrigação de conhecer, “aí já é demais, Felipe, quem vai saber quem são essas criaturas...” – caso quisesse continuar a discussão, eu deveria citar filmes, novelas, cantores pop, se não, minha prosa encerraria ali mesmo, confusa, e assoberbada. Em pensar que os desconhecem, e que já são dois novos livros de poemas escritos, repito, e o faço como aquele pipoqueiro de rua, o carro do sorvete, o cachorro latindo enquanto escrevo isto – e esta quentura do escritório que perturba meu juízo crítico, como uma sede que me tortura, sinto-me desagradável, extenuado, há algo que me incomoda há dias e ninguém consegue me responder por que sinto isso, fazem silêncio, as pessoas só querem comer e dormir, esquecer, qualquer coisa que as acomode ao ilusório conforto de fim de semana, à distância do trabalho, seguras de desafios e aborrecimentos, de suas obrigações, viradas no sofá, bolando pela cama, vegetando, sonhando, querendo fazer diferente a cada nova semana, serem outras na vida, mas tampouco agem no sentido contrário, continuam cultivando o mesmo hábito vegetal, dispensam os poetas que ousam causar burburinho num belo dia de domingo, que sumam, que sujeito inoportuno, buscando uma resposta, se questionando a cada instante, em coisa sobre a vida, em algo sobre a palavra, a tristeza ou nada em tudo, esse infeliz só perde o seu tempo e “não me fará perder o meu”. O único questionamento sobre a vida dessa grande maioria de gente só acontece, geralmente, quando lhe falta saúde, e o pensamento se volta para o leito do hospital, para a cabeça doída, a perna quebrada, a dor de barriga, como um “pensamento sobre a vida”, ou melhor, sobre a “saúde da vida”, e ponto. Algumas editoras se abrem, tentam se aproximar do público, mesmo que não pareça, mas pode-se até enviar algo, contudo, poucos terão a glória de verem publicado (se não estiverem próximo aos círculos, bares, boates) o seu bilete para a posteridade, que seja eterno enquanto dure sua inexpressiva tiragem.
“Isso de poesia é sem valia”, ora, por que um poeta reluta em escrever se “a canção rende mais, e já superou o poema, desistam”. Afinal de contas, por que pensam que os poetas estão tão perdidos, fora de prumo? E que espécie de confusão (que desconheço) se metem aqueles que buscam, nas palavras, sentido? O sentido total da poesia tem sido disputar com a luz seu grão de verdade, de natura, de uno, de vivessência imanente dos movimentos intermitentes das coisas (palavra mais próxima de si). Sem fantasiar, os poetas – enlameados por discursos/retóricas, instrumentos de sopro e talheres – perecem diante do monóxido de carbono da realidade. Tenho sido o máximo – além do mínimo – em cada livro, mesmo que não signifique verdade ou essência, cada palavra se presentificou, longe do que acreditam ser sincero, perto outrora do longe que se tem hoje, escrevi livros-poemas – completos, e não tive o mérito de ser citado por nenhum jornal, ainda que pequeno, uma vez na vida, porque, na morte, não saberei. E ainda assim escrevo, observando ao meu redor os que escrevem e os que não escrevem, e os que não sabem escrever, e os que publicam, e os que não publicam, e os que não sabem publicar, e os que abdicam, e os que se esqueceram como sonhar. Tenho dois livros inéditos de poesia e, a cada dia me convenço, sem querer, intimamente, de que tem algo de errado com algo, porque é difícil escrever, é difícil publicar, é difícil vender, é difícil aceitar, é difícil difícil, por que só eu, portanto, (e estou só nisso?) não me convenço disso? Que frase filha da mãe: ouro, mas sem valia. O que diabos é um ouro sem valia!? E a resposta é clara: os poetas de hoje não valem nada, como outrora os que valiam. Resta saber qual é o objetivo de acumular tantas vaidades quando não se pode, ao menos, deduzir – hoje em dia – o que se traduz neste soneto de Cruz e Sousa:

Oh! que doce tristeza e que ternura
No olhar ansioso, aflito dos que morrem...
De que âncoras profundas se socorrem
Os que penetram nessa noite escura!

Da vida aos frios véus da sepultura
Vagos momentos trêmulos decorrem...
E dos olhos as lágrimas escorrem
Como faróis da humana Desventura.

Descem então aos golfos congelados
Os que na terra vagam suspirando,
Com os velhos corações tantalizados.

Tudo negro e sinistro vai rolando
Báratro abaixo, aos ecos soluçados
Do vendaval da Morte ondeando, uivando...

De que âncoras?

F.G.M.

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definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.