"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Breve experiência com o Twitter, sinceramente



Sinceramente? As pessoas, ou estão malucas ou eu cumpri a promessa de me destruir de vez, excluindo-me dali (do seguidores ou perseguidores), ou elas têm muito tempo para se doar às questões mais relevantes da sociedade, como: fofocas sobre a barra da saia da atriz empoderada pelo dinheiro patrocinado pelas causas legítimas, porque o umbigo de fulano é alto, e os artistas do mundo pop pintam e bordam, e os candidatos odiados, e as crianças na Disney, e os prêmios dos prêmios, enfim, não, aquele espaço não é para quem busca algo além do que #oquemaisquerocomerhoje e, vejam só, do que #elenão, símbolo tão contraditório e exemplar da confusa e ambígua relação de causa e consequência nas redes sociais. A propósito desta hashtag, um longo parêntesis: “elenão” se refere a Bolsonaro, candidato, aliás, que cresceu por causa dos seus odiadores e, agora, mais do que nunca, tornou-se indestrutível e ascendeu ao coração aflito e inseguro do povo – que o apoia sem medo e sem, pelo menos, ter acesso à internet. Aqueles ditos problematizadores, porque a palavra “cidadão" se retorizou, “conscientes”, foram o apoio e suporte do ódio e, digo, graças à internet e a esses haters (os que amam odiar), o “mito” se tornou real, praticamente indestrutível, e imune a facas). Quer dizer, por que irei falar sobre livros, comentar autores, citar filósofos para fundamentar argumentos, pregar no cemitério dos vivos, se as pessoas – em sua grande maioria esmagadora – estão ocupadas com “o assunto do momento”, “o mais do mesmo a todo instante”, “o ódio”, “o monstro” que elas criaram e não querem assumi-lo como cria legítima? Não falta cultura neste país, falta cultura às pessoas, sobretudo àqueles que dizem ter cultura, mas só falam daqueles que não têm cultura, quer dizer, esses passam o tempo todo de suas vidas eruditas criticando Anitta e seus sequazes, mas não se propõem a palestrar sobre Bach nem discutir sobre o narrador malicioso de Machado de Assis, ou até mesmo sobre a crítica de Platão sobre Górgias, a aventura de Ulisses, deixando de lado a cantora e toda a antologia de “bundas” do funk e do “bum bum tam tam” (Butantã?). Ter cultura no Brasil, ao que me parece, na maioria das vezes, é dizer que os outros não a têm, e só.
Cada coisa ali naquela rede social de mensagens curtas, se analisada como um todo, soa tão ridícula e infantil que, sinceramente, fico pasmo ao perceber como chegamos a esse ponto – tão rápido, desastradamente, e nos abismamos naquilo que todos criam ser “invenção”, “zoeira”, “nada”. Quando recriei a conta do twitter, tive o objetivo de tentar, pelo menos, ser um pouco mais conhecido, lido, quem sabe até conseguir o contato de alguma boa editora para editar meus projetos, mas, para minha surpresa, o que vi foi discórdia, coisas banais – ou além do banal – que não saberia agora nem dizer o nome, porque até aquilo que é inútil, como a poesia, possui alguma qualidade, mas o “além do banal”, sinceramente, eu não sei como defini-lo, apreendê-lo, é algo que só quem tem twitter, e há muitos anos, poderia me dizer, caracterizar. Que tipo de ocupação misteriosa se tem quando se pensar em viver apenas dentro de um jogo-da-velha? A primeira limitação é a de quantidade de palavras, e a segunda, talvez pior e mais cruel, é estar preso a inúmeros robôs – contratados ou virtuais – que constroem, definem, habilitam, discutem e impõe os assuntos do momento, e esse “momento”, permeado de memes, imagens ridículas com legendas estranhas, pessoas expostas, excitações gratuitas, que acabam revelando, às vezes, a (falta) profundidade das coisas e das pessoas, que só se animam mesmo porque querem ser distraídas, bobas, rasas, polêmicas de inexistente (no dizer Derrida) querendo se tornar, e eles tornaram o imperativo máximo de nossa sociedade controlada por aqueles que subsistem aos existentes, como parasitas, vozes-migalhas, tempo de moscas. Ora, as pessoas famosas, os existentes, que são assim em público, produtos ambulantes de nosso tédio absoluto, e têm voz, ou melhor, para o público, mesmo que não o sejam intimamente tão desprovidas de sentido, elas obtêm sucesso, são “influenciadores digitais”, justamente porque cultivam aquele pensamento que se resume à síntese máxima desta era: a frase de impacto no sense memética, o além do banal – que todos consomem diariamente, religiosamente, no aleatório, e amém.
Tive de passar por essa experiência que eu julgava boa novamente, por causa da visibilidade, da quantidade incalculável de usuários ativos que poderiam me apoiar caso viesse a existir naquele âmbito tão infinito, mas o que eu senti, depois de pouquíssimos dias de uso, sinceramente, foi aquela sensação de frustração típica de quem ainda guarda a esperança no peito (mesmo que todos tenham fechado o terceiro olho para si) e acredita, como todo bom brasileiro trabalhador, dono de casa, leitor, educador, sorridente,  qualidades avulsas e desconhecidas, que as coisas – tudo vagamente que esta palavra suporta – podem mudar magicamente para melhor, dos dias para noite e das noites para os dias, nesta Bruzundanga, seja eu dando grito ou completamente calado, seja eu zoando a todos ou os ignorando, aqui ou em qualquer lugar, com e sem prêmios, dentro e fora de qualquer rede social. Mas, um dia, tenho certeza – de que terei uma espação sob o sol e as pessoas, assim como eu que acreditam que algo pode mudar para melhor e irá, sabe-se lá quando, poderão descansar em paz bem longe disso tudo que nos amedronta, debaixo da sombra frondosa daquela lembrança terrível que vivemos em tempos difíceis, de intolerância, ódio, ignorância, apatia, crises e mais crises. Lembrança que nos servirá de lição como a memória apagada do Museu Nacional infelizmente o faz, da nossa falta de respeito ao próximo em tempos hostis, do cultivo diário do ódio, da fúria e do medo, da nossa recusa à procura de cultura, de livros, de amor e poesia, de nossa ausência, da disposição para travar uma conversa honesta e amistosa com o próximo, quando nós os tínhamos à disposição, tudo que era bom e esquecemos. Enfim, vamos nos esquecer amanhã e, completamente os mesmos, aquilo que desejamos em uma hashtag e se cristalizou no perfil, como postagem, não significará nada mais do que nós somos completamente e significamos dia a dia. Sinceramente, devo dizer que, quando me deletei, recebi um doce #tchau e senti-me bem, tão livre quanto um pássaro que caíra do ninho para aprender a voar com a dor, o peso, e a gravidade da vida sobre si. E respondo-lhe, livre, com um doce adeus de revolta! Cumpri a promessa, experimentei, sumi, me destruí completamente. Delenda, Felipe, não mais!

F.G.M.

domingo, 16 de setembro de 2018

De que âncoras?



“Poesia é ouro sem valia” – sim, Gullar escreveu desse jeitinho (atroz, mordente) e já faz um tempo que retumba esse provérbio blakeano, pelo menos para mim, e para meus camaradas Rudinei Borges e Kelson Oliveira, etc. É difícil publicar um livro de poesia. Antes de ficar parado em frente ao notebook, sob a luz forte da luminária, ouvindo o cachorro latir na rua, enquanto um ruído estranho tomava conta da casa e meu rosto começava a suar, talvez por causa do ventilador que não liguei, me pus a escrever estas linhas para mostrar a insatisfação de um autor que já não consegue mais esperar, além do que já esperou, pela publicação de seus livros, e sinceramente não sei como consegui publicar quatro livros, todos de poemas, uma vez que nosso mercado editorial sofre com o que se chama de poucos leitores, pouca divulgação, suspiro. Tenho dois livros de poemas guardados e não sei se sairão um dia, a vontade de alguém talvez seja feita no meio editorial, mas não a minha, porque me dediquei muito (palavra pequena) aos poemas, pus tanta vida neles, mais que palavras, aquelas coisas de que nomeamos e só nos damos conta de que a atingimos quando a vemos escrita, foi com um sentimento de tempo abundante, um calor sem violência, algo que, se não foi sincero, pode ser dito compreendido como verdadeiro, humano, poético. “Poético” pode soar absurdo, mínimo, inútil, há quem goste de boa poesia no Brasil e somos muitos, até aonde me é dado saber, então, por que só se publica a torto e a direito autoajuda em verso, é vendável, não há dúvida, é publicável, ora, se vende, por que não, mas como mudar a visão do leitor médio, iniciante, inteligente (que se autoajuda a si mesmo), desafiador, se não lhe oferecermos algo diferente, um poema novo, não os mesmos, os histriônicos, os pedantescos, os da... explorei a palavra e só queria que apenas os leitores me explorassem, não as editoras, ou melhor, as impressoras de livros. Desejaria que as editoras de verdade me conhecessem, creio ser a palavra mais justa, e juntos, pudéssemos explorar o que a literatura pode oferecer, se oferece, a alguém – algo.
Sei que devo me conter e não posso me expressar aqui como eu queria, aliás, não estou morto ainda, como Machado de Assis (escritor brasileiro, autor de Quincas Borba, Memórias Póstumas, Dom Casmurro), ao lado de Carlos Drummond de Andrade, um dois maiores, também escritor e poeta (autor de Alguma Poesia, Rosa do Povo, Claro Enigma), deixo registrado aí quem eram tais figuras, porque já passei vexame certa vez ao citá-los para diversos públicos em diversas situações – que os desconhecia – e olhavam para mim com espanto, como se eu estivesse falando de dois vizinhos remotos da infância no qual eles deveriam ter a obrigação de conhecer, “aí já é demais, Felipe, quem vai saber quem são essas criaturas...” – caso quisesse continuar a discussão, eu deveria citar filmes, novelas, cantores pop, se não, minha prosa encerraria ali mesmo, confusa, e assoberbada. Em pensar que os desconhecem, e que já são dois novos livros de poemas escritos, repito, e o faço como aquele pipoqueiro de rua, o carro do sorvete, o cachorro latindo enquanto escrevo isto – e esta quentura do escritório que perturba meu juízo crítico, como uma sede que me tortura, sinto-me desagradável, extenuado, há algo que me incomoda há dias e ninguém consegue me responder por que sinto isso, fazem silêncio, as pessoas só querem comer e dormir, esquecer, qualquer coisa que as acomode ao ilusório conforto de fim de semana, à distância do trabalho, seguras de desafios e aborrecimentos, de suas obrigações, viradas no sofá, bolando pela cama, vegetando, sonhando, querendo fazer diferente a cada nova semana, serem outras na vida, mas tampouco agem no sentido contrário, continuam cultivando o mesmo hábito vegetal, dispensam os poetas que ousam causar burburinho num belo dia de domingo, que sumam, que sujeito inoportuno, buscando uma resposta, se questionando a cada instante, em coisa sobre a vida, em algo sobre a palavra, a tristeza ou nada em tudo, esse infeliz só perde o seu tempo e “não me fará perder o meu”. O único questionamento sobre a vida dessa grande maioria de gente só acontece, geralmente, quando lhe falta saúde, e o pensamento se volta para o leito do hospital, para a cabeça doída, a perna quebrada, a dor de barriga, como um “pensamento sobre a vida”, ou melhor, sobre a “saúde da vida”, e ponto. Algumas editoras se abrem, tentam se aproximar do público, mesmo que não pareça, mas pode-se até enviar algo, contudo, poucos terão a glória de verem publicado (se não estiverem próximo aos círculos, bares, boates) o seu bilete para a posteridade, que seja eterno enquanto dure sua inexpressiva tiragem.
“Isso de poesia é sem valia”, ora, por que um poeta reluta em escrever se “a canção rende mais, e já superou o poema, desistam”. Afinal de contas, por que pensam que os poetas estão tão perdidos, fora de prumo? E que espécie de confusão (que desconheço) se metem aqueles que buscam, nas palavras, sentido? O sentido total da poesia tem sido disputar com a luz seu grão de verdade, de natura, de uno, de vivessência imanente dos movimentos intermitentes das coisas (palavra mais próxima de si). Sem fantasiar, os poetas – enlameados por discursos/retóricas, instrumentos de sopro e talheres – perecem diante do monóxido de carbono da realidade. Tenho sido o máximo – além do mínimo – em cada livro, mesmo que não signifique verdade ou essência, cada palavra se presentificou, longe do que acreditam ser sincero, perto outrora do longe que se tem hoje, escrevi livros-poemas – completos, e não tive o mérito de ser citado por nenhum jornal, ainda que pequeno, uma vez na vida, porque, na morte, não saberei. E ainda assim escrevo, observando ao meu redor os que escrevem e os que não escrevem, e os que não sabem escrever, e os que publicam, e os que não publicam, e os que não sabem publicar, e os que abdicam, e os que se esqueceram como sonhar. Tenho dois livros inéditos de poesia e, a cada dia me convenço, sem querer, intimamente, de que tem algo de errado com algo, porque é difícil escrever, é difícil publicar, é difícil vender, é difícil aceitar, é difícil difícil, por que só eu, portanto, (e estou só nisso?) não me convenço disso? Que frase filha da mãe: ouro, mas sem valia. O que diabos é um ouro sem valia!? E a resposta é clara: os poetas de hoje não valem nada, como outrora os que valiam. Resta saber qual é o objetivo de acumular tantas vaidades quando não se pode, ao menos, deduzir – hoje em dia – o que se traduz neste soneto de Cruz e Sousa:

Oh! que doce tristeza e que ternura
No olhar ansioso, aflito dos que morrem...
De que âncoras profundas se socorrem
Os que penetram nessa noite escura!

Da vida aos frios véus da sepultura
Vagos momentos trêmulos decorrem...
E dos olhos as lágrimas escorrem
Como faróis da humana Desventura.

Descem então aos golfos congelados
Os que na terra vagam suspirando,
Com os velhos corações tantalizados.

Tudo negro e sinistro vai rolando
Báratro abaixo, aos ecos soluçados
Do vendaval da Morte ondeando, uivando...

De que âncoras?

F.G.M.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

NOTA AVULSA NÚMERO ZERO

"Ser leitor é ser só" - li em algum lugar por aí. Dura verdade. E ser escritor é ser o quê? Dura verdade.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.