"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Reler


Depois de me descobrir do outro lado da palavra ou na "terceira margem", tive sensações estranhas. Como posso defini-las? Primeiro: embriaguei-me com um aguardente de palavras; segundo: sentir calor e insolação diante de uma imagem. Talvez não possa perceber o que digo, mas depois de ler uma história de Jack London senti que a vivi bem como o personagem dissera que a vivera em seus sonhos.
Tive tantas saudades dos seus personagens que findei a última página do livro e virei-me para a realidade abismado. O teto branco e pálido sobre mim se abriu como um céu – ancestral e doido – através das sensações que cada evento daquela narrativa me proporcionou através de descrições precisas, em ação, no movimento contínuo de agir ao mostrar. Fechei os olhos e ouvi os grunhidos, senti os arranhões, o cheio da brisa terrosa.
Que coisa boa! – pensei, se eu pudesse repetir tudo de novo, repetiria – e, mesmo ao fazê-lo, seria diferente. Cada palavra como um pedaço de carne, um sabor distinto e proteico da realidade. Disse à digníssima, ela chegou ontem, que fazia tempo que não sentia isso e que ela deveria ler Antes de Adão para sentir tudo, como dizia Pessoa, “de todas as maneiras”.
A palavra é Literatura. Como pode haver um mundo abandonado à sorte, sem ela, sem sua influência, seu signo? De quê as pessoas se alimentam todos os dias? Como sobrevivem à rispidez virulenta de tudo que é real e imediato e esmagador como o tempo? Por que não se entregam à leitura como se entregam ao primeiro beijo, o último grito, ao copo de água depois do exercício intenso?
Suspiro! Mesmo os colegas que escrevem não leem tanto quanto dizem. Já me esqueço quantas vezes me deparei com o silêncio depois de questioná-los sobre dois, três autores, estrangeiros ou brasileiros. Por que o ímpeto de escrever, mesmo que seja inútil ou qualquer coisa, prematuro, circularmente, sem possuir aquela dose de realidade imaginativa, translúcida, se sobrepõe ao de ler, tão agressivamente?
O que escrevem aqueles que não leem?
Relatórios, atas, declarações, ofícios, cheques, bilhetes, receitas, poemas, romances – literatura?
Como aprender aquilo que não se apreende? Aqueles que escrevem a torto e a direito sem o hábito de leitura, são como aquelas campanhas publicitárias baseadas em pessoas reais. A história realmente não importa, pois ela é só um pretexto - comercialmente arquitetado - para o produto de uso ordinário.
Tanto escrevo quanto leio. E diria até, humildemente, como Jorge Luis Borges, que mais me orgulho do que li. E leio mais, indubitavelmente, do que escrevo – e é por isso que me desconheço a ponto de me diferenciar daquilo que eu mesmo sou, e vou além – do bem e do mal.
Sem exagero ou arrogância, eu percebo, pela experiência rala de um internauta curioso adquirida através dos anos, que muitos escrevem, e muito, para parecer aquilo, a coisa, a forma, do que poderiam ser se lessem mais. Graciliano Ramos, em Caetés, põe, na figura de Valério, o fracasso de um escritor que não conseguia escrever sobre os selvagens porque não tinha tempo de ler sobre História e se perguntava como escrever sobre os índios se “não sei História”.
Se não leem, tampouco releem alguma coisa. É a era de d’Eus, absolutamente tiranos e intransigentes – que só leem a si mesmos, pois são incapazes de reconhecer tudo aquilo que difere do próprio umbigo divino.
O tempo não perdoa, Machado de Assis quem o diga: “matamos o Tempo, e ele nos enterra”. Nem sempre é tempo como se diz por aí.
Ah, reler! Prazer que é dado a poucos que se deram à leitura.
A molécula de Clarice, o inseto de Kafka, o boxeador de Hemingway, a Ligeira – entre nós e eles.
Primeiro beijo sem fim.

F.G.M.

sábado, 25 de agosto de 2018

Discurso do método


Anoiteceu. É o fim da tarde, horário em que comecei a escrever. Pensei em vários temas para exercitar meu instinto, e cheguei a alguns termos, como “ninguém deve saber quem você não é”, “a vida só vale no vale”, todos – absurdos e baratos. Até vir a mim a seguinte frase: lavar louça é uma lição para o amanhã. Nunca pensei que uma louça pudesse se multiplicar tanto numa proporção inimaginável. Fiz o café, o almoço e a janta. A cada refeição, lavei-a e lá estava ela, ao final da noite, suja. Como posso solver esse problema da minha vida? Abro a pasta de arquivos do meu notebook e lá estão os capítulos de muitos momentos de minha existência. O da louça é um.
Mas é possível encontrar lá também desde poesia até os currículos, bem como as resenhas e os mal escritos. São tantos resquícios espalhados, alguns compilados, outros nem tanto, cada um portando uma espécie de sentido oculto. Afinal, por que essa paranoia com o sentido? É só um monte de pratos, copos e colheres sujos. Ou sujas. Nem tudo precisa ter um rumo. As coisas também podem se perder e serem esquecidas. Nós somos, imagine as coisas! Esqueço-me da minha garrafa todos os dias e o motivo para eu me lembrar dela é tão importante quanto a minha vida, e ainda assim, me esqueço dela.
Mas, e se não acumulássemos?  Se lavássemos a cada instante a pia, óbvio que exagerei, se a louça fosse lavada assim que fosse suja, como acumularia?
Olhando meus textos acumulados, recordo-me de ter feito várias faxinas ao longo do ano. E, claro, elas me ajudaram a seguir. Quantos mitos tentei criar, justificar, remendar ponto a ponto, amarrar cada fio, e não consegui persuadi-me de que fiz uma boa tarefa. Eu sei que as pessoas amam o mito, a invenção, os bons brasileiros que o digam. MacGyver é lembrado até hoje como aquele que resolve problemas e não como aquele idiota que tenta explicar como eles são resolvidos. Seja na bala ou no chiclete, a lenda não falha. E a história é simples: uma peripécia atrás da outra, até esgotar a narrativa para o clímax e, finalmente, aliviar o telespectador, que já não aguenta mais tantas reviravoltas e soluções impossíveis. Bem, quem assiste ao programa nem se importa mais se aquilo é plausível ou não, desde que o personagem esteja livre de tanto perigo e complicação. No fim das contas, se ele não fosse tão absurdo, talvez nem fosse lembrado como é. Se ele tivesse à disposição meios, simplesmente, através do uso de computadores, tecnologia avançada, uma equipe de assistência para auxiliar na resolução de seus problemas, qualquer um poderia dizer “ah, assim até eu resolveria”. Mas justamente pelo fato de ele ser inexplicável é que as pessoas o amam, não conseguem chegar ao nível dele, então se dobram, se curvam, adoram o ídolo. É a mesma coisa de dizer "só o Brasil é penta" e, de repente, todos se orgulham de ser brasileiros.
O maior problema dos filmes no geral, ao meu ver, é quando tentam discutir com crianças pretensamente muito inteligentes. É tão entediante vê-las e ouvi-las falando como se fossem adultos estúpidos e sem noção do que realmente dizem saber, utilizando palavrões, citando desenhos animados para explicar a teoria da relatividade, ou a gaiola de Faraday como se de fato conhecessem sobre tudo isso. Não duvido da capacidade das crianças, mas as irreais e fora de moda não me despertam nenhum sentimento de surpresa, empolgação, seja lá o que for. Afora isso, tudo é justificável. MacGyver e suas artimanhas preparadas sabiamente pelo consultor do roteirista, e como tudo está ao alcance de sua mão para se tornar mágica, além dos rasgos de humildade típicos dos heróis que se colocam como fracos no início para, depois, surpreender-nos com seus “incríveis poderes”, oh.
Claro, o seriado antigo me convence mais pela espontaneidade do absurdo. O novo, sobre esse mito, é simplesmente uma tentativa equivocada de explicá-lo com ciência e aparatos modernos, e isso é praticamente impossível, além de inócuo, sem graça. Ora, como se diz por aí, queremos amar a pátria, não compreendê-la.
As séries aprenderam muito com a ilogicidade do passado, mas poucas, poucas mesmo, conseguem produzir um mito.
Se eu lavasse louça todos os dias, depois de cada refeição, ela ficaria limpa. Organizando-a primeiramente. Prato em cima de prato, colheres dentro de copos, panelas na pedra de mármore. Nada de desordem e caos. Com cada coisa em seu lugar, o ritmo para lavar flui, é só molhar a esponja, pôr sabão líquido, e lavar, sempre desligando a torneira para economizar água, pois estamos passando por um racionamento e também é preciso ter consciência sempre, na ordem em que fora descrita a organização. A água do enxague dos pratos serviria para o restante da louça, e assim por diante. E, com toda a minha vida, todos os dias, seguiria esse ideal.
Essa minha mania de explicar tudo é inexplicável. Doravante, aplicarei o método da louça e o de MacGyver para escrever minha história.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.