"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Naqueles dias: mal


A cabeça pulverizada, em chamas. Nada me conforta ou me consola.  As horas passam tortuosas na minha alma como a lama no ralo. Rolando, como recipientes vazios em becos estreitos.
Vejo coisas que não deveria e sinto-me mal por ser quem sou. Não sinto, não cheiro, não provo, estou letárgico e perdido. Onde está meu centro? Por que as coisas mudam tão cruelmente de face? E sei que meu presente me sufoca como meu passado se torna desconhecido e futuro.
Calma, calma, eu digo para mim mesmo, e meu calor transborda pelos meus olhos, nada faz sentido, estou vagando pelo vazio que há em mim – e não temos previsão para sair. Hoje, amanhã, nunca, quando, talvez? A cada ano, uma distração ou duas é preparada para nos iludir – e nos abortamos.
Falei mais de mil vezes em vão para mim o que deveria fazer e não fiz. À noite, resmunguei, praguejei, desisti.
Quem poderá lutar contra si mesmo e vencer? Onde está a razão nisso? Eu sei, mais uma vez, eu sei, mas não adiantar saber, é preciso viver. Se reerguer, sair, sorrir. A cada dia, parece-me difícil cumprir a sina de existir e todos pensam que viver é assim.
Eu fiz descer de mim a luz e, no entanto, não posso mantê-la.
Tão forte quanto frágil e serena, ela trepida de mim para a escuridão e só me resta sentir quando – vagarosamente – ela vai se esvair até o finito sem fim. É lá que me perderei e não terei notícias de mim.
Eu vou: consolar a minha sombra enquanto meu corpo apodrece em silêncio no tempo.
Se são tantos mundos, por que vim parar aqui?
E o que sou no meio de todos os bilhões de estranhos viventes?
Estamos bem? Existe mais alguém que não é daqui? Por que nos obrigam a viajar tantas e tantas vezes por aí para, enfim, subirmos?
Eu fui infantil, eu perdi o controle, eu me estranhei e me coloquei abaixo do chão. Eu não deveria ter feito aquilo. “Perder a vontade” – não deve ser guardado em mim. Me arrisquei, fui fraco e quase desfaleci.
É porque às vezes estamos tão mal, tão afundados, imundos...
No final das contas, está tudo bem, no caminho, em ordem, impecável. Por que relutamos em esconder de nós mesmos aquilo que está iluminado em nós e no mundo? Por que nem chegamos a ver nossa rotina passo a passo para perceber que não há nenhum mistério em termos desafios, grandes, pequenos ou impossíveis? E erros, ainda que minúsculos?
Por que deixar de crer?
Quando estou mal, deixo me ver através de uma neblina espessa, grosseira, distorcida. Eu mesmo jogo o barco contra as rochas!
Eu não preciso disso, eu sei.

F.G.M.

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