"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

sábado, 7 de abril de 2018

O homem velho


Eu me lembro da última noite. Estava rodeado de pessoas e os consolavam como a um bebê. Era hora de partir e ninguém se preocupava com o amanhã. Todos ansiavam pelo agora e, sem dúvida, aquele homem velho, destruído, iria se reerguer algum dia. “Por que estão fazendo isso com ele” – murmuravam as senhoras, e as crianças não sabiam o porquê de tudo. Foi fácil chegar lá: o tempo, sim, o tempo nunca se arrepende do que faz. Pode ser cruel ou necessário. Nunca injusto ou retardado. A vida sairia a troco de nada. Aquele homem prostrado nos braços do amigo amaria se sentir livre e viver.
Mas o tempo também consome a vida. E, antes mesmo de apagar as luzes, ele parte. O país estava dividido, nos noticiários, o plantão tomou conta da doença social. O padeiro enrolou a massa receoso, os professores se inundavam de deveres nas escolas e as mulheres caminharam sob o sol. E tudo isso em silêncio, em luto, em vida. O homem velho deitado tossia, e os poucos amigos que o amparavam, os íntimos, sabiam que a verdade viria à tona algum dia. “Ele sabe, o homem vive, a história conta” – e as pessoas choravam à beira do leito, gritavam, a noite seria longa e jamais seria esquecida.
O homem acordou na última noite, horas antes de partir, e disse aos seus amigos já cansados da injustiça:
– A luta não tem fim.
E seus olhos se dobraram pela derradeira vez. E seus amigos suspiraram, amortecidos, olhando através da janela, do alto do prédio, para a rua, observando aquele enorme corpo sem memória.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.