"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Fulana porcelana


É só amanhã, amanhã.
Passei a noite dormindo. Tranquilo como um peixe, em repouso de existência. E depois veio o despertar. “Venha cá, seu imundo!” – e tome isto! Como é? Não, não! Não acredito! Desista! Desista!
Eu perdi o controle. Meus olhos pegaram fogo antes de me incendiarem. Mas a vida é breve, fugaz, e nossa razão de ser não se resume a um instante inflamado de existência. Perdoar-me-ão os amigos, talvez, os colegas, e com certeza toda a família.
Não foi nada sério. Vários erros, e palavrões. Nada demais. Só um suspiro profundo e imenso do enorme lamaçal que cobriu meus pulmões. Por que estou tão mal nestes últimos dias? É sinal de piora? É, enfim, o começo? Em que processo estou?
A lembrança rasteira daquele episódio me machuca! Por que ela resiste, insiste em aparecer em meus mais largos sorrisos? Minha missão? Recrutar silêncios.
Quero me despedir do alto.
Enorme.
Impossível.
É, portanto, que me refiro à fulana porcelana com desprezo!
Sua fulana!
Sua porcelana!
Nem uma nem outra.
As duas!
“Feliz, feliz”!
Eu não sinto. É doloroso não sentir.
Mas eu vi.
Eu li.
Nunca pensei que pudesse...
Mas ele veio com aquela e não pude resistir.
Chove borboletas.
A chuva molha asas.
A gente não vai desistir.
Eu sei.

F.G.M.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Pequenas editoras, grandes ilusões



O provérbio bíblico “vaidade, tudo é vaidade” parece ecoar nos ares quando olhamos para as pequenas editoras e, sobretudo, para seus autores invisíveis. Afinal, como uma editora pequena pode projetar seus autores às estrelas? O projeto editorial está focado no retorno financeiro das tiragens ininterruptas de milhares de originais que chegam ou na venda de suas obras de qualidade? Quais são as pretensões de algumas pequenas editoras e também de seus autores, pobres esquecidos pela tiragem limitada de 500 exemplares, quanto ao legado que poderão deixar à Literatura?
E eu me pergunto mais uma vez: qual é o papel de uma pequena editora atualmente na exploração (in)justa dos seus autores? Infelizmente, a realidade é mais cruel do que os sonhos impressos nas páginas de poemas e romances publicados pelas “editoras artesanais”. Boa parte do material publicado é resultado de um acúmulo de originais – analisados às pressas – que resultarão em um retorno financeiro seguro para a empresa e, por outro lado, totalmente incerto para seus autores. Alguns editores veem o autor como uma mão-de-obra barata para ser explorada.
E o resultado disso é que boa parte das pequenas editoras vendem, na verdade, não um projeto de carreira literária para um escritor, mas grandes ilusões para aqueles que ainda têm sonhos. E qual seria o maior sonho de um escritor? Não é muito difícil de responder: ser lido, discutido, debatido, dissecado, expandido. E o que essas editoras estão fazendo? Pegando os originais da gaveta dos aspirantes a escritores e colocando na geladeira profunda de suas “estantes” virtuais. Da escuridão ao frio, à frieza extrema com que lidam com um material – quiçá – precioso. A projeção que essas editoras dão aos seus autores é mínima, e eu ainda diria que é zero, se não fosse por aqueles autores que ainda têm rede social, e divulgam nas suas páginas desertas...
E os que não possuem rede social? Para esses, eu afirmo que a visibilidade é zero, porque as pequenas editoras, boa parte delas, não estão nem aí para o resultado que seu livro pode obter. Depois que seu livro vencer a jornada das 500 tiragens, ele voltará ao que foi um dia antes de concebê-lo, bom autor: inexistente. E digo isso porque publiquei três livros pela Editora Penalux e eles praticamente não investiram nada em publicidade e propaganda de nenhuma das minhas obras. O que eles fizeram, e fazem com praticamente todos, é simplesmente publicar em seus facebooks (que têm um visibilidade ínfima) o anúncio de lançamento e uma postagem que não atinge, sequer, seus amigos na rede social. E meus livros ainda estão lá, encalhados como conchas no mar.
 A Editora Penalux é um exemplo de como as pequenas editoras precisam amadurecer muito para entender que o que eles têm de mais importante é o autor. E devem investir nele, não em milhares de publicações aleatórias para alimentar um negócio que parece estar fadado ao fracasso, uma vez que seu “produto”, os livros, não vendem, não dão cria. E como vender? Por que as grandes editoras vendem? Eu creio que elas investem fundo em seus autores, e a qualidade se mantém durante todo o processo, desde a aceitação do original, revisão, edição, publicação, até à promoção do livro. É outra realidade, a das grandes editoras.
O que me entristece mais é ver que bons autores estão sumindo (vejam como é absurdo!) ao serem publicados por pequenas editoras. Muitos autores já chegaram até a disponibilizar, por completo, suas obras na internet, mesmo com a "disponibilidade" no site da editora, como um gesto de auto-sacrifício capaz de degringolar qualquer vaidade a priori. Será esse o caminho, literalmente, lançar-se e não ficar na mão daqueles que não irão alavancar tua pretensiosa carreira literária? "Vaidade, tudo é vaidade" – diria Salomão.

F.G.M.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Doutorado



Ser preso é um pesadelo! Qualquer prisão é uma tortura. Viu o que aconteceu com Doni? Quase enlouqueceu. Enfermo, se recuperou depois de três cirurgias no cérebro. Sadio, desistiu do emprego e resolveu levar a vida como um pássaro.
E a com a Anne? Infelizmente, ela não teve a mesma sorte do infeliz. Enlouqueceu, ou melhor, endoideceu de vez, a pobre pariu uma cabra!
Chupou o diabo e queimou o esqueleto de um anjo em pleno carnaval! “Dana-se” – era seu lema, “tudo!”. Imagina. Saudáveis.
E eu? – mísero trapo único dentro de mim em todo o Universo com quintilhões de coisas e seres mais úteis!
Eu nunca quis ser pai. Não, não combina comigo. Eu nunca quis pôr meu sobrenome em coisa alguma, filho nenhum descenderia de mim. “NÃO!” – eu já disse.
E foi justamente num sonho vago que fui pai.
Era uma criança linda, confesso. Senti a felicidade de ser pai como ninguém! Uma alma sendo conduzida pela minha mão! Um corpinho frágil caminhando a meu lado, e um sorriso real para o mundo – sem palavra alguma, "uma razão para viver" - e verdadeira.
Não sei se era menino ou menina. A vida diz quem nós somos, à força ou à revelia. E nunca pensei que pudesse fazer parte de mim, aquela criança, como um nirvana gratuito, sem prestação.
Me aproximo um pouco da luz. Nenhuma sombra me deu chão.
Se você perceber, não estou muito bem. Está na cara. Vês? Meu silêncio está cansado e meus pensamentos – oblongos. É tudo rarefeito nesta ilusão de ser. Onde estou neste fim de dia?
Há uma semana, normal. Depois de outros séculos, um grito. Foi o primeiro sinal do meu desnorteio.
Alguns mosquitos me espreitavam. À noite, meus olhos já estavam cansados de mim e eu não sabia como ver as coisas sem eles. Fechei-me durante dias, e sinceramente, comecei a me desfazer aos poucos.
Com que nome inicio meu desespero? Por que o amanhã magoa meu café? Eu vomitei hoje muito. Minha cabeça tem rolado pela casa como uma criança imbecil. Faz pena, embora eu seja calmo, ver meu corpo se incendiar aos poucos e ninguém fazer nada para apagá-lo.
Quando eu me dei conta, a casa estava vazia. Ninguém estava ali! Oco, imenso, paralisado. Quem fez aquilo com ele? Era um sujeito estranho, e ambicioso em outros tempos... Mas o fim sempre começa um dia, e nada o faria mudar.
Ela cresceu e me negou por inteiro. Doeu, tudo bem, cada um é responsável por si mesmo, não? Começou a fumar com três anos de idade e desacreditava de si.
Desisti. No início, foi mágico, encantador. Aquilo foi crescendo e já havia me desmontado em mil partes.
Ele estava estudando o subterrâneo. Grande Quim! Este abraçou a miséria com carinho e viu mais do que abismo entre as linhas da morte.
Eu só quero deixar de ser este corpo desequilibrado fora de estoque, e estas partes sem fim. Um filho? Como faz falta viver!

F.G.M.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Em tédio



Fixa, repete, fixa, repete. Fixa, fixa, fixa. Repete, repete, repete. O que eles pensam que nós somos? Se você desperdiça palavras, não sabes o que fazer com o sentido.
Especial. Ser. Fenômeno.
Mais um dia neste planeta sem vida. Mais um produto com nome estrangeiro. Mais um negócio. Mais uma louça. Mais uma proposta para o caos.
Sem lágrimas, não há mar. É a lei da selva. Assim, o céu se dobra diante da terra. Úmidos, olhamos para nós mesmos, ainda embaçados pelas nuvens, e procuramos o que fazer no absurdo. Simples, leve, chocante como um palito de dentes no chão, manchado.
Eu olho, e só vejo.
Passou por aqui, está ali, agora já foi. Sumiu.
Cada lugar se habita. Cada um se fere. Cada um por si.
Cada lei se desfaz.
É a última. O último segredo. Está feito.
Cacem-me, feras, eu vos suplico, andem, está feito, é noite como dia, a fina linha do tempo me arranha onde a aranha trama meu destino sem arreio.
Está feito. Eu fui filho do caos e me tornei uma estrela anã num Universo cheio de moscas e vômito. Nada pôde me salvar nesta noite enorme dentro de meus pulmões.
Está feito.
E eu sou todo coisa estúpida inútil como uma canção valente de um guerreiro solitário – no meio de violoncelos inclementes.
Está feito.
Rujam! Sinuosos como um lenço entre as pernas! Agudos, persistentes e bravios, que o meu corpo voe, pule, rasgue e dobre contigo, em ti, infinito, está feito.
A canção de um ser sem nome, de um paraíso sem Deus, estrugindo num tambor sinistro, em som, o tom, o bamboleio da bomba. A canção sobre mim mesmo está feita, para mim está feito.
Como o ultrassom da besta, todo fim é tarde, se desesperem, criaturas! Está feito.
E, de repente, olhando para a imagem das pirâmides, o único mistério que me vem à tona é o da minha própria vida nas mãos de um criminoso.
Calma. Relaxa. É só isso?
O controle, as carreiras, o jogo financeiro.
Ah, brisa! A sombra morna dos dias, o sossego do amanhã.
Cada um tem o que é.
A vida está acabando, mas tudo é começo.
Vamos lá. É só querer – e não-querer.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.