"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Excluir o perfil das redes sociais



Escrever este texto significa a que ponto chegamos ao encararmos o mundo virtual como mundo ideal ou possível ou único. Ele não seria necessário, mas não sei me excluir de outra forma.
A decisão não foi fácil, por anos eu pensei nisto e agora me decidi por completo. Eu falo por mim, antes que me julguem, como é corriqueiro fazer nestas vias, – e juro que esta não é a minha última indireta. O que tenho a dizer é apenas um silêncio guardado há muito tempo e fora do prazo de validade. Nós não nos aproximamos, enfim, não melhoramos como ser humano, não fomos gentis com o outro, não compartilhamos o amor nem o silêncio atado ao nosso peito. Encenamos tudo, e tudo se tornara o inevitável e inabalável teatro da crueldade cotidianamente estrelado por nós. O que sobra de cada um naqueles pedaços de fotos, postagens e neurastenias? O que me tornei com isto aqui? Que ciúmes criaram de mim? Que notícias abortaram nos dedos? Que inveja se voltara contra o feiticeiro?
A cada dia, as redes sociais têm se tornado uma prisão onde ninguém escuta ninguém e onde cada um alimenta uma alienação maior de tudo (contrária a si mesma). Em meio a vídeos, ideologias, fotos e propagandas, as pessoas não se convenceram de nada e todos nós arrumamos intriga e dor e freios: urrando, berrando, xingando. As lutas, as bandeiras, os amados ou injustiçados, que sejam ouvidos pelo menos – se reais ou não. Há de haver algo genuíno em alguns desses discursos, para além da vaidade – e de um eu tão sucinto. E chega de baderna. Qualquer um pode ser livre, afinal, ninguém precisa seguir ninguém ou ninguém é “obrigado a nada”. Livre, sim, mas com limites, tão essenciais à sobrevivência, sobretudo na cidade, como todo ser vivo tem e mantém como uma lei.
Irei me recolher em minha insignificância ao excluir este perfil que tanto me fez sorrir e chorar e cantar. Nele, escrevi deveras coisas simples e também interessantes, postei fotos de instantes ímpares e me importei em demasia com alguns poucos amigos, que não excedem, tenham a certeza, a quantia numérica que dizem que tenho por aqui, mas, mesmo assim, representam muito para minha memória ainda. Lembro-me de como cheguei aqui, mas não quero contar mais uma história. A vida em cima. Sempre. Nada de publicidade gratuita, estúpida e explícita. Nada de produzir conteúdo sem retorno, apenas vício e ócio para os usuários. Nada de pose para enfeitar a ilusão da trágica moldura do ser no mundo algo real. E que sejamos mais reais do que a realidade imagina ou do que o mundo virtual nos condena. A vida pede vida. A vida nos anseia. A vida segue sem ti, não a abandones. Agarra-a, mas não a trate como o milésimo amor. Seja fiel! E pronto. O tempo é aquela flecha.
Flecha... e tentei fazer o mundo melhor por aqui – um lugar melhor – a partir de coisas simples e com o mais sincero amor que um ser humano pode colher durante a manhã ao despertar. Como qualquer louco que pensa ter juízo, disse coisas talvez impossíveis e que não eram ilusões do meu tamanho. Elas eram enormes e bem maiores do que dar “bom dia” com flores. Mas, veja-se só como as coisas se arredam de nós, cegos ou iludidos! Quem pode fazer o mundo melhor com palavras ditas ao acaso, utilizando um perfil no fim do mundo? Na verdade, eu não tentei aqui fazer nenhum mundo melhor. Eu só queria mesmo era distrair meu tempo, alugando a minha vida a troco de aborrecimento e indiferença. Mas não digam que pareço exagerado. Olhe para si e para o que tens feito por aí. Não há semelhança nenhuma entre dois iludidos, a não ser o fato de terem razão.
E tudo depende de como me sinto. E tudo depende de como eu penso. Nenhuma montanha-russa me assusta mais do que essas.

F.G.M.

domingo, 27 de agosto de 2017

A ilusão de erudição dos escritores



Ser erudito se tornou sinônimo de sem graça, insosso, pedante e tal relação sinonímica não foi feita à toa. Infelizmente, a maioria da gente que escreve ou se inicia na escrita ainda tem uma visão de que, para escrever algo bom, original ou diferente, se deve amontoar o texto de referências (geralmente explícitas), muitas vezes aleatórias, gratuitas, forçadas, sem nexo e às vezes até sem coesão alguma com o que se pretende, em vão, dizer no texto.
“Os clássicos” – quando a gente fala assim parece até que somos arrogantes, mas, na verdade, não. Os clássicos possuem um estilo de uma simplicidade tão simples que nos assusta lê-los e percebê-los como obras imortais tão acessíveis e, em um instante ou outro, tão misteriosas. Ainda que a alguns pareçam “difíceis”, é inevitável negar que, apenas depois de algumas pesquisas e com alguma experiência de leitura, conseguimos compreender o movimento que faz nascer em nós a novidade do mundo.
Nada mais prazeroso do que ler Dante ou Kafka. Imagine Machado de Assis! Como negar a excelência de tais escritores? E Clarice? Nunca se leu nada tão acessível e tão contundente, veja-se também Caio Fernando Abreu ou até mesmo João Cabral de Melo Neto, Olavo Bilac, Augusto dos Anjos. Todos eles, cada um à sua maneira, se tornaram acessíveis e referências. Até um Murilo Rubião consegue nos atingir tão magicamente, de tão simples e claro que é! E todos eles são clássicos, e atuais, e todos eles são amados.
Claro, conseguimos, com um repertório de leitura satisfatório, perceber as intertextualidades, os entrecruzamentos, as influências, e tudo mais. Mas identificar tais elementos não deixa o texto mais pobre ou menos original. Pelo contrário, o que se percebe é exatamente a riqueza com que cada autor pôde se aproveitar de suas leituras e transformá-las em algo novo, interessante, único.
E é aí que se percebe a grande diferença: o que os grandes autores fazem, na verdade, é uma composição harmônica em confluência com os elementos da arte, da filosofia, da cultura humana, etc.; não são meras citações aleatórias, explícitas, esdrúxulas, ou referências que revelam talvez uma tentativa de autoafirmação de um jovem autor ou de um demasiadamente pretensioso e suicida (no sentido metafórico da palavra).
Não é citando Goethe em teu texto ou Rimbaud, ou se tornando ridiculamente rebuscado (empapado), “hermético” (no sentido dos enlatados), que terás uma obra literária única e original. Nomes de autores renomados em obras ou textos mal escritos não operam milagres em Cristo e não configuram uma obra como literária. Essa ilusão de erudição de alguns escritores sufoca, muitas vezes, o que eles poderiam se tornar ou até mesmo a obra que poderia nascer sob sua ótica, estilo.
O sujeito citou 15 nomes em um parágrafo: 5 filósofos, 3 sociólogos, 2 poetas e 5 personagens de Shakespeare. Pronto, agora todos dirão que ele é o novo Machado de Assis ou o novo Carlos Drummond (o que, para mim, é um insulto, uma vez que você não se equiparou a seus antecessores, apenas serviu como o subproduto de um estilo que lembra, de longe, o consagrado). Um texto não é um bolo para alguém enfeitar até doer no estômago. E, antes que me acusem, isto não é uma receita ou lei, mas tão somente um comentário sobre a angústia.
Já li escritores que fazem mil referências, implícitas ou explícitas, leia-se Machado de Assis ou Fernando Pessoa, por exemplo. Mas percebam se, em algum momento, o texto deles se parece com uma árvore de Natal em época de São João ou com um acidente de um caminho cheio de livros – virado nonada? “O auto citou Homero, então ele é foda” – não, não, não é por aí, não, leitor! O que foi que ele escreveu – de tão magnífico e simples – que fora capaz de citar multipululanteargênteo Homero sem fazer uma ofensa à inteligência do leitor e à de Homero? Citar um autor ou muitos em teu texto só para constar na sua ilusão de erudição não será suficiente para provares que o que escreves é tão bom quanto a tua angústia em se autoafirmar para alguém.
Eu li Ésquilo, Platão, Martin Heidegger, Guimarães Rosa, Jane Austen, Raul Pompeia, a vida é dura, eu sei do que estou falando. Vivi Ramos, Cecília, Ana, Baudelaire, e as flores de Anto. Eu sei do que estou falando, porque Virgílio tocou minha alma e Cristo alisou meus pés no dia derradeiro. Que os bardos da Bretanha me abençoem e Dom Dinis atravesse os meus cantos! Creio que este parágrafo foi o mais erudito de todos, sou escritor, provei aí.  

F.G.M.

Lembrete noturno




O que você aprende na universidade não é um 1/3 do que você aprende na vida. O que você aprende na vida não é 1/3 do que você aprende na universidade.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.