"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Alento de pedras, textura de vento: a poesia de K. Amorim



Quando leio um livro de poemas, quero me surpreender. Nunca me esquecerei do dia em que li Manuel Bandeira pela primeira vez. Eu revi o mundo. É assim que bons livros de poemas devem ser: nos fazer rever até mesmo o inesquecível.
Nós o carregamos como uma inolvidável relíquia na memória e, em versos, ela nos diz:

Não preciso de relógios:
o tempo já me tem dentro de mim
e imprime em meu corpo suas feições.

Os relógios são prisões da modernidade e Kalliane os desfaz como farelos ao tempo. São versos assim que atiçam nossos olhos e colocam em xeque a realidade das coisas, a densidade das formas, o silêncio da noite.
O que torna um poeta autêntico e inesquecível talvez seja um mistério violento e incorruptível, mas é impossível negar quando o reconhecemos sem mesmo sabermos o porquê. Sentimos, vemos, vivemos e voamos. A palavra carrega um farol, uma lua, uma vida. É assim que Kalliane Amorim se apresenta em sua obra: como um suspiro breve e único presente em cada palavra que (com)põe, sem dar espaço para mais.
Relicário, publicado em 2015 pela Editora Sarau das Letras,  é delicadeza e aridez, memória e poesia, força e leveza, são “as tantas mortes/ de que tanto nasço”, o caminho cujo todo escritor deve percorrer. Ali, nenhuma palavra é desperdiçada sem ser consumida pelo desejo ardente da poeta de viver – e fazer nascer sempre a palavra através da passagem tempo

Não sei por que vielas
anda-me a palavra agora.
Fugiu-me.
Mas longe e perto
seu segredo me enamora.

Esse ímpeto de vida e permanência permeia e habita sua obra como uma espécie de devir-eterno diante de toda superficialidade do mundo, da brevidade de tudo, da rigidez com que a pedra nos atinge fora e dentro do corpo. Esse alento que Kalliane oferta ao leitor é um dos bens mais preciosos de Relicário.
Terceiro livro de poemas de K. Amorim.
O seu canto não apenas alenta, mas alerta e nos convida a olharmos diferentemente as coisas, o ser-coisa, o ser-objeto. A poesia alenta pedras em um mundo feito para não durar, em uma humanidade programada para não sentir nem ser. O desafio maior da poesia, que Kalliane claramente abraça, é retornar o homem à criança – ou fazê-lo ver através da luz e é também, como ela diz, “o mirar do olhar alheio”.
O prisma redentor que percorre seus versos é a contramão poética para tudo o que está no mundo, é o caminho certeiro para o ser – se descobrir e redescobrir em uma jornada silenciosa que, ora é contada pelos sentidos, ora é narrada pelos poetas, “Escrever/ é ensaiar passos/ de fumaça/ sobre a luz”.
A poesia de Kalliane valoriza as formas regulares da poesia e consegue, em versos simples e sonoros, inscrever na alma do leitor mais hipócrita as lembranças que ela partilha com a palavra e a vida. Nos identificamos, porque podemos – como a poeta – brincar e nos ferir com sua palavra, os temas se transmutam e nem sempre correspondem às frágeis expectativas do leitor, algo que rompe nossa rigidez e nos desfaz de armadilhas

E à incógnita da vida,
carrossel solto no espaço,
deixaremos da invenção
de nossa voz os pedaços.

É um livro de aberturas de janelas, caixas de sapato, varais, de álbuns e de inventários. Tanto cuidado com cada verso acentua ainda mais sua capacidade para palavra múltipla, metafórica e metonímica. São nos detalhes (in)visíveis onde reside o objeto escondido que desejamos encontrar em um Relicário. Essa relíquia estará sempre no coração do leitor, como a caixa de ovelhas de O pequeno príncipe, e terá a forma que ele desejar.
Essa sutil capacidade camaleônica de transitar entre formas, cores, texturas e sentidos é herança de poesia que consagra o instante, inaugura o dia – com uma palavra que acalanta a dor. Kalliane Amorim dialoga com sua terra de uma maneira íntima, seus antepassados, com o cheiro e o suor dos habitantes simples, das coisas simples – e dos sentidos mais incomuns e inomináveis. Relacioná-la com outros poetas é mera redundância, uma vez que – aquele leitor de poesia mais perquiridor – vai perceber claramente que ela lê demasiadamente e suas influências não se sobrepõem ao seu estilo:

A palavra
que sou
encarnou-se
no mundo.

O primeiro poema do livro “Vestida de tempo” é a trama, a tessitura de seu livro-relíquia. Nele, a poeta se transfigura entre coisa e ser e se torna o que palavra poética consegue apurar com mais afinco em poesia. O tecido/corpo apresentado é atravessado pela navalha do tempo, imagem incisiva e intensa, que configura a poética de Relicário entre a memória e invenção, o fluxo intermitente entre o eu e o outro.
Explorar sua obra é, além de encontrar alento para pedras, sentir a textura do vento. O poema Varal, que transcrevo na íntegra abaixo, apresenta não só a poética da poeta, mas também sua trajetória, compondo com as palavras mais simples, as coisas mais corriqueiras, o essencial:

Varal

Escreva um verso,
pendure no varal
e deixe que o vento
ensine as palavras
a esvoaçar.

Um verso
que não se diz
é ouro
sem serventia:
não ilumina
o olhar do outro.

Um verso que não voa
de boca em boca
deixa o mundo
a cada dia
amordaçado.

Um verso
que não navega
em nossa amplidão
naufraga
sem vida
à beira
de nós.

Ler Kalliane é sair um pouco de casa à tardezinha ou pela manhã e ver como as coisas são reais, reconfortantes e repleta de sentidos, de nós e de palavras: é um poema em branco. Este é o seu ofício: pela palavra, reencontrar. O seu livro de poemas Relicário é o ar puro do olhar nítido do tempo sobre tudo.
É preciso (re)conhecê-la.

Nanobiografia: mãe, professora e mossoroense.

F.G.M.

2 comentários:

  1. Um comentário a altura da obra. Abraços

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    1. É um livro maravilhoso, com poemas memoráveis e versos indiscutivelmente belos. A edição da Editora Sarau das Letras é belíssima, dando valor, charme e estética ao livro de POEMAS de Kalliane. Abs

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