"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

domingo, 30 de abril de 2017

Internado



A beleza pode ocupar lugares inóspitos. Meus olhos se abriram para o impossível e para o inconcebível além. Criaturas horrendas em nosso corpo e nosso desejo, mais intenso do que a luz do sol, ignoram tudo aquilo que não reconhecem como prazer e dor. Mais uma luta vã contra o dia, que sempre vem, mesmo que haja noite. O suor escorreu como lava e meus olhos se abriram para dentro de tanta contorção.
A dor parte com a escuridão da noite e iria aparecer um dia à luz do sol. Que dor, que força bruta contra nosso próprio ser, que luta contra nossos animais mais selvagens e instintivos! Eu era um receptáculo de ódio – fumegante como os pesadelos mais pueris – e repleto de dor, esfaqueado feito mula abatida no cárcere, meu ser se resumiu à tortura absurda da vida. De hospital a hospital, apenas injeção e nada mais. De casa ao hospital várias vezes e a dor – persistente como o amor infame, me arrebatou com seus macabros volteios. Fui trancado por dentro e definhava por fora feito porco ensandecido, até perceber que eu estava muito mal e não me curei.
“Eu não meu curei” – e o meu mantra doloroso se unia ao meu flagelo, à decadência desconhecida dos órgãos, ao espelho quebrado de minha lucidez. Um médico particular, que mal me conhecia, recomendou-me ao amigo, que estaria no hospital à tarde. Cheio de dor, rolando pela casa inteira sem sentido, senti a esperança de que podia me curar. Não acreditei que aquele médico, que apenas me antedera uma vez, pudesse interceder por mim... quando saí de casa, chorei.
E lá estávamos, eu, em prantos, e meu amor incrédulo diante de mim. Os médicos me observaram no hospital escuro, esquecido e inválido – por uma noite de horror intenso, “não vamos abri-lo sem saber o que é”, “não é caso de cirurgia”, “temos de esperar...”. Cabeças explodiam, bêbados deliravam, ninguém saía sadio daquela sala pequena onde meu corpo se encontrava numa cama quente e rígida. Pouco a pouco, todos saíram, moribundos ou anestesiados, e eu e minha amada ficamos sozinhos naquele quartinho, sem saber o que seria de nós dali a algumas horas.
 O ar-condicionado relinchava e eu tremia de frio espremido com quem cuidara de mim desde o primeiro dia! Era um conforto e desconforto – prazeres que só um doente pode desfrutar em sua imensa solidão dolorosa de si mesmo. O hospital vazio na madrugada e nós ali, acordados como corujas enfermas, entre o sono e o sonho de sair dali de uma vez, para sempre! Mas os minutos eternizavam os pássaros da noite! O tempo agia maliciosamente sobre nós!
Pela manhã, depois de uns segundos de repouso, posso me lembrar que a enfermeira pediu que desligasse algum ar-condicionado, e o segurança – diante de nossos olhos assustados, simplesmente ignorou qualquer indício de vida, e prontamente o desconectou impassivelmente. Ficamos chocados pela frieza do homem, pela frieza intensa, mais até do que a do objeto! Estávamos congelados pela realidade e nenhum médico sabia o que fazer.
Boca seca, peito seco, sem comer, sem beber, 24 horas no soro, 24 horas sem sono, 24 horas de dor, 24 horas intranquilo e febril... caminhei sob o sol, melhorava e piorava. “Vou te internar” – disse-me o médico e essas palavras me chocaram a alma! “INTERNAR” – e me levaram por um corredor estranho... “INTERNAR” – e de repente eu nunca tinha sido sadio neste mundo... “INTERNAR” – e meus olhos se apequenaram diante de toda a ignorância da vida...
Carregávamos lençóis, tralhas, ventilador, tudo em mãos, por aquele corredor estranho por onde meu destino se afunilava cada vez mais. Caminhávamos e nunca me esquecerei dos olhos das pessoas que me observavam, fossem velhas e novas – sem acreditar que um homem jovem pudesse estar tão mal e fosse – o que era mais inacreditável – internado em regime de urgência para o melhor ou para o pior. Eu me despi de toda a vaidade e simplesmente meu reflexo se tornara uma lembrança distante do meu corpo.
Angústia, fome... um altar repleto de santos enfeitava uma das alas do corredor – que dava para a UTI, para a assistência social e também para a cozinha. E, entre grades, atravessando as últimas alas, lá estavam os quartos de quem estava internado. Era um longo pavilhão de quartos e pessoas enfermas. Que esperança poderia habitar naquele local? Onde? Como? E finalmente nosso quarto – 204 – nos aguardava com dois leitos e um banheiro simples e incompleto. O apoio do soro era uma corrente fixada ao teto! Eu estava acorrentado! Como e como eu sairia dali? Apenas um médico por dia para nos visitar...
Meus pais me viram – sem fé, um filho, tão jovem, doente, internado. E na minha cabeça não parava de pensar no presente. Para mim, o futuro se fechará indefinidamente. “A gente só vive o presente” – era só o que eu dizia para me consolar, “eu não estou no meu presente, daqui a alguns dias...”. E contava o tempo, segundo a segundo, sem saber quando ou como, pingo a pingo, o soro. Não conseguia comer, não conseguia dormir, não conseguia viver.
Eu estava abandonado em mim! E meu amor lutava como fera, contra feras, para me reerguer outra vez! Ela foi forte – e sua força moveu montanhas como furiosos deslocamentos de placas tectônicas. Nunca pensei que pudesse ser tão grandiosa e valente, apesar de tudo e de todos. Se não fosse por ela e todo seu esforço titânico, eu não estaria aqui para contar esta história, pois ela revirou o mundo para me acender novamente e, por causa do seu inimaginável empenho, não poderia ser em vão.
Assim foi, dia a dia, médico a médico, sem diagnóstico possível. Sempre um dia depois de amanhã, sempre o depois, sempre para depois, e todos se assustavam com o que poderia ou estaria acontecendo comigo àquela altura já. Eu me segurei para não desmoronar diante de tanta escuridão! Na minha cabeça – habitavam o vazio, o nada, o agora e o sempre – tudo sobreposto – em dor e gemido.
A cada noite, as luzes se apagavam e eu vomitava os comprimidos copiosamente depois de ter recebido quatro injeções... ouvia os corredores vociferando como um filme dramático e pungente...
Doentes à noite murmuram entre banheiros e aparelhos esguicham o sangue para a alma, é escuro e ninguém sabe como sobreviver depois da última injeção, os olhos melancólicos das árvores nos aniquilam com saúde e beleza, enquanto rolamos pelos corredores da enfermaria a incerteza de vida que a mortalidade nos arranca: homem, mulher, criança – jovem ou idoso bailam desconsertadamente, enquanto o corpo fale, estrebucha e delira como um adolescente drogado nas ruas.
Recebemos companhia – além da mãe do meu amor, outro enfermo em nosso leito. Em mais uma noite estrepitosa, o doente chegou gemendo fortemente a dor que o trucidava, estava acompanhado da mãe, da esposa e de um primo. Eu estava bem, com pouca dor, e pensava em como ele e muitos deveriam estar muito pior do que eu... as enfermeiras correram, deram soro e remédio na veia, injeção na bunda, enquanto ele gemia e – logo após vomitava – enjoadamente.
Em uma hora, ele descansou sadiamente, enquanto eu, em meu regime horrível de restrição, não parava de sentir a dor. O outro paciente comeu bem, se recuperou aos poucos, enquanto eu, não conseguia comer a comida – irresistível – do hospital, e nem parar de sentir a dor, que só aumentava ao passar dos dias, bem como os diagnósticos de cada médico, que não desvendaram quem ou o que era meu algoz.
O médico que primeiramente se preocupou comigo – praticamente não cessou um dia sequer de me dar assistência através do celular, por meio da minha esposa. Eu nunca pensei que médicos pudessem ser tão humanos como ele, mas me enganara profundamente. Em plena semana santa, ele se dispôs – mesmo à distância, a procurar ajuda e intervir por mim de todas as maneiras possíveis e, o que é mais incrível, sem nos cobrar um centavo sequer.
A companhia do leito me confortava, algumas enfermeiras, minha sogra e minha esposa, minhas irmãs, meus pais, enfim, eu estava muito bem amparado naquele hospital humilde e – infelizmente – sem estrutura boa o suficiente para oferecer um atendimento de excelência ou algo que pudesse ser próximo do ideal. Contudo as pessoas amavam o que faziam, poderiam brigar, mas era por uma boa causa, e todo o empenho da equipe do hospital fazia o bem acontecer e movimentava com bravura o coração de cada um que ali se encontrava.
Todos nós somos cuidadores por natureza – sempre cuidamos de alguma coisa, seja de um simples celular até da nossa própria saúde e o exemplo de cuidado que eu tive naquele lugar – eu nunca me esquecerei: alguém que se dedica, sob as piores condições e salários defasados, apesar de todo preconceito e desvalorização, a cuidar de outro ser humano completamente, num ato de doação que só pode ser compreendido em sua plenitude se chamarmos de amor.
Havia muito amor onde se tinha pouca esperança e isso salvou vidas e aliviou corações que batiam paulatinamente em cada leito mal iluminado à tarde, sob a luz poética do sol. Sim, naquele recinto de enfermos, os profissionais excediam o amor que nutriam pela humanidade e, por cada parcela de esperança que os parentes depositavam neles, seu poder de cura aumentava, pois estavam determinados a cuidar – cuidar, cuidadosamente de cada um. Jamais podemos esquecer disso.  
Em dias de melhora repentina, meu olhar se dobrava para a vida. O hospital estava cheio de vida. Vi a beleza nos olhos do velhinho. Estava mal, e me fitava – cheio de tubos, do outro quarto, como criança nascida. Meu quarto estava escuro e sua face se encolhia aos poucos no fundo de seus olhos azuis. Havia tanta poesia naquele olhar. Adormeci e ele compôs seu último poema naquela manhã: eu.
Ele se foi. O que teria pensado em todos esses dias? Mesmo sem o conhecer, foi muito duro vê-lo partir. Tristemente, muitas pessoas morreram. Um casal estava em um leito. A esposa cuidando do marido enfermo... de repente, no corredor, 50 anos de idade, ela desmaia – é levada para UTI e morre... e ele não sabe que sua amada se foi. Fiquei sabendo de muita coisa bem depois. Eu caminhava lentamente sobre meus pensamentos, minha esposa e minha sogra me acompanharam diariamente e, para me resguardar, elas se angustiavam longe de onde eu estava, conhecendo o lado mais triste do hospital e talvez sobre mim.
Elas sorriam quando me viam para não me deixar mais inseguro diante de tudo. No dia de meu diagnóstico, eu saí do hospital de cadeira de rodas para fazer o exame. Estava mal, e minha expressão física era a de alguém incapaz, extenuada e decrépita, sem força para estar. E outra vez as pessoas me olhavam assustadas e incrédulas. Eu seria o próximo, no que pensavam? E fui levado pelos corredores até à ambulância. Foi uma cena triste: impotente, deitado em uma maca, vendo a cidade passar por frestas nos adesivos do carro. Minha esposa me olhava – e sua fé tentava acalmar seus olhos tristonhos sobre mim.
Fiz os dois exames no hospital particular e finalmente meu inesperado diagnóstico surgiu. Àquela altura, eu já não tinha tanta força para acreditar que poderia, finalmente, me livrar de toda aquela dor.
Dormi mais uma noite ainda no hospital público, o meu companheiro de leito já havia partido – e o quarto estava completamente arejado e agradável depois de ter sido arrumado cautelosamente por minha sogra. Com os exames, eu parecia estar melhor diante de toda inundação e, mesmo com dor, já não me importava mais com o que pudesse acontecer comigo. O clima geral era de despedida de todas as pessoas que conhecemos no hospital e agradecimento profundo.
Finalmente, no outro dia pela manhã, o diagnóstico foi confirmado e um dos médicos me deu alta. Sim, eu estaria em casa dentro de algumas horas, e bem! Em casa, e bem! Meu Deus, eu gritei por dentro, milhares de vezes, em casa, e bem! Pegamos tudo pouco a pouco, cadeiras, lençóis, ventilador, utensílios. Fizemos três viagens pra levar as coisas.
Na última, meu coração palpitou! Pois eu estava partindo dali – e estaria bem dentro de alguns dias.
Quando cheguei em casa, com minha esposa e minha sogra, eu juro que nunca tinha visto cena mais bela. Era uma tardezinha. O sol amarelou tudo. Eu me emocionei como estou emocionado agora escrevendo e não acreditei que eu estava de volta ao meu lar, e bem.
“A vida não pode acabar” – pensei comigo mesmo e toda a eternidade que havia abandonado meu corpo – de repente – retornara a mim. Escrevi uma mensagem para cada médico que cuidara de minha saúde e agradeci profundamente aos que se dedicaram a cuidar dos outros num ato de amor ininterrupto e fraterno, sem reservas, como um dom sagrado e incorruptível dos céus.
Eu voltei à vida, às pessoas que amo, à poesia e à existência completamente e apaixonadamente.
“No meio do caminho tinha uma pedra” – e meu ser para sempre ficará com a lembrança do que nos faz realmente eternos, humanos e divinos.
Precisamos cuidar mais um dos outros infinitamente.

F.G.M.

terça-feira, 25 de abril de 2017

O resgate



Ele saía para o mundo sem a permissão de ninguém, e eu sonhava noutro mundo como poderia incorporar as fraturas de tudo, e ainda o caos. Fiava loucuras no tecido absurdo de sua existência e tramitava negócios da China e doava para os pobres o que escondia de nós, e era sempre assim: às vezes ria, mas precisava salvar o mundo.
Quando pensei em surgir em 1989, já estava pronto nos papéis da eternidade que meu nome preencheria apenas as margens do enorme enredo escrito pelo homem. Naquele tempo o chamava de herói, porque me espreitava nos cantos das ruas e me tomava como vilão que tinha conclusões errantes.
Ele foi me buscar no silêncio, fazia parte do plano partir antes de mim – sina de ser humano. Palavras e palavras sem pensar nas palavras: “Eu sei o que não sabeis”. Quis esquecer o mundo para ser eu, era a revolta; revoltar-se sem querer se matar, sem querer se matar, morrer sem querer se matar, querer viver o instante mais belo e intenso da piedade de um crime bíblico.
Ele dizia coisas de mim que não penso, apesar de tudo meu pai encontrou minha mãe e isso vale mais do que o Resgate do Soldado Ryan. 

F.G.M.

sábado, 22 de abril de 2017

MULHER DE PALAVRA: O ORIENTE NA POESIA DE FIAMA


Ezra Pound foi o responsável pela entusiasmada presença da literatura oriental na Europa, traduzindo a antologia de odes feita por Confúcio, entre outros poetas orientais e, ao estudar os ensaios de Fenollosa sobre a escrita japonesa – o ideograma, o poeta norte americano integrou esse sistema simbólico à sua própria construção poética em Os Cantos. O movimento de poesia portuguesa de 61, uma crítica à construção discursiva e longa da tradição deixada por Pessoa, atribuiu à palavra o sistema central de concentração e da densidade da força imagética do poema. Pode-se perceber, nesse movimento, uma singular influência do Princípio poético e da Filosofia da composição de Edgar Allan Poe, quando o conto – visto como uma unidade de efeito – deve conter a brevidade necessária para apreensão do sentido da estória e, na apresentação do poema O corvo, a precisão da colocação dos termos e do conteúdo. Fiama, mulher de palavra, consciente do poder dessa, faz jus à voz de Octávio Paz quando diz que “a palavra é a amante e o amigo do poeta, seu pai e sua mãe, seu deus e seu diabo, seu martelo e sua almofada. Também é seu inimigo: seu espelho".
O poema de Fiama é imagético, não apenas obedecendo à lei da metáfora e da alegoria, mas também da composição ideogramática da poesia japonesa. Apropriando-se da palavra, em Morfismos, a poeta de 61 transpõe aquela carga semântica falada por Paz nos versos curtos e precisos desse livro (e noutros), arquitetando uma estrutura dimensional da expressão verbal, tal como um ideograma, o poema torna-se uma representação de uma paisagem lírica – condensado discurso e palavra. O poeta japonês Saigyõ (século XII), autor de Poemas da cabana montanhesa, na tradução de Nissim Cohen, apresenta a concisão e a captação da imagem lírica em curtos poemas. Quanto à extensão do poema, em A outra voz, Octávio paz escreve um longo ensaio sobre esse tema, no qual poemas longos na cultura oriental, se compararmos com a nossa, são curtos e vice-versa. Vamos ver a tradução do poema de Saigyõ e faremos um paralelo com a poesia de Fiama:

Não há mais limitações
Desde que minha mente fixou-se na lua,
Claridade e serenidade
Fazem algo para o qual
Não há fim à vista.

Saigyõ, in Poemas da cabana montanhesa, século XII.

Como podemos ver o poema acima, o leitor há de verificar uma representação de uma paisagem lírica através da correspondência com a natureza, semelhante à ideia de Baudelaire, o poeta serve-se dos elementos externos e íntimos da natura – quando esta, nos seus fenômenos mais especiais, se oculta com “claridade e serenidade” sem se deixar ver pelos que passam despercebidos – para compor uma expressão poética dimensional. A palavra “lua” é o substantivo responsável pela construção imagética e ideogramática do poema em tradução para o português, realçando consideravelmente a plasticidade e fluidez do assunto em torno de si, como o ideograma o faz ao captar – de maneira fotográfica – a coisa em si aparente. O poema de Fiama, para constituirmos um paralelo coerente e lúcido sobre o tema deste escrito, é o seguinte:

A um Poema

A meio deste inverno começaram
a cair folhas demais. Um excessivo
tom amarelado nas imagens.
Quando falei em imagem
ia falar de solo. Evitei o
imediato, a palavra mais cromática.

O desfolhar habitual das memórias é
agora mais geral e também mais súbito.
Mas falaria de árvores, de plátanos,
com relativa evidência. Maior
ou menor distância, ou chamar-lhe-ei
rigor evocativo, em nada diminui

sequer no poema a emoção abrupta.
Tão perturbada com a intensa mancha
colorida. Umas passadas hesitantes,
entre formas vulgares e tão diferentes.
A descrição distante. Sobretudo esta
alheada distância em relação a um Poema.

Fiama Hasse Pais Brandão, in Nova Natureza.

“A um poema” faz parte do livro Nova Natureza, o que é bastante curioso o título do livro, porque é justamente essa a proposta do poema – a apresentação da nova natureza das palavras por meio da construção do verso condensado ideogramaticamente através do discurso. “A meio deste inverno começaram/ a cair folhas demais.” e o verso adiante expressa “Um excessivo tom amarelado nas imagens.”, o discurso vai sendo montado através da observação dos lugares amplamente paisagísticos, a fluidez da palavra/ideograma, nesse caso, a palavra “folhas”, alia-se às imagens dos fenômenos naturais – abstraídos pela experiência visual e concreta das coisas, para depois obter um nome, o “inverno” é a palavra final para construção do fenômeno.  Em seguida, o poeta tinge a paisagem com “tons amarelados”, não a imagem, como fica claro no verso a seguir “Quando falei em imagem/ ia falar de solo”. O poeta chileno Pablo Neruda também se utiliza desse processo paisagístico quando fala:

Amo o pedaço de terra que tu és
Porque das campinas planetárias
Outra estrela não tenho. Tu repetes
A multiplicação do universo.

Pablo Neruda, Cem sonetos de amor.

Neruda transpõe o estreito sentido abstrato da estrofe à precisão e à plurissignificação da palavra, concentrado o significado em substantivos como “pedaço de terra”, “campinas planetárias”, “estrela” e “universo”. O ideograma está perfeitamente arquitetado: poderá o leitor desenhá-lo após a leitura? Não deverá compor ou recompor uma imagem, mas uma paisagem ideogramática, “o solo” a que Fiama se refere, onde nós brincamos libertos a escrever nos espaços, nos tempos e na areia as representações da paisagem interior e repetir “a multiplicação do universo”. O ideograma é associativo, quanto à representação de adjetivos ou substantivos abstratos, a escrita japonesa utiliza coisas concretas, que carregam as características necessárias à representação da ideia abstrata, impalpável, em termos, para dar forma a elas – visuais.
O eu lírico diz “Evitei o/ imediato, a palavra mais cromática.” – ao lermos esses dois versos, há um quebra rítmica da passagem do verso anterior para o posterior (o encadeamento), como se a leitura interropida acrescentasse à primeira palavra do verso seguinte, “imediato”, o significado visual da expressão, associando ao adjetivo abstrato uma dimensão presencial, como ocorre na composição ideogramática associativa. A segunda estrofe, breve compêndio sobre a memória – revela a atenção da poeta em relação à fixação da palavra no poema, o resquício mnemônico é “mais geral” e “também mais súbito”, pois que se pode falar de coisas, como o eu lírico diz, “com relativa evidência”, ou seja, o ato poético não é uma questão, em poesia, de mera descrição imitativa, mas, sim, de apreensão do geral e do súbito, mesmo que a descrição não diminua “a emoção abrupta” do poema – a descrição é um recorte em movimento que obedece ao “rigor evocativo”.
Fiama põe em xeque, como centro das atenções, o momento de “fixação da vertigem”, tal como Rimbaud reclamara em Delírios, em uma Temporada no inferno, o instante de ser e, após ser, sentir e fixar o verbo como uma figura de uma paisagem estranha – a presença ideogramática diz respeito a essa precisão poética de tirar, do diálogo entre o eu e o mundo, um fio da eternidade. O poeta vê-se impotente quando Fiama diz, em A um poema, “Umas passadas hesitantes,/ entre formas vulgares e tão diferentes./ A descrição distante. Sobretudo esta/ alheada distância em relação a um Poema”. Por que Rimbaud se lamentava (fica claro quando ele usa o verbo fixar no pretérito imperfeito, fixava) de fixar vertigens? O ideograma abre, espacialmente na tessitura textual, uma dimensão poética de valor elevadamente imagético – por isso Ezra Pound, ao usufruir desse material como elemento para construção poética ocidental, tentou, digamos, até mais do que Rimbaud, fixar a vertigem. Fernando Pessoa, o tão citado, sobretudo quando lembramos que, da vasta obra lírica (diria, um épico – se fôssemos analisar minuciosamente) em Autopsicografia, o gênio português expressa a maior dor de todos os poetas no recorte feito do poema, a segunda estrofe:
 
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

Fernando Pessoa, Cancioneiro.

A “alheada distância em relação ao poema”, a considero como um dos elementos mais fortes da literariedade de uma composição poética. O poeta sente duas vezes, ou mais, não importa, mas o leitor jamais há de recuperar a vertigem primitiva despertada no poeta, a dor fingida e a sentida, a força ideogramática do poema será representada dimensionalmente – consoante ao talento e a perícia do poeta – para, essencialmente, transmitir, no leitor, o estado primordial de criação. Fiama busca a dimensão, assim como Saigyõ e Pablo Neruda, aqui citados, ideogramática e a exposição virtual, pode-se dizer, do conteúdo poético para que o leitor não sinta a imagem apenas, mas, como ela disse, toque o solo, os cheiros despertados no espaço lunar, o universo dos sentimentos, aliados ao talento do poeta, abre-se outra dimensão. Maiakóvski diz que “A poesia é uma forma de produção. Dificílima, complexíssima, porém produção.” O título dessa coletânea de poemas de Fiama faz jus à proposta – a descoberta de um novo lugar, a toca do coelho onde Alice se aventura, a presença fantástica de uma nova natureza.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.