"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A respeito de um livro guardado




A percepção quase mágica de o canto de um pássaro surgir ao longe de uma sala turva, quase afogado, pelas almas insones, é o anúncio de que uma era passou.
Ninguém o nota à primeira vista, mas seu canto atravessa os muros da desolação.
Foi em um dia assim que me vasculhei – fantasticamente – para descobrir o que havia enterrado em mim. Muitos homens adormecem durante a empreitada, eu, no entanto, resisti.
Nesse processo absurdo, redescobri, em pedaços, a vasta noite do ser, as mil e uma noites – a sobrevivência pela palavra ou a latência de ver poesia em tudo indefinidamente. Quase enlouqueci.
Palavra e homem se tornaram cúmplices de um ritual sangrento e antigo. Decompus os vermes que compunham o tempo de minha memória abismal.  
A dor nos atravessa como a noite e o sangue pulsa pelas estradas ermas do dia.
Não existe suicídio maior do que o ritualizado pelas palavras. A poesia é palavra de salvação e condenação. Os poetas mais impetuosos estão sujeitos a mudar sempre o percurso de sua caótica trajetória.
Para eles, é impossível escapar dessa novidade que nos inunda de máscaras e nos descobre como inacabado perfeito.
Assim escrevi – entre palavras soterradas e mares morrediços – a canção inacabada do ser. Durante muito tempo, cri em uma palavra única – redentora – e absoluta.
E essa palavra misteriosa me absorveu esmagadoramente. Nunca pude medir os danos que ela me causou, e durante muito tempo, só depois de muito tempo, consegui me recompor.
Esse livro é o ápice de uma reviravolta íntima em busca do essencial ou do sucumbido pela superfície das coisas.
São trípticos ou runas – que conjuram a dor, a palavra e a carne. É Francis Bacon, sou eu. É uma promessa infame de um mortal.
Pois, como nos diz Borges, “Só os deuses podem prometer porque são imortais”.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.