"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Procedural



Arsenal para o olhar: uma coletânea de pinturas do artista japonês Amano. Finalmente a caminho. Poderei contemplá-lo em uma linha de tempo mágica, costurada a minha própria linha.
Não existe fim para a cultura globalizada. Os infinitos me desnorteiam proceduralmente.
Os limites desalinham o tempo e existimos pouco diante de tudo.
Há um entrelaçamento entre aqueles enredos e eu. Ninguém imaginaria que as cores de um oriental pudessem iluminar o poente de um brasileiro. São noites, foram noites de sono e insônia.
Há muito tempo, guardávamos os nossos mimos mitológicos e os símbolos de uma cultura adquirida em nossos silêncios assombrosos.
Objetos artísticos, pinturas, vídeos, livros e conteúdos se espalham sobre nosso espírito desaguado e humano.
Não podemos obter nada sem, depois de consumir, utilizar para algo novo, sem reaproveitar, pois é necessário produzir e recriar constantemente, porque guardar se tornou um ato banal de egoísmo, indeferença e ingratidão.
É um mundo da criação e recriação procedurais.

F.G.M.

Comentário sobre o amanhã



A realidade aumentada, a dor aumentada. Troca equivalente. Alquimia.
Tenho a ansiedade de um leão faminto na savana. É uma chaga de outubro que me perturba a alma.
Não posso sentir nada além de futuro e incerteza nesse percurso insano de iniquidades.
Ele se foi – e nem os suspiros de Orfeu puderam sentir sua ausência ao longe simplesmente.
E a cada hora, minuto e segundo em que existo nada em mim permanece – tanto quanto resisto.
A vida – esta palavra com duas sílabas – me condena a viver demasiadamente os sonhos do mundo.
Compartilhar, e adeus!

F.G.M.

sábado, 6 de agosto de 2016

Entrememórias


A cabeça dissolve dragões no asfalto e os meus olhos não contêm a chama.
As luzes da cidade ao longe, guiando vou, assim, vaporosamente pelas vias. Quem era ontem eu? Há pouco tempo uma festa inundou a ilha – e, como um condenado ao silêncio dos inocentes, mantive-me recluso. Dias e dias, eu mesmo em busca de mim.
“Não faça mais isso, você é tão jovem” – e todos os conselhos se enfileiraram em minha cabeça como uma tropa de choque truculenta. Vou te dizer: dói ter sentimento demais pelo humano. Ninguém nos abraça do outro lado do rio – e todos os barcos partiram ao meio.
Assim que fomos, lembrei-me do real. (Não me contive naquela memória e, de repente, tudo se confundiu dentro de mim no poente: a noite, o tempo, as facas; o céu, as cabras e os riscos). Quem estava além de mim ou eu?
Foi no ser de Hamlet. Ali, enquanto sonhávamos o tão ambicioso “ser ou não ser”. Agora que escrevo, não posso deter-me. Eu poderia me acalmar dentro de um poço onde reside a ossada de uma noiva. Sabe, viver destemido na vida como espírito infecto.
Transpus tudo isso e o silêncio dela me diluiu entre esferas. Ruídos, rimbombos e tremidos por toda a carcaça do canto dos homens.
O som – somente o vi ao longe à luz dos angustiados e famintos mosquitos urbanos. Ela me acompanhou entre as nuvens de galáxias subjetivas e apocalipses de planetas usurpados. Foi-se a lei, foi-se a vida, foi-se o tempo em que o novo era novo.
Mexi demais no desespero humano e me vi encaixotado entre camadas de cebola. Assim eu levei os meus e os outros como se pudessem me habitar em campos floridos. Toda vez que os gritos soassem pela alvorada, aves cantarolavam o infinito.
E voltei à realidade, depois de passar por dois postos de gasolina. Quanto chama compactada e viva! Quantos homens à beira da estrada! Eu sei: ninguém é capaz de me ver enquanto estou guiando misteriosamente sobre rodas.
Ah, o duro casco de besouro das relações humanas! Zunindo entre paredes e tetos até nos torrar o juízo! Eu sei: fui breve demais naquele eterno e não pude amar o meu reflexo no espelho. Os homens brincam de adivinhar a aurora após o vivo.
Hoje à noite me recordei de todo o tempo da existência.
A vida nem sente.
O corpo mal pensa.
Nada cobre o pó sobre a mesa.
Tudo ocupa o esquecimento.
Exagerei, mas cheguei ao fim. É assim que as pessoas boas vivem: ou tentam. Nada supera tudo que há sobre nós. E este calor noturno desta cidade celeste!  
Além de tudo, furei um dos pés com carrapicho. Melhor do que um sorriso: um pacote de leite. Melhor do que um amor: idem amor. É o máximo que se pode exigir.
No mais, os meus pesadelos são raios imperfeitos no mesmo lugar.

F.G.M.  

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Dias vão



Pronto para viagem, livros aqui, as palavras da noite, e o sangue. Vi as cenas, e me recolhi à rede, intruso. Tremo cheio no escuro. Afinal, como se chama essa lua?
Tenho a porta e, do meu lado, o céu, aberto à janela, fulminante – me encolhendo ante as estrelas. Conto um a uma – sem medo de me perder no furioso silêncio se, no tempo humano, perder o fio, a ordem, o como.
Metais, papéis, luzes mínimas e zunidos soando na minha pupila roçando os pés. Descobri minha desrazão: nunca serei o que sou.
A poesia é um bruxo que perdeu as rédeas, que se esqueceu de buscar o sangue ancestral para se destruir entre as ruínas do pântano.
Tenho dois livros escritos agora. Mais dois livros de poemas. Escrevi em um ritmo frenético e pungente! Relíquias, minhas relíquias para o fim do mundo. Como ignorá-las? E eu vejo telas, telas, e raios isolados na Sibéria.
As pessoas mudam freneticamente nesse mundo virtual. Quer dizer, agora, as mudanças são mais visíveis do que uma cicatriz no martelo. É preciso sentir, parar, reparar, voltar o tempo, revolver o espaço. E hoje?
Eu ainda amava aquilo. “Amar” é uma palavra forte, porém, se é utilizável, por que não? Era assim que eu me sentia quando eu passava o dia inteiro dormindo até cansar. De verdade, até de tudo. “Você não vai acordar nunca?” – me questionava.
E sempre a mesma questão. O dia claro, a tarde tarde, a noite escura. Claro, “estou dormindo para tentar acordar um dia”.
O sonho de mudar radicalmente a monotonia que hiberna a vida. Ultrapassar as leis e, entre paredes, quebrar-me entre fissuras. Assim, de repente – me triturar em vórtices de ventiladores.
Microesteria aguda: crepita-me uma fagulha mínima, uma febre-estigma, um sujeito-em-crise: lavas e carbono estirados pelo cerebelo, ácidos e monóxidos de carbono ligam-me a paranoia vital.
As erupções ofegantes, a inspiração-memória e a depressão tóxicas – silenciosamente me visitam e à beira da morte abalada dentro de mim como um exercício exausto do grito: levito e rumo...
Esquece. Não, não vale a pena. Quem sabe outro dia eu te conte esta história.
Foi leve. Nada que a experiência humana não traumatize.
Paciência não casa com tempo. Digo: muito tempo. A criatividade perambula dentro de mim, mas não tenho repouso para ela. Preciso de tempo para arranjar os infinitos que me desarrumam a cada milissegundo.
Os olhos amansam.
O dia em branco: veias retorcidas entre ferragens e pássaros esmagados embaixo dos pneus. Uma árvore em chamas borra a mansidão da atmosfera e uma garrafa de café furada derrama bebês e o olho de um furacão na Ásia fecha-se completamente no ar.

F.G.M.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Céu de ninguém



Sangue.
Tons laranja, verdes, e azuis suaves sob nuvens e espaçonaves. Nesse céu estúpido onde ninguém reside – a melodia resseca os tímpanos. Ah, mas haverá solução? Em mais de 17 quintilhões de planetas, infinitos, oblongos, haveria ânimo?
Mais do que tudo isso, a foto do meu rosto nas redes sociais. Sangue. Ela irá aliviar as tragédias do mundo, ela estampará a alegria humana e a superação íntima dos homens. Incêndio.
“Olhem para mim! Eu sou o Mundo, e a Paz, e a Harmonia!” – e ninguém me salva de mim. E ninguém se salva de mim. Sangue. E ninguém é de ninguém. Incêndio.
Incêndio. As denúncias, meu coração não as acompanha. Sangue. Como irei dizer-te sem saberes reagir ao que direi? E o que sabes, que não sei... e saberias, acaso, se eu dissesse?
Sangue. “O tiro saiu pela culatra”, “o feitiço contra o feiticeiro” – nenhum adágio seria suficiente para me livrar deste horror: a vida ou os homens ou as Moiras.
Acudam! Acudam! Sangue. O mar está intranquilo como o peito sem fôlego... Eu sei que não preciso dizer... Mosquitos, golpes e política. Incêndio. Do alto, os mapas pairavam mansamente em sua órbita imensa no sistema planetário.
A maior decepção de um ser humano é, simplesmente, ter suas expectativas quebradas por um crime, seja capital ou social. Incêndio. Violados, como uma lei tacanha nos ressentiu com a melancolia e o amor. Sangue.
O extintor rubro, a blusa gema, o vermelho vivo. A cidade amanhecia e anoitecia na barriga de um mendigo ou na casa de um trabalhador. Ninguém mudava o itinerário. Sangue. Era assim: cada dia foi se tornando um lampejo de tranquilidade e calor.
“Arranquem a cabeça da pomba!” – e anunciaram o terror irremediavelmente. Travaram as ruas, os céus, as almas. Em cada cabeça, um gládio percorria – suavemente a jugular dos homens. Sangue. Interditaram a paz – e reivindicaram a dor. Incêndio.
Incêndio. Estamos amarrados. Amordaçados como feras, ninguém ouve o nosso suspiro – ofegante e lerdo – pela noite afora. Gritam – e nos escapa qualquer chance de continuar.
Quem nos trouxe o medo via invalidez? Sangue.
Chocolates, queijos e relógios. Sangue.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.