"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Símbolo do arcaico caçador


O sono bêbado e o olhar transeunte através da luz e das sombras. Outro dia eu te conto esta história.
Quando comecei a falar, não parei mais. De repente, estava a falar da Arte de amar de Ovídio e de Fromm. Nem sei bem o porquê, mas me acalmava o fato de eu poder falar, em uma conversa de corredor, sobre tudo o que eu mais amo.
Como comecei isto?
A amizade, creio eu, é um dom das fadas desmemoriadas. Que beleza nos guarda o abraço de um amigo sem qualquer intenção, a não ser a do abraço mesmo! Aquele entre corpos. Suave. Intenso. Contínuo. Só de ficar assim, encostado, ao instante de ser.
Mais um se foi. E nós lamentamos a perda novamente.
Ah, que entardecer violento! E violeta, a chaga.
O amanhecer aguarda a bezerra agonizante.
Quem diria que poderia conhecê-las através de relatos imaginários de uma meia dúzia de pessoas?
O mundo é mesmo louco. Eu saberia viver.
Sempre soube que maldizer as palavras por não poder conhecê-las (desregrá-las) é a forma mais vil de corromper o silêncio e, claro, as palavras malditas.
“Estou num estado superior ao das palavras” – não é empáfia demais afirmar isso? E com palavras... malditas.
Kafka afirmou certa vez que, no estado em que se encontrava, era capaz de dizer tudo... quer dizer, com as palavras. Esse sim estava metamorfoseando.
Contudo eu sei que o episódio do inimigo é uma ilusão a três pessoas. Individualidade...
Vejam: eu acordei ontem como anteontem e nem sequer recordo do último refluxo que tive. Como diz o ditado: quem bem está – mal se vê.
Indolência e condolência.  

F.G.M.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Ou outro



Nunca pôde ser quem era – porque não havia um eu. E sua tragédia até então tinha sido nunca existir ante o outro.
Ele sabe que o ignorei involuntariamente, embora saiba que o amo. Mas, deixemos para lá. Árvore infértil, paraíso lendário. O teu sorriso frequentemente lembra um asteroide deserto – ou uma mãe-ameba como um truque-anfíbio. Uma arma ou duas. Nunca uma ciência única.
Enfim, o sinal sem vida. A história conjunta de um período feliz que associamos a um símbolo que nos uniu durante uma efêmera temporada sobre tudo.
Eu disse muita coisa em pouco tempo. E direi mais. Que me aguardem os analistas. Não adianta nos convencermos do contrário: não há misericórdia para vida. Ou perdão. Às vezes me repito diferentemente.
“É isso como aquilo”.
É o sol ou a névoa que não existem dentro de mim. O olhar caído, a expressão pesada, ou a batida estranha do outro lado da rua. Minhas memórias choraram enquanto me dispus com minha alegria. Eu sabia que estava sendo ignorado.
Essa era a minha razão de ser ali. O nada. Ele mesmo evocado enquanto ecoa.
Estive pensando bastante em como podemos ser piores quando sonhamos ser melhor do que somos. É o primeiro aviso da vida. O ato falho esmaga o silêncio. E, de repente, isso. O convite. A noite. O tempo. Susto. Sinceramente, me assustei, mas não poderia recusá-lo. Eu seria o espaço onde ele poderia dialogar.
Impossível conjugar alguns verbos misteriosos. Um deles é o verbo ser. Em qual navio habitam mares e formas obscuras – e sem trato?
Alta madrugada e meus olhos repousam sobre minha vontade como poderosos desastres naturais. Não posso evitar o movimento natural da pálpebra – que me incita ao sono e a lucidez. É outra vez: o ritornelo, a voz que eu ouço de Aires, e as palavras de um jovem invisível.
Quem poderia me trazer um pouco de calmante, daqueles para monstros?
Gárgulas contemplam uma noite estranha na Paris do século XIX. O Brasil é um repositório de fantasmas-molusco de terno e gravata.
Eu me perdi no microscópico mundo-histórico. Eram pequenos poemas em prosa – que me rodeavam a cabeça enquanto eu ouvia e via um ser humano voltar para si.
Eu só precisava de uma palavra para vê-lo naquilo.
O outro era seu algoz. O outro, apenas. O outro. A morte se reveste de computação gráfica, e vive. O outro.

F.G.M.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Os pais invisíveis



As selvas se recobrem de pedra e libélulas. Ao mirar a paisagem de uma habitação terrestre, os animais se regozijam e a aparência etérea das coisas nos torna seres humanos.
Contemplai a existência enigmática de tudo! E há um criador inexistente e invisível por trás disso tudo – capaz de unir, reunir e concatenar o movimento helicoidal dos astros.
E assim vivemos em sociedade...
Os imprevistos destroem nossa alegria, não é, amor? O casal sonhara com seus descendentes – o legado da ventura humana. Um e outro, alegres, sem planejar ou ansiando há décadas, eles reproduziram a vida. Grandes cidades planejadas com o amor humano, o suor, o esforço.
Habitavam o silêncio harmônico das esferas íntimas e patriarcais. A família se fechou em um lar de amor, ternura e otimismo. “Vocês não têm nenhuma obrigação” – e se deitaram abertamente sobre as pernas dos outros. Destruíram ruas, prédios e vidas.
Alegremente, cuspindo na cara de crianças, profissionais e professores, amaciaram as feridas de bebês com insultos e escamas. Ah, “meus belos filhos intocáveis”, eu vos amo como nunca me amaram.
Quem pode nos deter? Quem pode nos amar incondicionalmente? Quem irá buscar forças para nos levar ao infinito e ao absurdo e além? Todos vocês têm a obrigação de amar. E o amor é livre.
Sim, eles poderiam esmagar rios e vomitar pedras sobre o rim dos outros. Eles decidiam como violar alguém – e quando e como. E iam.
O mundo – “meu filho” – não tem limite. Ele é todo seu. De vocês.
Eles caminhavam pelos bosques da redenção e a agonia que lhes inundava o peito se transformava em lírios e doces. “Ninguém pode privar-lhes da realidade em que não vivem” –, assim os pais bondosos abraçavam seus pupilos.
Eles serão quem somos e nada pode tirar-lhes o direito de sê-los.
Enquanto o céu se desfazia diante de seus pés, a sensação de fracasso tomava conta da alma e a vida, áspera como um céu isolado, definhava nos alegres suspiros dos pais invisíveis.
Eles podem nos matar.

F.G.M.

domingo, 10 de julho de 2016

O espaço estranho do ser do espaço



A hora exata é desconhecida – mas a América dava as costas à luz. É nesse tempo que ruminamos sonhos e hipotecamos pesadelos.
Sim, quando as estrelas aparecem, alguém liga a TV para ver a programação noturna. Mas, se vocês parassem um pouco para pensar, veriam que – no Universo inteiro, as famílias – nossas e desconhecidas – observam o céu em busca de vida. Sim, eu os vi.
Como será uma literatura alienígena? Yargo é muito distante do que pensei.
Quem irá acreditar que vi alguém me vendo lá do espaço?
Não, eles não se preocupam com trocadilhos bobos, são mais importantes do que imaginamos.
Às vezes, aparecem em fotos como fantasmas e ninguém pode negar-lhes uma infinidade de atenção. Suas celebridades são da aldeia ou ignoram a existência? Eles envelhecem como nós e tiram fotos agarradinhos e enrugados?
Chamam de tempo o que chamamos de tempo ou cama?
Bem que eu queria saber o que esse homem quer de nós. Onde ele estamos?
Parece absurdo, mas não consigo parar de pensar naquilo.
Tenho receio de como se dará o fim de tudo isso, mas anseio – como se não pudesse resistir – ao que virá depois de amanhã. Exagero talvez seja, mas não me conforto até lá.
Tantas coisas!
Fora do contexto, tudo tem outro sentido.
Até mais, ser do espaço estranho.

F.G.M.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

A uma criança



O crânio falso de minha escrivaninha repousa gratuitamente sobre a realidade do mundo. Quanto tempo vai levar para reabilitarmos o Universo? – pergunto ao mecânico maluco. E ele apenas ri, como se não fizesse parte de tudo.
O ser e o nada de Sartre nunca fez tanto sentido. “Você não é sozinho”, “precisa fazer mais”, “onde você pensa quem é” – começaram a povoar minha cabeça, as frases, e me pus a relacionar o céu e o inferno como Blake. O prazo de validade sufoca meu desejo e não estou à venda. É isso.
Mas é difícil compreender quando aquilo que foi feito para proporcionar prazer já não consegue mais suprir nossas necessidades. Esgotamos qualquer tratamento sanitário de entretenimento! “Neurose” –, eu me pergunto, como assim? A conexão se encerra. A fonte emperra e, mesmo que volte, já não abastece mais.
No livro das pretensões, todo homem é um anjo. Só de pensar (a luz é única como um girassol num campo de concentração íntimo), há tanta coisa para ansiar no instante e pairam sobre mim – um espanador discreto entre folhas e papéis e apitos dispersos os meus cavalos selvagens vão e o boneco de neve cai, cada vez mais, cai – deformando a si mesmo e o mundo.
A pressão gira pelo ar – e a TV transmite um desenho animado estranho sobre dois animais. Amanhã é o inevitável para mim e o ser eterno oculto em tudo está em mim. Que narrativa há em mim que não pode ser contada? Não sei se há espaço para nós... os meus amigos se esquecem disso. Abusam de mim e eu não suporto deixar saudades.
É como um grito de alegria: nada pode trair a espontaneidade disso. Ergo a cabeça e suspiro paulatinamente para retomar o controle. Ei, por favor, me entregue as chaves. Ponto. Sem inconveniência.
Tudo isso porque não vejo futebol nem bebo cerveja com os amigos. Não mereço tanto.
E o dia entardece em mim – através de sombras e cansaços, toscamente. O meu passado? Presente? Futuro? Alguém dorme na sala e murmura e, às vezes, quando ouve passos ou sussurros, diz: é isso. E nada mais lhe sai da boca depois de um suspiro, seguido de sucessivos roncos e idiomas esdrúxulos. A minha vida foi colocada num cheque sem fundo.
Exato. Por quê? Onde estamos satisfeitos? Quem nos procura no céu?
O calor assoma os cílios. Devo ter perdido tempo demais revendo o futuro; ninguém me trará o sinal – e ficarei, como ficam os espíritos repletos de livros, cheio de insolação após uma longa temporada de enjoo no silêncio.
O elefante amarelo se foi. A casa paralisa a rua. A serpente enrola o quarteirão no vácuo. Eis-me aqui simplesmente só. “Escreva mais sobre...” – o que escrevo... encerra aqui.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.