"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Cômodo


Nunca pude viver entre grades e currículos. A minha vida se deu por intervalos de fuga e irresistível ansiedade – arritmia, perca de peso – e fome. Mas eu precisava de tudo aquilo para viver. Foi necessário. Era necessário. É necessário. Síntese.
Assim me convencia. Dia após dia – o meu sermão diário.
O telefone toca. O som vibrante me perturba, porque não posso atender ao seu chamado. Quem se angustia do outro lado da linha? Quem... Parou enfim. Voltemos ao som natural das coisas.
Lembrar é um luxo, assim como se acalmar entre desesperos. Hoje não será o dia para pôr ordem na casa. Continuemos.
Sombras de folhas de janela ao fundo invadem o topo da tela de meu notebook. Os galhos tremulam ininterruptamente. Não sei se teremos água daqui a alguns meses. Minha sombra cobre o mundo. Parecem uma torcida desenfreada – as folhas se remexendo ante o céu.
A sensação agora é de tranquilidade – e ouvimos o farfalhar dos corredores como um suspiro de um ser vivo sadio.  
Quando ela irá me dizer que “tudo passou” como uma bela manhã de junho? Relativamente, tenho receio de quartos pequenos e coloridos.
O celular vibrou tarde. Mas valeu a pena.

F.G.M.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Fogos de artifício



Lua um raio lâmino no céu-boneca. O sangue extinto de uma fera arcano – ainda nascente. Anseia relógios-de-fogo crepitando ares: lodo do homem. Acalmem o gérmen do caçador. Acendam a lanterna.

F.G.M.

domingo, 26 de junho de 2016

Poesia e loucura: o que me sou



Na voz – juízo de silêncio, casca, as artérias suspiram luzes e sombras. A pluma, o chão, o peso, a palavra, o chumbo, o teso. A tragédia de meu desnorteio: “parece-me impossível um poema”, “parece-me impossível uma saída”, “parece-me impossível esta vida”.
O “infinito” de Leopardi. A lua, oh lua! Rugi em esferas de alteridade e indiferença. A presença da poesia latente e dissoluta. A arritmia constante de minha vida diante da morte.
Longe seria uma palavra “distante” para mim – se não houvesse longemim. Quase perdi os dados ou me lancei ao acaso de abismos irrevogáveis. Precisei parar um tempo com o meu transe poético ininterrupto. Estava vendo demais do outro lado do labirinto.
Tirei férias temporárias de toda a intensidade que me buscava. A silhueta do tigre já estava espreitando a suculência de minha sombra agonizante. No entanto, fugi e escapei de toda a sorte da loucura e da melancolia.
Foram longos meses. Assim, minha condenação estava suspensa até segunda ordem. Respirei como um recém-decepcionado após a resolução venturosa de um equívoco absurdo.
Mas não poderia fugir ao que me pertence sanguineamente. Seria improvável escapar. Ela me acompanha serenamente entre sombras, escombros e louros. Sempre me recompensa: para o bem ou para o mal. Nunca me deixa completamente só e age como uma presença inacreditável – que não posso evitar –, e finjo estar livre dela para não ser.
“Eu li um poema seu” – disse-me e logo mais “e tive outra leitura dele”. Ah, os meus poemas. Quem eles são fora de mim? Agora, vários poemas repousando em mim. Uns escritos, outros misteriosos. Depois de um tempo, pude me deter ao que me nutria fortemente – em tempos de indiferença e insensibilidade: o silêncio e a solidão.
Pude retornar ao estado inicial das coisas e, simplesmente, ver. Haja paciência para ver por fora o que não se pode ver por dentro. É a dobra indelével – o frágil retorno ao paradoxo de tudo ou, talvez, ao nada. Mas ainda existe muito por dizer e resta pouco a calar.
Tenho a convicção de que não encontramos ainda aquilo de que sonhamos ou somos feitos.   
Quando a poesia repousa em meu coração, o silêncio faz vigília na minha alma. É o sentimento de exílio ou partida que me acompanha durante a temporada de pensamentos contrastantes. É a noite que deita junto ao colo da lua e espera meu uivo na arribação dos astros.
Cada sensação me embrulha e me reservo, intranquilo, mas paciente, entre meus aposentos e as palavras, as que me perseguem, fazem-me quem busco. Sou retalho de um espantalho tonto que tenta, como um nômade, pôr fim a sua jornada excruciante. Ela está entre nós.
Irmã forasteira.

 F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.