"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Aparição diurna



Nutri-me de tristeza controladamente. Fiz-me melancólico como um visionário errante que perdera os dons que os deuses lhe deram. Vi-me cheio de dor – e já não podia mais fingi-la a meu favor – e quase cedi à doença dos fatos. Entrei por uma via perigosa e receei jamais voltar a mim ou, quem sabe, aos “eus”. Aqueles de que nutri grande estima, praticamente, sumiram e negaram-me – ainda que de maneira indiferente – a força e o impulso de acreditar nos outros.
Contra tudo – e só – combati. As intensidades atuaram sobre mim como um jogo perigoso de vida e morte e só pude sobreviver a tudo, porque algo pior se apoderava de mim – e eu precisava vencê-lo.
Eu precisava urgentemente. A palavra “repouso” deveria ser eterna. Eu precisei de um – depois de me envolver intimamente com aquilo de que sou feito: insanidade, verbo, sonho e ventura. Foi um golpe inevitável o que atingiu a todos nós: nos descobrimos piores e não conseguimos retroceder ao início que nos compelia sempre ao fingimento e à irresistível realidade das aparências. Exercitei, por muito tempo, a vida – para poder resistir aos infortúnios de ser e não ser.
Temi o futuro e questionei tudo o que poderia me acalmar. Quase perdi o eixo e me elevei ao nada. Aquilo que li nunca me abandonou na loucura. Escrevi constantemente e, quando muito, durante a noite inteira me perdi no redemoinho de palavras labirínticas. Busquei como qualquer coisa que busca sem propósito ou finalidade alguma.
Quase enlouqueci diante de tantas mutações verbais e transporte de corpos. Foi difícil suportar transições entre mundos – e me convencer de que eu não estava totalmente perdido dentre as muitas devastações. Segui, mesmo combalido, por entre o silêncio dos que rugem instintivamente por uma vereda sem princípio nem fim e o ruído daqueles que se perdem ao sol.
Jamais cedi à palavra fácil de um agrado efêmero. (Algo me resgatou desse crime estulto durante o período em que eu agonizava inerte) e segui – livre de uma melancolia que se tornara as sensações de meu tempo.
E o silêncio de uma geração de escritores que não obedecem ao ritmo fácil ou aos imperativos lúdicos de um mercado e sociedade patéticos recontaminou meu dia.
É difícil fugir quando te procuram insistentemente. Não posso escrever como se come doces – leitor-sujo. É impossível ver-me diante de ti – como um dançarino estúpido e apolíneo no baile engomado dos encontros literários. Tampouco, eu sei, me agrada a farsa dionisíaca daqueles que morrem dentro de seus sistemas ultrapassados de teoria e vanguarda. Não posso resistir a isso quando me coloco como alguém que apenas viveu como um herdeiro do sangue antigo dos canalhas.
O líquido amaldiçoado dos que não vivem em paz – de corpo e alma me serviu de cálice e ruína.
É a noite interminável sob meus olhos que me faz ver o destino dos homens através de uma cegueira descomunal e humana, que se espalha por tudo o que sinto ou penso. Não posso ser o bastante que transborda toda vez que escrevo ou leio ou vivo. Algo me atravessa impassível e talvez só me reste um pouco de delírio no meio de tanta afasia. Não posso suportar aqueles que escrevem para fins avaliativos (ou elogiosos à maneira vil) – eu vos digo – é o fim.
Nada me convencerá de seus impulsos caquéticos e infames, nunca me chamarão ao desespero que tracei para minha leitura (desde a mais simples até a mais complexa).
Eu compus um canto estranho na escuridão do dia e ninguém me ressuscitou quando supus viver.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.