"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Loucas fantasias



Eu tenho percepções intrusas. Confesso: costumo enganar as pessoas através do meu senso de ilusão – aliás – inato a qualquer ser humano. Antes de agir, as pessoas precisam esquecer que estão vivendo neste mundo de limitações.
Infindas. É por isso quem sei quem eu sou: porque não sei o que faço.
Assim, superamos a Bíblia e os contos de fada primevos. Assim a primavera se cobriu de um fantástico cortejo de cores e formas – cuja palavra jamais pôde alcançar há séculos.
Mas não é sobre isto que iria narrar, de fato. Nem sei bem. Tudo é um desespero de momento que não podemos controlar – em verdade. Apesar disso: tenho a dizer sempre algo cuja noite não oculta nem o sono mais profundo pode transformar em sonho. É de uma matéria tão densa e frágil que as palavras simplesmente compõem toda a substância do mundo, efêmera.
(Nem sei como).
Ninguém suspeita de corpos jovens passeando de mãos dadas no escuro. São animais ferozes, elétricos, excitantes. A inocência que os rodeia excede o sentimento de culpa que eles carregam, inadvertidamente, do pecado original.
Todos víamos o quanto éramos infelizes. Foi uma questão de tempo eu me sentir inclinado por uma aventura proibida e louca. O mundo parece induzir todos a isso. É uma grande orgia mental torturando o seio das famílias.
“Fora a vida, cada poema é como uma festa” – foi assim que me deixaram. Seu amor por mim exasperou. Não há como saber a verdade – esse é o problema –, o que não pode acontecer e sim. Nem me abri – estive em silêncio por tanto tempo que me esqueci de dizer-lhe sua maior mentira.
Eu.


F.G.M, dia 26 de dezembro de 2015.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Noite de erros



Nesta noite intensa em que me atiro ao silêncio destas palavras – nunca deliro, nunca invado ou inativo uma sentença sequer no corpo que vaga sobre a superfície do meu ser.
Antes de continuar, uma observação: nunca toque nas feridas dos outros quando você estiver sangrando. É preciso antes ser sincero com suas próprias feridas.
Hoje mesmo me pus à prova: por que me coloco sempre contra o tempo, e nego qualquer imagem que subestime minha ilusão efêmera acerca das pessoas e do mundo? Os erros me aparecem constantemente como fantasmas sem contornos e não sei como lidar com tais entidades.
Uma vez pensei ser o mais impecável dos homens e a mais atenta criatura do planeta. Ninguém sabe até que ponto suas limitações podem ser sinônimos de excelência. É necessário perceber o quão pequeno se é para rever.
É daí de onde partem os destemidos e valentões de outrora. É como um grito de “urra” bem dado naqueles que se buscam ao redor de tudo – e não são capazes de perceber o círculo concêntrico que os inunda.
Há vinte anos, vi, como ninguém, tanto navio arder sem chama em um mar baldio de tensões. Eu não sei como desfazer o que não comecei. É um tormento partir da volta.
São palavras que me destroem minimamente e às vezes me estranho como partes. Eu posso ser sincero comigo mesmo, mas não vale a pena surgir neste mundo – é um grande engano crer no contrário.
“A vida esmigalha caveiras ocas e chaves tortas se você se reconhece entre estranhos. É como uma chuva sem trovões, silenciosa e célere, que derruba os seus dardos na terra seca: você se desfaz lentamente no instante em que desaparece”.
Aquele comentário que escapou da narrativa nunca será esquecido por mim. É o lapso autoral, é como se o narrador dissesse ao seu espectral leitor: eu – tenho de dizer isto a alguém – e, para isso, tudo deverá ser interrompido, até esta história.
É isto que farei aqui. Deter-me-ei apenas ao lapso.
Observo, com certa parcimônia, o futuro. Não como alguém pleno de suas convicções infalíveis, mas como aquele que se encurrala no meio de leões. Bem assim: será a minha vez ou a deles – e ponto final. Nada pode roubar esse instante de vida e morte.
O máximo que posso esperar dos outros é sua inoutridade e nada mais (reforço). Esperar uma resposta do outro é como esperar um amigo no escuro sozinho à noite na rua. Todos os pensamentos que nos povoam durante essa espera são os de crimes, violações e pedidos de socorro. Cada vez que um surge, é um salto infinito na consciência e poucas vezes retornamos lúcidos do susto. Eu sei: você já tinha pensado nisso.
Lembro-me até daquela vez que você se surpreendeu com um presente. Foi estúpido lembrar, eu sei, afinal, eu não te conheço mesmo. Daí a dúvida ou dádiva de se entrechocar com os outros, mesmo distantes, arredios ou intangíveis. Daí a vida varrendo você dos escombros.
Ah! Todos aqueles que, por força do hábito, pararam um segundo para pensar no que tinham lido. Sim, esses, eu não só os admiro como também compartilho da mesma sina. São como amigos de esquina, que nunca se conhecem de verdade, mas se reconhecem nas conversas.
Inútil ignorar que eu sou amplamente pequeno. Não sei me comparar a aves ou a embarcações. Tento, quando muito, me tornar a sombra do que fui ou nem isso. De longe, passa a ideia etérea de que eu poderia ter saudades da infância. Qualquer saudade é uma palavra ausente nos outros idiomas. Não posso me ler fora.
Meu esforço maior é por conter o tempo que me arrasta impassivelmente para a última noite. Esse mesmo período de tortura e medo é o de alegria e folga. Nada se resolve dentro de meu conglomerado de empresas falidas.
Meus sonhos são prenúncios de fechamentos internos e – dada à limitação do meu capital – me resumo à inutilidade diária de me render ao que não sou como um inocente no corredor da morte confunde homens e deuses. Meu boneco de neve derrete lentamente e sua massa espessa de gelo fosco e denso parece descobrir o esqueleto que restou de mim.
Assim, o mundo convive absurdamente comigo e ignora.
Puro colóquio sentimental – dirão os mais identificados com o que digo; ou aqueles mais indiferentes talvez falem de uma “tremenda perca de tempo”. Talvez seja. Ambos têm razão: ninguém deve prestar o seu tempo à mera reprodução do pensamento do outro.
É preciso interagir. Não é assim que falam as teorias modernas da comunicação? Eu poderia estar pastando em alguma savana à noite por estas horas, mas me fizeram homem – sujeito, e linguagem. E o que faço agora? Estou pastando, mas com palavras e ideias a paciência de qualquer observador desocupado que me viu ao acaso. Foi um momento único – e tudo passou. Vamos lá! Amanhã é dia de bronca, café da manhã, afazeres, festa.
Agora o meu estômago estala como a hélice de um helicóptero em declínio, em bramidos paulatinos, bem brandos, e sem estilo ele se desdobra do meu umbigo até aos ouvidos tinindo o espatifado sonoro.
 Escrever, para mim, é uma forma de dizer basta ou bosta. Aliás, mais um.

F.G.M.


sábado, 12 de dezembro de 2015

Res posta



Um bom leitor é difícil de encontrar.
Pela manhã um sol estranho atravessou as páginas de um livro que lia. Era um romancista russo. Sua narrativa sem frescura ou artifícios arranhava a luminosidade desse sol – dourado e sem literatura.
Sem apresentações constrangedoras, não havia descrição possível, nada era capaz de tirar o fluxo daquela história curta e grossa, indiferente – até certo ponto – à ingenuidade do leitor.
Acontecia.
Aquele livro negou minha presença e se fez luz. Quando parei para lê-lo, a história já estava ocorrendo e eu cheguei totalmente atrasado para o enredo. Não se pode acompanhar esse raio-escrita.
Como leitor, me senti estranho e frustrado. Queria carinho, partes íntimas exageradas, faces, bocas ou cafés sociais.
Eu queria era mesmo a descrição inútil, o puro exercício do desperdício, o exagero na caracterização dos personagens e as frases feitas ao estilo comum, o pão do mês passado que não virará torrada, coisas afins.
É isto mesmo, leitor. Agora é minha vez.
Sua frustração nunca excitou minha libido.
Seu instinto de “justiça” nunca passou de desprezo ou violência pura – em seu estado mais cruel de humanização monstruosa dos ritos de destruição.
Mesmo impassível, te desejo todo o desespero do mundo – porque sei que é isso que deseja de nós, meros reprodutores das teorias do acaso e da necessidade de Monod.
Te agradar me daria nos nervos, juro.
Nem o faria, exceto se – um dia – você pudesse me trazer mais uma taça de vinho ou, se calhar, uma noivinha gelada.
Jamais me impressionei com sua presença, leitor. Uma vez, ainda resistente, pensaste em ler-me e desististe. Por que não me abandonaste? Foi um verão tão quente, baby. Mas suas ideias não poderiam resistir às minhas. O seu corpo era vestígio de pegadas de neve na Mongólia.
Nunca pude sonhar contigo na cama, porque você não tem nada a ver comigo, sério. Essa coisa de “público-alvo” não passa de um faz-de-conta sincero, eu deveras não me importo com você absolutamente não.
Quando passares, indireto, nestas cercanias, não intencione espanto. Seria demasiado desnecessário fingir o que finjo. Somos todos Pessoa, e sem concordância, não é?
Eu não tenho “mensagens” à moda da casa. Sirva-se de desprezo, rejeição sexual e ausência de sentido quanto à vida e às pessoas e tudo. Tu és cego (no sentido pior) e se, por acaso em algum tempo, vieres a ver isto - assustar-se-á, leitor.
Eu sou o Desajustado.

F.G.M., dia 12 de dezembro de 2015.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A cópia rasa ou nula



Nunca se envolva com a totalidade do mundo.
Tive cuidado. Jamais supus que um dia eu não pudesse mais alcançar seus olhos. Era instantâneo – e intenso – o seu jeito de distrair a realidade com figuras cruéis. Entre nós havia o sentimento de vítima e assassino; mas eu nunca pude roubar sua voz.
“Eu me diminuo a ponto de multiplicar-me”.
Dava prazer o padecimento ou o flagelo da criatura que – equivocadamente – se dizia “homem”. Seu sentimento de temor e deformação se equiparavam à da modelo deplorável e bela que se desfazia na boca de um amante soberbo.
O teor de suas arguições, a ironia, o sarcasmo e o prazer. Sade e Grey num só singular organismo.
Estava acima dos outros o seu abismo.
Era um céu de desesperos ou uma nuvem de arribação.
Nunca tão puro.
No corredor ia essa massa envolta em juventude e óculos espessamente encolhida entre as alas e como um giro rotundo em torno dos ângulos agudos vazava um deus incrédulo de si mesmo.
Ternurava fé. Por aonde ia, discípulos dispostos e contornáveis ao tom de seu lampejo de nulidez.
“Era demais” e expansiva como um cartão de visita. Lembro-me sempre: continuamente, o seu silêncio era o intervalo de contradições.
Quem assim se põe, ignora a teoria do ovo e da galinha.
Após o auge, o ápice – o cúmplice oblíquo – através do qual ela se afirmava entre outros, o seu império de teorias plásticas deformou sua voz e pela primeira vez seu corpo se afastou dos outros esfuziantemente.
De repente ela se perdeu entre salas e corredores como um animal repreendido pelo pânico e assomado pelos olhos. 
Recuou cada vez mais, útero, átomo, espírito.
Em sua alucinação e paranoia, dobrou o silêncio como uma maciça barra de ferro dobra as costelas da noite. Seus olhos fundos e negros como uma sombra no deserto, de repente, se fixaram – rígidos suspiros – em seu objeto de maior consternação: o outro.
Não durou muito – e ela se fora entre as árvores pálidas, como uma presa fácil e ágil através do breu. Ninguém poderia negar: onde ela estivesse, nada havia ou retornava. Uma vez, desatento e desajustado como um ingênuo amante, desisti de vê-la.
Foi o fim de uma cópia rasa e nula de um ser extraordinário.

F.G.M., dia 10 de dezembro de 2015.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.