"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Expiação



As coisas de longe me observam arredias formas de ignorar-me ou da finitude das indiferenças. Assim começam os eternos. Assim termina a queda.
Apanho migalhas, cabelos, pelos e fios. Embaralham-me em suas mãos os cretinos e as cafetinas em um salão sujo e absurdo.
Agora mesmo – ao pensar em mim – sinto-me perverso.
Quando alguém me pergunta se estou bem, tenho dúvidas ou respostas incertas sobre o real significado de estar bem. De repente, é uma notícia. Às vezes, uma injustiça. Ainda mais: um descaso ou até mesmo uma decepção.
Sofro de inadimplências afetivas. Algo me parcela no peito – e ninguém me defende no pleito. Me suspiram. O manual do êxito é uma estranha forma de partir goela abaixo.
“Os dias passam” – dever-se-ia dizer ao acordar. Sobretudo, quando eles voam. Vareiam. Varam.
Saímos para beber um pouco. À noite, clara. Zunia. Meus olhos estavam vermelhos e secos. Meu peito palpitava lerdo. Entre um idioma e outro, o silêncio. Não comunicávamos. Era léu.
Não me impressiona. Nunca me feriram os leopardos ou as ariranhas. Exceto os humanos, não tenho nenhum predador natural. Me arco.
Ninguém nega: o maioral sem tetas nunca descobre os desníveis do tempo. Ele baba, borrifa, mar, céu e lost: intangíveis lamparinas.
A astúcia de quem odeia a si mesmo chega a atingir patamares de ódio contra o outro inimagináveis. Imagine uma mulher. Um menino. Um jovem que atravessa seu passado através de marcas, produtos e lojas. Do seu lado, como um rodamoinho violento, filmes & cacos culturais ou revistas, e atrás de si, suas memórias de não possuir.
Ele traja o silêncio-sem-rumo. O caminho-daqueles. Ninguém supõe que sua ira vulcânica é tão branda quanto a superfície de uma chama nos dias de Sol.
Inevitável próximo. Esse começo sem fim essa aurora de pedra essa gota de água veloz.

F.G.M.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Retorno


Escuros tecidos na pele. Olhos no olho da escuridão. Braços apertados em laços. Poeira, sujo e chão.
A respiração veio à flor da pele. Sufoquei no silêncio os pulmões magoados. Me torturou no leito. O lado ficou avesso. Tentei escapar, debalde. Uma luz ou outra – entre os corredores, se perdia. Mãos atadas, como pude. Apostei que iria sair dessa. Nada pode me agarrar aqui.
Um ombro deslocado me fez recordar da primeira vez que caí da árvore. Agora rói e roça couro e pele e carne. Não aguento o fremir de meus olhos. Atravesso meus pensamentos como uma presa em fuga.
Eu me esqueci de como amaciar as palavras em vão. Agora as sinto e as sou. Podem aliviar: o desespero, o susto. As sou.

F.G.M.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Bicho-grilo



Ele não me respondeu algumas palavras e eu pensei: mais um imortal, outro highlander. Nunca dependerá de mim, por que se preocupará? Aprendi que as pessoas querem fazer sucesso sem se importar com os outros.
Um elogio: e zás! Eis toda sua fortuna crítica.
Isso é cruel, porque – vamos ver – o que é o sucesso? Com certeza, não é o reconhecimento de si, mas do outro. Quer dizer, aquele que não reconhece não é reconhecido.
Foram muitos dias pensando nos comediantes auto-profetas, quase-deuses desmiolando Atenas.  
Senti que podia haver irmandade no deserto. Não foi o primeiro. Aquele riu de mim por ser imbecil. Um irmão. Um ninguém, como eu, ó tu, eu sei lá quem que escreveu qualquer coisa por aí.
Recusei a tantos convites virtuais que me tornei um anti-social-virtual. Fiquei recluso como um evangélico em sua loucura diabólica. Só não postei sandices, como: colocar fotos em redes sociais tentando provar a religião através da ciência, e não de Deus; ou até mesmo selfies sábias de mim mesmo.
Tive certo controle sobre minha imbecilidade – apesar de já ter perdido a paciência com os filósofos lerdos – os fora-de-controles, os pavões-poeta.
A primeira viagem que fiz foi: meu Deus! Quanta gente nova e quantas ruas! Depois disso, percebi que muita coisa era inventada e, boa parte das ruas, intransitáveis. Me perdi algumas vezes, ronquei à noite, e prendi a urina para prolongar uma conversa.
Nada se equiparou ao dia em que resolvi abandonar o ponto de vista do outro e me colocar, único e exclusivamente, no centro do Universo.
Foi o início de uma era estéril. Não era algo como a individualidade, que é boa, mas, sim, como o isolamento deturpado da alteridade em ruína, ou seja, tv por assinatura.
Era o anti-pequeno-príncipe, o anti-responsável. O mundo fora alijado por esse tipo de gente – e ninguém sobreviveu após.  
O comportamento das pessoas poderia ser estudado por um fantasma. Ninguém observa como o umbigo cresce com o tempo. Impossível notar a sombra que nos cobre quando queremos nos mostrar muito mais. É inegável a presença da ausência (um texto só é um texto se nele há um clichê) quando queremos nos sobressair em tudo.
É aquele silêncio que te faz esquecer a porta. Ela está aberta, embora saibamos que Walking dead e aikido não tenham relação alguma, faz sentido.
Agora estou passando por um dilema crucial: vou me casar e tenho poucos amigos. O que fazer com os invisíveis? E os meus livros, quem vai calar-vos?
Memória: nunca me esquecer dos que nos esqueceram. Assim me recordo de todos e ninguém é reconhecido.

F.G.M., dia 02 de novembro de 15.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.