"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Resenha: A História da Menina que Carregava Os Olhos na Mão


Kelson Oliveira é um poeta, autor dos livros de poemas Quando as letras têm a cor do sonho (2007) e Para comover borboletas (2010).
Ele é também pesquisador, mestre e doutor (deveras) em artes de palavrar. O seu olhar poético soa como o de Manoel de Barros, seu poeta-mor. A sua forma de ver concretamente as coisas através do verbo talvez tenha influenciado – de maneira sensível – esta narrativa: a história da menina que carregava os olhos na mão (2015).
O mais novo livro de Kelson O.
Pelo título do livro, além do elemento fantástico, “os olhos na mão”, pensei em milhares de coisas e referências que poderiam dialogar com a sua obra infanto-juvenil. Os olhos representam muito na Literatura. Podem ser os olhos dos ciclopes, das Moiras, os olhos de Titãs, o olhar de Orfeu, o olhar de Quixote, a ausência dos olhos em Homero.
Os olhos, de certo modo, trazem um olhar sobre o mundo, e esse livro é sobre tudo um pouco se você olhar bem. Lá, podemos encontrar temas como preconceito, amor, aparências, cosmovisões, realidade escolar, mistério, família, entre outros.
Os olhos da menina Yasmin, protagonista do livro, são especialmente singulares e ela os guardava em diferentes lugares (ora na mão, ora nos bolsos). Com o espaço do seus olhos na face, ela lembrava “uma personagem de mangá sorrindo”, assim descreve o autor.
Ela é capaz de tocar a todos, inclusive a nós, leitores, com suas palavras pluri-visíveis, polissêmicas. De cara, nos identificamos com a protagonista, sua carisma salta à página e a acompanhamos, atentos, para o que ela iria dizer ou fazer na história, algo que, com certeza, não era comum nem banal, mas extraordinário.
Sua presença era marcante. A capacidade tátil de ver as coisas fez com que ela pudesse atingir a todos antes mesmo de ver ou ser vista. O narrador, personagem que simpatiza com a heroína, aos poucos, tenta descobrir quais são os seus segredos mais íntimos e o porquê de todos a ignorarem, e até fazerem chacota dela quase sempre.
Nessa jornada, ele acaba se tornando o protetor de Yasmim, impendido que Luiz Borges – o antagonista –  e seus amigos mal encarados a enxovalhem. Nesse episódio do enfrentamento do narrador, o mais interessante, à hora da discussão, é a quase incapacidade dele em dizer, falar, dar uma resposta dura e convincente ao Borges, uma resposta que fosse capaz de fazê-lo recuar ou ceder.
Yasmim, de certa forma, o ensinará a dizer/olhar para coisas como ninguém e ele será aquele em que ela irá confiar e confidenciar tudo aquilo que pensa e gosta, e ama, e diz, e vê.
Além do mais, o livro de Kelson é uma bela parábola/metáfora sobre como as formas de amor podem nos atingir inesperadamente ou emergir das adversidades.
A jovem Yasmim tem algo especial, como aponta o título do livro, é diferente, por isso incomoda, perturba, faz pensar, desafia. Talvez essa diferença que a rodeia seja o elo pelo qual nós, leitores, embarcamos como o seu reflexo. Aliás, as iluminadas ilustrações do livro, feitas por Marcos Queiroz, completam toda a história e fazem um  show à parte.
A narrativa do livro é bastante clara, flui, os diálogos acompanham uma coloquialidade bem natural e verossímil, e as intervenções do narrador não atrapalham nem turvam o fluxo da história. O binômio ver/tocar, sem dúvida, é um dos pontos cruciais da história e este humilde leitor recomenda a leitura.
F.G.M.

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definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.