"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

domingo, 31 de maio de 2015

RecifeOlindaRecife: desobediências



Recife ou Olinda, olor de cais & víbora, vibra silêncio acobreado nas alamedas da cidade, sibilam memórias do futuro, ruas cheias de casas coloridas, bordadas, asas de uma aurora antiga e prematura, como uma cantiga interminável no peito. Horas de mata atlântica na vista, os olhos de um povo marcados pela noite e pelo concreto espiam o tempo através da arte. O maracatu marca o ritmo marítimo e urbano dos ateliês brasilienses, e soam como um canto de guerra a bravura da paz e o orgulho de um povo sagaz cheio de engenho e estandarte. Crepúsculo, incenso, e abjeto torpor indivisível em nosso corpo – suspira a lira de uma canção do mangue, a rota pela qual atravessa o Capibaribe em nossa alma eterna e escapam de nossos sentidos a solidão & o vazio quando ouvimos uma lembrança no ar revivida de Olinda e Recife. Desobediência poética, política e tecnológica.






F.G.M.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sobre ler e preferências



“Quero ser o que passa”, leio Lêdo Ivo em meio ao seu universo poético flutuante, solto e ao mesmo tempo atraído por uma longínqua realidade literária brasileira. Nada como passar a tarde vendo filmes e lendo poesia. Cada verso é um feixe de luz que se mistura à escuridão de ser só.
Eu me pergunto: por que não ler poesia? É um saber proibido, como em O nome da rosa? E não entendo a razão pela qual as pessoas se recusam tanto a encarar um gênero literário tão expressivo e condensado, explosivo e incisivo, por vezes grave, ora tenso, cômico ou trágico, inevitavelmente humano como os diálogos em Um sonho de liberdade. É inquietante imaginar que um poema cause tanto estardalhaço em nosso ser, que preferimos não inquiri-lo ou ouvir através de a outra voz.
Um poema não pode ser equiparado a algo inacessível, guardado a mil chaves obscuras, como uma fórmula secreta de um produto industrial. Primeiramente, ele não tem fórmula – eis a questão. Em segundo lugar, o leitor, como todo bom ledor, é o arquiteto e o chaveiro da Matrix. Ele é difícil, no sentido de ser difícil para uma realidade ou um sujeito sedentários, ele desafia sonho e realidade como em A Origem, ele chama à aventura quem a ele se entregar – por livre e espontânea atração ou arrebatamento, êxtase, furor. Suas possibilidades são imensas, uma vez que todo ser humano é infinito transitório, nada o entrega, o sentido não está, ele é agenciado.
Às vezes, posso me identificar com um poema, mas isso não deve ser regra geral para que eu o leia e permaneça fechado para a diversidade da palavra em poema, das infindáveis poéticas. É um engano se deixar levar apenas por uma questão de gosto imutável, imóvel, ínfimo. É preciso expandir – e reconhecer o que há de bom naquilo que extrapola minha percepção e que precisa me transportar para novos horizontes.

F.G.M.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Felipe no País das Maravilhas


 
1

Nós viemos para cá para te ver, Alice! – e o dia era daqueles piores, o céu meio rosado-roxo, e as árvores indolentes na paisagem. Eu me sentia como um homem-rato dostoievskiano, levei minha especiaria para lá e disse – de todo jeito:
- É que nem morder o céu sem dentes!
E no meio do meu embaraço, o Coelho correu “olha o tempo, olha o tempo, olha o tempo” – e tropeçou, depois de mil volteios, na cartola-mágica do Chapeleiro Maluco e Alice, segurando o vestido depois do furacão, disse-me:
- Eu sei, eu sei, eu sei, tá olhando o quê? – nem percebi que fui tão indiscreto, fiquei ruborizado, até que vi... e nem hesitei:
- Que delícia! Veja... – depois de olhar pensativa, me interrompe bruscamente:
- Como é?
- Não, não, não!
Levei três tapões na cara e nem descobriram qual era o sabor disto!

2

Vou para as Terras do meu Avô Zumbi. Como dois gordishakes no caminho com a minha especiaria e desisto de ver TV Et por duas semanas, até a vinda do “Apocaliiiipse Zummmbiiii”. Vocês sabem do que estou falando, né?
- E aí, Felipe! – já não me lembrava mais de quem estava falando comigo, conhecido?
- Oi...
- Não se lembra de mim? – eu nem estava interessado na pessoa, pensei em dizer que eu ia “estudar muito” ou “capturar um suspiro na praça” ou “esfriar a cabeça de um suco de laranja”, mas resolvi dialogar em tom de alto-astral:
- Claro, sei quem é você, do que você precisa e do que é necessário para você! – ele me olhou de sobressalto, fez cara de que desconfiava daquilo, e me perguntou:
- Você é o cara da Alice?
- Por quê? – retruquei raivoso e ele me falou, quase ironicamente:
- O da mudança?
- Olha, estou muito ocupado, vou para as Terras do meu Avô Zumbi.
Deixei ele falando sozinho e parti.  

3

Sabe o que fizeram comigo? Nem te falo. Veja só: “Naquele dia de sol sem brilho eles me nomearem e depois nomearam o outro povo para os dois se oporem – em detrimento de todos: éramos os alabardas e os outros os broquéis.
Assim que aquela revolução começou, o pior de tudo foi uma Movediça, que se elevou do chão para sufocar todo mundo, mas não deu jeito; bom, os Desmiolados se encarregaram de divulgar o que se passava na Terra dos Zumbis, claro, manipulando os Dados e as Cartas”.
Ninguém sabia que poderíamos ser tão estúpidos. E foi assim, meu amigo, que tudo começou antes de começar mesmo o problema dos Salgadinhos da Alice. Não, eu não quero tá no meio disso não.
Só quero ver meu Avô Zumbi, pegar um pouco de água para fazer um café no boteco San Pablo (lá é bom) – porque lá está sem água desde a chegada de uma ave agourenta – e descansar no sítio do vovô à noite para ele me contar histórias de crescer grande, sem trabalho e na moleza.

F.G.M.

terça-feira, 5 de maio de 2015

POIS É – POEMA


A cada vez que me sinto ébrio, certa coisas me vêm como verdades invioláveis, impossíveis, intratáveis. Nesse estado, chego até a ter o pressentimento que descobri algo que não se revelará para mim, e fico mole, com febre, anestesiado do mundo. À parte disto, eu tenho certeza: assim como nascer, não escolhi escrever poesia. O acaso é responsável por isso – e o mistério, como toda a natureza. Nada me compõe.
Pareço habitar o Como é, de Samuel Beckett. Antes de tudo, procuro, gaguejo, enlouqueço. Tenho receios de vida, descomeços de céu, sonhos de bestas, sensações de monstro. Faço parte de cada ilha, do conjunto, da caosmose, o mundo é um arquipélago, como dizia Glissant, e – salvo me engano – todo pensamento é um pensamento de tudo.
Aliás, devo dizer que não sei por que escrevo, por que vivo, por que amo, por que destruo ou por que me inquieto. Há em mim a determinação de um ser cuja memória se perdeu no Paraíso e cujo coração habita em todas as coisas do mundo. Os períodos de estiagem, para mim, são desoladores. Escrever é necessário, não há maior alegria do que a realização de um poema, seu espírito, um poema que pulsa na palavra e cospe significados às cavidades da alma.
Poetas como Edgar Allan Poe, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa ou T.S. Eliot relataram, em muitos momentos, o êxtase de ter criado algo vital, memorável, eterno. Fazer poesia é um desafio para mim. É como lidar com o desconhecido sem, no entanto, desconhecê-lo. É preciso aprender e desaprender constante para o exercício da escrita poética e a avaliação crítica de si não deve ser rasteira ou descompromissada. Daí a revisão da tradição, como chamar um poeta como tal se ele não passou por Homero ou por Dante ou pelo Concretismo? Sem que ele ao menos conheça Horácio ou as artes poéticas clássicas? Como pensar um poeta que desconhece a história e o desenrolar de sua própria arte ou a Literatura em geral?
O poeta é um leitor, ele agencia realidades através de palavras – e como um agente de escrita – também age no mundo através do silêncio e da vida. O período crítico de escrita é o sinal claro de um excesso de escrita. Às vezes, inevitavelmente, o poeta deve ser regido pelo silêncio e se entregar às leituras. Por mais que escreva ou insista, o esmero só virá com a restituição da forma através da leitura, quer dizer, com a desconstrução da influência, a renovação de si, a crítica severa sobre si mesmo – e o critério para tentar estabelecer a grande falha no papel.
Tento me esconder do ímpeto de escrever, me esquivar desse imperativo, dessa força, mas algo me leva a fazê-lo, e preciso me preparar para o momento, estar coberto de palavras e de mundos, imaginários, sensações, nada, tudo, e o inverso de qualquer coisa – “A poesia/ Regressa como aurora e o ocaso” como nos dizem os versos de Jorge Luis Borges.
Para um poema existir, é necessário que haja uma desconstrução de onde surgiu a motivação primeva ou instintiva de escrever. Esse procedimento é raro acontecer em momentos de controle, contudo, ao acontecer, o domínio do poeta como um manipulador ou alquimista da palavra é soberano e, a partir disso, se persistir, não há nada que ele não possa fazer.
Quando não estou escrevendo, me sinto um pouco morto – lembrando-me das palavras de Clarice Lispector, a vida até faz sentido, mas eu preciso entranhar-me em sua loucura, presenciar o nascimento de uma estrela e os desastres mais catastróficos do Universo; preciso estar a par de tudo isso por meio das palavras e ver – sempre ver e sentir o que a poesia inscreveu em mim, nestas ranhuras.


F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.