"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Fantasma no Relógio


Fosse talvez um defeito, um problema de fábrica, ou até mesmo ignorância minha, não sei o que acontecera, mas havia algo estranho com ele e, mais do que isso, anormal.
Se eu tivesse paciência, procuraria uma solução na internet. Encontra-se de tudo. Uma vez encontrei uma maneira verdadeira e eficaz de se atravessar paredes e levitar. Infelizmente, não existe fórmula para famas repentinas.
- Mas já? Não... Tão pouco tempo! E está assim... – posso pulsar no tempo, mas não posso sabê-lo em mim. Por que marcar o tempo?
Isso que passa talvez seja pedra, folhas amassadas de borrões envelhecidos, memórias de ambições de um imperador imaginário, provas de amor forçadas, tão falsas que se desmancham na água como vitamina C; seja isso, ou seja, nada, o tempo.
Pensar o que todos pensam, viver o que todos vivem, amar, destruir, transformar e calar bocas, afastar afetos, ferir almas, sussurrar na noite como lobos errantes, imaginar estrelas terrenas e não vê-las nunca, a vida que muitos não irão ter.
- Tempo... Viver não te contradiz... – penso e, sinceramente, sinto-me amolecer o sangue no corpo, o coração é fisgado e sei-me levemente enfermo na vida.
Depois de comprar um celular, perdi o fetiche pelas horas no pulso. Prestei atenção nos outros, e liguei para poucos. Isso foi há muito tempo. Hoje, não tenho tantos contatos.
Por obrigação, novamente tive de marcar as horas no pulso. Para isso, comprei um relógio caro. O preço não importa mais, talvez a marca, e isto não me diz tanto. Elas passaram a ter um sentido relativo para mim depois de eu não ter tido tanta sorte.
Um relógio metálico de ponteiro – um maior e o menorzinho, sem números, só marquinhas delineando o 12, o 3, o 6 e o 9, girando no sentido horário.
No início, pareceu pesar mais do que o normal, pois fazia muito tempo desde que eu usei um, me senti diferente, fazia parte do meu “look”, como se diz em linguagem vulgar.
Funcionou muito bem durante o tempo da garantia: apenas um ano. Não parece, mas as coisas também envelhecem. Alheios, nós vivemos o sonho da arte, sua longevidade e beleza, embalde.
As horas marcavam normalmente, mas o ponteiro menor esteve louco. Nunca tinha visto isso: o ponteiro dos segundos girava em sentidos opostos, ora horário, ora anti-horário, parando e, depois, girando, de uma vez, para um lado, para o outro...
Tive raiva e pensei em me desfazer do tempo. Ele funcionava de forma insólita. Bati nele várias vezes e mexia o ponteiro menorzinho, que parecia estar frouxo, marcando bem menos do que um segundo e, às vezes, bem mais.
Havia um fantasma no meu relógio como o espectro que aparecera para Hamlet – o oráculo. Parecia me dizer que eu estava perdido, a cada segundo. Falou-me que eu deveria descobrir o responsável dessa tragédia iminente.
- O tempo não nos pertence. 

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.