"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

sábado, 3 de janeiro de 2015

A Última Noite



Sexta-feira à noite, no quarto de uma pousada da cidade, o casal tremia de ansiedade.
- 50 reais?
Depois de preencher os papéis, voaram para o quarto.
Em poucos segundos, encostou-a contra parede e começou.
Arfavam, suando, um sobre o outro, róseos, trocando carícias sob pressões e panos. Estalavam beijos e tentavam respirar como corredores de 100 metros rasos, ofegantes, sobre a cama, estirados.
Era “a delícia da vida, a delícia da vida”; e, noite após noite, se digladiavam. Não faziam amor, produziam em série – afrouxavam parafusos e esvaziavam a geladeira diariamente.
Mal esperam para se ver à noite. Os dois possuíam mais fogo do que uma caixa de fósforos. Riscavam-se noite a noite.
- Está com ela há muito tempo?
- Não, não, é só um caso.
- Mas ama ela?
- Sim, amo. – respondendo seco, bruscamente, quer dizer, finalizando a conversa.
“Por que age dessa maneira?” – desconfiavam no bairro. Ela era loira, tinha o rosto angelical, olhos azuis, branca como branco, uma beleza de mulher e menina. Mas, não podemos nos esquecer, a jovem tinha algo que chamava a atenção de todos.
Ela possuía um certo desvio na coluna, que a curvava,  tinha a altura menor do que o habitual – chegando a ter menos de um metro e meio, sua espádua se alongava quase às panturrilhas, de tão pequena que era.
  Começou a noite, e a labuta girava no meio da cama. Era um amor natural, selvagem, os dois se consumiam, pareciam estar há anos sem ver alguém, solitários no deserto, loucos para encontrar um osso e roer.
Terminada a noite, não se viam. Eram miragens um para o outro. Isso alimentava mais ainda a curiosidade do povo, que não cansa a língua para falar a respeito de jovens casais, e cogitavam:
- Esse cara é um pinta. Só vê ela de noite e vive tirando uma com as menina na rua.
- Deve ter vergonha dela, porque ela é bela, mas...
- O quê?
- Você não viu?
- Não, eu não vi.
- É...
- Sim, sim, sim.
- Pois é.
- Não, não acredito. Será que é só por causa daquilo? Que absurdo.
A conversa se espalhou naquela pequena cidadela. Argeu ficou sabendo e decidiu terminar o caso depois de uma “última noite”. Marcaram às 9:00h da noite, numa quinta-feira.
- Por que vai fazer isso com ela?
- Olha, não é só o amor, sabe, o sexo.
- E é o quê mais?
- É mais do que isso. É andar com ela do meu lado e não me ver com ela. Como se me fizesse infeliz a sua aparência, o seu “todo”.
- Mas você não me disse que ela era fogo na cama?
- Você é surdo? Não é só o amor, sabe, o sexo...
Ela estava radiante sobre a cama, maquiada, rósea e clara. Cheirava como uma flor de frasco. Decidira vestir uma bela lingerie para essa noite, estava sentada sobre a cama à espera dele, reclinada.
Teve a noite mais fantástica da sua vida. Não teve coragem para terminar. Chegou-se junto a ela e disse:
- Olha...
- O que foi? Sua cara não é boa. – um silêncio repentino se seguiu até que ele, depois de suspirar, respondeu:
- Eu te amo. – olhou-o de forma estranha, quase assustada, e retrucou:
- Como assim, me ama?
- Sim, muito!
- Não pode ser verdade...
- Por quê? Não gostou? – firme e segura, enlaçou suas mãos às deles e, de pronto, respondeu-lhe no fim daquela noite estranha:
- Esta é a nossa última noite.

F.G.M.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A Torta de Domingo



Estava acima do peso. “Precisa suar”, diziam os nutricionistas e os educadores físicos. Quando ia para academia, se entediava com as máquinas, com o exibicionismo, o narcisismo suado e malhado que se espalhava naquele ambiente dava-lhe enjoo.
Não negava: todas as pessoas que malham se acham superiores às outras, assim como as que estudam. O mundo está cheio de pessoas querendo tomar o lugar das outras.
- É, ninguém está a salvo neste mundo. Murmurou para si mesmo enquanto limpava o suor do seu rosto.
Estava acima do peso. Sua mãe estava fazendo a “torta do domingo” – a famosa torta de frango recheada com creme de leite e queijo mozzarella, dourada à moda da casa, com tempero da mamãe.
A família se reunia duas vezes no mês, e os amigos eram convidados, assim como os amigos dos amigos.
- Mãe, ele vai comer?
- Cala a boca!
- É porque...
- Não diga mais nada, silêncio! E vá para sala ver TV.
Estava acima do peso. A festa seria à tarde, de mais ou menos umas três horas, quando o irmão de Paulo estava chegando de Campinas, de uma viagem de três horas.
Era o tio engraçado da família. Separou-se depois de um ano de casado e, nas palavras dele, encontrara “a fonte da juventude”.
A sua chegada foi aclamada por todos.
Repetidamente, em um coro, todos levantaram o copo e gritaram o seu apelido de infância, pois era magro, curvo e zoava o dia todo:
- Grilão, Grilão, Grilão!
Agora, estava acima do peso, e parecia-se mais com um tubarão inofensivo.
Dirigiu-se desengonçado em direção ao menino, pavoneou e disse:
- Mas como você está gordo! Criança, você está comendo lasanha no café e pizza no almoço? E ria descontroladamente do sobrinho, puxando o coro para que todos também rissem do sangue do seu sangue.
A mãe, envergonhada e triste, retrucou:
- E essa é a SUA dieta? Ninguém se segurou e todos riram do paspalhão gostosamente.
E assim, a festa seguiu com muitas brincadeiras e risos, comida, bebedeira e paqueras (o vizinho de Paulo não tirava o olho da sua mulher).
Estava acima do peso. O menino, em meio à festa, se retraiu como um caracol, parecia que estava mais envergonhado do que os presidentes norteamericanos e, pouco a pouco, foi saindo de lá para seu quarto, até trancar-se...
Trancar-se antes de comer a “torta do domingo”!
Como era o prato principal, e seus pais gostavam das sobras, pois em outras festas de domingo, nunca sobrara, eles decidiram deixar o prato só para o fim da tarde, quando todos estavam cheio, e comiam para agradar.
- Onde ele está?
- Vamos, leva logo esse prato.
- Mas...
- O pessoal tá doido!
A mãe levou a torta para a mesa da área, e atacaram a torta, mesmo cheios, sem deixar nenhum pedacinho sequer. Alguém se lembrou de Júlio:
- Cadê ele?
Estava dormindo profundamente.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.