"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Trajetória do Frio Forte em mim



A primeira vez que me ocorreu publicar um livro foi no segundo semestre de 2011. Antes disso, tinha na cabeça a ideia de ser um poeta antissocial, no sentido mais restrito da palavra, tendendo para o lado mais engavetado da vida, coisas assim. Nesse ano, ainda estudante de Letras – sonhador como todo estudante de letras e, acima de tudo, leitor – me aventurei de cabeça abaixo na leitura de meio mundo de poetas. Era uma alegria encontrar um novo livro de poesia. Para mim, era como a descoberta de um mundo, único e (in)estável, no qual meu mundo desajeitado também poderia se encontrar ali de alguma forma. Lia em diversos lugares, como, uma vez, li Manuel Bandeira no ônibus da universidade, o conhecido circular, passando pela rotatória, o Sol incandescente, um leve sorriso no rosto e um verso de Cinza das horas.
Era como um vício, toda vez que comprava um livro de poemas, tentava lê-lo à luz dos dias e das coisas, em situações corriqueiras e desatenciosas. Assim, uma vez lendo em voz baixa, sussurrando versos de Cruz e Sousa, do lado da janela, dentro do ônibus que me levava para antiga casa, uma pessoa interrompeu meu murmúrio torto e me perguntou se gostava daquilo. Eu lhe disse que sim, que adorava aquela musicalidade irradiante de cores e sentidos, e o sujeito me falou que dava aulas de português, daí sua curiosidade, e depois satisfação, deixando-me ler as demais notas, fechando os olhos, satisfeito, do meu lado.
Foi interessante conhecer vários poetas aos poucos. Envolvi-me com suas histórias, peripécias, avanços, continuidades e descontinuidades. Quando penso que não os conhecia, hoje tenho até uma sensação estranha, porque me são tão companheiros e próximos, que tento me recordar do tempo em que não os conhecia. A face de poucos amigos de Maiakóvski, o rosto alentador de Walt Whitman e aqueles versos ferozes, oriundos do suor norteamericano e das águas do Mississipi. Além dos brasileiros, refugiei-me em milhares de poetas-irmãos do mundo. Coletâneas, antologias, romances, contos, filosofias e dramaturgias. Passei dois anos nessa onda, direto.
Li os grandes poemas, os pequenos e os mais letais. Uma vez cheguei até a esboçar sobre os tipos de poemas, sendo os que eu mais admirava eram os “vitais”. Cada poeta possuía o veneno necessário para agarrar-nos à sua teia inconfundível de palavras. Os contos me ajudaram deveras na visão de um mando mágico, estranho, impossível. Crime Castigo pode ser considerado o meu livro-sacrifício, pois ali estava eu abandonado próximo à capital, desesperando sonhando um futuro justo. Cada livro se acomodava nas estantes do espírito, e lia as pessoas como páginas dessas histórias escritas. Em silêncio, as questionava, e sempre me deparava com distante outro. Assim, antes de falar da minha primeira publicação, devo-me lembrar de algumas coisas.
Sempre achei que deveríamos ler muito antes de escrever qualquer coisa. Senti que esse era o meu grande desafio no início. A minha escrita de poemas remonta aos primeiros períodos da universidade. Era uma grande brincadeira escrever poemas para mim. Depois de uma atividade surreal de teoria da literatura, lemos diversos clássicos. Eu li Os Lusíadas e a Ilíada. Aqueles ritmos ficaram entrechocando em minha cabeça, a ponto de eu escrever os meus primeiros poemas longos sobre viagens com musas a restaurantes e shoppings.
Dessas brincadeiras, e de várias desilusões amorosas virtuais, compus um poema longo e narrativo, intitulado de Adamo. Foi uma das minhas primeiras empreitadas como poeta de fôlego e, logo depois, no investimento em um caderno do homem aranha com 400 páginas e lápis e borracha poéticos (assim os nomeei), não parei mais de buscar fazer poesia com tudo. Era até um divertimento, como todo bom brasileiro, gostava de zoar com muita coisa, sobretudo as sacralizadas em certa medida.
Nesse período meio incerto da minha vida, pela internet mesmo, encontrei um grande amigo que me acompanha até hoje. Naquele tempo, ele se tornara o meu guru e incentivador. Meados de 2008, 2009, eu não posso precisar muito o tempo, mas sonhávamos em fazer a nova literatura brasileira ao estilo das vanguardas, com manifestos, criação de grupo etc. Nesse período, não se viam tantas escritores ou novos escritores interessados em fazer isso. Rudinei Borges, em termos de conhecimento literário e cultural, estava vislumbrando novidades e eu, ainda estudante, almejava alcançar tais novidades também.
Eu ainda não me descobrira em versos, alentava-me copiar algum poeta às vezes e reproduzir alguns efeitos vazios. Eu e Rud. conversávamos sobre Literatura o quanto podíamos, sempre nos lembrando dos poetas e de seus feitos. Naquele tempo, éramos principiantes, experimentávamos as lonjuras e as diabruras dos poetas. Aos poucos, ele foi se encontrando e certo dia me enviara o seu original, que seria publicado em breve.
Mesmo criando “movimentos”, rabiscando estudos, não pude escrever nada genuinamente meu, estranho, diferente. Àquela altura, o Borges já tinha uma visão de si, e quando me enviou o Chão de terra batida, tive a mesma sensação que tenho quando leio um novo poeta. Fiquei deslumbrado e pensei comigo mesmo: é realmente de um poeta, nunca pensei que pudesse chegar a tanto. Lembrei-me das conversas e dos poemas enviados, e pude ver sua mudança ascendente ali, verso a verso.
O livro foi publicado em 2009 e, sem dúvida, foi um marco para nossa Literatura. Por motivos infinitos, ainda não tenho o livro físico, que ele me enviará em breve, mas, mesmo assim, pude conhecer aquele que se tornara um poeta pelo gênio do esforço, vivenciando cada imagem como João – no Apocalipse. Não acho a comparação tão exagerada, pelo menos, creio-a justa em seu sentido literal. Ele já conseguia respirar em verso, em Universo (im)próprio, e eu estava passando pelo seguinte desafio crucial: a busca de um estilo. Foi um dos mais difíceis momentos da minha escritura, que até então se resumiu a vários poemas menores, cópias, e desperdícios lexicais. Jamais poderia ter um livro naquele tempo. O Borges chegou a insistir naquele período, queria que publicássemos juntos, mas fui sincero comigo e fiz a escolha certa, quer dizer, esperei mais um pouco.
Certa vez, quis redescobrir o Brasil. Pensava que, como os modernistas, eu deveria patinar pela história do meu país verde-anil para escrever alguma literatura brasileira. Estudei até um pouco de História por causa disso e li diversos diários de viajantes do período das grandes navegações. Enfim, nada descobri. Na verdade, conheci muita coisa interessante e fantástica e algumas coisas que a História não conta. Fiquei um longo tempo sem escrever por causa disso, quase um ano, não sei. Foi um período difícil e, depois de passar minha graduação inteira sem computador em casa, em 2011 – quando entrei na pós-graduação, ao receber minha primeira bolsa, comprei o Cinzento, meu primeiro notebook.
Passei por uma revolução interna. Era um mundo novo, uma realidade 3G, uma força magnética e virtual atravessando os mares nunca de antes navegados. O arcaico Orkut era a rede social dominante e, certa noite, depois de eu escrever dois poemas, No Rabo de Cavalo da América e 3G (Ultima Geração), tenho a ideia de enviá-los para Afonso Romano. Já tinha escrito O Plano e o enviara para Rud., em sua página do Orkut, como scrap e, em um trecho do recado, eu dizia: “parece que encontrei meu estilo...”. Foi um período fantástico. O já conhecido e renomado poeta me condenou à poesia, e aquilo para mim foi um gigantesco SIM. Aos poucos, o meu primeiro livro tomava forma.
Meados de 2011, com muita novidade em mim, de muitos poemas nascidos desse furacão, selecionei vários e pensei em publicá-los definitivamente. Como eu tinha o blog 3g (Última Geração), lá eu podia publicar e divulgar os meus textos, pois era difícil convencer as revistas tradicionais e obsoletas a publicar qualquer novidade, criei meu espaço e produzi bastante para atender à “demanda” de visitantes. Isso era motivador. Falei com amigos próximos, escrevi cada vez mais poemas, fiz pastas, criei documentos de texto, comecei a me integrar com o teclado do Cinzento, estava crescendo. Éramos um só. Rudinei Borges estava animado com meus escritos e tudo acontecia.
Chegou o momento de procurar as editoras. Alguns silenciaram, outros remarcaram datas, inventaram histórias, até mesmo injetaram um tico de esperança em mim. Era difícil ter acesso a esses coliseus devastados. Até que uma editora aceitou o meu original ainda sem original, pois o meu passaporte para publicação era só o link do blog. Essa primeira editora, que me recuso a dizer seu nome, fez inúmeras sacanagens comigo, como: não colocar ISBN no meu livro nem fazer o Depósito Legal. A comunicação era péssima, foi uma frustração imensa. Suportei tudo isso sozinho e desolado. Passei quase meia década lendo Literatura e vivendo-a para depois sonhar com um livro e, após muita jornada de descobertas e autoconhecimento, compus meu Frio Forte para cair em trapaças inimagináveis. Aquelas coisas que acontecem com um pai: ter o filho morto, assassinado, drogado e estuprado; eram essas as sensações terríveis que eu sentia.
Nesse meio tempo, ia escrevendo novos poemas e os compilando. Já tinha outro livro, enquanto o meu primeiro, lançado em 2012, mal estava no catálogo do site da editora. Esperei silenciosamente o encerramento do contrato, fiz todos os procedimentos legais e finalmente estava livre para sair de lá. Essa tal editora, não sei se por incompetência ou má fé, ainda mantém o meu livro no seu catálogo sem a minha autorização. É incrível como um cidadão, que cumpre seus direitos, ainda consegue, depois de tudo, passar por essas coisas.
Foi então que encontrei Wilson Gorj e Tonho França para editarem e publicarem meu livro pela editora Penalux, novo e ambicioso projeto elaborado por ambos, com o objetivo de fazer despertar essa literatura que ronrona e que vive abafada pelo mercado sufocante de consumidores-zumbis-vampirescos. Publicar coisa nova, ou seja, fazer o novo acontecer, dar espaço a um novo período para a Literatura atual. Lá meu livro teve um trabalho atencioso, sério, e pude perceber o potencial da minha Literatura, sentindo que ela era capaz de ainda permanecer novidade, como pensava Ezra Pound, e merecer um lugar que de fato pudesse compensar todo o esforço empenhado pela carreira deste escrevinhador. Publiquei-o, digamos, em 2014. Assim, Frio Forte caminha com o tempo, e ainda precisa ser lido como essa perene novidade ainda permanente e espiralada, após tudo.

F.G.M., dia 21 de julho de 2014.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.