"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Novo A.



Sou eu; eu te falho. O tempo mudou desde ontem – pós-paz-e-amor.  “Olha paisagens rupestres, civis, nas ruelas dessa cidade suspensa sobre o canto dos pássaros e as estações do ano, concretas, nas declarações de amor, secretas, o infante mágico no banco de trás de um carro, e os pais no sonho de atravessar o quintal de casa depois de financiar uma nova obra, olhando as estrelas amarrado em locais, sítios, naves, rios vazios nesse chão que levam nossos ossos desencarnados sobre as espinhas dos peixes, nadando”, fantasmas fluentes.
Como se chamava? O Novo Adão. Era meu sonho. Abri os olhos, e vivi. Havia pouco tempo para qualquer revolução. Metropolis e a Nova Tóquio ressurgia diante de nós, prédio velozes, na paisagem, desaparecendo. Erámos inteligentes, mas fracos, fisicamente fracos – meramente humanos, confiávamos nas máquinas de guerra, poderosas armas nucleares que carregavam a ideologia do suicídio em massa; e não tivemos tempo de sequer armá-las. O extremo oriente não conseguiu construir um andróide como em Blade Runner. A força humana nunca foi explorada a tempo, senão pelos desenhos animados e por filmes de ficção científica. Na Segunda Grande Guerra, anjos andavam pelos campos derruídos, sulcavam vida dos corpos falidos e coagulados – em suas asas flamejantes; e, séculos depois, anunciando o fim do mundo a cada ano os deixados, durante o evento, nos abandonaram. O que pregávamos como força física se tornava, imediatamente, estético – era intelectualizado.
O mundo era só destroço cinza, concreto recobrindo os olhos, a paisagem, o céu. A cidade de Kaikó, uma vasta planície/devastada, recoberta por um manto verde e rasgado de flora, raízes se espalharam. Barro batido, a floresta se tornara a nossa civilização. Sobrevivemos para sermos explorados. Temos medo da morte a todo tempo como um doente terminal na maca. Sabíamos que morrer era inevitável, mas agora nós convivemos com isso em terror. Dizimaram a dengue, a AIDS, o câncer. O fim da cultura de massa, do frívolo, foi o único bem imediato que nos trouxe toda essa desgraça, o abandono ao mercado e à comercialização desenfreada dos bens humanos.
A arte sobreviveu – assim como emergiram da poeira os seus valores, que foram deixados/esquecidos na época da Grande Mídia, dos alienados, naquele mundo onde o preço nos esquartejava a alma em favor do pobre, do ínfimo, da fama. Poderíamos, desta vez, finalmente viver?  Viver é sonho, suponho – era o ditado corriqueiro em fins de tempos. Não vivíamos. Sonhávamos. Esquecemos. Ofertávamos ao mar oferendas quase todos os dias. O clima quente suspirava pelos nossos poros à noite o cansaço da luta e da escravidão reinstaurada. Meus antepassados foram assassinados no Grande Dia. Quando ele nos destruiu, um ser apenas, ficamos apavorados, palidamente apavorados os segundos restantes. Era desumano, não se podia pedir piedade ante sua face. Gritos, e silêncios caindo... Horror. Quando ele começou a reunir um grupo de pessoas (talvez) para reorganizar uma nova vida – nosso medo abrandou, era racional, existia nele, sem dúvida, alguma fraqueza iminente. Podíamos pensá-lo. E, constantemente, dizíamos aos nossos filhos:
 – Obedeça, menino. Terás o prazer de enforcá-lo.
A sua inesperada humanidade nos despertou a vingança e o poder de destruição humana. Foi em fins dos anos dois mil. A última copa da qual temos conhecimento foi o derradeiro evento, a nível mundial, a ser interrompido pela destruição dos países. Ainda esperamos pelo Apocalipse – esperançosos; quem nos domina, possui o poder inimaginável da natureza, inspira medo em nosso coração seu nome na lembrança. Pontes desabaram. Ferragens expostas, territórios sem língua, sem voz humana. Corpos conservados apodreceram, múmias, costumes nova iorquinos, corrupção brasileira, ídolos de carne e pedra enterrados em sua imortalidade, sob escombros, no mar. Nossa cidade era um complexo humano subdesenvolvido, uma cúpula, concreto armado nas ruas e nas casas – rodeando-nos em círculo, vivíamos acima da média das nações modernas. Tínhamos o desejo íntimo de voltar ao passado, “mas isso é ridículo, todos nós somos felizes”. 

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.