"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Caderno Poético 4


Escrever poesia é mais do que se propõe – como uma aparente ideia ingênua de criança, que ninguém dá importância no primeiro momento, ou pior, nunca se dá importância em momento algum a isso. Ser poeta é, não há o que discutir sobre isso, um modo de vida duro, belo, porque não se está na posição do barro, mas do mãos, que (des)moldam e reformam e alteram as vidas.
O que era poesia antes de eu encontrá-la? Um bairro do Maranhão onde eu morava quando criança, fechado numa vila por muros e encerrado por um portão de ferro maior, para carros, e um menor, para pessoas; brincávamos ali dentro, com a pipa de papel no céu, meninos correndo, com a cabeça para cima, escrevendo sonhos para o futuro. Futuro? Não, para nada. Correndo, correndo de alegria! Não me lembro de ter caído alguma vez.
A primeira imagem mítica que apareceu para mim, eu lá sabia o que era isso antes de conhecer a literatura ou qualquer forma de expressão artística, foi a de um pássaro gigante, parecido com os cisnes de Coole, de Yeats, voando um pouco acima dos prédios, que diminuíam o céu e o homem, abrindo um beco para a visão. Andava por essas ruas quando o vi. Para mim, ele era real e fantástico, real. Lembrava-me dessa cena e, com ela gravada na memória como uma gaveta, queria ir lá ao céu ver o pássaro, voar nele, ir para algum lugar – talvez para terras nunca dantes navegadas, onde o verbo viver se conjugasse, em todos os tempos, no infinito. Só desejei.
Foi a primeira frustração do poeta (aquela que ele iria carregar durante toda sua vida). Vendo TV, descobri que existia um pássaro fantástico, nomeado de Fênix, aí pensei: aquele que eu tinha visto no céu (só em pensar naquele instante, ainda vejo-o sobrevoando sobre a abóbada do meu pensamento, com zoom e efeitos de câmera no agora), era esse pássaro mitológico, possível. Heródoto descreveu a Fênix, no seu livro sobre história, como um pássaro real que renascia das cinzas! – que voava nos arredores do Egito e causava alarido, acendia sonhos, desejos, o imaginário.
Depois de receber constantes ameaças dos homens que queriam vê-lo, roubar sua cor, penas e esplendor, o pássaro resolveu se esconder nas entrelinhas dos versos, aparecendo ao sonho e à sugestão – vivo, não tendo, felizmente, o triste destino do Dodô. Talvez eu e Heródoto fomos o único a ver tal espécie no mundo... Desde então, a história foi um berço mágico onde eu ia dormir intensamente para ficar falando à noite, acordado para os mundos, encontrando parentes, os mistérios do tempo.      
O mundo cercava-se de um mistério incrível. Uma criança tímida, tímida, tímida? Pior que um pinto numa casca! Tinha medo de tudo! Se eu tivesse lido nessa época... Mas vivia, e muito, sempre. Roubaram um grampo meu – fui chorando para casa sem entender por que apanhei quando disse o que tinha acontecido. O meu interesse por sociologia surgiu daí – quão complexas são as relações sociais! Eu observava a empregada trocando de roupa no banheiro, mais bela do que a Vênus de Milo, um pouco mais gorda, e rápida! O que eu era? Classificar-me como criança seria insuficiente. Brincar, brincar! Faz um tempo já que não cito nenhum nome da literatura, nem um verso, nenhuma citação, mas não há nenhum problema, por hora, sempre haverá um.
Nas estrelinhas ou entrelinhas?

F.G.M.

Confiram o meu ensaio "Se Poeta, ou Poesia Hoje?"

O ensaio - sobre arte poética/poeta/poesia hoje - foi publicado no site da Editora Kazuá -

este é o link:

http://www.editorakazua.com.br/wp-content/uploads/2014/05/Ensaio-A-Arte-Po%C3%A9tica-de-Felipe-Garcia-de-Medeiros-ok.pdf

F.G.M.

domingo, 25 de maio de 2014

Crítica da Moni sobre o "Cápsula" - de F.G.M



Ninguém nunca saberia o que escondia a caixa de pandora, repleta de tantos males que foram expelidos no mundo: até abri-la.  O livro Cápsula esconde toda a beleza e perigo que podem ser enfrentados ao lê-lo. Diferente do primeiro livro de FGM, Frio Forte, aquele livro engloba um mistério e uma ousadia, como se não mais o consciente falasse e sim o inconsciente onde se encontram os perigos da mente.
 O primeiro poema do livro, O Lobo Afrontado já faz jus. Um poema e seus vários “eus”. Monstros, homens, vida, morte, e mortos, escondidos na realidade e querendo fugir desta. Sem dúvida este é um dos poemas que melhor introduz o Cápsula e que garante, com grande certeza, que não se trata de um livro fácil de sentir. Abaixo, um trecho que ao mesmo tempo que me separa do poema, me transcende a ele:

                   Me faça dormir,
besta,
incendeia meus olhos
coça minha pele até virar carne
salta do precipício
para se livrar de um “legítima defesa"

Os poemas vão seguindo nesse mesmo tom, ora mais leves, ora mais densos. E o momento exato de meu encontro no livro se confirma no poema Alla Luna, do qual, essas mil ideias e visões da lua e do mundo me deixam extasiada. O poema Rimbaud – silencio.
Bellerophon e Sr. Ninguém são dois grandes poemas, com versos incrédulos, como se não fosse uma mesma pessoa a escrevê-lo.  O mais querido poema, Lau, que me faz “dedilhar” os olhos com grande facilidade sobre ele. Mas nada tão instigante como conhecer o Barba azul:

cão/desordeiro/servo de cidades devastadas

Mais um ser que aparece no cápsula dos “contos de fadas da vida real” e que em todo o poema os meus olhos foram assustados e minha expressão de repulsa.
O ápice do livro com grandes poemas: Airship, O Barba Azul, Copázio e o Barco Vazio. Este último? Como não admirar este poema, se praticamente o vi nascer e crescer! São sons, lágrimas, e até escuto o barulho do mar em minha alma vazia de um barco que não vi naufragar.
O livro esta sem dúvidas: “planando nos dóceis pesadelos”. De quem? Não saberemos. Pode ser um homem ou um poeta ou um híbrido. Na leitura desses poemas me pergunto: quem é esse que escreve? Tão assustado com as próprias palavras e tão convicto das mesmas.
Talvez foram as asas do Pazuzu que me trouxeram um cartão postal das Filipinas para me fazer sentir todo o amor da obra. Um poema dedicado a mim. Sem monstros, sem enfermidades, demônios, relvas e colunas de pedras.
E, por fim, para toda grande obra, um grande fim e um grande poema. Ao leitor conclui todo o desespero e o reinicia, e te deixa com vontade de voltar ao início, e ver de novo a vontade de verdade do autor.
Aí me perguntam: qual a grande diferença entre Frio Forte e Cápsula? Eu respondo: o peso.
Boa Leitura. O livro será publicado em breve.

Dayanne Monielle

domingo, 4 de maio de 2014

“O Vulto”



Faz um ano desde quando nos mudamos daquela pequena cidade de interior. Eles acreditavam em tudo. Por exemplo: nos bichos de mesa. Sim. Nunca os ouvi, mas, disseram-me vagamente que eram “diabinhos”. Interior...
“Como se chamava o seu melhor amigo?” – ah, nunca me esquecerei dele. Chovia quando nos esbarramos à noite.
Estava voltando da faculdade, depois de passar meia hora no ônibus a pensar em como desceria na parada, se correndo, se esperava a chuva, não sabia; mas era tarde, onze e meia, assalto, livros e papéis na bolsa, receei perder tudo, até a vida. Então saí correndo feito louco e o atropelei.
- Desculpa, irmão, eu...
O coração acelerou nesse instante, meu Deus! Esbarrei em um desconhecido, alta noite, estou perdido...
- Certo, fica aí.
- Valeu, boy.
Foi-se e nada mais disse.
Meio desajeitado, era pálido, mãos e pés desproporcionais, esguio, alto, curvado, tinha solidões intensas e costumava comer à noite, depois da ceia, atacando a geladeira ou as bolachas de chocolate que se amontoavam em seu armário.
Chamava-se Elias. Ao que sei, não tinha família, ele mesmo me dissera um dia que tinha nascido das trevas, como Satã.
- Satã?
- Sim. Ele nos ama.
Vivíamos em paz na Vila. Elias era um homem simples e rústico. Amava tecnologia como os nerds americanos. Sua casa era pequena, erma, longe das demais casas do bairro, como uma espécie de cabana esquecida no fundo do quintal. Odiava gente, recluso, vivia sozinho e, ainda mais sozinho, na palidez do seu quarto, dobrado sobre a sua “máquina”.
Ainda me lembro da sua face antes de morrer: rósea, clarividente, os olhos fundos e negros esmaecendo – fundas, as maçãs do seu rosto. Era o prenúncio de um triste fim.
- Elias! – gritei certa noite, no meio da rua, recheada de sombras de árvores, em direção à sua casa.
Nada ouvi de lá. Ninguém sabia o que poderia acontecer a um homem tão invisível. Uns diziam que ele tinha autismo. Nunca olhava diretamente em nossos olhos, sempre cabisbaixo, Elias parecia estar vidrado pelo chão, pela terra úmida, suas profundidades.  Outros se arriscavam, simplesmente, em dizer que ele tinha síndrome do pânico, ou que era maníaco, sociopata, etc.
Raramente se via o “vulto” de Elias, pois era assim que fora chamado por muito tempo, dado o inusitado da sua presença. “Olha aí o vulto”. Quando andava pelas ruas, geralmente à tarde, quando o sol se punha amarelo-queimado, mexia, brincava com os próprios dedos, entrelaçando-os, batendo palma no vazio.
“Como ele faleceu?” – Elias não chegou a falecer. “Morreu?” – não.
Elias me matou às 14:00 horas, no dia 6 de outubro do ano passado. Baixou dois filmes, uma música, o cão abre o dono, e foi encontrado morto com outro sujeito, ainda não identificado.
“Porque comecei a ler este livro”? – não sei.

F.G.M.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O Inquilino



Foi desoladora a sua saída do prédio. Não exagero quando falo a verdade nem economizo adjetivos. DE-SO-LA-DOR. O silêncio tomou conta de todo o corredor do primeiro andar. Não se ouvia mais rap nem Mozart, moedas caindo e os sussurros das paredes.
Mas gostávamos dele, era perturbador. Sua estante não existe, agora, só há marcas na parede – e os livros que imaginávamos ler passando pelo corredor, olhando discretamente por sua janelinha, sumiram.
- Por que ele se foi?
- Ninguém sabe.
Era um homem de princípios – nunca de fins ou partidas. Odiava deixar saudades e, o que mais o machucava, era a possibilidade de não deixá-la.
Homem de vontades ambíguas, complexo, desses que você não encontra na rodoviária nem quando viaja para longe e alguém do seu lado te chama, talvez de Minas Gerais, e te conta as lendas do seu Estado, porque se tornara filósofo no anseio de pegar o sol quando criança, e acabara no exército como tenente ou na marinha.
Difícil classificá-lo, porém, uma palavra o definiria: humildade. Ah, sim, ele era.
Sabia sair sem falar com ninguém todos os dias e, além disso, reclamava do problema de todos nós. Se fosse apenas sujeira ou um mendigo que bagunça a lixeira, a tranca do portão quebrada, o lado da viga, como se alguém tentasse arrombar tudo – ele nos protegia de certa maneira.
Deixou uma quadrinha da sua autoria no portão, “uma despedida”:

Nossos corações são
a felicidade
que busca. Sou tão
bom, de verdade.

Era um poeta de merda, como se diz por aí com as putas. Não percebia o quanto era ruim, porque talvez não fosse realmente “ruim” para ele. Na verdade, para ele, a coisa era séria e não fedia.
“Olha o meu poema”, vivia espalhando e o seus amigos, pretensos telespectadores de programas da tarde e do domingo, respondiam com a mesma veracidade: “dá licença, legal” e “ai, de novo, para”.
Depois de meditar horas em frente à sua TV desligada, pois a chuva do dia anterior quebrara um dispositivo da antena, pensou em deixar de escrever – definitivamente, como Rimbaud, bom, como ele, mas não como ele, se é que vocês sabem quem é um dos dois, quer dizer, enfim, parar com esse troço de literatura.
“É difícil” – dizia para si mesmo com veemência, como se fosse jogar sua geladeira janela abaixo, ou queimar o arroz do meio dia, “é difícil”...
A ladainha se estendeu na escuridão da tela da sua TV desligada. Internet? Não. Havia caído há três dias. Livros? Por onde começar? Tinha tantos que se perdera nas referências.
Parar isso era parar a sua vida. Nos deixou saudades.

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.