"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

domingo, 23 de março de 2014

“Viver não é necessário; o que é necessário é criar.”



A frase acima, paráfrase de um ditado antigo cujo original é viver não é preciso, navegar é preciso, esclarece laconicamente qual é o destino de um homem que decide abdicar da vida para se tornar maior do que os próprios limites (sociais, individuais, psicológicos ou históricos), do que as extremidades do corpo, nuanças da carne, e as complexidades da alma; quem se convence de que é preciso criar para poder viver a vida – a verdadeira vida que está ausente, como pensara Rimbaud em Uma temporada no Inferno
Para os românticos alemães, em especial Hölderlin, a ideia de vida, de vivê-la, só era possível se o sujeito a considerasse poeticamente. Navegadores antigos tinham esse lema: deixar a vida para partir e viver. Mas o que significa criar? O verso “Nenhum teto protege o navegante ao mar entregue”, de autor desconhecido, épico anglo-saxão, parece iluminar esse anseio. Criar é eternizar, pois não foi isso o que exatamente fez Deus no gênesis? Eternizar em rio a vida fugaz, os acontecimentos (reais, astrais, imaginários), as experiências pressentidas na alma, no corpo, do caos ao todo, é papel de quem cria. Se viver não é necessário, então, que seja feita a obra – pois é necessário criá-la; e alguém deve dar formas ao novo mundo, contornos, traços, visões fantásticas. Como o homem passa a se tornar um criador? Deixando de viver a mesma vida – viajando para ser em outra vida, criando caminhos no desconhecido e em terras novas. Não é preciso criar, é necessário, vital. 
O autor dessa nova frase é o poeta português Fernando Pessoa – aquele em que acreditava que a poesia, mas que a vida, era a grande aventura da criação humana, capaz de nos levar para outro lugar remoto, difuso, iluminado. Este diário de bordo tem como tensão marítima velejar pela vida e obra de Pessoa, nos aspectos históricos e sociais, íntimos, misteriosos, estéticos e literários. Creio que é possível viver outra forma de vida dentro da obra vital de Pessoa, como se de um continente novo eu chegasse maravilhado, necessitando criar, não viver, para desfrutar desse mundo. 
Ler a obra poética e prosaica desse poeta não é suficiente deveras – pois que há um homem ali que doara o próprio corpo para construção dela, força e magia. Faz um tempo já que, desde que li o Poema em linha reta, do heterônimo Álvaro de Campos, na universidade, e um amigo se emocionou profundamente, percebi a estranha conexão mantida entre aqueles versos e aquele homem. O que há ali é a vida – não somente literatura; o que existe de fato é um corpo que alimenta essa grandiosa obra e, como o corpo de cristo suscita paixões até hoje pela força e contundência do seu sacrifício, não apenas vivido, mas também escrito, Pessoa realizara tal feito, abandonando a vida para criar. Por isso, quando lemos o poeta, é o nosso corpo que toma lugar nos versos – e vivemos.
Na época em que eu estudava a Arte poética, de Aristóteles, acreditava que a poesia era apenas imitação, e essa ideia me entusiasmava, sonhava com poetas imitando a natureza, pintando... Mas, ao ler Pessoa pela primeira vez, percebi algo diferente da ideia de mimese, cópia da realidade ou molde do real. Não há imitação nessa obra nem cópia. Cancioneiro, título das poesias reunidas de Fernando, inicia-se acompanhada de um prefácio desafiador (mérito de poucos prefácios), cujo começo da primeira frase é: “Navegadores antigos...” A partir daí, percebi que o poeta português não se propunha a apenas imitar a natureza, a realidade, pintar com beleza e unidade os elementos do mundo. O real intento era criar, mesmo que, com isso, Pessoa doasse o próprio corpo como lenha à chama da sua obra – um novo horizonte, uma vida cheia de versos, o lugar inimaginável onde viver e criar são sinônimos assim como são na vida real, abandonada.

F.G.M.

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definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.