"The poetry of earth is never dead" (A poesia da terra nunca morre) Keats - "Construir para se destruir" Paul Valéry - blog do Poeta F.G.M.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

DA POESIA



A palavra mesma. Eis todo o poema. Como o homem mesmo – eis todo o poeta. Riem do que choro – e rio do que choram. É assim: cada um com o seu cio. O saber poético. O senso estético das coisas e a democracia da beleza – do belo e do feio. Hoje não há mais como questionar o status quo da palavra poética acessível e aberta a todos os signos e símbolos. É a semiótica de tudo que confere ao olhar do poeta contemporâneo o signo totalizante, singular e particular – hegemônico e marginal, estreito e profundo à superfície de nossos olhos. Todas as coisas se tornaram superfície em potencial para a discursividade poética. Cada passo é um significante intenso e permeado de tessituras semânticas e linguagens de(codificadas).
Já não se pode mais dizer que a poesia está nas coisas ou nos pensamentos, sentimentos, desejos etc. Ela é as coisas e tudo. Perceber isso, em nosso século, é um triunfo para a poesia. Buscamos a palavra antes mesma. Ela comporta as possibilidades e as correias dos discursos. Como ela diz, ela faz, ela fez e fará, pois o seu tempo “é quando”. Ainda que exista ordem – lá estará ela, como uma mut(ação) plena. Seu desejo de transgredir extrapolou o ego. A poesia reivindica existência pelo que ela é em poder ser. Seu poder-ser é tão inviolável e semântico quanto o saber-poder. A palavra do homem é o verbo-anunciado-esperado. A palavra aguardada ou a palavra dele é como o próprio mundo.
O mundo, para ele, é criado como o que poderia ser. O maior grito é longe. A maior palavra é pequena. O maior silêncio é prolixo. Não há qualquer empecilho para seu intento poético – pois ele mesmo o é. Quando sonha, ele tem os mais cruéis e terríveis pesadelos. Os seus sonhos são máquinas estranhas de monstruosidade. O sonho é sua realidade – e o real é o seu duplo. Ainda que exista – o seu existir é um universo paralelo. Tem sensações de clima – o clima e sua memória estão atrelados, o tempo que atravessa o dia é envolvido pelas sombras, pelos raios de luz, enfim, por todo o espaço e coisas e seres que interagem nesse espaço em solidariedade; ele cria novas sensações dentro desse tecido humano no espaço-temporal e sente o Fora mais do que o dentro.  
A rede e o rizoma se espalham pelos espaços do Fora. O(s) tema(s) subjaz(em) na espiral incessante e não podemos encontrá-lo dentro de um sistema fechado e monolítico. Cada coisa desperta n sensações, sentimentos e pensamentos – afectos e perceptos – que transcendem a massa singular humana e interpenetra o sujeito como uma comparação cabralina. A palavra fiat é instaurada, a palavra mesma – a palavra e o ato, a palavra em sua imanência e existência como fator de (re)produção criativa, viral e significante.
O poeta está solto diante da realidade e não cabe mais a ele o desígnio de uma escola ou de um instrumento messiânico. Sua palavra ainda é aguardada, mas não como a do salvador – e sim como a do núncio, de um pré-núncio; ele silencia com palavras, produz silêncio, faz silenciar. Hoje, o poeta está mais para a desconstrução e destruição do que para a insurreição ou para a formação. Seu caráter criativo e proteico, diante de um imperativo utilitário, conformista e pragmático atuais, deve ser avassalador.
Há tempos não falo sobre poesia. Tenho me ocupado com tantas coisas mundanas, que não tive tempo para fazer reflexões acerca do poético – ou de qualquer coisa que diga respeito à poesia. No entanto, não consigo parar de pensar em poesia e de como ela consegue fazer o meu dia valer a pena e a minha vida valer o esforço. São raros os casos em que os poetas não dão a mínima para o que fazem – nestes casos, eu diria, apenas encontramos aqueles que estão mais interessados em criar um frisson ou certa fama que lhes galgue uma pífia notoriedade, nada além do espetáculo e do espasmo após o gozo.
O meu caso com a palavra é mais duradouro do que imagino. Sempre penso que posso deixá-la para curtir a vida ou outras mulheres, mas – intimamente – tenho a certeza de que sou fiel à palavra como um cristão devoto ou como um revolucionário convicto de sua morte e de sua missão. Se eu parar para pensar um pouco a minha vida atual, olhar para mim mesmo em câmera lenta, fixar os olhos em mim, deixar-me à mercê do meu próprio juízo crítico, creio que verei um sujeito aficionado pelo que faz, às vezes obsessivo, por ora apaixonadamente louco ou decepcionado, sempre insistente e deveras envolvido como um cão leal a seu dono ou uma vadia ao seu ideal. É uma imagem estranha a minha, mas é a real, devo dizer.
Procuro formas a cada instante, forço-me a não retroceder um passo sequer, a não pensar de maneira retrógrada, a não sentir de maneira rasteira ou ligeira o evento intenso que me perpassa toda vez que eu me inscrevo, toda vez que eu me sujo, a cada vez que eu me desconheço. Aquilo que me inunda não pode ser detido por, absolutamente, ninguém e, muito menos, por mim. Deve agir como uma catástrofe, deve descer pelo desfiladeiro, deve levar o mito tardio, deve arrancar árvores como os furacões, ainda que seja leve como uma pluma. Porque aqui não há uma relação direta com o desejo de destruir ou de construir, mas de pertencer a um instante de violação. Assim que começo a escrever algo estranhável ou diferente, sempre tenho a ideia de que violei uma lei universal. As coisas não deveriam ser assim – mas poderia.
É então que meu estranho pensar se confunde e posso sentir ou sonhar ou supor que a máquina do mundo extraviou, os poetas conseguiram, atingi o meu intento: pude ser palavras por inteiro, pude me desvincular do mundo, tornei-me verbo e, ele, carne, fui batizado pelo instinto do poético – respiro, a longas distâncias, o cheiro animal do verbo, entro em animal-estar. Depois disso, nada mais faz sentido. Olhos para as coisas e todas elas tombam, se esfarelam como um objeto carbonizado à sensibilidade do toque. Como posso viver sem viver? Antes de isso atingir qualquer sinal de vida em mim, pressinto que ainda há esperança para empreender uma nova magia. Aos poucos, duvido de mim, sei dos meus limites e dos meus projéteis, carrego a eterna angústia dos fracassados e a ligeira convicção de vitória dos desiludidos, e me convenço de que há sempre um caminho para aquele que busca – e é um caminhante, para além do desespero e da exaltação plena.
Ainda que estiolado, me percebo abraçado com os poetas que se foram na lembrança de todos, me agarro àqueles que foram pouco lidos, afeiçoo-me aos que não foram compreendidos, os entendo e os alimento noite adentro, simpatizo com os que conseguiram sobreviver com um poema, tenciono viver com os que foram humilhados, sinto uma paixão extrema por todos aqueles que desistiram depois de deixarem uma cicatriz imensa dentro do meu peito; sei, todos eles vêm a mim e os recebo cheio de vida para amá-los, cada um foi poeta e escreveu até exaurirem as suas forças vitais em favor de suas obras e de seus propósitos inexplicáveis. Sim, nunca me esqueço daqueles versos de Shakespeare: “como compará-la a um dia de verão?” – a poesia mesma, a palavra mesma.

F.G.M., dia 02 de dezembro de 2014.
  

sábado, 15 de novembro de 2014

Manhã


 
Aí está:
Fiz algo que não me deixa dormir. Isto dói em mim. Há algo estranho na minha alma depois daquela dia... Por que fiz aquilo? Estou me sentindo um monstro, um monstro, um monstro! Disseram que era normal. Como poderei viver com essa lembrança?
Rilo
Dele, só nos sobrou esse bilhete. Foi encontrado morto na varanda da sua casa de praia. Estava de férias. Além de ser bem sucedido, ter tudo o que o dinheiro podia dar, era solteiro, curtia a vida, não dava “satisfação” a ninguém.
Ele me encontrou ontem à noite para me contar que estava feliz depois de ter tomado uma atitude que mudaria sua vida por completo.
- Sim, serei outro homem, rapaz. Depois dessa, eu juro pelos meus pés amarrados que não cometerei o mesmo erro duas vezes.
- Isso é sério?
- Claro! Estou feliz. Não é isso que importa às pessoas?
- Sim.
- Então! – depois de pronunciar essas palavras, foi-se. Realmente, estava diferente, não era ele, não, com certeza não o era. O seu semblante vigoroso de antes agora parecia mole e frouxo, como se tivesse acabado de doar sangue, algo assim.
Morto, morto, morto, agora é assim que está. Os peritos vieram ontem para isolar o local, checar e analisar os vestígios. E o que ele me guardou, qual foi o segredo que ele não ousou revelar para mim, o seu melhor amigo? Eu poderia evitar?
Um cara que brigou com a família por causa de uma mulher não poderia me surpreender assim... Será que fiz algo? E que importância eu tenho nisto? Não cabe a mim decidir o destino do homem. Eu sou mais um.
Torturava-o falar no passado. Uma vez mencionou o fato de ser ignorado por um conhecido, porque não era seu amigo como eu, e se mordeu de raiva ao lembrar.
- Odeio lembranças! Odeio lembranças! As mais cruéis, não as que tiram o sono, mas as que produzem os pesadelos, o desejo da morte, a fome pela ira e pela ambição...
- Entendo... Deixa isso pra lá. Vamos tomar uma, beber um pouco naquele bar da subida, ficará melhor lá, comigo, tem espetinhos, som e mulher.
- Vamos. – respondeu suspirando os demônios que circulavam nos seus pulmões.
Fomos para o bar e brigamos. Por quê? Ora, eu já sabia. Ele não podia beber, era fraco pra bebida e, depois de uns goles, me humilhou descaradamente. Diante dos outros, zombando de mim, falava os meus defeitos mais mesquinhos e pueris.
Ele expunha aos outros as suas próprias fraturas. Só por causa de uma noite.
- E o que você fez depois dessa noite? – questionou o policial.
- Estava derrotado e deixei ele lá. Meu amigo, meu melhor amigo...
- E o que tem a dizer sobre as suas roupas na casa dele no dia do crime?
- Eu o despi. – precisava dizer, uma hora ou outra, eles iriam descobrir.
- Naquela manhã aliviei sua alma.

F.G.M.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Trajetória do Frio Forte em mim



A primeira vez que me ocorreu publicar um livro foi no segundo semestre de 2011. Antes disso, tinha na cabeça a ideia de ser um poeta antissocial, no sentido mais restrito da palavra, tendendo para o lado mais engavetado da vida, coisas assim. Nesse ano, ainda estudante de Letras – sonhador como todo estudante de letras e, acima de tudo, leitor – me aventurei de cabeça abaixo na leitura de meio mundo de poetas. Era uma alegria encontrar um novo livro de poesia. Para mim, era como a descoberta de um mundo, único e (in)estável, no qual meu mundo desajeitado também poderia se encontrar ali de alguma forma. Lia em diversos lugares, como, uma vez, li Manuel Bandeira no ônibus da universidade, o conhecido circular, passando pela rotatória, o Sol incandescente, um leve sorriso no rosto e um verso de Cinza das horas.
Era como um vício, toda vez que comprava um livro de poemas, tentava lê-lo à luz dos dias e das coisas, em situações corriqueiras e desatenciosas. Assim, uma vez lendo em voz baixa, sussurrando versos de Cruz e Sousa, do lado da janela, dentro do ônibus que me levava para antiga casa, uma pessoa interrompeu meu murmúrio torto e me perguntou se gostava daquilo. Eu lhe disse que sim, que adorava aquela musicalidade irradiante de cores e sentidos, e o sujeito me falou que dava aulas de português, daí sua curiosidade, e depois satisfação, deixando-me ler as demais notas, fechando os olhos, satisfeito, do meu lado.
Foi interessante conhecer vários poetas aos poucos. Envolvi-me com suas histórias, peripécias, avanços, continuidades e descontinuidades. Quando penso que não os conhecia, hoje tenho até uma sensação estranha, porque me são tão companheiros e próximos, que tento me recordar do tempo em que não os conhecia. A face de poucos amigos de Maiakóvski, o rosto alentador de Walt Whitman e aqueles versos ferozes, oriundos do suor norteamericano e das águas do Mississipi. Além dos brasileiros, refugiei-me em milhares de poetas-irmãos do mundo. Coletâneas, antologias, romances, contos, filosofias e dramaturgias. Passei dois anos nessa onda, direto.
Li os grandes poemas, os pequenos e os mais letais. Uma vez cheguei até a esboçar sobre os tipos de poemas, sendo os que eu mais admirava eram os “vitais”. Cada poeta possuía o veneno necessário para agarrar-nos à sua teia inconfundível de palavras. Os contos me ajudaram deveras na visão de um mando mágico, estranho, impossível. Crime Castigo pode ser considerado o meu livro-sacrifício, pois ali estava eu abandonado próximo à capital, desesperando sonhando um futuro justo. Cada livro se acomodava nas estantes do espírito, e lia as pessoas como páginas dessas histórias escritas. Em silêncio, as questionava, e sempre me deparava com distante outro. Assim, antes de falar da minha primeira publicação, devo-me lembrar de algumas coisas.
Sempre achei que deveríamos ler muito antes de escrever qualquer coisa. Senti que esse era o meu grande desafio no início. A minha escrita de poemas remonta aos primeiros períodos da universidade. Era uma grande brincadeira escrever poemas para mim. Depois de uma atividade surreal de teoria da literatura, lemos diversos clássicos. Eu li Os Lusíadas e a Ilíada. Aqueles ritmos ficaram entrechocando em minha cabeça, a ponto de eu escrever os meus primeiros poemas longos sobre viagens com musas a restaurantes e shoppings.
Dessas brincadeiras, e de várias desilusões amorosas virtuais, compus um poema longo e narrativo, intitulado de Adamo. Foi uma das minhas primeiras empreitadas como poeta de fôlego e, logo depois, no investimento em um caderno do homem aranha com 400 páginas e lápis e borracha poéticos (assim os nomeei), não parei mais de buscar fazer poesia com tudo. Era até um divertimento, como todo bom brasileiro, gostava de zoar com muita coisa, sobretudo as sacralizadas em certa medida.
Nesse período meio incerto da minha vida, pela internet mesmo, encontrei um grande amigo que me acompanha até hoje. Naquele tempo, ele se tornara o meu guru e incentivador. Meados de 2008, 2009, eu não posso precisar muito o tempo, mas sonhávamos em fazer a nova literatura brasileira ao estilo das vanguardas, com manifestos, criação de grupo etc. Nesse período, não se viam tantas escritores ou novos escritores interessados em fazer isso. Rudinei Borges, em termos de conhecimento literário e cultural, estava vislumbrando novidades e eu, ainda estudante, almejava alcançar tais novidades também.
Eu ainda não me descobrira em versos, alentava-me copiar algum poeta às vezes e reproduzir alguns efeitos vazios. Eu e Rud. conversávamos sobre Literatura o quanto podíamos, sempre nos lembrando dos poetas e de seus feitos. Naquele tempo, éramos principiantes, experimentávamos as lonjuras e as diabruras dos poetas. Aos poucos, ele foi se encontrando e certo dia me enviara o seu original, que seria publicado em breve.
Mesmo criando “movimentos”, rabiscando estudos, não pude escrever nada genuinamente meu, estranho, diferente. Àquela altura, o Borges já tinha uma visão de si, e quando me enviou o Chão de terra batida, tive a mesma sensação que tenho quando leio um novo poeta. Fiquei deslumbrado e pensei comigo mesmo: é realmente de um poeta, nunca pensei que pudesse chegar a tanto. Lembrei-me das conversas e dos poemas enviados, e pude ver sua mudança ascendente ali, verso a verso.
O livro foi publicado em 2009 e, sem dúvida, foi um marco para nossa Literatura. Por motivos infinitos, ainda não tenho o livro físico, que ele me enviará em breve, mas, mesmo assim, pude conhecer aquele que se tornara um poeta pelo gênio do esforço, vivenciando cada imagem como João – no Apocalipse. Não acho a comparação tão exagerada, pelo menos, creio-a justa em seu sentido literal. Ele já conseguia respirar em verso, em Universo (im)próprio, e eu estava passando pelo seguinte desafio crucial: a busca de um estilo. Foi um dos mais difíceis momentos da minha escritura, que até então se resumiu a vários poemas menores, cópias, e desperdícios lexicais. Jamais poderia ter um livro naquele tempo. O Borges chegou a insistir naquele período, queria que publicássemos juntos, mas fui sincero comigo e fiz a escolha certa, quer dizer, esperei mais um pouco.
Certa vez, quis redescobrir o Brasil. Pensava que, como os modernistas, eu deveria patinar pela história do meu país verde-anil para escrever alguma literatura brasileira. Estudei até um pouco de História por causa disso e li diversos diários de viajantes do período das grandes navegações. Enfim, nada descobri. Na verdade, conheci muita coisa interessante e fantástica e algumas coisas que a História não conta. Fiquei um longo tempo sem escrever por causa disso, quase um ano, não sei. Foi um período difícil e, depois de passar minha graduação inteira sem computador em casa, em 2011 – quando entrei na pós-graduação, ao receber minha primeira bolsa, comprei o Cinzento, meu primeiro notebook.
Passei por uma revolução interna. Era um mundo novo, uma realidade 3G, uma força magnética e virtual atravessando os mares nunca de antes navegados. O arcaico Orkut era a rede social dominante e, certa noite, depois de eu escrever dois poemas, No Rabo de Cavalo da América e 3G (Ultima Geração), tenho a ideia de enviá-los para Afonso Romano. Já tinha escrito O Plano e o enviara para Rud., em sua página do Orkut, como scrap e, em um trecho do recado, eu dizia: “parece que encontrei meu estilo...”. Foi um período fantástico. O já conhecido e renomado poeta me condenou à poesia, e aquilo para mim foi um gigantesco SIM. Aos poucos, o meu primeiro livro tomava forma.
Meados de 2011, com muita novidade em mim, de muitos poemas nascidos desse furacão, selecionei vários e pensei em publicá-los definitivamente. Como eu tinha o blog 3g (Última Geração), lá eu podia publicar e divulgar os meus textos, pois era difícil convencer as revistas tradicionais e obsoletas a publicar qualquer novidade, criei meu espaço e produzi bastante para atender à “demanda” de visitantes. Isso era motivador. Falei com amigos próximos, escrevi cada vez mais poemas, fiz pastas, criei documentos de texto, comecei a me integrar com o teclado do Cinzento, estava crescendo. Éramos um só. Rudinei Borges estava animado com meus escritos e tudo acontecia.
Chegou o momento de procurar as editoras. Alguns silenciaram, outros remarcaram datas, inventaram histórias, até mesmo injetaram um tico de esperança em mim. Era difícil ter acesso a esses coliseus devastados. Até que uma editora aceitou o meu original ainda sem original, pois o meu passaporte para publicação era só o link do blog. Essa primeira editora, que me recuso a dizer seu nome, fez inúmeras sacanagens comigo, como: não colocar ISBN no meu livro nem fazer o Depósito Legal. A comunicação era péssima, foi uma frustração imensa. Suportei tudo isso sozinho e desolado. Passei quase meia década lendo Literatura e vivendo-a para depois sonhar com um livro e, após muita jornada de descobertas e autoconhecimento, compus meu Frio Forte para cair em trapaças inimagináveis. Aquelas coisas que acontecem com um pai: ter o filho morto, assassinado, drogado e estuprado; eram essas as sensações terríveis que eu sentia.
Nesse meio tempo, ia escrevendo novos poemas e os compilando. Já tinha outro livro, enquanto o meu primeiro, lançado em 2012, mal estava no catálogo do site da editora. Esperei silenciosamente o encerramento do contrato, fiz todos os procedimentos legais e finalmente estava livre para sair de lá. Essa tal editora, não sei se por incompetência ou má fé, ainda mantém o meu livro no seu catálogo sem a minha autorização. É incrível como um cidadão, que cumpre seus direitos, ainda consegue, depois de tudo, passar por essas coisas.
Foi então que encontrei Wilson Gorj e Tonho França para editarem e publicarem meu livro pela editora Penalux, novo e ambicioso projeto elaborado por ambos, com o objetivo de fazer despertar essa literatura que ronrona e que vive abafada pelo mercado sufocante de consumidores-zumbis-vampirescos. Publicar coisa nova, ou seja, fazer o novo acontecer, dar espaço a um novo período para a Literatura atual. Lá meu livro teve um trabalho atencioso, sério, e pude perceber o potencial da minha Literatura, sentindo que ela era capaz de ainda permanecer novidade, como pensava Ezra Pound, e merecer um lugar que de fato pudesse compensar todo o esforço empenhado pela carreira deste escrevinhador. Publiquei-o, digamos, em 2014. Assim, Frio Forte caminha com o tempo, e ainda precisa ser lido como essa perene novidade ainda permanente e espiralada, após tudo.

F.G.M., dia 21 de julho de 2014.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Novo A.



Sou eu; eu te falho. O tempo mudou desde ontem – pós-paz-e-amor.  “Olha paisagens rupestres, civis, nas ruelas dessa cidade suspensa sobre o canto dos pássaros e as estações do ano, concretas, nas declarações de amor, secretas, o infante mágico no banco de trás de um carro, e os pais no sonho de atravessar o quintal de casa depois de financiar uma nova obra, olhando as estrelas amarrado em locais, sítios, naves, rios vazios nesse chão que levam nossos ossos desencarnados sobre as espinhas dos peixes, nadando”, fantasmas fluentes.
Como se chamava? O Novo Adão. Era meu sonho. Abri os olhos, e vivi. Havia pouco tempo para qualquer revolução. Metropolis e a Nova Tóquio ressurgia diante de nós, prédio velozes, na paisagem, desaparecendo. Erámos inteligentes, mas fracos, fisicamente fracos – meramente humanos, confiávamos nas máquinas de guerra, poderosas armas nucleares que carregavam a ideologia do suicídio em massa; e não tivemos tempo de sequer armá-las. O extremo oriente não conseguiu construir um andróide como em Blade Runner. A força humana nunca foi explorada a tempo, senão pelos desenhos animados e por filmes de ficção científica. Na Segunda Grande Guerra, anjos andavam pelos campos derruídos, sulcavam vida dos corpos falidos e coagulados – em suas asas flamejantes; e, séculos depois, anunciando o fim do mundo a cada ano os deixados, durante o evento, nos abandonaram. O que pregávamos como força física se tornava, imediatamente, estético – era intelectualizado.
O mundo era só destroço cinza, concreto recobrindo os olhos, a paisagem, o céu. A cidade de Kaikó, uma vasta planície/devastada, recoberta por um manto verde e rasgado de flora, raízes se espalharam. Barro batido, a floresta se tornara a nossa civilização. Sobrevivemos para sermos explorados. Temos medo da morte a todo tempo como um doente terminal na maca. Sabíamos que morrer era inevitável, mas agora nós convivemos com isso em terror. Dizimaram a dengue, a AIDS, o câncer. O fim da cultura de massa, do frívolo, foi o único bem imediato que nos trouxe toda essa desgraça, o abandono ao mercado e à comercialização desenfreada dos bens humanos.
A arte sobreviveu – assim como emergiram da poeira os seus valores, que foram deixados/esquecidos na época da Grande Mídia, dos alienados, naquele mundo onde o preço nos esquartejava a alma em favor do pobre, do ínfimo, da fama. Poderíamos, desta vez, finalmente viver?  Viver é sonho, suponho – era o ditado corriqueiro em fins de tempos. Não vivíamos. Sonhávamos. Esquecemos. Ofertávamos ao mar oferendas quase todos os dias. O clima quente suspirava pelos nossos poros à noite o cansaço da luta e da escravidão reinstaurada. Meus antepassados foram assassinados no Grande Dia. Quando ele nos destruiu, um ser apenas, ficamos apavorados, palidamente apavorados os segundos restantes. Era desumano, não se podia pedir piedade ante sua face. Gritos, e silêncios caindo... Horror. Quando ele começou a reunir um grupo de pessoas (talvez) para reorganizar uma nova vida – nosso medo abrandou, era racional, existia nele, sem dúvida, alguma fraqueza iminente. Podíamos pensá-lo. E, constantemente, dizíamos aos nossos filhos:
 – Obedeça, menino. Terás o prazer de enforcá-lo.
A sua inesperada humanidade nos despertou a vingança e o poder de destruição humana. Foi em fins dos anos dois mil. A última copa da qual temos conhecimento foi o derradeiro evento, a nível mundial, a ser interrompido pela destruição dos países. Ainda esperamos pelo Apocalipse – esperançosos; quem nos domina, possui o poder inimaginável da natureza, inspira medo em nosso coração seu nome na lembrança. Pontes desabaram. Ferragens expostas, territórios sem língua, sem voz humana. Corpos conservados apodreceram, múmias, costumes nova iorquinos, corrupção brasileira, ídolos de carne e pedra enterrados em sua imortalidade, sob escombros, no mar. Nossa cidade era um complexo humano subdesenvolvido, uma cúpula, concreto armado nas ruas e nas casas – rodeando-nos em círculo, vivíamos acima da média das nações modernas. Tínhamos o desejo íntimo de voltar ao passado, “mas isso é ridículo, todos nós somos felizes”. 

F.G.M.

definição

ser poeta é minha maneira de inexistir sozinho. F.